Festas em honra de S. Sebastião – 20 de Janeiro  

 

Em diversas localidades do concelho de Boticas, celebra-se, no dia 20 de Janeiro de cada ano, uma festa em honra de S. Sebastião, venerado desde o século VII como santo protetor contra a peste.

Dadas as origens e particularidades destas festas, aqui deixamos as informações mais importantes:

 

Alturas do Barroso

Em Alturas do Barroso realiza-se anualmente, no dia 20 de Janeiro, a festa em honra de S. Sebastião. Reza a lenda que esta festa se começou a fazer por causa de uma peste que há muitos anos atrás matou muito gado. Prometeram então, os habitantes da aldeia, festejar anualmente o S. Sebastião, advogado contra a fome e a peste. Esta festa é organizada por mordomos (4 ou 5 vizinhos) num sistema de rotatividade pelas casas da aldeia.

Antigamente, era hábito darem pão e vinho para as pessoas comerem. Há cerca de duas décadas, começaram também a oferecer feijoada ao final da tarde e desde então para cá a sua dimensão e a sua fama tem vindo a crescer.

Antes da realização da festa, os mordomos andam pela aldeia a recolher a contribuição que cada uma das casas queira oferecer, desde o fumeiro à carne de porco (pé e peito) e dinheiro com o qual se compram vários alimentos como arroz, feijão, pão e vinho. Os preparativos para a festa começam uma semana antes. Preparam-se as loiças, o espaço, a lenha e a comida.

No dia 20, ainda de madrugada, na ampla sala do edifício da sede de Junta de Freguesia, numa lareira construída para o efeito, começa a confeccionar-se a refeição comunitária que consistirá em feijoada, arroz, pão e vinho. De manhã, por volta das 10h30, realiza-se uma missa em honra de S. Sebastião, no final da qual se faz uma procissão, com o andor de S. Sebastião a desfilar pelas principais ruas da aldeia até ao local da festa. Entoam-se cânticos e orações pedindo a protecção do Santo ou agradecendo pelas benesses concedidas.

Chegados ao local da festa, o padre procede à bênção da comida, em especial do pão que mais tarde vai ser distribuído pelos fiéis “… que depois o comem ou o dão aos animais para ficarem livres de doenças”. O andor com o Santo é colocado numa mesa à entrada da sala, onde, como patrono, preside à refeição. Depois inicia-se a refeição comunitária. À entrada da sala os mordomos pedem esmolas às pessoas que em fila aguardam a sua vez de entrar. Cada um que lá vai tem direito a um prato de feijoada, a pão e vinho. Também há broas a vender.

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Cerdedo

A festa em honra de S. Sebastião, a 20 de Janeiro, em Cerdedo, é muito antiga, como o certifica o Abade em 1758, e caracteriza-se pela sua dimensão intimista. Mantém as características genuínas de uma manifestação religiosa comunitária onde praticamente só os moradores da freguesia e alguns dos seus “filhos” emigrados que por essa altura vêm à terra venerar o Santo e cumprir com os seus votos, se juntam pelas oito da manhã na igreja em torno do pároco para celebrar a missa da festa. Após esta, parte em cortejo processional em direcção à casa do Juiz. Este, com o Santo no regaço, segue atrás da cruz, acompanhado por todos.

O pároco, uma vez chegado, benze e abençoa sucessivamente o pão, a carne e o vinho, delicadamente expostos em cestos e tabuleiros, sob a presença do Santo venerado. Cá fora, no logradouro da casa ou na eira, dispõe-se a mesa coberta com toalha branca e na cabeceira, numa outra mesa pequena, coloca-se o São Sebastião que vai presidir à refeição comunitária.

A mulher do mordomo aparece com tabuleiros de pão cortado em fatias, logo atrás surgem as vizinhas com travessas de carne de porco (peito) cortada em bocados. E, num movimento rápido e partilhado, um traz o vinho, outro os copos, outro os guardanapos de papel. Entretanto os devotos iniciam a refeição. Equipados com uma navalha ou uma faca pegam numa fatia de pão centeio, um pedaço de carne e vão degustando enquanto se trocam opiniões sobre o quotidiano da aldeia. Um ou outro vai entretanto pagar a esmola ao Santo que, alheio a tal burburinho, vela pelos seus devotos.

