As rogas no Alto Douro | Usos, costumes e tradições

As rogas no Alto Douro

Chegaram ontem as primeiras rogas.

A minha rua que nunca ri, ontem cantou, bailou e tocou. Das terras frias da Beira, onde o ar é fino e leiva arável, cristalina a água e o pão fácil, terras pobres onde a pobreza se veste de burel e linho à sua custa, terras onde o cristianismo não é uma palavra, porque não há ricos; dessas terras alegres desceram os ranchos a vindimar no Douro taciturno.

São os poetas a exalçar de fronte erguida o trabalho dos cavadores heróicos. Estes não cantam. Executaram a obra. Podaram e cavaram. Foram enfermeiros da vide atreita a males ruins. Comeram uma côdea. Viveram a crédito. Tremeram maleitas enquanto redraram.

Exaustos de sacrifício, estes braços afeitos ao trabalho rude não teriam agora forças delicadas para o trabalho doce de vindimar.

As rogas vinham da Beira

Por isso vieram da Beira as mulheres pequeninas, com o ar senhoril de quem deixou a agulha de cozer e a roca de fiar. Vieram os homens amenos, agarrada ainda aos pés areia leve e buliçosa de rega. Vieram cantar.

Gente sensível, ao descer os oiteiros túmidos de vinho, mordida do sol duriense, cujos raios são como moscardos, tornou-se dionisíaca.

O bombo, os ferros, a banza responderam ao evoé das vinhas. Seria loucura a canção rubra dos cachos exaltada pela música serrana, se o harmónio de falas mansas, no seu ramerrão, não lembrasse a caducidade das coisas.

Serranos! Homens de vinho pacífico, mulheres redolentes. Só vós sabeis que o nosso Douro bravo é belo.

Nós, todo o ano apreensivos em redor da cepa, não temos olhos senão para enxergar oídio e míldio, olhos alucinados de quem vê nos bens ao luar bens precários.

Olhos que pesam a posta de bacalhau do jornaleiro. Olhos de jornaleiro postos na mão calculada do viticultor. Olhos prosaicos. Vós, olhos poéticos, sois a alegria que visita a dor.

Serranos de vozes frescas, irmãs da água que espreita no linhar, cantai. Não me deixeis dormir. Me embriague o cheiro do mosto, impregnado de sons, sem me evocar os passos de paixão que o produziram.

Fonte: João de Araújo Correia, Três meses de Inferno (Régua, 1938) (texto editado e adaptado)