A riqueza do passado no presente da Cultura Saloia

Cultura Saloia

“(…). Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. Se não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros, pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância. Se não o fizermos, daqui a duas gerações podemos ser um povo descaracterizado e profundamente pobre… (…)” (Jorge Dias)

Portal do Folclore Português

Permitam-me começar por saudar esta realização, neste território já pertença da Humanidade para abordar o tema da Cultura local, do Folclore e da renovação e reforço do papel dos ranchos etnográficos.

Cultura local, identidade local e memória coletiva constituem o campo folclórico onde interagem os ranchos.

Nada se pode ignorar na perspetiva de que Sintra está num contexto de turismo de elevadas expetativas e a paisagem, as tradições, a gastronomia e tudo o que compõe a imagem que o turista possui, arrastam consigo também implicações para estes especiais agentes e atores culturais, os ranchos etnográficos.

No fundo, estamos a falar de um importante ativo no quadro dos recursos turísticos de uma região.

Também há uma exigência maior dos visitantes, no sentido da compreensão dos lugares visitados e aqui entram os ranchos etnográficos.

Mundo rural em transformação

O processo de ludificação do rural (Baptista, 2004),observáveis na sequência das transformações ocorridas no mundo rural com o declínio da atividade agrícola, veio exigir que se atente à relevância propriamente cultural que vem sendo atribuída ao modo de vida rural, à ruralidade, para a construção de imagens territoriais atrativas.

Poder-se-á dizer que estamos perante uma cultura de paisagem global em redor da agricultura, uma agrocultura (Covas & Covas,2008) dos territórios primários e dos seus atributos mais essenciais, ou seja, uma turistificação do mundo rural, onde é necessário valorizar a identidade sem cair na moda identitária fundamentalista.

É  preciso salientar que os produtos com identidade –  pão saloio, o queijo saloio, o vinho de Bucelas ou Colares – são portadores de atributos fundamentais do território e geram identificação pois são uma imagem genuína desse território.

Não é atrevimento dizer-se que se pode ver ou ler um pedaço de História e cultura local através desses produtos. 

O caldo da cultura é fundamental para este território saloio, Sintra, porque o certifica culturalmente, porque incorporam elementos simbolicamente relevantes e contribuem para a afirmação exterior da região.

O papel dos ranchos

– E onde entram os ranchos?

Na identidade e na autenticidade dos lugares e culturas, no cumprimento dos paradigmas de reconstituição histórica.

O conceito de identidade constrói-se, segundo Duarte e Lima (2005) de quatro princípios básicos: distintividade, continuidade, autoestima e autoeficácia.

Com estes princípios, os ranchos carregam uma elevada carga histórica, sentem orgulho e vivem uma estreita ligação com a Terra. Esta ligação, pela ação dos ranchos, fortalece a coesão social a nível interno e a nível externo, pela noção de autenticidade, abre -se ao turismo.

Mas estejamos atentos que não existem identidades fixas, mas antes processos de identificação, processo móvel.

O património passou a ser uma garantia de autenticidade, embora como refere Urry (2002) o turista saiba e sinta alguma artificialidade, mas continua a procurar o autêntico.

Os ranchos emergem das comunidades em torno de gente conhecedora da história, da música, dos costumes e tradições e  com objetivos de perpetuação e recriação da identidade, neste caso Saloia.

Contudo,  é importante referir que também há espaço para associações que se organizam em torno da designação de ranchos folclóricos mas o que os une é o gosto pela execução musical, canto e dança, porque assim se cria um espaço local de convivialidade intergeracional,  que contraria o afastamento dos destinos laborais e estilos de vida e abre oportunidades de encontro da comunidade.

Portanto, os ranchos folclóricos etnográficos ou simplesmente ranchos folclóricos são instrumentos de animação social local. José Eduardo Janas (1990) refere o seu importante papel ao envolverem a comunidade como expressões ativas de reconstituição de coletividades, afirmações de existência, de recusa de morte social, ou seja, são geradores de vida social.

Estamos num campo de grande importância social.

Diálogo entre realidade

O diálogo entre estas realidades é fundamental para se estimular o interesse pelo saber fazer tradicional, contrariando a inautenticidade de outros.

Ambos são agentes e atores fundamentais no campo folclórico.

Continuando com o mesmo autor, cito “O trabalho etnográfico, para lá da investigação das formas sociais do passado, pode afirmar-se como um trabalho sobre a consciência coletiva do tempo, isto é, sobre o modo como as pessoas pensam o tempo.”

Talvez o trabalho dos grupos folclóricos e etnográficos tenha que se alargar. Não basta a representação no palco, é preciso complementar a informação, pois os comportamentos de hoje não são os comportamentos de ontem, onde o retratado era exatamente esse.

Há que enriquecer e é necessário encontrar as formas adequadas em cada rancho para que um bailarito saloio  tenha mais algo a ensinar do tempo rural, que já não existe – exposições, documentários,  brochuras.

E aqui todos os ranchos podem ser importantes para tornar e criar um produto apetecível cultural e turisticamente, o turismo interno  e externo contribui para que haja benefícios locais.

No fundo, este poderia ser uma verdadeira comemoração da localidade e reflexão sobre a identidade local.

Todos ficaríamos mais ricos. E neste contexto, o papel das autarquias e comissões de festas dariam aos ranchos um espaço de representação e de divulgação com retornos de capital, necessários para a continuidade do trabalho ou da sua existência.

Continuemos com os ranchos folclóricos etnográficos, a sua renovação e credibilização são matéria premente, como já falámos no workshop do dia 16 de novembro.

Participação das novas gerações

O apelo à participação de crianças e jovens-rapazes e raparigas-já é uma estratégia posta em prática por alguns ranchos, mas é fundamental aprofundá-la. Deste investimento depende a passagem do testemunho.

A investigação, o aperfeiçoamento da representação e domínio da história da comunidade, das suas particularidades intrínsecas, carece de registos, de documentos, de imagens comparativas, de verificação do que se fazia e se foi fazendo, o tempo rigoroso a que se refere o registo.

Este trabalho carece da intervenção de novas formas de trabalho e nesse campo, a juventude pode encontrar um importante desempenho. Está nas vossas mãos o registo do património imaterial desta região cultural, que também como já tenho vindo a referir, merece também um carimbo da UNESCO.

Os saloios de Lisboa, as  lavadeiras que enchiam a cidade são um património único a ser registado para  a posteridade. Chianca de Garcia quando retratou Lisboa foi buscar este património.

Mas antes, permitam-me, é preciso a elevação da qualidade da recolha e do respetivo registo e a sua comunicação.

A difusão dos valores culturais coleções e trajos, dos bailes e cantares dos ranchos é imprescindível que ocorra para fora das próprias fronteiras da comunidade para que o fator património se assuma, como algo de valor próprio e único dali.

A pedagogia da educação o é fundamental; o uso da história oral é valioso, por exemplo, na apresentação de uma representação, para se explicar o pormenor da roupa, do alamar no trajo de festa masculino ou da maneira de cruzar o lenço, no trajo da  na mulher de trabalho

O estudo, a formação de quem está no rancho é fundamental para que haja continuidade na vida folclórica etnográfica.