Vindimas: vindimar até ao lavar dos cestos!…

Vindimar até ao lavar dos cestos

Chegou o Setembro e com ele as primeiras águas de Outono. O ano agrícola propriamente dito chegou ao fim.

É tempo de vindimas e também de desfolhadas na região de Entre-o-Douro-e-Minho. Aqui o milho é de regadio e por esse motivo se realizam mais tarde em relação às terras em que a sua cultura é de sequeiro.

Vindimas: vindimar até ao lavar dos cestos!...

Alegram-se os caminhos das aldeias com a chieira dos carros de bois. Inundam-se os campos de gente que vai à vindima. Estalejam os últimos foguetes nas Feiras Novas, em Ponte de Lima.

O luar de Setembro reúne rapazes e raparigas nas eiras para desfolhar as maçarocas do milho do folhaço que a envolve. O milho-rei concede que se distribuam abraços, ocasião bem aproveitada pelos namorados.

Canta-se ao desafio e afinam-se as gargantas com uma bela malga de verdasco. Por vezes aparece um encamisado que, a coberto de uma manta que lhe esconde a verdadeira identidade, solta pilhérias que intrigam os presentes.

Terminadas as vindimas e transportadas as uvas para o lagar, é chegada a altura de as esmagar e prensar, que o tempo da pisa já lá vai. E, concluídas as colheitas, realizam-se as adiafas. Canta-se ao patrão que nos oferece suculento rancho bem ao gosto dos trabalhadores. O tocador puxa uns acordes na concertina e a mocidade dança o vira e a tirana, a chula e o malhão.

Vindimas: vindimar até ao lavar dos cestos!...

Festas e Romarias

Em Lamego ainda se festeja em honra de Nossa Senhora dos Remédios . Nas Feiras Novas o folguedo é até às tantas, com cantadores ao desafio e o vinho a jorrar nas malgas e a refrescar as gargantas. No segundo domingo de Setembro, os pescadores de Vila Praia de Âncora saem em procissão para honrar a Senhora da Bonança, e suplicar-lhe a construção do porto de pesca que os governantes não se cansam de lhes prometer.

Vindimas: vindimar até ao lavar dos cestos!...

Era ainda em Setembro que outrora os romanos homenageavam Júpiter no Capitólio e lhe imploravam um inverno pouco rigoroso e fértil, pois constitui a estação que representa a morte dos vegetais e da natureza, a fase que une a vida à morte num ciclo de perpétuo renascimento e cujo começo bem pode ser assinalado com o equinócio do Outono.

Depois das vindimas tempo não pára!

Em breve se celebrarão os rituais que se relacionam com o culto dos mortos e com o solstício do inverno, o cantar dos reis e o Entrudo e, por fim, a Páscoa e a serração da velha. Os lobos uivam nas serranias enquanto as bruxas se reúnem sob as velhas pontes ou saem aos caminhos para amedrontar os notívagos que passam.

Vindimas: vindimar até ao lavar dos cestos!...

Fotos do Rancho Folclórico Os Barqueiros do Douro – Mesão Frio  | Eram os barqueiros do rio Douro quem antigamente transportava por via fluvial o tão afamado vinho generoso do Douro, vulgo “Vinho do Porto“.

Mas, enquanto não chega o “pai velho“, é altura de abrir as covas nos pomares para plantar novas árvores e ceifar o arroz, estrumar as terras e semear o linho, o centeio e a cevada. É ainda tempo de aproveitar bem as festas e romarias que ainda decorrem no mês de Setembro. E convém lembrar, “até ao lavar dos cestos é vindima”!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História