Colóquio “Curvas, Espartilhos e Roupas de Baixo”

Integrado nas comemorações dos 730 anos de existência, a Universidade de Coimbra, através da Faculdade de Letras – Centro de História da Sociedade e da Cultura, promove, nos dias 4 e 5 de março,  o colóquio internacional “Curvas, Espartilhos e Roupas de Baixo: Uma História Íntima da Sedução Feminina (Séculos XIX e XX)

O colóquio tem dois eixos temáticos

– “Seduzir pelo corpo e pelo espírito” e

– “Indumentária feminina e novos desafios: arte, folclore e design

contando também com uma mesa-redonda.

Programa

4 de março

Link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/82954751624?pwd=bTArTlBvNVJvODJ5K002M0QwM1JYZz09

ID da reunião: 829 5475 1624

Senha de acesso: 929437

Manhã

10h00 | Sessão de Abertura

Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra – Amílcar Falcão

Diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Rui Gama

Vice-presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira – Francisco Cardia

Conservadora do Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz – Ana Margarida Serra Ferreira

Coordenador Científico do Centro de História da Sociedade e da Cultura – José Pedro Paiva

Sessão 1

Seduzir pelo corpo e pelo espírito

10h30 | Irene Vaquinhas (FLUC-CHSC)

As armas da sedução feminina: das “cinturinhas de vespa” às “pernocas ao léu” (2ª metade do século XIX-princípios do século XX)

11h00 | Maria Izilda Santos de Matos (PUC-SP)

Sorriso: sedução, beleza e ousadia – intimidades e publicidades

11h30 | Jaime Ricardo Gouveia (FLUC-CHSC)

Roupas de baixo das gentes de cima. O caso dos Coutinhos (séculos XIX e XX)

12h00 | Debate

Tarde

Mesa redonda | Roupas de baixo e roupas de cima: a importância da musealização do traje

14h30 | Madalena Braz Teixeira (ex-Diretora do Museu Nacional do Traje)

A moda no século XX e o seu forro interior

15h00 João Alpoim Botelho (Diretor do Museu Bordalo Pinheiro, ex-Diretor do Museu do Traje de Viana do Castelo)

Trajes de lavradeira: o que oculta a sua “polychromia pittoresca e variegada”

15h30 | Debate

Moderação: Ana Margarida Serra Ferreira (Conservadora do Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz)

16h00 | Apresentação do Catálogo I – Irene Vaquinhas e Jaime Ricardo Gouveia

Curvas, espartilhos e roupas de baixo: uma história intima da sedução feminina (séculos XIX e XX)

5 de março

Link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/84040639080?pwd=RVRsa1J1QkcxYkdhRmkwMWxDOXdsZz09

ID da reunião: 840 4063 9080

Senha de acesso: 103268

Manhã

Sessão 2

Indumentária feminina e novos desafios: arte, folclore e design

9h30 | Daniel Café (Presidente da FFP)

– A roupa de baixo da tradição popular portuguesa

10h00 | Ludgero Mendes (Presidente da AG da FFP)

Usos e recursos da roupa de baixo na indumentária popular

10h30 | Joana Teodoro (ESAD, Fundadora e Diretora da empresa criativa Recycled Clothing) e Anita Gonçalves (ESAD)

– A moda e o upcycling de vestuário: celebrar o passado, transformar o presente e desenhar o futuro

11h00 | Debate

Moderação: Jaime Ricardo Gouveia e Sónia Nobre

Os Trajos – Notas e registos de etnografia alcobacense

Os Trajos

O linho que estou ceifando
aqui nasceu e cresceu
também o hei-de fiar
com roca que amor me deu.

Popular

As grandes modas do século XVIII, a infiltração do luxo em todas as camadas sociais e, ainda, questões de ordem económica, fizeram desaparecer, quási completamente, o encanto dos trajos regionais.

Trajos da rapariga da aldeia

A rapariga da aldeia que era um modelo de simplicidade, que pelas suas mãos fiava e tecia todas as peças do seu vestuário, veste-se agora com os tecidos e as cores mais irritantes, e arrebica-os com os enfeites mais disparatados.

Com a perda daquela simplicidade, daquela harmonia, alguma coisa mais se foi também: – foi uma parte da modéstia que a revestia, da ingenuidade que a caracterizava.

A sua alma já não é aquela alma sonhadora; é uma pretensão viva e áspera, porque nem vale o que é, nem chega a ser o que deseja.

Os trajos antigos mal chegaram até nós.

Ainda recorda o nosso espirito o curioso trajar da mulher serrana: – barrete branco de linho, arrendado com longa e múltipla borla, caía sobre a cabeça e pendia sobre o ombro.

O cabelo raramente se usava comprido; cortava-se em toda a parte posterior da cabeça, deixando ficar sobre a testa uma longa marrafa. Era para este caso que o barrete servia.

