As tradições de Santa Luzia em Guimarães: as passarinhas e os sardões
A festa de Santa Luzia, celebrada a 13 de dezembro em Guimarães, é uma das mais singulares manifestações do património popular minhoto. Entre as tradições mais emblemáticas destacam-se as famosas passarinhas e os sardões, doces de massa açucarada que, ao longo dos séculos, adquiriram um forte simbolismo ligado ao namoro, à fertilidade e à vivência popular da romaria.
As passarinhas de Santa Luzia são pequenos bolos de açúcar moldados em forma de ave. Tradicionalmente, eram oferecidas pelos rapazes às raparigas como sinal de interesse amoroso ou de cortejo. A ave simboliza a delicadeza, a ternura e a liberdade dos sentimentos, sendo um dos ex-líbris da feira de Santa Luzia. Ainda hoje, durante a festividade, é comum encontrar bancas repletas destas figuras coloridas, que continuam a despertar a curiosidade de visitantes e a preservar a memória de antigos rituais de namoro.
Por sua vez, os sardões apresentam uma forma fálica bastante explícita, constituindo um dos aspetos mais peculiares e irreverentes da festa. Também confecionados em açúcar, eram tradicionalmente oferecidos pelas raparigas aos rapazes, numa espécie de resposta às passarinhas. Este costume está associado a antigos rituais de fertilidade e à celebração da sexualidade de forma popular e bem-humorada. Apesar do seu caráter ousado, os sardões são encarados como uma expressão cultural enraizada na tradição local e fazem parte integrante da identidade da romaria.
A troca de passarinhas e sardões representa, assim, um interessante diálogo simbólico entre o masculino e o feminino, refletindo costumes ancestrais ligados ao namoro, ao casamento e à fertilidade. Estas tradições sobreviveram ao passar do tempo e continuam a marcar a celebração de Santa Luzia em Guimarães, atraindo milhares de visitantes que procuram conhecer uma das manifestações mais genuínas e originais da cultura popular portuguesa.
Hoje, mais do que simples doces, as passarinhas e os sardões constituem símbolos identitários de Guimarães, testemunhando a riqueza do património imaterial da região e a capacidade das comunidades locais de preservar costumes que unem história, religiosidade e tradição popular.
Em Vila Real, também no dia de Santa Luzia, há a tradição de as raparigas e mulheres oferecerem o “pito” aos rapazes/homens. Em fevereiro, no dia de São Brás, receberão, em troca, a “gancha“.
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