Roteiro de Encontro de Cantadores de Saias no Alentejo

 

A respeito das modas de Saias muito já foi dito e escrito, mas a verdade é que permanecem as dúvidas de sempre. De onde vieram? Como apareceram? E porquê este enraizamento tão grande e profundo no Alto Alentejo e regiões limítrofes?! Perguntas para as quais ainda não se encontraram respostas, dúvidas que permanecem no tempo e que suscitam em nós, estudiosos da matéria, uma imensa vontade em aprender mais e mais e ir em busca das respostas.

Não obstante algumas publicações sobre o tema ao longo dos anos, que em pouco ou nada diferem das anteriores, a verdade é que as modas de Saias, ao contrário do Cante, deixou de fazer parte do dia a dia das gentes do Alto Alentejo, deixou de ser espontânea, foi-se perdendo o hábito de cantar Saias em cada uma das comunidades, passando total e exclusivamente para os grupos folclóricos esta responsabilidade de não se perder tão forte tradição.

Ressalve-se, ainda assim, a espontaneidade com que as gentes de Campo Maior, principalmente, na altura das Festas do Povo o fazem. Este será, porventura, o local onde ainda nos dias de hoje se encontram cantadores de saias espontâneos, que as cantam, tocam e bailham até, de forma anónima, não organizada e fruto da vontade própria e imbuídos no espírito da Festa.

Há cerca de 15 anos, sensivelmente, numa discussão entre folcloristas do Alto Alentejo , abordava-se este problema de se ter perdido o hábito de cantar as Saias de forma natural , e dizia-se que mesmo nos grupos de folclore era difícil ter bons cantadores de Saias, e nalguns casos havia melodias que a rapaziada não queria bailhar por serem lentas. Tendo nós na região que inverter esta questão, desde então que fomos tomando medidas para devolver às modas de Saias a sua importância nesta nossa identidade que queremos salvaguardar.

Gradualmente  foram-se implementando alguns Encontros de Cantadores de Saias, e ainda hoje, de ano para ano, são cada vez mais os grupos do Alentejo que organizam Encontros de Cantadores de Saias, alguns deles com vasta assistência, o que prova que se voltou a despertar o interesse e se avivaram memórias e por essa via se têm recuperado algumas quadras e até melodias .

Entre nós, folcloristas da região, ganhou-se o gosto em cantar Saias sempre que nos encontramos, de forma espontânea, sob um qualquer pretexto bebemos um copinho de tinto e fatiamos um queijinho e elas (as Saias) aparecem. Fazemo-lo com naturalidade, num qualquer espaço que se proporcione e acolha tal manifestação, transmitindo aos outros que é possível continuar tão rica tradição para que os outros recuperem a mesma naturalidade e espontaneidade e o gosto de o fazer.

[themoneytizer id=”19156-19″]

 

Hoje, os Encontros de Cantadores de Saias estão implantados na região, alguns grupos organizam-nos de forma anual, outros bianualmente, mas o importante é que deixámos de estar na iminência de se perderem no tempo. Porém é preciso continuar a investigar, é preciso ir mais além, é preciso registar o que ainda não está registado e é por isso que, de quando em vez, nos juntamos na região, para aprofundar este e outros temas.

E sempre que nos juntamos é bom, e desta partilha e discussão colectiva do conhecimento surgem avanços importantes, como aconteceu o ano passado em Borba, onde nos juntámos para debater o tema e avançámos no estudo, e hoje é possível afirmarmos que a referência mais antiga à designação “Saias” é de 1894, e se encontra escrita num trabalho de um senhor da Casa Branca, concelho de Sousel, onde refere que a caminho de Portalegre com um amigo, cansados da viagem se sentaram numa pedra a descansar, e que um questiona o outro : “Porque não cantamos uma Saiada?”

Perante estes avanços, pequeninos, mas que não deixam de ser importantes, continuamos o nosso trabalho na divulgação, promoção e valorização deste património, certos de que vale a pena continuar, sendo hoje possível termos um Roteiro de Encontro de Cantadores de Saias por todo o Alto Alentejo e onde pretendemos para além de mostrar a diversidade e variedade de modas de Saias da região, passar uma mensagem cada vez mais pedagógica sobre o tema, que permita às gerações futuras manter a tradição,  munidos de mais conhecimento e com esta paixão em salvaguardar traços tão fortes desta identidade que nos caracteriza enquanto povo. Portanto, o melhor mesmo é vir a uma Saiada e deixamos o convite a todos para que apareçam num ou mais destes Encontros que vos proporcionamos.

Florêncio Cacête

[themoneytizer id=”19156-16″]