As raras mulheres que usavam cabelos compridos, penteavam-nos, apartando-os ao meio.

As duas grandes madeixas enrolavam-se em dois crescentes de madeira lavrada, que descansavam sobre as orelhas. Ao centro deste penteado caia um boné de alta borla, feito de tecido de garridas cores.

O busto vestia-se com as roupinhas, de pano azul, por vezes, até, de chita; tinha largo decote, ou era quási fechada.

O seio era coberto por peitilho de veludo e renda ou por lenço branco lavrado. Quási sempre um grande lenço dobrado em triângulo cruzava no peito e atava duas pontas nas costas, acima da cintura. O bico do lenço caía nas costas em belo elemento decorativo. As cores do lenço eram apropriadas à idade.

A saia…

A saia era de lanzinha azul, de fabrico doméstico, e orlada, na fimbria, de larga barra de veludo ou chita, ou ainda bordada a trancinha ou a ponto de cruz. Outras vezes escolhia-se um tecido de garridas cores, como a que vai representada na gravura.

Os pés calçavam meias de lã ou de linho, e havia, para os dias de festa, as meias bordadas, cuja variedade é extensa.

A rapariga, mesmo a mais pequenina, vestia-se como a mulher, sem nenhuma alteração de forma. Era uma delicada miniatura.

Para as festas e para a confissão tinha-se andaina própria: – na cabeça um lenço de cambraia ou bobinete, bordado, que só deixava a descoberto o terço médio da cara, e que lhe dava um delicado aspecto.

O corpo era envolto em capa de cabeção em bico e bandas com aplicações de veludo lavrado.

Os homens, para os actos da igreja usavam larga capa.

Para o casamento havia a mantilha, espécie de biôco, composto de curta capa com cabeção rígido, à frente do qual caia largo véu.

Este bióco, era, geralmente, emprestado por casa de pessoa rica.

Ao trajar da mulher, descrito, correspondia o do homem, que era bem uma representação das andainas do seculo XVIII.

Trajo do homem

Só a casaca encurtara as abas, transformando-se na véstia de curto rabicho, na véstia que devia dar origem à jaleca atual.

A camisa era de linho, com peitilho de preguinhas ou bordado.

Nos franzidos dos ombros e dos punhos sobrepunham-se desenhos bordados, como aplicações de filigrana.

O colarinho alto e dobrado, era preso por uma ou duas abotoaduras duplas de filigrana de ouro ou prata dourada.

Para os pobres que não podiam comprar o metal precioso, havia os botões esféricos, de linho com aplicações de bordados imitando a filigrana.

O colete era de cor garrida.

Vestia calção e bota alta, ou meia e sapato com fivelas.

Na cabeça o grande chapéu braguês de larga aba e borla, ou barrete de lã.

Era uma figura interessante e grave a de muitos velhos que conhecemos.

M. Vieira da Natividade

Velho trajo da região serrana (1850) (Aguarela de Alberto Sousa)

Fonte: “O Povo da Minha Terra – Notas e registos de etnografia alcobacense – M. Vieira Natividade”  in “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” – nº 17 a 20 – Junho a Setembro de 1917

A «Coca» ou «Mantilha» de Portalegre – Alentejo

A «Coca» ou «Mantilha»

“Nessa manhã chuvosa de Outubro, antes do despontar do dia, rezava-se a primeira missa na igreja de S. Lourenço, em Portalegre.

Poucas pessoas assistiam ao acto religioso, que, àquela hora, lembrava o ofício divino da noite do Natal.

Só algumas senhoras se ajoelhavam em volta do altar lateral onde se estava dizendo a missa, trajando rigorosamente de negro.

Vi-as, depois, sair.

Usavam uns biocos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas.

Na frente, o bioco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto.

Nalguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas; noutros, porém, era posta em sentido contrário, isto é, caindo um pouco sobre a cara.

Completava o trajo uma saia de merino.

Este curiosíssimo costume, soube-o então, está agora mais em voga nas classes ricas, onde o usam as senhoras de todas as idades, especialmente para assistir a actos religiosos.

Há, também, quem o use sempre.

A este bioco, chamam, em Portalegre, «coca», ou «mantilha», e, à renda, «véu».

Cá fora, no adro, assisti à debandada desse grupo crente de embiocadas, cada uma acompanhada pela sua criada.

Amanhecera já e caía, como geada, uma chuva miudinha e regelante.

Um carvoeiro, vindo da serra, subia a rua, falando ao burro que lhe transportava a enorme carga – vinte ou trinta sacos esguios e compridos, a estoirar de cheios, com o carvão a espreitar das bocas.

Fez-me lembrar uma cena do século XVIII.”

