Traje Popular nos arredores de Braga na mudança do século

Aspectos do Traje Popular nos arredores de Braga na mudança do século (XIX-XX)

Trajar é um acto que reflecte a quase infindável trama de relações que o indivíduo e sociedade mutuamente estabelecem.

Deste acto seleccionamos apenas alguns aspectos sobre os quais, embora em jeito de «flash» teceremos algumas considerações.

Sobre motivações que levaram o homem da nudez ao trajar, muito se tem aventado. Já em 1930, Flugel, na obra The Psychology of Clothers, resumia as razões que os estudiosos deste assunto até aí apresentavam:

– A necessidade de proteger o corpo contra as agressões do exterior;

– A modéstia, ou pudor, marca do pecado original;

– A necessidade de adornar ou decorar o corpo, mostrando-o aos outros.

A maioria dos autores, como, de resto, ele próprio, entendiam que a principal finalidade do vestuário era a satisfação da necessidade de ornamentar o corpo que o usava.

Ao estudarem a sociedades «primitivas», os antropólogos puderam observar que, apesar da ausência de roupagens, os corpos ostentavam uma variedade enorme de sinais decorativos desde a pintura, tatuagens, escarificações ou objectos, com uma função social evidente e equiparável à do trajar nas nossas sociedades.

Comunicar com os outros, não só as opções e desejos individuais, mesmo os mais profundos e irracionais, mas também o papel que se desempenha na sociedade em que se vive.

Os trajes dizem-nos muito…

Como afirmou Umberto Eco glosando o ditado popular, «O hábito fala pelo monge».

Fala o indivíduo, da sociedade, dos valores culturais que a reagem, do tempo e do espaço.

Expressa simultaneamente um querer ser diferente através de marcas distintivas individuais e uma uniformização determinada pelas normas sociais que não perdoam a quem delas se desvia.

O traje é uma das manifestações materiais que melhor servirá o indicador a quem quiser distinguir o meio urbano e o meio rural. Com efeito, tanto o traje rural como o traje urbano possuem marcas próprias, reveladoras de diferentes formas de ver o mundo e estão subordinados a sistemas de valores hierarquizados de modo diverso.

E se eventualmente podemos observar que por razões várias, se criam no mundo rural mecanismos internos que favorecem a rápida adopção de padrões de vestuário de influência urbana, e em constante mutação, o mesmo não acontecia na época representativa nesta exposição.

A sociedade rural de então, mais fechada às influências urbanas, usava o mesmo vestuário que as gerações anteriores, sendo as alterações lentas, e incidindo mais no pormenor decorativo de gosto individual e nos materiais de confecção, do que propriamente no estilo formal, sendo este, ditado e sustentado pela rigidez de parâmetros rurais e costumeiros.

A necessidade de diferenciação no trajar

Citamos o sociólogo Henri Merendas: «cada um veste o mesmo tipo de roupa que todos os demais desde gerações atrás, mas cada roupa é diferente: as mulheres não poupam trabalho para acrescentar um bordado ou uma renda de maneira a diferenciar-se e poder ser mais bela».

Esta necessidade de diferenciação chegava mesmo ao extremo de utilizar como marca decorativa individual, o próprio nome. Os homens exibiam-no no peito da camisa de linho e as mulheres ostentavam as suas iniciais no avental ou nas costas do colete.

Porém, não é apenas uma diferenciação de cunho pessoalista que se manifesta no vestuário: há também um conjunto de características que evidenciam os papéis que os seus possuidores desempenhavam na sociedade rural, nomeadamente no tocante à posse de bens.

Havia diferenças no traje de um jornaleiro e no de um lavrador abastado; mais ligeiras no traje de trabalho, mais vincadas no traje que se levava às festas, distinguiam-se não só pelo quantitativo das peças arrecadadas nas «caixas de limpeza», mas também pela qualidade e consequente custo de materiais de confecção e adorno.

“O traje é como a pessoa…”

Como sabiamente afirmava a senhora «Felisbina», antiga costureira, «o traje é como a pessoa, a qualidade não é toda uma».

Ao nível da representação, na mente popular figurava que «luxar não era para os pobrinhos». Vestir bem, ricamente, era sinal de «teres» prestigiantes.

Efectivamente, chegaram até nós alguns trajes de cerimónia que revelam bem a capacidade económica daquelas para quem foram feitos.

O traje de cerimónia era concebido para ocasiões de grandes festividades familiares ou colectivas.

 

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