Latoaria – Tanoaria – Tamancaria – Croças

 

Tudo aquilo que o Homem acrescenta à natureza é Cultura, ou seja, toda a obra do Homem é cultural, podendo-se mesmo dizer que onde existe a mão do Homem existe forçosamente cultura. Contudo, os homens não acrescentam coisas à Natureza da mesma maneira; cada grupo tem a sua forma peculiar de o fazer.” Continuar a ler

Latoaria

Em tempos idos, os recipientes, utilizados para uso doméstico, decorativo e mesmo para os trabalhos do campo, tinham como base materiais como a lata, a chapa, o estanho, o cobre, entre outros.

Os objectos, fundamentalmente receptáculos para líquidos, nasciam do labor de artistas que manuseavam e contorciam os materiais, transformando-os em peças com capacidade para suportar grandes quantidades, em peças mais delicadas que decoravam o lar, em utensílios de cozinha e outro uso doméstico e em aformoseadas candeias que iluminavam bucolicamente o ambiente familiar.

O que anteriormente era tido como utilitário, passa agora a um carácter quase puramente decorativo, afirmando-se como salvaguarda de actividades ancestrais.

Púcaros, canecos, cântaros, regadores – heranças e artefactos vivos, carregados de vivências e histórias, vivas.

Tanoaria

Arte e Utilidade – reunidas numa só palavra, Tanoaria.

País vinhateiro, Portugal tem como característico o processo da concepção do vinho. Passando por tarefas múltiplas, desde a colheita à vindima, a saga culmina no armazenamento que exige técnica e engenho, contribuindo para a reconhecida qualidade da famosa seiva.

O tanoeiro torna-se, assim, figura representativa de toda uma região que se alimenta, indiscutivelmente, da azáfama vinícola.

Cuidadosamente escolhida a madeira, de carvalho, ela é cortada, demolhada e trabalhada a jeito e a preceito com a forma desejada, as tábuas encurvadas, ou aduelas, formam o corpo, os aros de ferro são-lhe colocados, nascendo o receptáculo cilíndrico e bojudo, berço perfeito de uma criação perfeita – as pipas ou vasilhames semelhantes.

De diferentes tamanhos e portes, pipos, barris, pipas e tonéis, conservam de forma natural o vinho, mantendo as suas características inalteráveis, ou mesmo acentuando-as na sua mais completa perfeição, como o exemplo mais vivo do Vinho do Porto, cuidadosamente gerado na Região Demarcada do Douro.

Com carácter utilitário, as vasilhas adueladas assumem também uma função decorativa. Aliando a rusticidade e a arte de forma harmoniosa, elas surgem com as mais variadas adaptações, mantendo com sentido, a existência e persistência desta actividade.

Tamancaria

Os socos e os tamancos eram habitualmente usados como calçado, pelos mais desfavorecidos, ou por aqueles que trabalhavam directamente com a terra.

Com a base de madeira e o revestimento em pele, o pé delicado ou grosseiro acomodava-se e movia-se, ou com graça, ou com segurança e robustez. O sentido do desconforto aparece posteriormente com o surgir de mudanças estruturais e sócio-económicas. No caso feminino, mesmo as classes mais abastadas usavam a soquinha achinelada, bem configurada, conferindo delicadeza ao jeito de andar. E mesmo o traje domingueiro era acompanhado por aquelas tamanquinhas mais perfeitas e envernizadas.

A manufactura, inteiramente realizada pelo tamanqueiro, desde o corte da madeira até ao coser e pregar da pele, reflecte a mestria do artista, verdadeiramente devoto de uma arte com tradição. Apesar de poucos, os seus continuadores teimam em perpetuá-la. O trabalho agrícola ainda reclama o seu uso e a acessibilidade a lugares, outrora fechados e isolados, traz consigo o visitante e o turista que não prescindem de um exemplar, ou mesmo de uma miniatura dos objectos indicativos de um povo e dos seus costumes.

Sugestão de leitura

Aguadeiro e aguadeiras

 

Pintura em Cerâmica

De significado bastante abrangente, a cerâmica diz respeito ao fabrico de objectos, desde tijolos, telhas e outros objectos de barro cozido, bem como porcelanas, faianças e louça de grés. Mas num sentido mais restrito, aliamos a actividade à “arte de fazer vasos de barro”, passando também pela própria pintura, especialmente aquela respeitante à louça mais fina.

Surgem-nos então variadas peças, desde os ditos vasos, até pratos, travessas e outras figuras decorativas, de cariz tradicional, ou mesmo aliando o inovador e o criativo a esse tradicional.

A pintura dos artefactos é algo que se patenteia, muito especialmente na região do Douro, tratando-se na maioria dos casos de ilustrações alusivas aos costumes e actividades característicos. Faça-se especial destaque para as representações da lide da Vindima, em tonalidades azuladas, com pinceladas de traço simples e de expressão fiel de um povo simples.

Pode-se mesmo dizer que, reflexo do engenho pessoal e de uma marca colectiva, os trabalhos de criação cerâmica e a respectiva pintura, têm algum incremento e garantia de continuidade nas terras durienses e transmontanas, perspectivadas num futuro desenvolvimento turístico.

Croças

Croças, capas feitas de colmo ou junco, usadas por camponeses e pastores, para resguardo da chuva e do frio.

A parte nordeste do distrito de Vila Real assume uma tipicidade de clima bastante acentuada, as temperaturas atingem valores, ora muito altos, ora muito baixos. Diz a boca do povo – “três meses de Inferno, nove meses de Inverno”. Muito especialmente os meses de Inverno, exigem aos autóctones uma forte capacidade de resistência e adaptação ao meio.

Assim, é desse mesmo meio que retiram, de forma natural, o que a terra produz e transformam-no em vestuário. Estamos a falar do junco, planta espontânea que, uma vez apanhada, malhada, molhada e seca, entrelaçada e moldada à forma e tamanho desejado, faz nascer a capa típica do nordeste transmontano.

A croça assume-se como verdadeiro abrigo de quem tem de enfrentar as intempéries e o trabalho do dia a dia, de um povo corajoso, de uma terra rude e única.

O engenho de um povo é tão acentuado que adopta também as chamadas polainas, resguardo da perna e da parte superior do calçado, manufacturadas segundo o mesmo processo das croças.

Fonte do texto: Guia “Artes e Ofícios Tradicionais do distrito de Vila Real” – 1999 – NERVIR