D. Sebastião Pessanha

Fig. 1 – Na Missa da madrugada
Fig. 2 – Mulheres de mantilha

(Croquis de A.Sousa)

Fonte “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” – N.os 17 a 20 – Junho a Setembro de 1917 (texto editado)

No Alentejo: Menina de mantilha (Cliché do ilustre amador sr. Albino Pereira de Carvalho) Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº 366, 24 de Fevereiro de 1913

Costumes Portugueses – fotografias de trajes do povo

Fotografias de trajes do povo

O sr. Comendador José Albino Pereira de Carvalho, distintíssimo fotógrafo amador, tendo recebido em todas as exposições e certames a que concorreu as mais valiosas consagrações e os melhores prémios, figura irmã de Carlos Relvas, dedicou a sua esclarecida atividade artística ao estudo do traje do povo português, conseguindo reunir uma bela coleção de tipos etnográficos das várias províncias portuguesas, alguns já hoje completamente extintos ou extremamente raros.

Na sua deliciosa quinta da Areosa, nos arredores de Viana do Castelo, nas poéticas margens do Lima, o rio do esquecimento, tem instalados os seus magníficos ateliers fotográficos, montados com todos os aperfeiçoamentos modernos, e pena é que o seu precário estado de saúde, nos últimos tempos, não tenha consentido ao ilustre amador de prosseguir na tarefa que a si próprio patrioticamente se impôs.

Inicia hoje a Ilustração Portuguesa a publicação dessa soberba galeria de trajes regionais portugueses, que, como acima dizemos, têm subido valor científico, e são uma contribuição preciosa para o conhecimento perfeito da etnografia do povo português.

O estudo do traje popular como o da habitação, da indústria e arte, bem como das formas sociais da organização da família e da propriedade são outros tantos curiosíssimos capítulos da etnografia, ciência que, à parte os estudos folk-lóricos e um ou outro artigo disperso, tão pouco cultivada tem sido no nosso país, e cujo desenvolvimento tanto contribuiria para despertar em nós, portugueses, energias patrióticas do mais alto valor.

A. Mesquita de Figueiredo.

No Minho: Pastora

 

No Alentejo: Menina de mantilha

(Clichés do ilustre amador sr. Albino Pereira de Carvalho.) 

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº 366, 24 de Fevereiro de 1913

A cor e os trajos quando chegava o Inverno

Trajos de Inverno de antigamente

Aproxima-se o Inverno. (…)

E, uma boa manhazinha, as montanhas à vista cobrem-se das primeiras neves.

Serenamente, no ar leve, as chaminés fazem subir colunas direitas de fumo brando, o fumo anunciador das fogueiras no lar.

«Por Todos os Santos, a neve nos campos», dita o adágio conselheiro. Panorama de Inverno.

Mas se a natureza se prepara, não menos o homem se prepara também. Guerra ao frio, é o lema obcecante. (…)

Do guarda-roupa saem os trajos do Inverno.

Os teares serranos apressam a confecção dos tecidos grossos, que vão cobrir corpos friorentos.

Há uma rima concorde entre a natureza envolvente e o trajo influído.

Se a lã e o linho são função da economia regional, a cor escura dos pardos casa bem com a opacidade sombria dos dias sem sol, mimetiza a cinza das rochas, a sépia dos barros, a negrura das terras molhadas.

Para os frios, que retalham a carne, a grossura dos panos, ásperos, monótonos, feios, que fazem das pessoas neles vestidas indecisões de forma e de cor, personagens de Greco e Columbano.

Para as ventadas, fatos e andainas, que o vento não leve, bem adaptados ao corpo.

Para o trabalho, lei da vida que nem a tirânica soberania da estação tolhe, peças de vestuário que resguardem o tronco, protejam a cabeça, escorram a chuva, defendam as pernas, isolem os pés, e sempre com obediência à necessidade principal de ficarem livres os braços, para que o trabalho não sofra.

Chega o frio e os trajos são outros

«O bácoro, a fome e o frio fazem grande ruído», – brada o adágio (António Delicado, Adágios Portugueses, ed. de 1924, págs 230).

E, para o ruído, provocado pelo frio, – ruído como o da «casa onde não há pão», – não acabe o mundo ou deite pelo menos a casa abaixo, é necessário cobrir-se o corpo com as roupas próprias.

Saltam das arcas, dos gavetões, dos pregos e cabides, vêm à última hora, à vez, dos teares montesinhos, ou do fanqueiro da aldeia, do vendilhão ambulante, saragoças, estamenhas, buréis, briches, riscadinhos, sirguilhas, xergas.

Panos para fatos de homem e roupas de mulher, levam as lãs grossas do gado monteiro, os tomentos e a estopa da limpeza e o carpeio do linho.

O fulão pisoa o panaço áspero e grosso, a amansá-lo com a pancada, a amoldá-lo, apertando-o, esmagando-o, o que o maleabiliza um tanto e o fecha à larga osmose do ar frio de fora.

A fogueira arde na cozinha fumarenta das casas de melhor condição; e na casa popular da serra, a quadra única, de serventia geral, vai-se transformando em lareira ardente, a enchê-la de calor e de fumo opaco de cortar à faca.

O cheiro das resinas queimadas é o característico da estação; umas após outras, consomem-se as cargas de lenha de pinho e de sua rama com as «agulhas» secas, de que tão numerosa, variada e pitoresca nomenclatura popular Cláudio Basto anotou (Nomes de «agulhas» secas, Porto, 1916) e tão bela fogueira fazem.

O bragal de roupas brancas da bela indústria minhota, blanche industrie, que M. Breton admirou por 1810, quando viajou em Portugal, amarelece com a fumaceira nas arrecadações onde se estratifica e toma o cheiro da camoesa ou da alfazema por elas espalhada.

Trajos usados para proteger do frio

O trajo inverneiro compreende o que se veste no corpo e o que dele se dependura e o agasalha – vestimenta e defesa, ambas concordes e complementares.

Cores baças, das lãs charras, que o instinto apropriou e de que todo o proveito conseguiu tirar a prática conselheira; formas largas, que o uso mostrou as melhores para aquecimento do corpo envolvido; peças sobrepostas, sem intervalos, oferecidos à friagem do vento agudo; extensão alongada, para cobrir o máximo.

Casacos curtos, saias sobre saiotes ou saiolas, o mantéu ou mantel, a capucha, a sagôna de Sendim de Miranda; o avental (singuidalho ou sanguidalho) é agasalho e defesa, o mandil mirandês vai até aos pés.

A castreja usa sobre a cabeça a capucha de burel, que lhe forma touca e desce até meio da coxa; casebeque, saia e singuidalho de fuloado de lã ou de linho, calções e piucas sem pé. [imagem na próxima pág.]

Nos pés, prende com «baraças» ou ligas as «chancas» de pau; cobre os pulsos e as mãos com manguitos de burel.

Nos Doze Casamentos felizes (3ª ed. 1902, pág.101), Camilo Castelo Branco descreve a barrosã de Cerigo, nas Alturas do Barroso: «uma grossa e corpulenta moça com a cabeça tosquiada, pés descalços, saia de tomentos curta pelo joelho, as pernas vestidas nuns canudos de lã hirta e negra, e sobre os ombros um mantéu de baeta escarlate

Falando de Barroso, diz o mesmo romancista em Os Brilhantes do Brasileiro (4ª ed. pág. 191): «uma terra que chamam Barroso… O sítio é triste, é montanhoso, as casas são colmadas, os alimentos grosseiros, os frios de inverno glaciais...»

A capucha

A capucha tem outros nomes: capucho, corucha, corucho, crucho e crucha e corucelo (Pitões).

Usam-na homens e mulheres, mas curta no Norte (Soajo, Castro Laboreiro, Barroso), mais comprida na Beira (Caramulo e planalto de Castro Daire), mais espessa e grosseira além, diferente lá e cá no corte geral, na forma e costura da touca. Todavia o aspecto de todas estas «capucheiras» (Chaves e Montanha) é idêntico.

A capucha derivou na capa de pardo, espécie de capucha sem touca, que se suspende ao pescoço, ora sem gola, ora de gola curta ou reduzida a cós, forma bem indicial da derivação, pois lembra capucha a que tivessem cortado o capuz.

Esta capa, mantéu sem botões e sem guarnições, cobre homens e mulheres, lançada nos ombros e descendente aos pés (Barroso a Montesinho e Serra de Nogueira).

O trajo masculino

O burel, a borlina, a saragoça beiroa são a matéria prima do trajo masculino.

São frequentemente usados calções; polainas brancas de burel cobrem as pernas de homens e mulheres e, Castro Laboreiro; polainas de burel pardo cobrem as pernas do barrosãos; o uso do calção vai de Lindoso, à Estrela, ao alentejo.

Os safões, assafões, seifões protegem as pernas contra o mato e contra o frio; são de pele de ovelha, em geral, mas também os há de pele de cabrito ou anho (Barroso, Serra de Cabreira) e de lobo (Barroso).

Trajes alegres para gente triste (opinião em 1931)

Trajes alegres para gente triste

Derrotado Napoleão em Waterloo, quando restava das amaneiradas modas do século XVIII foi varrido, nas cidades, pela severa e monótona indumentária britânica. À paixão pelos trajos de variadas e vivas cores sucedeu-se a dos tecidos pardacentos ou de coloridos atenuados.

Pois essa grande mancha cinzenta, crescentemente alastrante, foi a causa remota da extinção dos mil e um jeitos de vestir que dividiam a humanidade em zonas de cor e gosto perfeitamente definidas. Supomos, mesmo, que esta uniformidade de indumento representa, no decorrer dos tempos, a única modalidade igualitária, em verdade triunfante.

