Costumes e tradições na época do Natal   

Usos, costumes e tradições do tempo de Natal!

«Noite tradicionalmente fria, árvores descarnadas erguendo os braços para o céu, campos desertos, caminhos sem viandantes, a véspera de Natal tem não sei quê de unção, de poesia, que a todos, cristãos e ateus, crentes e livres-pensadores, faz reunir, vindos das maiores distâncias, no aconchego e convívio santo da família.

E, o nosso, povo, mantenedor fiel de velhas e lindas tradições, para que não tenham frio mesmo os mais pobrezinhos, vai ainda hoje colocar no adro da igreja grandes troncos de árvores que, em honra do Menino, arderão e morrerão em vivo braseiro durante toda a noite e dia de Natal.»  (In “Etnografia da Beira” – Jaime Lopes Dias)

Autos, entremezes e vilancicos

Costumes e tradições na época do Natal   A origem dos autos de Natal perde-se no tempo e crê-se que as primeiras representações deste género teatral foram impulsionadas pela própria Igreja para melhor divulgar as suas doutrinas.

Em Portugal, o dramaturgo que maiores êxitos alcançou foi Gil Vicente, sendo ainda hoje as suas peças muito apreciadas e procuradas pelo público.

Muitos destes autos tem um carácter estritamente popular e por esse país fora ainda se representam anualmente.

Recorde-se, por exemplo, em terras de Viana o Auto de Floripes, felizmente já estudado por especialistas, e que constitui um verdadeiro atractivo turístico nesta quadra natalícia.

Infelizmente, os grupos de teatro amador espalhados, por esse país fora, não costumam aproveitar esta fonte de inesgotável riqueza etnográfica, para darem a conhecer a nossa juventude algumas das tradições mais genuínas do nosso povo.

Quanto aos entremezes, que eram curtas representações teatrais de espírito jocoso ou burlesco, são vulgarmente designadas por farsas, género que Gil Vicente igualmente cultivou no decurso da sua obra. Presentemente, os entremezes raramente os representam.

Finalmente, os vilancicos são madrigais que se cantavam nas igrejas por ocasião do Natal e dos Santos Populares, mas que hoje caíram totalmente no esquecimento e poucas são as localidades em que ainda se conservam.

Enfim, de um modo geral, procurando ser breve e sucinto, penso que sobre as tradições do Natal português muito mais haverá que dizer se bem que cairíamos no aprofundamento das questões levantadas o que só contribuiria para a saturação do leitor.

Os cortejos de Reis Magos

Costumes e tradições na época do Natal   Esta tradição dos cortejos dedicados ao tema bíblico da adoração dos Reis Magos tem vindo progressivamente a desaparecer, se bem que em Coimbra e na aldeia de Tentúgal ainda se conserve na plenitude da sua beleza etnográfica.

Assim, em Coimbra, desfilam bandas de música, acompanhadas de crianças de batina vermelha e cota de renda branca, transportando consigo turíbulos de incenso e oferendas para o Menino Jesus.

Seguem-se os homens que ostentam bandeiras engalanadas e archotes em ignição, como que a abrirem caminho aos Reis Magos, cujas roupagens sumptuosas e brilhantes denunciam a presença real.

Nesta conformidade percorrem as ruas da cidade até à Igreja de S. Bartolomeu, em cujo adro se representa um auto popular alusivo ao carácter festivo da própria comemoração. Por fim, procede-se ao leilão das oferendas, após o que o pároco dá o Menino a beijar.

Na pacata localidade de Tentúgal, o cortejo é precedido por numerosos gaiteiros e clarins que duma forma ruidosa e alegre se anunciam a aproximação do desfile.

Este é encabeçado por um arauto, logo seguido por uma estrela brilhante e majestosa alusiva àquela que guiou os Reis Magos até Belém. E um pouco mais atrás desfilam as três altezas reais com as respectivas oferendas de ouro, incenso e mirra, que se fazem acompanhar pelos seus pajens e pelo numeroso público presente.

Após percorrerem as ruas da povoação dirigem-se à aldeia de Ribeira de Frades, de onde regressam a Tentúgal para confraternizarem em simultâneo com o povo de ambas as localidades.

No fundo, trata-se de um cortejo de carácter religioso, mas nem por isso menos importante do ponto de vista etnográfico, que merece ser preservado e minuciosamente estudado.

O Presépio

Presépio - Tradições do tempo de NatalA origem dos presépios remonta a São Francisco de Assis, que teve a genial ideia de fazer reviver, através da arte popular [ver nota no final], as cenas bíblicas directamente relacionadas com o nascimento de Cristo.

Em si mesmos, os presépios constituem uma lição viva de fraternidade, amor e humildade,

Compõem o presépio, a Sagrada Família, os Reis Magos e a respectiva cascata com a manjedoura e os animais que aqueceram o Menino.

No entanto, o gosto popular acentuou este enternecedor quadro litúrgico com o acrescentamento de centenas de outras figuras da sua própria existência socioeconómica, como é o caso dos gaiteiros, moleiros, moinhos, açougueiros, pastores, ferreiros, sapateiros, sem esquecer naturalmente a tradicional cena da matança do porco.

Aliás, convêm lembrar que o nosso país é tradicionalmente ceramista, rico em valores artísticos, alguns deles florescendo em grupo, como são exemplo as escolas de Lisboa e de Mafra.

Com especial relevo para os discípulos de Machado de Castro. Na Estremadura as igrejas locais pugnavam pela realização de maravilhosos presépios e rivalizavam com os de Coimbra, Aveiro, Viseu e Lamego, igualmente notáveis pela majestosidade e profusão das suas figuras.

Armados nas igrejas, expostos admiração e culto dos povos, os presépios funcionam ainda hoje como principal atractivo religioso para a Missa do Galo.

Pena é que nas residências particulares se vá cedendo à importação profana das escandinavas árvores de Natal, que nada tem de católico nem de latino. O mesmo se verifica com essa figura pouco significativa que é O Pai Natal. Igualmente originário das regiões rígidas do Norte da Europa.

Nota da equipa: No século XIII, mais precisamente no ano de 1223, S. Francisco de Assis decidiu celebrar a missa da véspera de Natal com os cidadãos de Assis de forma diferente.

Assim, esta missa, em vez de ser celebrada no interior de uma igreja, foi celebrada numa gruta, que se situava na floresta de Greccio, localizada perto da cidade. S. Francisco transportou para essa gruta um boi e um burro reais e feno, para além disto também colocou na gruta as imagens do Menino Jesus, da Virgem Maria e de S. José.