A “Vaca de Fogo” e o Solstício de Verão

A Vaca de Fogo

A Vaca de Fogo constitui uma das mais ancestrais tradições populares da região de Entre-o-Douro-e-Minho. Esta festa está intimamente ligada aos cultos solares praticados nomeadamente por ocasião do solstício de verão.

Trata-se de uma manifestação de natureza pagã que, com o decorrer do tempo, foi sendo associada a festas da liturgia cristã tais como as que se realizam em honra de São Sebastião, vulgo sebásticas.

Em Cunha, no concelho de Braga, a Vaca de Fogo aparece associada à festa em honra de Nossa Senhora do Carmo que se realiza no segundo domingo de agosto.

Popularizada pelo grupo musical “Madredeus”, a tradição da Vaca de Fogo apresenta surpreendentes semelhanças com a corrida da “Vaca das Cordas” que se realiza em Ponte de Lima. Também as corridas à corda dos Açores e as largadas de toiros que se realizam num pouco por todo o país.

A Vaca de Fogo é uma espécie de corrida à volta da capela na qual, um rapaz transporta às suas costas uma armação pirotécnica em forma de vaca. Ao mesmo tempo, afugenta o rapazio à sua volta que se diverte enxotando o animal.

O dia mais longo do ano

Através do ritual do fogo, o homem celebra o renascimento da vida e do seu elemento purificador, precisamente quando ocorre o solstício de verão ou seja, o momento em que o sol atinge o seu ponto mais alto no Hemisfério Norte, constituindo o dia mais longo do ano.

Por seu turno, a vaca constitui um dos animais que se encontra simbolicamente associado aos ritos de fertilidade.

Com a conversão dos povos da Península Ibérica ao Cristianismo, estes ritos foram sendo incorporados nomeadamente nas festas são-joaninas – ou juninas – com as suas fogueiras, muito populares nomeadamente em Braga e no Porto.

Em Espanha, a tradição da Vaca de Fogo toma a designação de “Toro de Fuego”. Constitui um número imprescindível nas festas populares que se realizam na região de Valência.

Os ritos pagãos celebram a ação criadora dos deuses, encarando a vida e a morte num ciclo ininterrupto de perpétuo renascimento, inscrevendo o solstício apenas como um local de passagem através do qual e por meio da ação purificadora do fogo, a vida renasce – é a ressurreição pagã!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem de Hans Braxmeier

Vaca de Fogo – Festa de Nossa Senhora do Carmo (2013) – Cunha. Braga
Vídeo: Filipe Vilaça