Trajo de Trabalho do Sargaceiro | Trajes Tradicionais

Trajo de Trabalho do Sargaceiro

Apúlia | Século XX

Branqueia | Acessórios: cinto e chapéu

Casaco designado por branqueia, de burel branco cortado em viés e abotoado com botões do mesmo tecido. Na cintura cinto de cabedal.

Chapéu sueste do mesmo tecido, burel por vezes revestido de um outro tecido impregnado de óleo para o impermeabilizar; a copa é talhada em gomos e a aba, pespontada, é mais larga atrás, para proteger o pescoço.

Trajo profissional todo ele concebido para a função a desempenhar, isto é, proteger o corpo do sargaceiro na água.

A própria designação, branqueta, como se referiu, estendeu-se também ao próprio trajo. Esta peça apresenta um corte invulgar, talvez proveniente do saio medieval, talhado em viés que permite ficar justo ao corpo e alargar-se a partir da cintura facilitando o movimento das pernas.

Vestia-se directamente sobre a pele para evitar perder-se o calor do corpo mesmo depois de molhado.

De assinalar o próprio material em que são feitos os botões de branqueia o que mostra o seu arcaísmo.

O sargaceiro segura na mão um galhapão, espécie de instrumento composto por um saco de rede ligado a uma armação de madeira (boca) e seguro por um cabo do mesmo material, com o qual apanha o sargaço trazido pelas correntes e pela ondulação até à praia1.

A apanha do sargaço pelo Sargaceiro

O minhoto soube aproveitar as condições do meio e fertilizar as areias com os produtos do mar.

A apanha de algas assumiu grande importância ao longo da costa Norte. Os campos estéreis da beira-mar foram enriquecidos com pilado – caranguejos em cardume – e sargaço.

Hoje, com a generalização dos adubos químicos, esta actividade está em declínio. Mas, em certos locais, a apanha das algas tem ainda alguma importância. Em Castelo do Neiva, nas primeiras horas da manhã, ainda é possível observar os apanhadores de algas.

O sargaço é apanhado nos meses de Verão. Os sargaceiros entram no mar e com o redenho recolhem as algas que estão à superfície ou submersas, junto ou próximo da praia.

As “branqueias”

Antigamente, os sargaceiros, antes de entrarem no mar, envergavam branqueias, um casaco de tecido de lã, grosso e branco, que envolve o corpo dos sargaceiros até ao joelho.

Na cintura é cingido por um cinto de couro e a parte de baixo é rodada.

Quando o mar já não permite a apanha, os montes de algas molhadas não transportados para os sequeiros, nas dunas, em cestos, padiolas ou carros de mão com duas rodas.

Nos sequeiros as algas são estendidas com o auxílio do engaço – uma espécie de ancinho.

Uma vez secas, as algas são empilhadas, formando uma palhota. A parte superior é coberta por um telhado de duas águas, construído com colmo. Aí ficam até serem transportadas para os campos que vão fertilizar2.

 

Sargaceiros na Praia da Apúlia. Fonte

Fontes: 1.- “O Trajo Regional em Portugal” – Tomás Ribas | 2.- “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” | Imagem de destaque

Os trajes dos saloios (séc. XIX e 1ª metade do séc. XX)

Os trajes saloios

Introdução

As formas de trajar sempre tiveram uma importância vital na identificação social, cultural e profissional dos povos.

Antes de se chegar à “standartização” dos nossos dias, em que quase toda a gente veste o mesmo tipo de roupa, existia a possibilidade de se conhecerem inúmeras características de uma pessoa pelo trajo que esta envergava. Hoje em dia, embora essa possibilidade ainda se verifique em algumas situações, é muito mais difícil de se conseguir.

Nas classes mais endinheiradas havia grandes preocupações quanto à sumptuosidade e riqueza das roupas.

Trajo Saloio – Mulher

As várias modas que foram surgindo ao longo dos tempos, com maior ou menor ostentação e riqueza, mais ou menos vistosas, espelhavam, sobretudo nas classes altas, a própria evolução social e cultural. E sublinhavam também a maior (ou menor) abastança dos próprios países.

Por outro lado lado, há que levar em linha de conta a protecção do corpo contra as alterações climatéricas e ambientais. Terá sido mesmo essa a primeira preocupação do Homem quando começou a cobrir o seu corpo.