Neste naufrágio do pitoresco e da policromia, houve, nalguns países, pontos de excepção. Portugal, com a Espanha, é, talvez, do que mais conserva. Rotina. Passividade. Certo é que, porém, que nem todos os tipos tradicionais desapareceram.

Da varina em Lisboa à tricana em Coimbra

Não é preciso que o leitor penteie cabelos brancos para que recorde, da Lisboa de há vinte anos, curiosas maneiras locais de vestir já em desuso.

Hoje, sensivelmente empobrecidos, limitamo-nos, na capital, à varina airosa, de tamanquinhas saltitantes, calcorreadora pertinaz de calçadas íngremes e ruelas estreitas que o sol só beija no alto dos seus prédios.

Ainda perto de nós, no Ribatejo, nas vastas herdades em que o gado bravo retoiça, correm, soldados às suas montadas como cossacos do Don, os campinos que brandem longas e finas varas, cingem o corpo num trajo esbelto e fazem flutuar, junto aos rostos morenos, a dobra dos aguçados barretes de borla, feitos de panos de garridas cores.

Lá para o Norte, no Minho já, ainda aparecem, nas feiras e desfolhadas, aqueles trajos femininos que, tão curiosamente belos, o estrangeiro conhece como sendo os de todo o Portugal. E bem lindos eles são na orquestração das suas inúmeras cores, na intenção sensual com que os seus corpetes desenham os seios fartos das minhotas.

Deste espólio de trajos tradicionais que o progresso velozmente cerceia, algo conservamos, ainda, na Beira Litoral e na bacia do Mondego. São as tricanas, cujos ternos amores amenizam a dureza dos estudos sérios de Coimbra, e cuja indumentária, ligeira e alegre, faz esquecer a severidade do trajo dos estudantes, dos poucos que na Europa se conservam, no seu recorte medieval e na sua cor lutuosa.

Do Alentejo à Nazaré

Nas charnecas do Alentejo subsiste o camponês de çafões e pelicos.

Nas abruptas serranias de Trás-os-Montes, em Terras de Barroso, continuam a usar-se as solenes capas de honra 1 de todos os séculos.

Leiria defende, quanto possível, o seu pitoresco trajo regional; o Porto, o das suas vareiras; nos campos da Maia, há o das gentes do campo.

E, no debruar de todo o litoral, particularmente na Nazaré, encontramos os pescadores, classe refratária a modas e garridices, vestidos quási do mesmo modo que os seus ascendentes das Descobertas.

Territórios afastados das grandes zonas urbanas, as gentes que neles assistem permanecem insensíveis às fantasias indumentárias propagadas por Paris. Mas o caixeiro viajante, heraldo dos monótonos tecidos de padrões universais, é que não respeita a poesia de tais sobrevivências.

Em nome das conveniências fabris, ele trata de violentar e extirpar costumes que obrigam à produção de um género e cores que, pelo limitado e modesto dos respectivos mercados, representam um magro negócio.

Somos um povo triste (?)

Somos um povo triste. Gememos e choramos, não só nas quadras melancólicas do fado mas, e esta é uma verdade completa, em toda a nossa vastíssima lírica e em toda a nossa literatura popular, do que é documento a História Trágico-marítima.

A algibeira minhota – trajes tradicionais regionais

A algibeira minhota

Um belo assunto de compêndio de estudo para… ministro da fazenda [atual ministro das finanças].

A algibeira simboliza, até certo ponto, a economia ou a ordem económica. E como a questão financeira é essencial, como se impõe à nossa observação – não é assim supérfluo que indiquemos a algibeira minhota como documento imprescindível no museu duma aula de economia política…

Antes de ser um elemento de composição etnográfica, no sentido decorativo, a algibeira que aí está foi e é (na maioria dos seus modelos) uma bolsa de usos popular.

Nela – cinco réis por cinco réis, economicamente – orçaram-se sempre grandes reservas de capital.

E isso ao mesmo costume com que em tempos idos as caixas de castanho do bragal provinciano tiveram escaninho ou «falso»;

e se fabricaram os mealheiros de barro, em Prado, para os garotos reservarem as esmolas das suas cascatas ao S. João e ao S. Pedro; e, ainda, como os lavradores do norte (desconfiados) metem à saca de linho as moedas de compra a venda da feira.

Algibeira simples – sem lantejoulas e sem bordados – houve-as sempre em todas as províncias deste país, da Espanha e da Itália, entre os povos rurais. Entre velhos (ou, melhor, entre velhas) o uso é grande, com grande princípio e enraizamento tradicionalista.

Velhas há, mesmo, que as usam diariamente, isto é: sempre, mesmo que o seu destino, aos dias santificados, não seja o do mercado, para comprar.

E mais que o povo de qualquer outra província usa-as o povo, a mulher minhota – criatura a quem furtar-lhe e desenraizá-la dum costume é menos fácil que vê-la a tentar uma «Maria da Fonte».

