Uma vindima em Pesqueira (Douro) – 1913

Uma vindima em Pesqueira

A vindima por esse país além é uma festa meia pagã sobretudo ao acabar.

Enquanto os homens e o mulherio andam na vindima ao sol enchendo os cestos com os cachos pesados da ferral e da uva branca, só de quando em quando, soa uma canção.

Aquilo, conforme a colheita, é um carreiro maior ou menor de vindimadores entre as cepas.

Em Rio Frio, o império do vinho, é uma legião. O tráfego é uma inferneira.

Nas propriedades mais pequenas ainda assim há movimento e vida porque não há mais alegre trabalho do que uma vindima como não há nenhum mais estranho do que uma pisa.

Os sistemas modernos roubaram-lhe o pitoresco, esse cunho báquico, essa nota extravagante que o primitivo trabalho tinha.

A pisa das uvas

Os homens arregaçados até às virilhas saltavam para o lagar; começavam o piso e à medida que o bago ia deitando o seu sumo, subindo, enchendo os lagares, os homens transformavam-se como por magia.

Era como um balancear de faunos numa epilepsia às vezes, outras, rítmico, compassado, metódico como de máquinas.

Saíam pintados de roxo, as pernas, os rostos suados e também lambuzados e assim iam para as refeições, tontos, naquela marcha num espaço curto.

Pisa na ucas na Pesqueira
Pisando as uvas

O fim da vindima

Depois, e quando a vindima acabava e a uva ia ferver começava então a festa, esse resto estranho, esse farrapo de paganismo em que havia saltos, cabriolas, vinho do ano anterior à festa.

[As rogas] andavam de porta em porta, atravessavam as vilas cantando, abençoando o fim do trabalho e o ganho, enaltecendo em rimas improvisadas a uva de que se ia gerar o bom vinho.

Foi uma festa assim que se fez nas propriedades da srª baronesa de Fragozela, em Pesqueira [Região Demarcada do Douro], depois da abundante vindima deste ano, havendo descantes e bailados diante do lindo solar, um dos mais característicos de Portugal.

Fachada principal da quinta da srª Baronesa de Fragozela em Pesqueira

 

Uma videira na propriedade da srª Baronesa de Fragozela, cujas uvas pesaram 25 quilogramas

 

Colhendo os cachos na propriedade de Fragozela

 

Os operários da vindima da quinta da srª Baronesa de Fragozela, organizando um cortejo para tornejarem a vila entoando os cânticos de despedida do S. Miguel das uvas.

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº403 – 1913 (texto editado e adaptado) | Imagem de destaque: “Condução das uvas para o lagar” (Clichés do sr. António dos Santos Fontes)