A nossa terra | Usos e costumes da Beira Baixa

Beira Baixa – Castelo Rodrigo

Estas interessantes fotografias [ver abaixo], que nos foram gentilmente enviadas pelo seu autor como espécimes curiosos dos costumes da Beira Baixa, colhidos em Castelo Rodrigo, respiram a quietude e a felicidade que eram tão características da terra portuguesa e que hoje não sabemos se ainda se encontram nalgum recanto do nosso país, tão agitado ele se tem tornado ao sopro das paixões que o vem varrendo de Norte a Sul.

A nossa terra, tão linda e tão fecunda, se fosse cultivada com diligência e com carinho, em vez de cinco milhões e meio de habitantes mal alimentados, passando mesmo fome uma grande parte, sustentaria á farta, inebriados das alegrias de viver, além desses, mais dois milhões.

Não é uma fantasia, como pode parecer. São cálculos certos, baseados sobre o que se dá noutros países onde a fertilidade do solo não é superior à do nosso e onde se sabe administrar em toda a extensão da palavra.

Há ainda cerca de 4 milhões de hectares do nosso território continental por valorizar.

O que não desse cereais e legumes dava excelentes florestas em que podia e devia consistir uma grande parte da nossa riqueza pública.

É triste que desde 1913 para cá as nossas necessidades de consumo tenham aumentado e seja justamente desde esse ano que tenha diminuído a nossa cultura do trigo.

Então ainda semeámos 280 hectares, números redondos. O ano passado os cálculos mais aproximados não elevam a sementeira a mais de 260 hectares! O mesmo sucedeu com a do milho, que tem diminuído.

A própria floresta, arrasada de ano para ano, não se tem reconstituído de maneira a compensar ao menos dois terços da área destroçada, quando, pelas crescentes exigências de combustível e de madeiras de construção, se devia semear o dobro do que o machado derribou.

Vindimando

Comparação entre antigas “províncias”

Há sem dúvida regiões, como o Minho, onde a propriedade não pode estar mais aproveitada, porque em cada quilómetro quadrado da sua superfície vivem 178 habitantes.

A Beira Alta, a seguir na densidade da população, conta 95 por quilómetro.

Mas a da Beira Baixa, que nos sugere estas reflexões, embora tenha o dobro da densidade do Alentejo, é menos de metade da que tem a Beira Alta.

É verdade que as duas primeiras têm causas naturais e económicas que mais as favorecem. Mas a Beira Baixa, Trás-os-Montes, Alentejo e Algarve, se pertencessem a um país em que as medidas de fomento fossem bem organizadas e não figurassem apenas no papel, atingiriam sem muito esforço mais 30 por cento da sua população atual.

Cultivemos, pois, a terra. Só podemos viver do que desentranharmos dela com o nosso amor e o nosso trabalho.

Não temos indústrias, nem nunca, por mais que se faça, poderemos ser um país industrial.

Somos e havemos de ser um país exclusivamente agrícola.

A guerra, com as tremendas privações por que nos fez passar, deu-nos sobre essa grande verdade a mais eloquente lição. Assim a saibamos aproveitar.

A. M. de F.

Arando a terra para a gradagem

 

Gradando o terreno para receber a semente de trigo
Meio de transporte habitual através de campos e pelos caminhos

Fonte “Ilustração Portuguesa”, nº668 – 9 de Dezembro de 1918 | Imagem: Semeando e cobrindo o trigo