Trajes do Algarve – Trajo de mulher e de homem

Os trajes usados no Algarve no início do séc. XX

Se o trajo designa sempre a forma de sentir um povo, o povo algarvio que é alegre e falador, e além disso está habituado a uma luz lindíssima, devia escolher para seu uso tecidos de cores vivas e vibrantes que acompanhassem a Natureza no seu cantar perpétuo.

Mas não: os homens escolhem roupas escuras, denunciando evidentemente um sentimento de seriedade e de ponderação. As mulheres preferem também as vestes escuras e não de cores garridas como as do Norte.

Em todo o caso difere um pouco do homem; e nem admira, porque ela é, e há-de ser eternamente, amiga de luxo e das extravagantes modas.

Pode dizer-se que o trajo algarvio não tem carácter próprio.

Os trajes das mulheres algarvias

Começando pela cabeça que é, no dizer de Castilho, a admirável cidadela do nosso corpo, e a que domina tudo, vemos na mulher o chapéu de feltro e de aba direita, o que elas chamam vulgarmente chapéu fino. Quase sempre é adornado com uma pena de pavão. Isto define alguma coisa.

Será, talvez, uma exteriorização dum povo que tem a impressão nítida da luz e da paisagem rica de cor? Esse lindo adorno, que elas não põem em dia de labuta, é talvez a única coisa que lhes dá a ideia da paisagem algarvia e mostra também que a mulher do Sul tem a noção da policromia viril que existe na pena daquela ave.

O chapéu é colocado sobre um lenço que às vezes anda completamente solto. O lenço, ao domingo, é de seda. As raparigas preferem-no de cores claras. O lenço é dobrado em diagonal, caindo em ponta sobre as costas e com as outras duas pontas atadas sob o queixo e não voltadas para a nuca como as do Norte.

A mulher do Algarve dobra o lenço como a do Norte dobra o xale. No Algarve, o xale mais usado é duma só cor e com o feitio rectangular caindo atrás direito.

Xales e blusas

As mulheres duma certa idade usam o xale de merino; as raparigas usam-no de variadas cores, tal como os lenços. Escusado será lembrar que isto só sucede ao domingo. O xale cobre todo o tronco, deixando, no entanto, a descoberto a parte da frente do corpo do vestido, o papo da blusa, que é de talho simples e nunca decotado.

No trajo doméstico usam, em vez de blusa, uma bata de riscado, sempre larga à frente e pregueada atrás na cintura, de maneira que as costuras fiquem bem justas. A gola é alta e as mangas apertadas nos punhos e às vezes com canhões.

As saias…

A saia de cima é rodada, fazendo uma caudazinha atrás, que elas nunca levantam para se livrarem do pó nas ruas da povoação, contrariamente ao que sucede, quando se dirigem para as vilas ou cidades: pois levam-na enrolada, deixando ver só a saia de baixo, que é branca e rendada e com folhos engomados. Isto prova bem o à-vontade no campo e a cerimónia com que entram nos povoados.

Por baixo da saia há o saiote, que é geralmente encarnado e debruado de fito. Encostada ao saiote no lugar do quadril, onde a saia tem uma abertura, há uma algibeira completamente separada da saia e do saiote, presa à cintura com uns atilhos. Esta algibeira que tem o nome de patrona é decorada de trança, em que as cores primárias predominam.

A patrona serve para guardar chaves e dinheiro e, às vezes, o lenço, nas criaturas de idade. Nas raparigas o sítio característico do lenço não é na mão, pois na mão trazem elas as flores, à na cintura. O lenço é bordado a linha com frases amorosas em prosa ou em verso.

O calçado usado pelas mulheres

Para terminar esta breve descrição do vestuário da mulher da minha província, direi que ela anda sempre calçada. Usa sapato sem meia. O sapato é branco e de cabedal, como vem da curtidura. Têm ilhós e são atados por uma correia e outras vezes por atilho amarelo. Ao domingo usam sapato preto com meia feita de linha. Cumpre-me frisar que hoje já muitas usam bota assim como vestidos que a moda vai impondo.