Violas Tradicionais Portuguesas – uma síntese
Portugal conserva um património notável no domínio dos cordofones tradicionais.
As violas regionais portuguesas, herdeiras da antiga viola de mão renascentista, desenvolveram-se de forma diferenciada ao longo dos séculos, adaptando-se às práticas musicais locais, às afinações próprias e aos contextos sociais e festivos de cada região.
Abaixo desenvolvem-se, com algum detalhe, as principais tipologias.
1.- Viola Braguesa
Associada à região do Minho, particularmente à cidade de Braga, a viola braguesa é talvez a mais divulgada das violas tradicionais portuguesas.
Características construtivas
- Cinco ordens duplas (dez cordas metálicas).
- Caixa de ressonância relativamente pequena.
- Boca redonda simples ou ligeiramente ornamentada.
- Escala curta, favorecendo execução ágil.
Afinação
Existem várias afinações tradicionais, sendo comum a chamada “afinação à moda do Minho”, com intervalos que privilegiam acordes abertos e brilhantes.
Função musical
Era instrumento central no canto ao desafio, nas rusgas, nas romarias e nas festas populares. O seu timbre vivo adapta-se bem ao acompanhamento rítmico e harmónico de danças como o vira e o malhão. A prática mantém-se ativa em grupos folclóricos e em projetos de recriação histórica.
2.- Viola Amarantina
Originária de Amarante, a viola amarantina distingue-se imediatamente pelo aspeto decorativo.
Características construtivas
- Cinco ordens duplas (dez cordas).
- Boca em forma de dois corações ou lágrima estilizada, elemento simbólico associado à tradição local.
- Ornamentação cuidada no tampo harmónico.
Afinação e repertório
As afinações aproximam-se das da viola braguesa, mas variam conforme o executante. Tradicionalmente utilizada em bailes, cantares ao desafio e modas da região do Tâmega e Sousa.
Dimensão simbólica
O formato da boca associa-se frequentemente à tradição popular ligada a São Gonçalo de Amarante, reforçando a identidade regional do instrumento.
3.- Viola Toeira
Relacionada com a região da Beira Litoral, especialmente Coimbra.
Construção
- Cinco ordens de cordas metálicas.
- Caixa mais estreita e alongada.
- Sonoridade equilibrada entre brilho e doçura.
Contexto musical
Foi usada no acompanhamento de danças e cantares tradicionais da região centro. Não deve ser confundida com a guitarra de Coimbra associada ao fado académico; trata-se de um instrumento popular rural, anterior a essa tradição urbana.
4.- Viola Campaniça
Instrumento emblemático do Baixo Alentejo, particularmente nas zonas de Beja e Serpa.
Características
- Caixa de maiores dimensões.
- Cinco ordens duplas (podendo existir variantes de doze cordas).
- Escala mais longa.
- Timbre grave, profundo e encorpado.
Afinação
A chamada “afinação campaniça” privilegia intervalos que facilitam o acompanhamento modal típico do Alentejo.
Função cultural
Desempenhou papel relevante no acompanhamento do canto tradicional alentejano e de repertórios instrumentais próprios. Nas últimas décadas tem sido objeto de revitalização por músicos e associações culturais da região.
5.- Viola da Terra
Característica dos Açores, com forte presença em São Miguel e na Ilha Terceira.
Estrutura
- Pode apresentar doze ou quinze cordas.
- Boca frequentemente decorada com dois corações.
- Grande riqueza harmónica.
Uso musical
É instrumento central nas cantigas ao desafio açorianas, modas tradicionais e bailes. A variedade no número de cordas proporciona maior densidade sonora.
Vitalidade atual
A viola da terra mantém tradição viva, com ensino formal e produção artesanal ativa nos Açores.
6.- Viola Beiroa
Proveniente da Beira Interior, com destaque para a região de Castelo Branco.
Construção
- Cinco ordens duplas.
- Sonoridade mais suave e menos estridente.
- Dimensões intermédias entre a campaniça e a braguesa.
Repertório
Associada a danças e cantares tradicionais da Beira Interior, embora tenha conhecido declínio acentuado no século XX.
7.- Viola de Arame Madeirense
Tradicional da Madeira.
Características
- Cinco ordens de cordas metálicas (“arame”).
- Afinações próprias da tradição insular.
- Timbre brilhante e festivo.
Contexto
Acompanha bailinhos, modinhas e repertórios festivos madeirenses. Continua presente em grupos folclóricos e projetos de preservação cultural.
Considerações finais
As violas tradicionais portuguesas representam um notável exemplo de diversidade organológica dentro de um mesmo país.
Apesar de partilharem origem comum, cada região moldou o instrumento segundo as suas necessidades musicais e identidades culturais.
A revitalização contemporânea — através de festivais, oficinas de construção e ensino especializado — tem permitido resgatar técnicas antigas e estimular novas criações.
Referências bibliográficas
- CASTELO-BRANCO, Salwa El-Shawan (dir.). Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 2010.
- NERY, Rui Vieira; CASTRO, Paulo Ferreira de. História da Música. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991.
- VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim. Instrumentos Musicais Populares Portugueses. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1966.
- CARVALHO, José Alberto Sardinha. A Viola Campaniça do Alentejo. Serpa: Câmara Municipal de Serpa, 2001.
- RAPOSO, Eduardo. A Viola da Terra: História e Tradição Açoriana. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2005.

