Os ferreiros de Mourisca do Vouga | Profissões antigas

 

Aldeia acolhedora e mais tarde vila, Mourisca do Vouga sempre se caracterizou por ser  muito  populosa. Característica que contribuiu para o seu próprio desenvolvimento. Muitas pessoas oriundas da própria terra, outras que por razões diversas, deslocavam-se de terras distantes (Fornos de Algodres, Vale de Cambra, Figueira de Castelo Rodrigo, Cucujães), implementavam as suas pequenas indústrias tradicionais, nomeadamente o Tamanqueiro, Chapeleiro ou Alfaiate, iam ganhando o pão de cada dia e por cá ficavam.

Mas, como é do conhecimento das nossas gentes, a indústria que fez história foi a indústria dos ferreiros, que deu à Mourisca hábitos e costumes próprios.

Usos e costumes dos ferreiros

O dia para um ferreiro iniciava-se antes do sol nascer, às quatro e cinco da madrugada eram horas de se levantarem, dirigindo-se para os seus postos de trabalho, quase sempre com uma paragem obrigatória pela taberna do Zé do Mouco, aqueles que por lá faziam caminho, para beberem o mata bicho (copo pequeno de aguardente). Ao meio da manhã poderiam ou não comer uma “bucha”, ao meio dia, era hora de se pensar no almoço.

Às duas da tarde, voltava-se ao trabalho, ao meio da tarde tinha-se a merenda, o fim estava programado para as sete ou oito horas da noite, tudo dependia como tivesse corrido o dia, caso o trabalho destinado para esse dia estivesse atrasado, teriam que ficar mais algumas horas, pois trabalhavam por empreitada.

Os dias de trabalho eram de terça a sábado de manhã, já que a tarde estava destinada à entrega do material fabricado durante a semana e fazer contas com o patrão (poderiam existir forjas que não tivessem empregados). Segunda-feira, dia de proceder à preparação ou ao conserto da ferramenta. No que diz respeito à produção, existiam forjas onde poderiam trabalhar seis a sete homens que fabricavam setecentos a oitocentos por dia, entre cravos, taxas e pregos.

Os ferreiros tinham na sua posse grandes atributos como, por exemplo, o guardar segredo das conversas mais importantes entre estes, funcionava quase como uma praxe, nunca revelado por ferreiros nenhum, mesmo que entre eles pudesse existir alguma zanga. O dilema consistia em que: “segredos de forja nunca poderiam ser revelados”. Se algum ferreiro não cumprisse firmemente este dilema, nunca mais os seus colegas confiariam nele, tornava-se num ferreiro desonrado.

Tinham ainda os ferreiros como uso a realização de apostas, baseadas nas suas produções. Cada um apostava numa determinada quantidade que poderia fabricar numa semana, quem o conseguisse ganhava a aposta, o perdedor teria que se submeter ao pagamento da dívida.

O “até” consistia em que um determinado ferreiro fosse daquela forja ou doutra, pagava na altura em que quisessem comer o que era quase sempre feito na hora da merenda. Escolhido o manjar e dividido igualmente por todos os que aceitassem tomar parte no “até” depois de ajustado o tempo de espera, o pagador de agora ia receber depois a totalidade do pagamento vindo de certa maneira a ter comido de graça. O petisco do “até” era normalmente o pão trigo, figos, tiras de bacalhau cru e vinho.”

O estado de espírito brincalhão dos ferreiros não se ficava por aqui, havia ainda outra maneira de petiscarem. Era de extrema naturalidade que algumas pessoas deixassem andar à solta pelas ruas as galinhas e, muitas das vezes, coelhos que se libertavam das suas prisões. Caso algum destes animais fosse apanhado pelos ferreiros, o destino passava pela forja e seus donos nunca mais os viam, era um manjar garantido, nestas ocasiões a união faz a força, arranjando sempre maneira de ninguém lá poder ir ver.

Os novatos, como lhe chamavam, que ainda não tivessem um determinado tempo de trabalho na forja, e para poderem usufruir das regalias como os mais velhos, tinham que pagar a todos esses direito. É do conhecimento que esta obrigação passava pela compra da tradicional merenda (pão trigo, vinho, figos ou tiras de bacalhau cru). Os novatos ou aprendizes eram postos à prova pelos veteranos, caso o novato fosse esperto ou ensinado por outro e aparecia com as coisas de surpresa, era certo e sabido que só iria pagar uma vez, caso contrário se fosse mencionado o dia, o novato estaria tramado, um dos ferreiros faltava sempre, combinado entre eles, e era certo que o faltoso obrigasse o aprendiz a um novo pagamento devido à sua ausência.

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Esta tradição do pagamento também era usada quando um ferreiro mudasse de forja, conhecida como patente, muitos deles diziam “patenta”, se por acaso o ferreiro que tivesse mudado de forja teimasse em não pagar a referida patente, o mais certo era que um dia quando chegasse à forja para iniciar o trabalho, encontrasse o seu cepo pendurado numa trave do telhado, como modo de vingança. Este pequeno relato, que passamos a descrever, transmite a camaradagem bem evidenciada entre estes homens do ferro.

Quando se pendurava o cepo na trave do telhado, nunca ninguém via, nem ninguém fez aquilo, e quando tinha que ser feito, era sempre feito por mais do que um”.

É evidente que os ferreiros criaram uma imagem em seu torno que os caracterizaram até aos dias de hoje. Mas concluímos também que nem todos gostavam de trabalhar no ferro.

O ferro chegava a terras da Mourisca transportado em quantidades consideráveis pelos barcos que subiam o rio Vouga, com destino ao Marnel onde atracavam, e recordo um dos últimos barqueiros, que tinha por nome Agostinho Tróia.

Depois de 1915, o comboio do Vale do Vouga foi o meio de transporte mais utilizado, o ferro vinha em vergas compridas amarradas com arame, proveniente da Alemanha ou da Suécia. Isto porque, no que diz respeito à situação vivida no resto da Europa estamos em profundas mudanças, a partir de 1870, a indústria inicia uma nova fase de desenvolvimento, que os historiadores designam por segunda revolução industrial, com grande desenvolvimento nos sectores da siderurgia (metalurgia do ferro e do aço), e da indústria química, destacando a Alemanha como país Europeu pioneiro.

Fernando Jorge Gonçalves