As origens

Todos os filhos do mundo, ainda mesmo os filhos das ervas, têm um tronco natural: como todos os povos têm a sua tradição; e como todas as águas – ainda as mais obscuras e perdidas – tiveram a sua mãe d’água, em sítio de rocha amorável, que já lhes fica distante.

Estas algibeiras também possuem família – ou, melhor, genealogia artística.

È pena, realmente, que poucos reconheçam neste biblot regionalista essa outra algibeira das mulheres romanas já do tempo de Lucílio, e que o implacável satírico com tanta ousadia ridicularizou.

Lá viveram as algibeiras femininas à maneira do tempo. Creio mesmo que já então eram importadas, como objecto de luxo. E com seus foros de comodismo e civilização, dali correram mundo, correndo idades, transitando sempre (mais ou menos algibeiras) através dos séculos nos torcicolos engenhosos da moda.

O seu fim utilitário e quási o seu desenho mantiveram-se mais ou menos puros. Até que – da sua usual exibição exterior, – pelos fins do século XVIII – passaram quase em absoluto do costume fidalgo, e vieram recolher-se, dum modo típico, entre as saias brancas e o saiote dessa curiosa e constante mulher pobre das províncias do sul da Europa.

Como costume regionalista, poucos se conhecem tão delicados – quando a algibeira, a rigor, é facturada como objecto de adorno.

Uma mulher minhota com algibeira.

Características e uso da algibeira

O talhe quási em coração, debruado de fita de lã verde ou amarela, as aplicações de vidrilhos e lantejoulas e o desenho incorrecto, mas característico, das flores e folhagens – tudo isso (que é pouco como perfeição, mas muito como perspicácia) marca no adorno da algibeira minhota uma certa graça rude, bravia e maravilhosa de efeitos cromográficos.

A algibeira do «costume» de Viana do Castelo, que lhe cabe dentro em peso e medida? Quási nada!

Um lenço rendado e de bordados cor-de-rosa; um espelho redondo de estanho, para rever o conserto dos cabelos e das rendas do colarete; um frasquinho de água de cheiro, ordinário e ingénuo, vaidoso e de poucas gotas; ou, ainda, o maço dos ganchos, uma medalha de santuário, um rosário da Senhora do Carmo e um ramilhete de manjerico. Disso tudo alguma coisa apenas.

Que a algibeira – seja dito em abono da verdade – é para somente ser vista tal qual ela é – quer dizer: para ser, sobre uma anca forte, um biblot de gosto!

Outras há, como disse, que são algibeiras de dinheiro.

A. G.

Imagens de algibeiras usadas pelas mulheres do Minho

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº 221 – 16 de Maio de 1910 (texto editado e adaptado)

Traje masculino de festa e de lavradeira do Minho

Traje masculino de festa do Minho

É composto por calça, camisa e jaqueta.

A camisa branca é decorada com bordados tradicionais minhotos, com motivos amorosos.

A cor vermelha da faixa e dos bordados confere ao conjunto um certa alegria, uma vez que todo o traje é negro.

O preto é sinónimo de austeridade, pelo que os trajes de “ver a Deus”, utilizados para ir à missa, são dessa cor. O preto confere ainda severidade e sofrimento, já que simboliza o luto profundo e prolongado.

Traje de lavradeira do Minho

Sobre a alva camisa bordada de azul, nos punhos, nas frentes e nos ombros, a mulher minhota enverga um colete que exerce a função de espartilho.

Os cortes vincam as formas do corpo, a altura do colete e a amplitude das cavas atribuem-lhe grande comodidade, pois permite um melhor movimento dos braços. Por outro lado, a orla do colete segue a linha do diafragma, favorecendo a respiração.

O colete é profusamente decorado por bordados policromáticos de gosto barroco.

A saia, rodada e de grande amplitude, é marcada por uma larga barra bordada com os mesmos motivos silvestres e românticos do colete.

O avental de tapete é decorado com “puxados” que recriam um magnífico jardim em relevo.

A algibeira reforça a beleza da mulher com a sua forma de coração, tendo como utilização prática o transporte de dinheiro e do lenço.

A mulher minhota calça meias de renda brancas e chinelas de pele bordadas com motivos florais vegetais e geométricos.

Na cabeça usa um lenço de fundo vermelho com barra estampada com motivos florais, vegetais e cornucópias

De acordo com José Rosa Araújo, este traje, conforme descrito, surge após 1840, quando o pintor José Brito Sobrinho casou com uma tecedeira, em Santa Marta, e para aumentar os rendimentos do casal resolveu imprimir um novo padrão aos aventais.

Pôs de parte os motivos geométricos, desenhou flores e folhas em motivos lindamente estilizados a preto, vermelho e amarelo de tons habilmente combinados.

Após a sua morte outras tecedeiras continuaram o seu trabalho, até aos dias de hoje.

