A cor e os trajos quando chegava o Inverno

Os capotes de garnacho de burel, de Alhões, os «capotes à cavalaria», capotes alentejanos, as «capas de honras» de Miranda, com as «honras», o capuz e as «atletas» ou ombreiras, os gabões e gabinardos com mangas, da Serra da Gralheira, o varino da costa de Ovar, manga larga e capuz em bico, são resguardos corporais que o homem veste e com que se envolve.

Sempre de Norte a Sul, obsidiante, alastra a massa parda dos buréis em que a população friorenta se embuça, desde a capucha até às canhonhas, que lhe encobrem as canelas.

Chancas, tamancos, tamancas, tairocas, socas e socos são as formas mais ou menos primitivas do calçado de «sola de pau», desde a sola descoberta da chanca de Castro Laboreiro à soca transmontana e beiroa de pé fechado e taloeira alta, e à tairoca ou tairoga alentejana, fechada adiante e de entrada livre.

A palhoça, corça ou croça

Modelo especial de véstia de resguardo é a palhoça, caroça, coroça ou croça de junto inteiro por dentro e esfiado por fora em tiras finas, irmãs dos carricks franceses de romeiras sobrepostas, a que M. Breton atribuia imitação chinesa, como se não proviesse, à semelhança de tantas outras coisas, dos recursos locais aproveitados pela inventiva feliz do homem.

Os oficiais ingleses, afirma o mesmo M. Breton, quando em 1809-1810 serviram em Portugal, usavam as «croças» contra o frio e chuva (L’Espagne et le Portugal, Paris, 1815, pág. 36), que nelas resvala e escorre.

No Alentejo as samarras

As samarras ou pelicas, os pelicos, de pele de ovelha, cobrem os lavradores e pastores do Alentejo nos frios da charneca e do montado.

Com os safões completam a andaina de pele que, mais as sapatas grossas com polainas ou botifarras de alto cano, formam integral interdependência das necessidades do homem e dos recursos económicos do meio.

Os capotes com bioco

No Açores mantêm-se, como no Algarve, os capotes com bioco, modelos aperfeiçoados que derivarão talvez de um resguardo primitivo, a cobrir o corpo inteiro e pendente da cabeça nele também protegida, do qual na forma de mais rude aspecto e contextura, acaso a mais directa, derivarão também as capuchas.

Estas já de si se escalonaram aparentemente, desde as mais bárbaras de Castro Laboreiro, que parecem de cabedal até às mais apresentáveis da Beira. Por estas, através do antigo bioco do Sul, ligar-se-iam aos capote embiocado.

A roupa de cama

À roupa do corpo vem juntar-se a de cama.

Simples manta nos erradios pastores, que com ela fazem o ninho onde se acoitam, por barracas ou choças, cabanas de pedra ou grutas, e ao relento.

Coleção mais ou menos pitoresca de mantas de lã, de trapos, de algodão reforçado, de trabalho de agulha, ora lisas, ora listradas, ora tecidas com composição de desenhos tradicionais.

O aquecimento da casa

Com isto tudo e apesar de tudo, na lareira arde em altas labaredas a fogueira animadora; trabalha-se, fia-se, canta-se, reza-se, enquanto o lume quer imitar a psicologia da gente familiar que o rodeia e dele se serve.

Andam braseiras e escalfetas pela casa, a renovar na lareira as brasas adormentadas.

E nas noites intermináveis do Inverno, ao calor agradável do fogo, contam-se as histórias do passado, imbuídas de reminiscências dos Livros de Linhagens e dos cancioneiros de cavalaria, e as histórias de hoje repassadas de pessimismo que o lume quer desfazer em esperanças.

Luís Chaves

Trajando uma croça
No Alentejo – As samarras

Mulher de Castro [com trajo de Inverno]
Fonte: Revista “Ilustração” – nº140 – 15 de Outubro de 1931 (texto editado e adaptado)