Varina – a mulher trabalhadora de Lisboa

Varina

Lisboa conhece-a e ama-a porque ela é trabalhadora e a acorda com os bons dias dos seus cantados pregões.

Começa de pequenina na faina e para ela o trabalho não é um fardo. Fá-lo alegremente correndo as ruas.

Algumas tamaninas lá vão nos ranchos ao romper das manhãs, chova ou faça sol, a aprenderem o negócio, a afazerem-se à lida.

Com o alguidarinho vidrado à cabeça, apregoam os tremoços.

É por isso que quase todas principiam, às vezes, como os varinitos dos jornais, aos sete anos.

A sua vida daí para o futuro será sempre de trabalho, que elas fazem num instinto, por uma lei ancestral que parece vir no seu sangue desde o fundo dos séculos a impeli-las.

Não há rua que não tenham atravessado vendendo o peixe, a fruta, os alhos, a hortaliça, garganteando o pregão, com os chapelinhos redondos sobre os quais pousa a sogra, na qual assenta todo o carrego.

Chegam a ser pesos enormes os que transportam, que as ajoujam, ou as grandes gigas onde as pescadas jazem, as canastras das sardinhas prateadas, ou cheias de frutas de todas as estações, as peras, as maçãs, os figos lampos, que elas vendem todos os dias, de manhã à tarde, algumas ainda pela noite adiante, com as suas cestas de marmelos assados no forno.

Não faz mossa o trabalho a essas mulheres, cuja única ambição consiste em enrolarem nos pescoços os grandes cordões d’oiro ganhos com o seu suor, pendurarem nas orelhas as grandes arrecadas e dançarem duas ou três vezes por ano nas suas romarias queridas: a Atalaia, o Senhor da Serra.

Fora disso, a varina moureja.

A varina também carrega areia, tijolos e carvão nos cais de Lisboa

Quando não há peixe, quando falha a fruta, ela não hesita: vai carregar a areia, os tijolos, o carvão nos cais.

Carreirinhos de mulheres de todas as idades, as velhinhas e as crianças, avós e mães, sobre as pranchas flexíveis das fragatas para a ferra, se estabelecem com todo o tempo e ou queimadas pelo sol ou alagadas pela chuva, continuam o seu fadário, até que à noite recolhem a comer o seu pão rude e honestamente ganho.

O casamento para elas não é uma exploração da fêmea; é uma associação.

Enquanto o marido vende os jornais ou rema nos catraios, dirige as fragatas ou faz o seu negócio, a mulher, independente, não carecendo do braço dele, governa a sua vida sem um desfalecimento, sem uma queixa, sem um abalo.

Manhã fora, giga vazia, as roupinhas lavadas, o seu cordão ao pescoço, descalça pé e perna, as saias emolhadas, ela passa direita com a consciência dos fortes, a ensaiar os seus pregões, embora não leve ainda que vender.

Atrás, as pequeninas aprendem a ganhar o pão.

Ainda não têm dentes e já estão destinadas àquilo e tem-se a impressão de que o seu primeiro balbucio é um vago pregão.

Varina vem de ovarina!

Nos seus bairros porque as ovarinas juntam-se, ainda num ancestral instinto em arruados, à maneira de colónias – às tardes de domingo, depois da venda feita, elas estão sentadas às portas remendando a roupa, cosendo, atentas e num habito, para não perderem nada, aqui e ali, de porta em porta, há a giga que pode tentar os que passam e o alguidar dos tremoços, a caixa com as pevides, enfim, coisas que se vendem ali sem trabalho.

A sua economia iguala ao seu asseio, porque aquelas peixeiras, as vendedeiras de fruta, as mulheres de todos os trabalhos, jamais deixam de sair de casa com o seu trajo limpo.

Quando a morte passa no bairro, a colónia vai em bando atrás do morto.

Vê-se então passar nas ruas de Lisboa uma turba de mulheres, algumas lindas, homens e crianças vestidos de preto, que seguem um caixão, e em todas as famílias há a rapariga que leva o ramo oferecido numa última homenagem ao patrício.

Nenhuma raça mais desassombrada, mais audaz e mais trabalhadora há no país; nenhuma classe de mulheres se devota tanto ao trabalho como aquela e algumas, muitas mesmo, impressionam, com tais belezas, andarem naquele lidar.

Têm um ar elegante, o seio bem formado, lembram por vezes estátuas quando, de braços no ar, erguem a canastra, olhando para os andares, e quando se vê passar as que são assim esculturais e belas, pensa-se que andam pagando algum pecado feito por uma das suas formosas avós, que fosse condenada a ter uma descendência de belezas – rudemente destinadas a andarem ajoujadas debaixo da giga, correndo as cidades, cantando pregões.

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº339, 19 de Agosto de 1912 (texto editado e adaptado)