As várias alterações estéticas que os homens impuseram nas suas formas de trajar, essas sim, variavam já consoante a sua própria cultura, o que influenciava os gostos e os costumes.

Ressalta pois que da preocupação puramente protectora, o vestuário foi assumindo carácter de diferenciação social e económica e, obrigatoriamente, cultural.

Em Portugal não se pode afirmar que tenha havido grandes diferenças em relação aos restantes países da Europa. Contudo há (e houve) aspectos identificadores de cada país e dentro deste de cada região. Outra vez a cultura e o clima de mãos dadas na definição de modas, costumes e hábitos de trajar.

Na zona da capital portuguesa, os “campónios” têm uma denominação própria, são os saloios.

E podemos afirmar que foi possível, durante muitos anos, distinguir um saloio (rural) de um citadino, através da roupa que envergava.

Não é, decerto, o único traço distintivo destas gentes, mas é, obviamente, aquele que primeiro se nota.

Sem se poder distinguir um trajo propriamente saloio, é, no entanto, possível afirmar um conjunto de características que definem a roupa que o saloio mais comummente enverga, que a chamada domingueira – ou de “ir ver a Deus” -, quer a outra que usa diariamente na sua labuta camponesa.

Sobre o trajar dos saloios

Não é muito fácil definirmos concreta e definitivamente o trajo saloio. Cremos mesmo não ser muito correcta a afirmação TRAJO SALOIO, mas sim o TRAJAR DOS SALOIOS

O saloio é, cremos que poucas dúvidas se levantam hoje em dia, o camponês dos arrabaldes de Lisboa, aquele que durante muitos anos forneceu a cidade dos produtos frescos provenientes das hortas destes sítios.

Assim o trajar destes homens do campo tinha uma ligação muito estreita com esta sua actividade, não se podendo, no entanto, diferenciar do de outros camponeses que trabalhavam noutras zonas da Estremadura ou mesmo do Ribatejo ou do Alto Alentejo.

Não cremos que haja uma característica de indumentária exclusiva dos saloios. Barretes, peça que, de facto, identifica sobremaneira o homem saloio, existem também em vários outros pontos de Portugal; bem assim como as faixas na cintura; bem assim como o varapau.

Nas mulheres o uso do lenço e o seu tipo, é muito semelhante, por vezes igual, ao da maior parte das regiões do país. Mas, na indumentária feminina encontramos algo que, ao que pudemos observar até agora, se pode revelar como único, a célebre carapuça saloia, a que faremos maior referência no capítulo seguinte.

Depois de observarmos muitas gravuras, podemos, para já, concluir pela exclusividade deste elemento, com estas características, como algo retintamente saloio.

Particularidades e diferenças

Há no trajar dos saloios algumas particularidades e diferenças, que não são estabelecidas em função das várias profissões que existem como até se podia supor.

Ou seja, o jornaleiro, o moleiro ou o condutor de carroças, quando trabalham envergam o mesmo tipo de roupa, a grande diferença (e possível diferenciação) está quando chegam os dias de festa ou os dias santos, em que se usam os melhores fatos, aqueles mais novos e onde é então possível vislumbrar quem tem maiores posses, maior poder monetário para compor de forma mais adornada o seu vestuário.

Afirmamos pois que o saloio não possui um trajo que o distinga claramente de outros camponeses seus vizinhos.

Mas também não podemos escamotear o facto de os saloios trajarem de forma muito semelhante entre si e que, frequentando mais assiduamente a cidade de Lisboa que os camponeses de outros locais, se tenha fixado um certo tipo de trajar como o trajo saloio e que, aos longo de muitos anos, vários estudiosos, pintores e fotógrafos tenham tentado fixar este homens e estas mulheres com os seus trajos característicos.

É isso que aqui, de forma sucinta, breve (tendo em conta o século XIX e primeira metade do século XX) e o mais completa possível, iremos agora fazer. Dar-lhes o retrato mais fiel do trajo envergado pelo saloio e pela saloia. No final falaremos, ainda que brevemente, do que cremos ser o trajar saloio hoje em dia.

A protecção para a cabeça

O barrete saloio é talvez a peça da indumentária masculina mais conhecida. Não é, no entanto, exclusivo destes homens.

Os campinos das lezírias ribatejanas também o usam, assim como os pescadores de várias zonas costeiras do país. Mas é, sem dúvida, com os homens saloios que este objecto mais se identifica.

É quase sempre negro, mas também se usou vermelho e verde, semelhante ao dos já citados campinos e por vezes com borlas coloridas, consoante o estado civil daquele que o usa. Mas foi o barrete totalmente negro que mais se difundiu e, cremos, que nenhum saloio retinto o tenha, alguma vez, deixado de usar.

Mas não era esta a única protecção para a cabeça que os saloios usavam. O chapéu de abas largas era também muito usado e, por vezes, a cartola surgiu igualmente (chamado chapéu “zabumba”). Nos nossos dias o comum boné substituiu, em larga escala, todos os outros.

Nas mulheres o lenço foi rei e senhor. Houve tempos, até meados do século XIX, em que, em conjunto com o lenço, a mulher saloia cobria a cabeça com uma carapuça, conhecida exactamente como carapuça saloia. Curiosa a quadra que J. Leite de Vasconcellos recolheu no Cancioneiro Popular Português:

«Sou Saloia, trago botas,
e também trago meu mantéu,
Também tiro a carapuça
a quem me tira o chapéu».

Mas enquanto esta carapuça caía em desuso o lenço foi-se mantendo, sendo ainda hpoje muito usado pelas saloias mais idosas.

O Tronco

Consoante a sua função, a estação do ano e, sobretudo, a ocasião, assim o saloio a e saloia vestiam a blusa, a camisa, o colete, o casaco, a casaquinha, o mantéu ou a jaqueta.

Da roupa interior, sempre utilizada, falaremos mais adiante, mas por cima da sua camisola e no que diz respeito ao tronco, o saloio vestia, invariavelmente, uma camisa.

Assim, este homem usava a sua camisola interior, de cor branca e muitas vezes, em situação de trabalho, de outras cores, nomeadamente cores escuras. Por cima desta usava a camisa que era, normalmente, “enfiada” pela cabeça.

Estas eram aquelas camisas que tinham apenas uma pequena enfiada de botões na parte superior, no chamado espelho. Havia também outras que tinham duas frentes de botões até ao fundo. Outra característica residia no facto de terem ou colarinho, ou a chamada “gola à padre”.

Estas camisas eram, na sua grande maioria de cor branca, mas também as havia de outras cores, sempre sóbrias.

Colete e jaqueta

Por sobre a camisa vestia, invariavelmente, o colete preto, cinzento ou castanho, quase sempre. Este colete, em situação de trabalho, e por vezes mesmo nas festas, usava-se desabotoado.

Quando trabalhava era esta a cobertura do tronco, quando assim não ac0ntecia vestia ainda a jaqueta de cores escuras com maiores ou menores adornos (tais como os alamares) consoante o maior ou menor poder económico do seu proprietário.

À volta da cintura, o saloio usava, frequentemente, a faixa ou cinta de cor preta (mais raramente vermelha), por vezes com um bordado nos dois extremos e franjas nas pontas.

Nos dias invernosos usavam a samarra ou o capote, que vários autores consideraram como “irmão gémeo do capote alentejano”.

A saloia era mais alegre e graciosa nas vestes que cobriam o seu tronco. Assim, e de maneira geral, usava uma blusa cintada, com aba, franzida ou com um machinho, blusas estas que tinham padrões floridos e, não raras vezes, eram de cores alegres e vivas.

Por sobre estas usavam as vasquinhas, curtos gibões, ou casaquinhos de chita, ajustados ao busto. Usavam também um xaile pelas costas, sobretudo em casa, predominantemente as mais velhas.

Como roupa interior, a saloia usava igualmente o corpete, servindo para “segurar o seio”; algumas preferiam o espartilho. Era alva esta roupa interior.

Também a saloia usava capote, ou capa, para se proteger do frio e dos dias chuvosos.

As pernas

O saloio usava, obviamente, calças. Calças que, de forma geral, tinham bolsos direitos, apertavam à frente com botões e atrás ajustavam com uma fivela; eram de talhe direito e folgadas ou, mais comummente, justas à perna alargando em baixo de forma a tapar a parte superior da bota.