Nota: Os trajes pertencem ao Rancho Folclórico “Os Rancheiros” do Grupo Cultural de Vila Fria – Oeiras. A foto e a respetiva descrição foram-nos enviadas por este Rancho

Foto de destaque: Mulheres com trajes do Minho, na Festa das Cruzes, em Barcelos – 1912

Traje à Vianesa é Património de Interesse Municipal

Traje à Vianesa classificado como Património de Interesse Municipal

O Executivo Municipal de Viana do Castelo classificou o Traje à Vianesa como Património de Interesse Municipal, decisão que irá enriquecer o processo em curso para a inscrição do Traje à Vianesa no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Esta será, pois, a primeira etapa para a respetiva inscrição como Património Imaterial.

Este processo começou em julho de 2013, quando a Câmara Municipal de Viana do Castelo, entidade promotora do processo de certificação do Traje à Vianesa, solicitou à Associação Portugal à Mão – Centro de Estudos e Promoção das Artes e Ofícios Portugueses, um estudo que permitisse a elaboração do Caderno de Especificações, elemento central no processo da certificação do Traje à Vianesa – Viana do Castelo.

Trata-se de um documento normativo que regulamenta a implementação do processo de certificação.

Processo de certificação

No caso do Traje à Vianesa – Viana do Castelo, tal corresponde à figura de uma IG – Indicação Geográfica “Traje à Vianesa – Viana do Castelo”, cuja atribuição compete ao INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Esta IG – Indicação Geográfica é composta por uma denominação e por uma marca (símbolo).

No dia 28 de Dezembro de 2016 foi publicada a aprovação da inclusão da produção tradicional “Traje à Vianesa – Viana do Castelo” no Registo Nacional de Produções Artesanais Tradicionais Certificadas.

Em face desta aprovação, a Câmara Municipal de Viana do Castelo efetuou o pedido de registo da IG – Indicação Geográfica e marca ao INPI – Instituto Nacional de Propriedade Industrial.

O Caderno de Especificações contém, pois, o conjunto de elementos que definem o vocabulário e a gramática decorativa que tornam inconfundível a imagem do “Traje à Vianesa – Viana do Castelo”.

O Traje à Vianesa é um produto múltiplo, composto por um conjunto de peças, todas manufaturadas artesanalmente na região do Minho (à exceção dos lenços), cujo resultado final se deve à combinação poliédrica entre elas e ao modo como os adornos em ouro o enfeitam e sublinham.

É, hoje, um símbolo local e nacional, sendo também motivo de orgulho da diáspora onde existem inúmeros grupos folclóricos que primam pela arte do bem trajar e que sentem uma grande chieira nas suas raízes e nas tradições vianenses.

Fonte: Gabinete de Comunicação e Imagem do Município de Viana do Castelo (texto editado e adaptado)

Sugere-se a leitura do texto “Traje à Vianesa – ex-libris de Portugal“.

As cores republicanas no barrete do campino ribatejano

O campino do Ribatejo

O campino do Ribatejo tal como actualmente o conhecemos, altivo na sua montada, com o seu pampilho, apresenta-se invariavelmente com

– o seu colete encarnado,

faixa vermelha à cintura,

– calça azul e meias brancas até ao joelho,

– jaqueta e sapato de prateleira com esporas.

Ao invés de outros trabalhadores rurais da mesma região, usa barrete verde com orla a vermelho, sugerindo as cores da actual bandeira nacional.

O barrete do campino

O barrete é, desde tempos muito recuados usual em diversas regiões do nosso país, quer no meio rural como ainda entre as comunidades de pescadores.

No Minho, apesar da indústria de chapelaria que se desenvolveu em Braga nos meados do século XIX, a qual levou à difusão em toda aquela do característico chapéu braguês, o barrete continuava a ser utilizado nas tarefas diárias da lavoura.

Originariamente, todos os barretes eram pretos ou cinzento-escuro, independentemente do grupo social ou a região do país em que eram utilizados.

Ainda hoje os podemos encontrar com relativa facilidade entre os pescadores da Nazaré e da Póvoa do Varzim ou até na região saloia.

Porém, apesar de se pretender preservar aquilo que foram os usos e costumes de uma determinada época, geralmente dos finais do século XIX e começos do século XX, também o traje tradicional tem sido permeável às modas e a outros interesses que o levam a registar modificações que, não raras as vezes chegam até nós como o que existe de mais genuíno.

Seria extensa a lista de exemplos que poderíamos enumerar para descrever as alterações que ao longo dos tempos se tem registado no traje tradicional, para já não falarmos de outros aspectos relacionados com o folclore como as coreografias, os instrumentos utilizados e os próprios cantares.

Bastará, apenas, referir o tamanho das saias que outrora se usavam comparados com o que por vezes é exibido actualmente, as formas estilizadas e os tecidos.

