«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Saudade

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Saudade

«Quem canta, seu mal espanta», lá diz o rifão popular e muito bem.

As cantigas são saudades,
Quem canta, saudades tem;
Quem canta para esquecer
É certo que lembra alguém.

A saudade mata e, por isso, é sempre bom que a esqueçamos. Como diz Camilo: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade».

Como factor importante na vida dos povos, ela é objecto de desabafos, é qualquer coisa que põe todas as faculdades do homem em acção, predispondo-o para a poesia.

Aqui se vão mostrar quadras que são espelho, sobretudo, dos sentimentos de alguém pelo amor que se encontrava ausente.

Quadras de Saudade    

A água do nosso rio
Bate toda em cachão,
Assim batem as penas
Do meu triste coração.

Adeus chamam! Parto agora!
Vou punir os males meus
Ai! Adeus! Adeus para sempre
Filhos, pátria, esposa, adeus!

A carta que te mandei
Foi escrita à candeia;
Com suspiros vai fechada,
De saudades vai cheia.

Adeus estação de Caminha,
Cercadinha de olivais;
Adeus Rio de Janeiro,
Sepultura dos meus ais.

Adeus, ó Vila Real,
Esta te vou a dizer:
Não sei se lá terás fita,
Meu amor, p’ra me prender.

Adeus que me vou embora.
Desta terra para outra;
Os meus olhos deitam água
Para regar a tua roupa.                

Adeus, ó Vila Real,
Manda-me de lá dizer:
Tenho lá o meu amor,
Se o tornarei a ver.

Adeus terra da minha alma,
Por quem minha alma adora;
Por quem o meu coração
Sempre suspirou e chora.

Adeus, ó Vila Real,
O luxo é que te asseia,
Adeus, ó rua Direita,
onde o meu amor passeia. .

Adeus torre do relógio,
Adeus aldeia querida;
Já que lá tens meu amor,
Toma lá a minha vida

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

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