Trajos do Alentejo – Evolução do trajo e do penteado

 

Evolução do trajo e do penteado (camponeses, lavradores e artífices e as suas famílias)

“Esboços do País, Caráter e Traje em Portugal e Espanha, realizados durante a Campanha e na Rota do Exército Britânico em 1808 e 1809” – J. Clark sculp.

Em remotos tempos, as mulheres usavam saias de catimbu, fazenda espessa de lã, geralmente em azul-escuro ou castanho, com barra amarela, cor-de-rosa ou encarnada. Estas saias tinham, de ordinário, três panos e eram demasiadamente compridas, passando mais tarde a usar-se poço abaixo do joelho. Por baixo da saia de catimbu, traziam uma de estamenha, tecido de lã e linho; mas esta, em vez de barra, terminava por uma orla formada a pontos de tranca de lã em espiral, distanciados de um centímetro pouco mais ou menos. Usavam ainda, sob a estamenha, saias de beata de seda, uma espécie de flanela de algodão felpuda.

As camisas eram sempre de linho, sendo frequente encontrarem-se algumas em que a parte correspondente ao tronco era de linho, e a inferior de estopa ou estopinha. Nas mangas, que quase todas tinham, e nos ombros eram bordadas com linha caseira, isto é, com fios de linha adrede preparados.

No peito, sobre a camisa, vestiam um colete de pano encarnado, enfeitado com fitas de cor diferente, e sobre este a roupinha, uma espécie de corpete muito justo e que, conforme se destinava ou não para dias festivos, era confeccionada em seda de várias cores, ou em pano azul de lã. As mangas desta interessante peça de vestuário eram também muito apertadas por meio de pregas longitudinais no braço e antebraço, notando-se apenas uma parte mais larga na região do cotovelo que deu a tais mangas a denominação de mangas de balão.

Sobre a roupinha usavam ainda a capa de bombonete, que era uma capa pequena de tule ou renda bordada a branco com que cobriam apenas os ombros e cujas pontas iam prender-se adiante, sobre o seio, com um alfinete ou uma fita de seda branca. Nos dias de maior solenidade, como casamentos, festa de S. Pedro, etc., as lavradoras vestiam saias de seda, chamadas saias de rua, que, com o desuso, têm sido transformadas, nestes últimos tempos, em lindíssimas colchas.

Com o decorrer dos tempos, as saias de catimbau cederam o lugar às de castorina fina; a roupinha apertada, a outra de mangas largas feitas dos mais variados tecidos, e a capa de bambonete a lindíssimos lenços de pescoço, em lã ou em seda, na maior parte das vezes bordados pelas portadoras.

As saias de castorina ainda hoje se usam, embora arrebicadas de pregas e plissados, e foram elas que, com os lenços do pescoço e a tradicional roupinha, constituíram, por largos anos, o trajo característico e interessantíssimo das donzelas nisenses.

Houve uma época em que o luxo e a ostentação se aferiam pelo número das saias usadas, sendo frequente aparecerem nos bailes raparigas cuja cintura tinha de suportar o peso de doze daquelas incómodas peças de vestuário! Era um martírio, principalmente de Verão! E, como se este peso não fosse bastante para cruciar as pobres moças, ainda o peito e o pescoço tinham de suportar a pressão de várias gargantilhas, cordões, grilhões, cadeias, etc., que algumas ostentavam, como ourivesarias ambulantes, vaidosamente. Servia-lhes de agasalho – e nem de outra forma saíam à rua – numa mantilha roxa, forrada de beata encarnada, na parte que colocavam sobre a cabeça. Mais tarde a mantilha roxa foi substituída por outra de pano preto, com que assistiam às cerimónias religiosas e ocultavam o rosto à indiscrição dos curiosos.

Hoje a mantilha apenas é usada por algumas viúvas mais aferradas à tradição e ainda assim só nos primeiros tempos de viuvez.

O que todas as nisenses ainda usam são os xailes de diferentes cores, desde o preto nas missas e enterros até aos mais garridos e finos de lã de seda, aparecendo mesmo caríssimos manteaux Manilla, importados do país vizinho.

Sugestão de leitura

Descrição de trajos tradicionais do Alentejo

 

O penteado também se modificou muito. As nossas patrícias de há mais de cinquenta anos usavam o cabelo apartado ao meio e atado atrás em forma de martelo, sendo a trança de 4 ou 5 pernas. Enfeitada com fitas de várias cores. Outras vezes, formavam duas pequenas tranças que iam dos temporais ao martelo, chamando-se este penteado cabelo de arrepio.

Há trinta anos predominava a Cristina ou poupa (como também lhe chamavam), que era formada pela trança enrolada em espiral no alto da cabeça. Colocavam com certo donaire um lenço de lã ou de seda sobre o penteado, de modo que, atado por um nó sobre o martelo, as pontas vinham cair graciosamente sobre a nuca.

Hoje, as saias de castorina vão rareando; as roupinhas foram substituídas por inestéticas blusas; o lenço do pescoço tende a desaparecer e o martelo só se vê em alguma velhota de outros tempos.

Os homens usavam as calças de alçapão, isto é um calção de Saragoça ou veludo, conforme os haveres, com duas aberturas dos lados, nos sítios onde hoje usamos os bolsos. Ao calção segura-se a polaina, da mesma fazenda, e sob ela os canudos, uma espécie de meia de linho ou estopa, mas sem pés. Não se lhes podia chamar ceroulas de nastro, porque já então usavam cuecas de linho, estopa ou estopinha. A camisa era também de linho caseiro, com bordados no peitilho e nas mangas, tendo estas ainda pregas corridas (talvez a origem do moderno plissado) nos ombros e nos punhos. Colarinhos altos, também bordados, e botões de ouro com corrente, semelhantes aos que usam hoje os lavradores do Ribatejo. Em volta do colarinho um lenço de seda. Sobre a camisa vestiam, nos dias festivos, um colete de seda ou veludo, de que se vêem ainda hoje com frequência, principalmente no Carnaval, lindíssimos modelos. Mas o mais interessante deste pitoresco conjunto era a célebre jaqueta de pífaro, em geral de Saragoça, sem gola ou com uma gola muito reduzida, como as das capas académicas, e com as bandas de baixo para cima, completamente reviradas e presas por botões forrados de tecido da jaqueta.

Nos casamentos de lavradores e festas de maior solenidade era de rigor a casaca e chapéu alto. Defendiam-se das inclemências do Inverno com capas rodadas de pano azul, uma espécie de capa à espanhola, com bandas de outro tecido. Os camponeses, em vez de capa, traziam, e ainda hoje usam, gabões de burel. Costumavam lançar, com o braço direito, a parte respectiva do gabão sobre o ombro esquerdo, resguardando assim o rosto das intempéries.

Durante muito tempo, lavradores e camponeses usaram chapéus de borla e alguns um gorro preto de lã, chamado carapuça.

Como os chamorros de D. João I, os Nisenses nunca tiveram, noutros tempos, cuidados de penteado. Já o mesmo hoje não pode afirmar-se, pois a todo o instante se nos deparam autênticos papos-secos.

Todas estas evoluções do trajo e do penteado dizem respeito apenas à parte da população constituída por camponeses, lavradores e artífices e as suas famílias; na outra, formada pelo elemento burocrático e pelos mais abastados proprietários, a moda tem ditado sempre as suas leis, que, como em toda a parte, são cumpridas a rigor e, às vezes, com exagero.

Estudo elaborado pelo professor primário José Francisco Figueiredo, Nisa

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos