«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Cantigas ao desafio

Cantigas ao desafio

As cantigas ao desafio eram vulgares em romarias, feiras, desfolhadas, serões, etc. Infelizmente, tudo tende a acabar.

Este punhado de quadras recolhidas e que se apresenta aos leitores, embora desconexas ( ou fora do contexto ), são suficientes para que todo aquele que nunca as ouviu, faça uma ideia do seu conteúdo.

Algumas mostram bem o ponto culminante da agressividade, atingindo, por vezes, a grosseria.

Desafio, desafio,
Desafio duma cancela;
A culpa tive-a eu
Desafiar essa cadela.

Embora o desafio começasse, espontaneamente, entre dois amigos, sem o objectivo de se ofenderem, geralmente acabava mal, ficando alguém de «nariz torcido»…

Cantigas ao desafio      

Agora para terminar,
Agora vos vou dizer,
Agarrai no rabo ao burro,
Ide-o levar a beber.

Algum tempo p’ra te ver,
abria sete janelas;
Agora p’ra não te ver,
Não abro nenhuma delas.

Agora pergunto eu
Já que vós não perguntais:
A minha saúde é boa,
Vós da vossa, como estais?

Algum tempo p’ra te ver,
Abria sete quintais;
Agora p’ra não te ver,
Fecho trinta ou ainda mais.

Agora respondo eu
À flor que aqui cantou;
Estava para me ir embora,
Mas agora já não vou.

A mulher para ser boa,
Tem que ter pernas de pau,
A barriga de manteiga,
As mamas de bacalhau.

Algum dia era eu
Em teu prato melhor sopa;
Agora sou um veneno
A ressalgar a tua boca.

A mulher para ser jeitosa,
Tem que ter a perna baixa,
A barriga redondinha,
Para levar com o pau na caixa.

Algum dia, meu amor
Meu regalo era ver-te;
Agora tanto me rende
Ganhar-te como perder-te.

A mulher, para ser mulher,
Deve ter oito amores;
Dois casados, dois solteiros,
Dois padres e dois doutores.

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

Imagem (alterada)