Animam-se os comensais e vai-se terminando a refeição com um pouco de aguardente ou vinho do Porto, mimos com que o mordomo não deixa de presentear os seus concidadãos e amigos. Ao lado de grandes cestos de carvalho é doado a cada romeiro um quarto de broa (cerca de um quilo) que, em casa, será partilhado por toda a família e até animais. O pão santo – a mezinha – ajudará a proteger todos aqueles que o comem.

É hora do Leilão e o Sr. Gomes, que ambiciona ter quem lhe suceda em tarefa tão nobre e também tão alegre, lá sobe as escadas até ao pátio para do alto “cantar” o lanço mais alto para um peito de porco, uma orelheira ou meia dúzia de chouriças. Faz isto há mais de vinte anos. As broas de centeio, enormes, são licitadas avidamente, com alegres escaramuças, pela cerca de meia centena de convivas e devotos, todos irmanados no continuar da tradição.

 

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Vila Grande (Dornelas)

Todos os anos, no dia 20 de Janeiro, realiza-se aquela que é umas das mais importantes festas de cariz comunitário: a Mezinha de S. Sebastião ou a Festa das Papas, como era inicialmente conhecida. As origens desta festa perdem-se nos tempos. Diz a memória popular que aquando das invasões francesas, o povo de Vila Grande avistou os soldados a passar numa estrada, a estrada velha, perto das aldeias do Couto de Dornelas e sabendo que por onde passavam, saqueavam tudo, imploraram a protecção divina.

Pegaram na imagem de S. Sebastião, saíram com ele à rua, levaram-no até à torre da igreja e prometeram ao Santo que todos os anos realizariam uma festa em sua honra se as tropas não descessem até às aldeias. Eis que o milagre se deu, as tropas seguiram e o povo, agradecido, cumpriu a promessa.

A organização desta festa, refeição comunitária, está a cargo dos mordomos, inicialmente os 9 maiores lavradores da aldeia de Vila Grande que eram tinham mais posses, num sistema de rotatividade entre eles. São os mordomos, com a ajuda de familiares e amigos, que arranjam e preparam a comida servida na refeição comunitária (pão, carne e arroz). Dada a dimensão desta festa, tudo tem que ser preparado com muita antecedência.

Por altura do Natal, andam pelas casas das aldeias da freguesia a recolher os cereais (centeio e milho) para fazer as broas. Em Janeiro, recolhem os restantes donativos: carne de porco (essencialmente peito e queixadas) e dinheiro para comprar o arroz. Além de procederem à recolha destes produtos, arranjam lenha para cozerem as broas e para cozerem os alimentos; e procedem à moagem dos cereais em dois moinhos locais.

A comida é confeccionada na “Casa do Santo”, construída para o efeito. Tem uma cozinha com uma lareira, um forno grande e uma sala para armazenar as broas. Durante cerca de cinco dias e cinco noites cozem as centenas de broas que vão ser distribuídas ou vendidas no decorrer da festa.

No dia 19 à meia-noite acendem o lume na lareira da “Casa do Santo”, à volta do qual dispõem mais de 20 potes de ferro com a carne partida aos bocados, a cozer. No dia 20, assim que toca o sino para a missa, colocam-se os potes com o arroz a cozer. Finda a missa, seguem em procissão com o Santo até à “Casa do Santo”, onde o padre procede à bênção do pão, da carne e do arroz. Pode então iniciar-se a distribuição da comida.

Na principal rua da aldeia, ao longo de centenas de metros, estão colocados os bancos de madeira, cobertos com alvas toalhas de linho – a mesa – onde será colocada a comida: broa e dois pratos de madeira, um com carne outro com arroz. Esta refeição é para todas as pessoas que a ela acorram. Pratos e talheres cada um leva os seus, assim como a bebida para acompanhar tão salutares alimentos.

Entretanto, o mordomo percorre a mesa dando o S. Sebastião a beijar e recolhendo as dádivas que cada romeiro queira oferecer ao Santo. Dizem que, por ser benzida, esta comida tem propriedades curativas; de tal forma que as broas podem-se guardar muito tempo que não criam bolor. Tais são os benefícios que lhe atribuídos, que muitos são os que levam pedaços, senão mesmo broas inteiras, para casa, para comer ou dar aos animais para que não padeçam de maleita nenhuma.

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Viveiro (S. Salvador de Viveiro)

A celebração ao S. Sebastião em Viveiro não tem uma data fixa pois a sua realização depende da disponibilidade do pároco. Esta festa conta com a presença das pessoas da aldeia a quem é distribuído pão e vinho.

É cada uma das casas da aldeia que, num sistema de rotatividade, anualmente organiza a compra e distribuição do pão e do vinho, ou seja, é o mordomo que compra o pão e o vinho com que enche o pipo da festa, um pipo que anda à roda pelos mordomos.

Nesse dia celebram uma missa e sermão em honra de S. Sebastião. Finda a Missa juntam-se no largo e procedem à distribuição do pão e do vinho entre os fiéis.

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São Sebastião – “Protector contra a peste” e “Padroeiro dos arcabuzeiros e dos soldados, dos entalhadores de pedra, dos mestres de tapeçaria, dos jardineiros e dos bombeiros”

Sobre S. Sebastião, pouco mais se sabe do que o seu suplício, quando o amarraram a um poste e crivado de flechas, cerca de 302-304, e do que o seu enterro nas catacumbas da Via Ápia.

Segundo a tradição e Jacques de Voragine, Sebastião nasceu em Narbona, França, foi criado em Milão e alistou-se no Exército imperial em 283, em Roma, dissimulando a sua fé cristã.

Diocleciano nomeou-o comandante da guarda pretoriana, posto de confiança que lhe permitiu reconfortar moralmente os seus irmãos condenados à morte.

Voragine encontra traços comoventes para descrever a cena onde os pais de Marcus e Marceliano, dois gémeos que iam ser decapitados, vão suplicar a Sebastião que os livre de tal sorte. Longe de ceder às lamentações, Sebastião exorta os gémeos à coragem, converte os pais, Tranquilino e Márcia, o carcereiro Nicostrato e a sua mulher Zoé, que cura da mudez, os irmãos, as mulheres e os filhos, num total de 68 pessoas.

O governador de Roma, Cromácio, gravemente ferido, aceita partir os seus ídolos para ser curado por Sebastião, depois converte-se com o seu filho Tibúrcio e 1040 escravos, que em seguida liberta. O proselitismo de Sebastião, soldado de Cristo, é contudo considerado pouco compatível com as suas funções militares de pretoriano. Os convertidos, de Tranquilino a Tibúrcio e Zoé, são chacinados numa nova vaga de perseguições e Sebastião convocado pelo imperador, que condena a sua traição. Sebastião justifica o seu jogo duplo dizendo que rezou a Deus pela salvação de Roma, mas Diocleciano ordena que o atem a uma árvore e que seja crivado de flechas, “como um ouriço com os seus picos”.

Irene, viúva de Castulus, outro mártir, vendo que Sebastião sobreviveu à provação, restabelece-o, dá-lhe abrigo e cuida dele. Tendo-se recomposto, Sebastião interpela o imperador Diocleciano, que manda espancá-lo até à morte e lançá-lo no grande esgoto de Roma, a Cloaca Máxima, onde Lucília o vai apanhar para o depositar dignamente junto das relíquias dos apóstolos.

S. Sebastião é o terceiro patrono de Roma, depois de Pedro e Paulo. Por motivos que se desconhecem, porque uma procissão em homenagem às relíquias do santo acabou com a epidemia de 680 em Roma ou porque as setas evocaram os estigmas deste castigo divino, Sebastião foi venerado a partir do século VII como protector contra a peste. Estas mesmas flechas entronizaram Sebastião, patrono dos arcabuzeiros e dos soldados, dos entalhadores de pedra, dos mestres de tapeçaria, dos jardineiros e dos bombeiros.

Imagem de São Sebastião