Muitas dessas alterações não estão apenas relacionadas com as influências exercidas pela moda. Mas ainda com a sua utilização para fins de propaganda turística e até política, como sucedeu em grande medida durante o período do Estado Novo.

A implantação da República

Sucede que, faz precisamente cem anos que foi instaurado em Portugal o regime republicano. E, como é sabido, o Ribatejo constituía uma das regiões de maior implantação política dos republicanos da altura.

De resto, foi um ribatejano de seu nome José Relvas, quem hasteou a bandeira do novo regime nos Paços do Concelho, em Lisboa.

Na verdade, a bandeira hasteada pertencia a um pequeno grupo político, o Centro Democrático Federal. A bandeira tal como a conhecemos só viria a ser concebida e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte no ano seguinte.

Seguindo a inspiração francesa

Inspirados pelo famoso quadro “A Liberdade guiando o Povo” de Eugène Delacroix, os republicanos criaram uma figura alegórica para representar a República, um tanto à semelhança do que fizeram os franceses ao conceberem a sua Marianne.

O modelo então escolhido foi uma jovem alentejana de Arraiolos, de seu nome Irene Pulga. E, tal como os franceses fizeram com a Mariana, colocaram-lhe sobre a cabeça um barrete frígio.

O barrete frígio é assim designado por ter sido primitivamente usado pelos habitantes da Frígia que constituía uma região da Ásia Menor, sensivelmente onde actualmente se encontra a Turquia.

Os republicanos franceses adoptaram-no, sob a cor vermelha, como símbolo de liberdade.

Aliás, da mesma forma que, nos finais do século XIX, foram os caçadores alpinos franceses os primeiros a adoptar a boina basca, alterando-lhe a cor para azul-escuro. Esta passou a constituir um acessório dos uniformes de inúmeras forças militares sob as mais diversas cores.

De forma algo idêntica, também os republicanos portugueses viram certamente no barrete do campino ribatejano uma espécie de barrete frígio, genuinamente português, podendo ser-lhe introduzidas as cores da República.

Com o decorrer do tempo e a divulgação do folclore, mormente ao tempo do Estado Novo, a ideia do barrete verde viria a enraizar-se nos costumes ribatejanos e a tornar-se uma peça considerada genuína do traje do campino.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História (texto publicado em 2010) | Imagem: pormenor do cartaz de divulgação da Feira de Maio – Azambuja 2019

Na próxima página pode ver fotos de barretes diversos.

Trajes tradicionais e regionais do Alto Douro

O traje etnográfico alto-duriense

Ficaram-me na memória as mulheres do Douro que iam a Amarante, minha terra, vender uvas e outra fruta. Eram cabazes que esperávamos com ansiedade.

Com o lenço a envolver a testa e as pontas do laço atrás, na nuca, estas mulheres foram o primeiro Douro que eu conheci.

Raramente enxergo, agora e no Douro, as mulheres da minha infância. Lenço atado no alto da cabeça é cópia ou duplicado das “Lavradeiras” de Afife ou de Santa Marta de Portuzelo.

Florido, colorido, com fitas e brilhos, de ouro aos novelos e nas “arrecadas”, o traje vianense é bonito. Todos o apreciamos e, no Entrudo, ganha a categoria de traje nacional.

Mas o Douro tem o direito a que lhe respeitem o seu guarda-roupa: a “baeta” grossa do saiote feminino e de algumas camisas masculinas, a roupagem de flanela, o avental simples de trabalho e o gaiteiro da festa, comprido e a apanhar a blusa, etc.

Há muito mais, que isso é para um trabalho ou estudo a elaborar. Há, de facto, pano para mangas. Assim houvesse dedicação.

O calçado

Desçamos ao pé. Com licença da bota grossa muito usada, naturalmente, e com licença do sapateiro, gostaria de lembrar os socos e as socas e a figura bem popular do soqueiro. Ainda hoje, ali e acolá, ao sapateiro se chama soqueiro.

Traje do Douro! Talvez muitas arcas ainda guardem peças bonitas e esquecidas. É preciso matar a traça e estender ao sol esses tesouros e fazer festa, etnografia e museu. E preciso recordar aos novos as saias onde muitos se agarraram, os aventais que lhes limparam o nariz e as socas que subiram piedosas, a estrear, à Virgem do Socorro ou à Virgem dos Remédios.

É preciso que ninguém tenha rebuço de qualquer resto de suor das botas grossas que engenharam e envelheceram nos socalcos da cava, dos saibramentos e da vindima. Assim seja!

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Avec le foulard autour du front et la noeud derriére la nuque, ces femmes ont été le premier “Douro” que j’ ai connu“.

Foreheads wrapped up in their Kerchiefs, tips Knotted on the nape, these women were the first “Douro” I knew“.

Luís Morais Coutinho, Subsídios históricos e etnográficos do Alto Douro | Imagem: vindima no Alto Douro Vinhateiro