Eram, usualmente, em cotim, às riscas verticais ou lisas, e também em fazenda ou outros tecidos grossos. No trajar mais “cuidado” usavam calças feitas de “pele de diabo” – bombazina.

A saloia usava, obviamente, saias. A saia era sempre comprida, embora nunca fosse aarrastar pelo chão. Em situações de trabalho usava-a um pouco mais curta, de forma a não atrapalhar os movimentos do seu trabalho.

Para além das saias, a saloia usou durante muito tempo a sobresaia que, muito provavelmente, foi mais tarde substituída pelo avental (também chamado anágua). Este objecto não tinha apenas a função utilitária de evitar sujar a saia, mas era igualmente um adorno utilizado não só nos dias de trabalho mas também em situações festivas, onde era costume estrear um avental novo.

Os pés

Nos pés os saloios usavam quase sempre botas de couro. No trabalho, na festa, na igreja. Só os mais endinheirados usavam, por vezes, o sapato, embora mesmo estes optassem, frequentemente, pela bota ou botim, talvez uma pouco de melhor qualidade e por conseguinte mais caro.

Eram, normalmente, de couro branco, curtido com o passar do tempo e do uso. Eram também ferrados, com o fim de durarem mais tempo e os saltos tanto podiam ser de prateleira com um pequeno tacão.

Tanto estas como as de tacão raso tinham sempre as “tacholas”. Podiam ser de cano inteiriço, até meio da perna, mas o mais natural era serem mais baixas, sobretudo as que eram utilizadas no trabalho do campo.

A saloia também usava bota, normalmente de cano curto e com um pequeno salto.

Em dias de festa deixava, por vezes, as botas e calçava sapatos rasos de cordovão de cabedal branco. Também havia aquelas que cobriam os pés com umas grossas botifarras de couro atanado, de cano alto e fechadas verticalmente por meio de uma carreira de botões.

Roupa interior

De alguma roupa interior já aqui falámos. Mas devemos agora dizer que esta era quase sempre de cor branca. A excepção mais notada era, como já vimos, a camisola que o homem usava por debaixo da camisa, que era, muitas vezes, de cor escura. Os homens, por debaixo da roupa “exterior” usavam umas cuecas ou mais comummente ceroulas e meias geralmente de lá grossa.

Nas mulheres, a roupa interior era mais complexa. Usavam no busto os corpetes ou os espartilhos, usavam também cuecas (anteriormente usavam os culotes) e saiotes – ou anáguas. As meias era, por vezes, de renda e muito trabalhadas, sendo apertadas um pouco acima do joelho por meio de uma liga ou atilho.

Acessórios

Os saloios e as saloias nunca foram de muitos enfeites, sobretudo aqueles considerados como mais ou menos supérfluos. E aqui, quando falamos de acessórios, referimo-nos a objectos de utilidade, cumprindo, por conseguinte, uma função específica no trajar destas gentes, ou complementando essa forma de trajar.

É assim que no homem é indispensável o uso do varapau ou cajado. Todo o saloio que se preza o usa, servindo-se dele como elemento decorativo, mas, igualmente, como apoio e “arma” de auto defesa em caso de rixas (muito comuns nas feiras ou romarias), ou então quando era vítima de alguma eventual tentativa de assalto.

Também alguns homens usavam, embora só em alturas festivas, um relógio de bolso, com a respectiva corrente pendente de um bolso para o outro do colete.

A saloia nunca foi mulher que fizesse muito uso da ostentação. Esta mulher do campo raramente usava pulseiras ou fios de ouro, a não ser em ocasiões muito raras e muito festivas. Os seus ornamentos eram um vestido mais novo e mais colorido que o usado nos dias normais.

As bolsas

No entanto, podemos falar de acessórios, também eles de muita utilidade prática, como eram as bolsas onde guardavam alguns haveres pessoais mais essenciais ao seu dia-a-dia, como um lenço de assoar ou algum, pouco, dinheiro.

Esta bolsa era feita em pano e tinha forma quadrada ou arredondada, Por vezes, usava uma outra bolsa, pendente à cintura por meio de atilhos e colocada por dentro da abertura da saia.

Outro acessório muito usado pelas saloias eram os brincos, que lhes eram colocados ainda em criança pelas suas mães.

Já vimos como na cabeça a saloia usava, quase sempre, o seu lenço, mas para segurar o cabelo, por exemplo em carrapito, esta mulher também usava um pente de grande dimensões, feito em tartaruga, que com os seus grandes dentes permitia prender o cabelo, impedindo que este se soltasse. A mulher saloia raramente andava com o seu cabelo (invariavelmente comprido) solto sobre os ombros.

Texto – “O Trajo Saloio” – Brochura editada pela Câmara Municipal de Loures / Departamento Sócio-cultural – Texto e selecção de fotos de Francisco Sousa – Novembro de 1995 (texto editado e adaptado) | imagem de destaque: “Saloias” por Silva Porto

Fonte da imagem

Fonte da imagem

Trajo de Romaria da Póvoa de Varzim | Trajes tradicionais

Póvoa de Varzim. Século XX.       

Trajo masculino

Camisa, camisola e calça  | Acessórios: catalão, precinta e soletas

Camisa oculta pela camisola de malha de lã branca, cujo feitio segue o corte de uma camisa tradicional, decorada com motivos marítimos, bordados a ponto de cruz com fio de lã vermelho e preto.

Calças de branqueta, com bolsos abertos acima dos dianteiros, pespontados a preto e vermelho; maneira e costuras laterais também pespontadas. Precinta branca ajusta o cós das calças. Na cabeça, catalão de malha vermelha com barra branca. Calça soletas de couro com rasto de pau.

Neste conjunto, a camisola é a peça que merece um olhar mais atento.

Confeccionada em malha de lã branca, segue de perto o corte da camisa, mantendo ainda a forma antiga de fechar, isto é, com os cordões em vez de botões. São ainda notáveis os motivos decorativos bordados, inspirados nos apetrechos marítimos, usados pelo pescador.

Quanto a origem desta decoração, têm-se levantado algumas interrogações. Podemos no entanto acrescentar ser prática corrente entre os pescadores poveiros marcarem os seus pertences com siglas, para os identificarem com maior facilidade.

Terá sido este costume que levou esses velhos lobos-do-mar a marcarem também as suas roupas, dando origem aos desenhos nas emblemáticas camisolas.

Trajo feminino

Camisa, saia e colete | Acessórios: lenços, listrão, chinelas e ouros

Camisa de algodão branco, quase oculta pelo colete de berre, isto é, pano de lã vermelho, debruado a verde, com costuras pespontadas e ajustado na frente.

Saia de vestir de lã branca (branqueta) com preguinhas miúdas junto à cintura e macho largo na frente; sobre a anca, arregaçando a saia, cordão policromo (listrão ou ourelo).

Cruzado sobre o peito, lenço de metim (sarjinha miúda) com as pontas atadas nas costas. Na cabeça, lenço estampado cachené, trespassado na nuca; deixando cair as pontas na frente.

Calça chinelos pretos de bico arrebitado. Das orelhas pendem «flores de ouro» e sobre o peito cordão com moedas e cruz.

Embora não se mostrem aqui, faziam ainda parte deste trajo, a saia de costas, que tal como o nome indica se colocava sobre as costas. Tinha dimensões específicas na altura e na roda, servindo também como peça de luto.

O casaco curto, de pano piloto com barras de cetim ou de veludo lavrado, completava o conjunto.

Uma explicação sobre o listrão ou ourelo merece ser dada. Com a sua aparência singela, este cordão continha um sentido e uma mensagem de conteúdo amoroso.

O moço poveiro casadoiro embarcado, quando ia à Galiza tinha por tradição trazer à sua amada o listrão.

De regresso, quando o barco assomava à praia, lá estava ela esperando o sinal do seu amado, que de longe lhe acenava com o listrão na mão. A este aceno corria a rapariga ao seu encontro e no meio de abraços recebia o presente esperado.

O listrão deixou mais tarde de vir da Galiza e passou a ser feito na terra, tomando o nome de ourelo.

Fonte: “O Trajo Regional em Portugal” – Tomás Ribas

Traje de Branqueta

Os pares que o formam envergam os trajes que correspondem ao de romaria da Classe Piscatória Poveira no final do século XIX, usados quando os pescadores poveiros se dirigiam aos centros de peregrinação, para cumprir as promessas que faziam em momentos de perigo ou de doença grave.

A grave tragédia marítima de 27 de Fevereiro de 1892 que, ao vitimar grande número de pescadores poveiros, afogou a Póvoa no luto da viuvez, orfandade e familiar levou ao desaparecimento dos trajes garridos da comunidade piscatória.

Em 1936, com a fundação do Rancho Folclórico Poveiro, este vistoso traje foi recuperado, constituindo a indumentária do Grupo.

Os homens envergam as características camisolas poveiras, de lã branca, bordadas a ponto de cruz, com motivos marítimos, as calças são de branqueta, enfaixada, a cabeça cobre-se com um típico “catalão” vermelho, forrado a branqueta, e calça meias de algodão com “berloques” e chinelos de cabedal amarelo.

As mulheres vestem camisa branca e colete vermelho, apertado com atacadores, saia de branqueta, comprida e bastante rodada sobre um saiote vermelho de branqueta, à volta da cinta, para arregaçar as saias, um ourelo (cordões de lã) de cores diversas, pelas costas traçam um xaile branco e cobrem a cabeça com lenço de merino, de cores garridas.

Ao pescoço usam ricos cordões de ouro nos quais penduram lindos crucifixos. Calçam meias de algodão, rendas e chinelos de verniz preto, arrebitados no bico, característica local.

Fonte do texto e da imagem de destaque

A Mulher Estremenha | Trajes regionais de Portugal

A Mulher Estremenha

As divisões administrativas raro obedecem ao constitucionalismo regional, quer no aspecto externo, quer no ponto de vista interno ou etnográfico.

Se nos referirmos concretamente à Estremadura, observamos caracteres próprios e caracteres que o não são:

– ao Norte poderá ver-se uma confusão não estranhável com a Beira-Marítima [Beira Litoral];

– a Nordeste, pelo Zêzere, uma sobreposição de estremenho ao beirão da Beira Baixa;

– a Este, o Ribatejo prolonga-se para a margem esquerda do Tejo, mas não tão além como devera de ser;

– para Sul, está incluída na Estremadura Transtagana, hoje incluída no distrito de Setúbal, a vasta região meridional, que só administrativamente continua o Ribatejo esquerdenho.

De onde se conclui, para o apontamento do traje, agora em vista, que a estremadura característica abrange estes três tipos, ao mesmo tempo etnográficos e panorâmicos, isto é, interna e externamente considerados:

– a região plana do Norte, a ligar-se pela costa com a Beira-Marítima [Beira Litoral], de Pombal para baixo, em torno de Leiria e Alcobaça – a Gândara;

– o vale do Baixo-tejo, nas planas baixas e inundáveis, a um e outro lado do rio – o Ribatejo;

– e as circundezas de Lisboa, nestes territórios tectónicas de formação movimentada, que teriam de ser chamadas a constituir a terra dos saloios.

No traje, que define objectivamente a mulher, a Estremadura reparte-se nos tipos correspondentes às três regiões:

– a gandareira,

– a ribatejana, a que poderíamos chamar «campina», por paralelismo com a designação da facies masculina de indumenta,

– e a saloia.

Invoco dois depoimentos da gandareira, um estrangeiro, outro nacional:

Lisboa, Caldas da Rainha e Alcobaça

1º – M.me Rattazzi foi de Lisboa às Caldas, a Alcobaça, etc. – via ordinária, evidentemente.

Depois de se referir a que «a vida rústica exerce-se ao ar livre», menciona a impressão que as mulheres lhe deixaram: – aldeãs com cestos à cabeça, com bilhas de leite nos braços, fazendo meia e parando para dar os bons dias aos compadres… [Portugal de Relance, tradução portuguesa do livro Le Portugal à vol d’oiseau, – vol. II, pág. 116].

E logo adiante em Alcobaça: «aldeãs de pele queimada e grandes olhos negros caminhavam alegremente».

Em Leiria

2º – Eça de Queiroz descreve a praça de Leiria, às horas da missa, em O Crime do Padre Amaro (8ª ed., pág. 316): – «as mulheres, aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações d’ouro sobre os peitos pejados».

O mercado de Leiria ao Domingo é um museu.

Guardadas ao proporções, a gandareira é a minhota do Sul, no pitoresco e colorido como nos tecidos do trajo.

Serguilhas nas saias rodadas, azuis com barras; corpinhos variegados em que vibra um veludinho de pintura flamenga, e faz ver nas mulheres umas figurinhas escapas de uma qualquer tábua de Nuno Gonçalves ou Frei Carlos; um chapelinho de forma de pudim, na cabeça; a saia escura, mesmo negra, que serve de capa, ou para o frio ou para cerimónia, como na igreja, ou de visita; chinelas biqueiras nos pés, – aí está o traje mais curioso da Estremadura.

Mulher viva, de uma actividade urgente na região rica…

No Ribatejo

No Ribatejo, o pitoresco do traje é superior no homem, que Fialho de Almeida assim descreve em Os Gatos: – «calção azul e sapatos de espora, e barrete verde ou rubro, plantado esculturalmente numa sela mourisca, com seu xairel de pele de cabra.» (4ª ed., vol. IV, pág. 140).

A mulher é ao par dele uma nota fresca, de cor simples: panos de loja, que na pujança agrícola não há labor de tecelagens, e está-se mais cerca da moda de Lisboa, de onde se repartem os figurinos e as cantigas; cores leves; ventalotes curtos, lençaria traçada ao peito, saiotes de uma cor, saias claras.

A saloia

A saloia teve o seu quindim de indumentário.

É vê-la nas aguarelas luminosas de Roque Gameiro e de Alberto Sousa, com o seu barrete vistoso em bico [na imagem], hoje apenas com similar no carapuço da Madeira.

Hoje é talvez a mais marafona das mulheres de Portugal: camisete clara, solta; saia rodada curta, a mostrar os pés dentro de grossas e altas botifarras de atanado; lenço de preferência claro, caído, a meter-lhes a cabeça num capuz sem capa.

Olhando-nos desconfiada, ela aí passa nas ruas de Lisboa, de trouxa de roupa à cabeça, ou a vender broas de pão-milho, laranja da China, tremoço saloio e outras mercancias.

E quem quiser ilustração para o conto, não há como folhear o ensaio bibliográfico dos Costumes Portugueses, editado pelo meu amigo ilustre, que é o académico sr. Henrique de Campos Ferreira Lima; folhear e escolher.

Luís Chaves

In “Alma Nova” – V séria – nº 13 – Maio de 1929 (texto editado e adaptado) | Imagem: “A volta do mercado” – Roque Gameiro, in «Ilustração Portugueza», nº624 – 4 de Fevereiro de 1918

Termos relacionados com tecidos dos trajes tradicionais

Glossário de tecidos e outros

Albarrada – elemento decorativo de origem oriental, composto por vaso com flores.

Aletas – espécie de cabeção, existente na capa de honras, que desce até à cintura.

Barras – parte inferior do colete do traje das lavradeiras do Minho, que é geralmente de veludo bordado.

Bioca –  capa ampla, comprida e com capuz.

Branqueta – nome dado ao tecido confecionado com lã de cor natural; peça de vestuário  usada pelos sargaceiros do litoral minhoto.

Briche – nome dado ao tecido de lã fina, confecionado com la penteada.

Burel – nome dado ao tecido confecionado em lã. pisoado e usado no traje de trabalho.

Cachené – deturpação popular da palavra francesa «cache-nez», para designar um lenço de cabeça em tecido de la estampada.

Capeto – cobertura protetora do capuz que acompanha a saliência do pescoço e se prolonga até aos ombros.

Capucha – capa de burel que cobre a cabeça e o corpo, usada em Trás-os-Montes e Beira.

Carapinha – tira de malha executada com fio de la formando argola, usado na decoração dos barretes.

Catalão – carapuça de lã, oriunda de Espanha.

Cetim – ponto de tecelagem cujos ligamentos estão repartidos de maneira a dissimularem-se entre as lassas adjacentes, a fim de constituírem uma superfície unida de lassas.

Feltro – tecido fabricado com filamentos de lã ou pelos prensados e fortemente aglutinados.

Forro – larga barra, geralmente bordada, que guarnece a extremidade inferior das saias das lavradeiras do Minho.

