Uma malha ou malhada em Vinhais, no ano de 1922

Em Vinhais

O título de «Nas eiras» era mais apropriado a este artigo; mas preferimos conservar-lhe o nome da formosa e laboriosíssima vila [pertencente ao Nordeste Transmontano], como homenagem a uma terra que serve de exemplo a muitas outras, porque tira da terra pão para o consumo próprio e ainda para vender aos que recorrem à sua abundancia.

Este ano, a cultura de cereais apresentou-se linda e na maior parte do país conservou-se sempre assim até que as espigas alouradas vergavam ao peso do grão e acabaram por cair sob a foice do ceifeiro.

Se a área cultivada fosse o triplo, pelo menos, e podia ser, se o desânimo não se apoderasse de uns, a ambição de outros e a negligência de muitos mais, o celeiro de Portugal já pesaria este ano consideravelmente na sua vida económica, tendo nós o nosso pão mais seguro e evitando uma boa parte da drenagem do nosso ouro.

É realmente doloroso, quando através do país viajamos em comboio ou automóvel, vermos os terrenos que marginam as estradas, estendendo-se muitas vezes a perder de vista, em parte cobertos de lindas searas, mas abandonados e incultos na sua maior extensão, podendo produzir muitos moios de cereal.

E cada ano, infelizmente, em vez de alargar, a área de cultura diminui.

São complexas as causas, por que cerca de dois terços do país estão por cultivar.

Meda antes da malha.

Muito se tem dito e escrito sobre elas e não poucas medidas se têm decretado para reduzi-los em favor da economia nacional, mas não se consegue vencer esta medonha apatia que nos avassala, nem intimidar os que teimosamente se negam a valorizar até o que lhes pertence.

Por isso temos por Vinhais e por outros muitos povos, que aproveitam o menor cantinho da terra que os cerca, uma verdadeira admiração e apontamo-los como modelos de trabalho e de previdência.

Vejam a lide nas eiras e a riqueza que nelas se amontoa, desentranhada do solo.

Preparando a eira.

O calor é terrível, os que trabalham na malha ou debulha destilam em suor, escorrendo-lhes as grossas bagas pela testa e colando-lhes a roupa ao corpo.

Mas ninguém afrouxa de atividade, ninguém suspende a faina senão para matar a sede que os requeima, pondo o regador ou a quarta à boca e bebendo de um trago a água, ou antes o vinho que contêm.

Não há tarefa mais violenta.

O braço do homem substituindo os pés do gado que, à força de girar na eira sobre as paveias do trigo espalhado, vai desfazendo as espigas e separando o grão, ou substituindo a máquina que numa hora debulha e limpa muitos sacos, enfardando ao mesmo tempo a palha, é realmente um trabalho extenuante.

Faz-se, porém, com entusiasmo, a rir e a cantar, porque à fadiga de hoje há-de suceder o bem-estar de amanhã; todo o esforço é bem empregado desde que ele garanta o pão para o ano inteiro, o que é atualmente a maior preocupação de todos nós e a causa da perigosa agitação em que vivemos nos últimos dias.

Há muitas localidades que têm trigo para o seu consumo; mas há muito maior número delas que o não têm, e outras há também que, apesar de haverem lavrado e semeado, não lograram obter o suficiente para sua alimentação, porque para algumas regiões o tempo não correu favorável e os fogos têm devorado grandes medas de trigo que já estavam nas eiras.

 

Para ler: As malhadas – atividades agrícolas em Trás-os-Montes

 

Este ano contam-se talvez mais desastres neste género do que nos anos anteriores. Raro é o dia em que os jornais não dão notícia de um incêndio em eiras e às vezes de mais no mesmo dia, causando prejuízos enormes.

Já era insuficientíssimo o trigo que produzíamos e, para cúmulo, o fogo ainda nos consome urna grande parte dele.

Seco como está tudo com estes calores, uma faúlha saída da chaminé de urna locomotiva, uma ponta de cigarro, que por descuido cai ainda acesa, um morrão ou um fósforo lançados propositadamente, por mãos criminosas, ateiam em poucos minutos uma chama devoradora.

Calcule-se a angústia, o desespero do pobre lavrador, depois de tanto trabalho, tantas inquietações, tantas despesas, ao ver reduzir-se a um montão de cinzas, os únicos recursos com que ele contava para sustentar a sua casa durante o ano!

Aspeto da malha (1)
Aspeto da malha (2)
Aspeto da malha (3)
Matando a sede ardente
Limpando o grão à pá

in “Ilustração Portuguesa”, nº861 – 1922 | (Clichés do distinto amador sr. Anselmo Dias, de Vinhais)

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