Trajos de Entre Douro e Minho | Trajos tradicionais

Trajos de Entre Douro e Minho | Trajos tradicionais

Trajo da semana

O trajo da semana é pobríssimo, principalmente o das pessoas de idade mais avançada, e compõe-se do que passo a dizer:

– saia de serguilha tecida de lã, avental igual, colete (espartilho) redondo com quatro espigões, de cana à frente, com uma cinta de veludo guarnecida com lãs de várias cores e algumas lantejoulas;

– camisa de linho e um saiote branco com barro de chita, aparecendo por espaços remendos de diferentes cores;

lenço de chita ordinária ao pescoço e idêntico na cabeça;

– pequenas argolas e um fio de contas;

– andam descalças ou calçam uns socos (tamancos) muito usados.

Quando saem para a rega (para regar o milho) ou outro trabalho, usam o mesmo fato, apenas arregaçam as saias por causa da humidade, o que elas chamam ensacar. Na ceifa do centeio ou milho usam um chapéu de palha atado com as pontas do lenço que trazem na cabeça.

Trajo para a igreja

Para a igreja, principalmente em dias solenes, o trajo mudo:

– calçam chinelas pretas com um laço na parte superior e as mais das vezes são cheias de ramalhetes de algodão de várias cores;

– meias de cor, geralmente tecidas por elas;

– vestem quatro, cinco, e quantas vezes seis saias brancas de linho com folhos de morim, com um pequeno bico de croché;

– por cima destas um saiote de pano vermelho com duas barras estreitas de veludo preto, e por cima de tanta saia e saiote vestem a saia de beata preta, também com barras de veludo, avental do mesmo tecido com um folho de setim, chambre de cor com guarnições garridas e lacinhos na frente;

– três, quatro, cinco e mais fios de contas, grilhões em enormes medalhas de ouro, onde colocam os retratos dos seus tones (namorados).

– Das orelhas pende um ou dois pares de argolas grandes.

O penteado é com uma poupinha à frente, muito brilhante devido à banha de porco que elas usam, caindo sobre a testa caracóis ou cachos, que elas fazem com o auxílio de um rabo de garfo; lenço na cabeça completamente variado nas suas cores e cheio de enfeites.

Trajo de feira

O trajo da feira compõe-se do mesmo calçado, saia de anil com silvas de lã de diversas cores, avental do mesmo gosto, algibeira ao lado direito, bordada de missanga e lãs, com o nome de pessoa, onde se vê um lenço branco, marcado com algodão vermelho, tendo nos quatro cantos dizeres engraçados e curiosos;

ao meio do lenço sobressaem certos enfeites, que em geral são: um coração, um amor, um cravo, etc.;

colete vermelho guarnecido de sotage e missanga;

uma camisa alvíssima de linho com punhos ramalhados de vermelho ou azul;

um lenço franqueiro na cabeça;

muito ouro.

A propósito de ouro costumam dizer: «Para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes.»

Na mão esquerda usam muitos anéis de prata, naturalmente para indicarem o seu estado de solteiras.

Trajo para ocasião de luto ou dó

Quando é ocasião de luto ou dó vestem-se de preto, cobrem as argolas com pano da mesma cor e deitam uma saia pela cabeça.

Se os maridos se ausentarem por muito tempo, para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, também usam o mesmo vestuário triste.

Trajos de homem

Os homens, no seu trajo mais simples, usam nos dois dias de trabalho calças de linho, não trazem casaco, ou, se trazem, é esfarrapado, servindo o próprio forro remendado; na cabeça põem uma carapuça ou chapéu esfuracado.

Para a feira levam calças brancas, se é no Verão, e no Inverno outras quaisquer;

faixa azul ou vermelha em volta da cinta, colete de pele de coelho ou lebre;

corrente de prata com peças antigas, anéis e os retratos das tónias;

casaco preto, chapéu castanho;

sapatos de couro branco com a biqueira voltada para cima, ou então tamancos de couro preto com biqueiras amarelas.

Extractos de um estudo feito por Júlio Pereira Pinto Júnior, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de 02.03.1917.

Lavradeira dos arredores de Viana do Castelo

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem: “Ilustração Portugueza” – nº216, 11 de Abril de 1910.