Descrição de trajos tradicionais do Alentejo (I)

 

Trajo característico

Os habitantes do Alentejo têm um trajo característico: além das célebres mantas alentejanas, tão antigas que já Gil Vicente fala delas, e que eles trazem, ora cobertos, ora traçadas ao ombro, o que lhes dá um aspecto pitoresco de cabreiros, usam jaqueta, cinta (na Beira Alta, faixa), não raro vermelha, a apertar-lhes as calças, e chapéu de pano, desabado, às vezes com uma fita de cor, e uma grande borla preta à esquerda, no bordo da aba. Como andam frequentemente a cavalo, a jaqueta facilita-lhes os movimentos, e a cinta ampara-lhes um pouco o tronco.

O cajado e a cachêra são bordões curiosos de que os Alentejanos se servem. O primeiro tem uma curva à maneira de báculo ou de lítuo romano, por meio da qual o cajado é enfiado no braço, e com ele se apanha a perna de uma rês que foge; tudo isto é o mais tosco possível. Os cajados vendiam-se na feira a 20 rs. cada um, em grandes molhadas. Numa feira de Badajoz vi objectos semelhantes, embora um pouco mais apurados; o uso é pois comum à Estremadura Espanhola e ao Alentejo. A cachêra, que na Beira Alta tem um nome característico que não posso indicar, é um pau também tosco com uma proeminência no fundo; serve para atirar aos bois e bater-lhes. Tanto o cajado como a cachêra são principalmente usados pelos pastores e pelos abegões. Os cavaleiros usam uns varapaus com uma correia, que se segura no braço.

 

Trajo dos homens no trabalho do campo

a) De Verão (ceifa ou aceifa, eiras ou debulha, esborralhar as vinhas, isto é cavar de novo para tirar as ervas): chapéu de pano (nunca se usa por aqui chapéu de palha), e um lenço ao bescoço por mando suor (por amor do suor), camisa e camisola de riscado (sem colete, nem vestia, nem cinta: quando voltam para casa, põem a vestia ao ombro, e a ferramenta em cima); ceroulas e calças, peúgos e sapatos grossos. A murça da camisola é às vezes bordada de cor (azul e vermelho); a camisola abre adiante e tem botões: outras vezes tem só botões na murça, atando-se com um nó nas pontas em baixo.

Na ceifa, canudos em três dedos e dedeira no dedo grandepolegar») e no índex – da mão esquerda. Na ceifa usam também uma alzubêra de veludo vermelho, às vezes muito ornada: trazem-na, atada à cinta com fitas, do avesso para não se desbotoar; anda nela o tabaco e os apetrechos de fumar (talisguinha de veludo com o fuzil, isca, pederneira; ou a fuzileira, que é um saquinho de couro com três divisões, para os três apetrechos). Quando se vão embora, metem também na algibeira as dedeiras e os canudos. Na hora da comida enfiam os canudos no bico das foices e atam as dedeiras ao cabo do mesmo instrumento (Vidigueira).

b) De Inverno (cavar, passar terra, isto é, cavar muito fundo para vinha, etc., podar, charruar, lavrar, atalhar, isto é, cortar as terras novamente, etc.): na cabeça, gorro (carapuça ou barrete saloio) sempre preto por fora e pinhão por dentro; samarro [com aldrabonas (de dragonas?)] sobre os ombros e abertos debaixo dos braços; fecha em cima com botões de couro, aberto na frente, cortado ao meio do abdómen com uma aba larga caída até à curvatura dos joelhos (casaca de abas largas!) por baixo, camisola, colete sob esta, camisa, calças de Saragoça forte, ceroulas e acefões encorreados em volta da lã, sapatos grossos ou botas, que podem ser caneleiras (até ao meio da perna) ou joelheiras (até ao joelho).

 

Trajo de mulher no trabalho de campo (Vidigueira)

Trajo de mulher no trabalho de campo na Vidigueira: dobra-se para diante a parte traseira da saia e para trás a dianteira, ficando atadas em volta das pernas com ourelos ou cordões de linha e presas com um alfinete, ao que chamam calças, fazendo isto para que as saias não se estraguem, andando de rojo. Usam sapatos grossos e chapéu de pano sobre o lenço de sarja atado atrás, na nuca: por causa da chuva e do sol. Também usam antiparra, que são polainas feitas de um chapéu velho, dividido ao meio, e atadas com um cordão.

Nos braços trazem mangueiras de riscado, que vão da articulação do antebraço até ao punho, onde apertam com marcas (botões de osso). Nos dedos trazem três canudos, no mínimo ou meiminho, no anular e no médio, e às vezes uma dedeira de couro no índex, a qual vem ligar-se com uma correia ao pulso. Só o pólex fica sem nada. Trazem também ao bescoço um lenço de malha, no Inverno (monda), caído nas costas, e xailes grandes, em bico, se chove. Usam uma saia de castorina (encarnada geralmente), à roda da cintura, caída como cauda, por causa das chuvas e do frio – na monda e na azeitona.

Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos | Imagem

 

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Penso que esta não é, com toda a certeza, a imagem que fazemos do Pastor Alentejano. No entanto, esta fotografia foi publicada na Ilustração Portugueza (Outubro de 1913), com a seguinte legenda: O Pastor Alentejano (Cliché do distinto fotografo amador sr. Francisco Bonache, da Golegã, e pertencente ao distinto professor e escritor sr. dr. Tomaz de Noronha)