Listrão – cordão de cores diversas usado à volta da cinta, para arregaçar as saias, oriundo de La Guardia e Baiona.

Louisine – ponto derivado do tafetá, em que os fios de teia, agrupados regular ou irregularmente, são remetidos cada um em sua malha, para se obter uma perfeita separação e paralelismo nos seus cruzamentos com a trama.

Moiré – efeito decorativo sobre um tecido, obtido por esmagamento a quente.

Ourelo – cordão de cores diversas usado à volta da cinta, para arregaçar as saias das poveiras.

Pala – nome dado à barra pregueada das saias do traje feminino da Madeira (viloa).

Palote – pequeno bastão usado pelos Pauliteiros de Miranda, na execução das suas danças.

Pequim – tecido de listras à teia, produzido por pontos diferentes.

Pestana – tiras cortadas em viés, pespontadas e terminadas em bico que decoram as camisas dos pescadores da Nazaré; são geralmente do mesmo tecido da camisa.

Pisão – máquina em que nas tecelagens se aperta e bate o pano, para o tornar mais consistente.

Precita – faixa usada à volta da cintura dos pescadores da Póvoa de Varzim.

Puxados – efeito decorativo produzido nos tecidos em que a trama é puxada por ganchos, formando pequenas argolas.

Raixa – possível deturpação de raxa – espécie de pano grosseiro sem pelo.

Redingote – palavra de origem inglesa («Riding-Coat») que se aplica a determinado tipo de corte

Riscado – tecido de algodão, ponto de tafetá, caracterizado por riscas de cor alternadas com riscas brancas.

Rodilha – argola confecionada em tecido e almofadada, usada sobre a cabeça para proteção e maior comodidade no transporte de volumes.

Saragoça – tecido de lã grossa confecionado em teares manuais.

Sarja – ponto de tecelagem caracterizado pelos efeitos oblíquos, obtidos pela deslocação de um fio de teia para a direita ou para a esquerda em cada passagem de trama.

Seriguilha – tecido de confeção manual, onde a teia é de linho e a trama de lã.

Silvas – elemento decorativo bordado, formando motivos vegetalistas, que decora o traje das lavradeiras do Minho.

Sueste – designação dada ao chapéu usado nas fainas piscatórias e na apanha do sargaço. Caracterizava-se pela impermeabilização do tecido por meio de óleo.

Tafetá – designação dos tecidos em cujo ponto a repetição se limita a dois fios e a duas passagens; e no qual os fios pares e impares alternam em cada passagem por cima e por baixo da trama.

Tecido pisoado – tecido com acabamento no pisão.

Trincha – tira pregueada com cerca de quinze centímetros de altura, cosida à parte superior da saia do traje da lavradeira do Minho.

Vega – nome atribuído à lã de ovelha de cor castanha-clara.

Veludo – tecido cuja superfície é coberta de anelado ou felpa, saindo de um cruzamento de fundo.

MCG; MG

Fonte: “Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa” – Museu Nacional do Traje – Lisboa Capital Europeia da Cultura 94

Trajes de mulher do norte de Portugal (séc.XIX)

Uma vendedeira do Mercado no Porto

As províncias do Minho e Douro são, incontestavelmente, as que apresentam costumes mais pitorescos e característicos nos trajes dos seus habitantes.

Quem visitar a cidade do Porto tem ocasião de observar a variedade de trajes que as mulheres dos arredores apresentam.

Nas ruas e nos mercados aparecem estas mulheres ostentando os seus elegantes vestuários, de um aspecto muito original e um tanto varonil, e de facto elas desenvolvem uma actividade que lhes dá, em geral, uma certa superioridade ao sexo forte.

É esta raça forte de mulheres que dá as Marias da Fonte, e ninguém depois de as ver duvidará do seu valor.

Uma vendedeira do Mercado no Porto (Desenho de M. de Macedo) “Occidente”, nº173

 

Mulher do Alto Minho

Com a saia farta e muito rodada, ornada de uma larga facha escura, avental de cor, também terminado por uma facha ainda mais larga, chinela de bico, colete enfeitado de botõezinhos miúdos, lenço deitado pelas espaldas cujas pontas se vem cruzar no peito, e sobre o qual se voltam em torno do pescoço os folhos que guarnecem o cabeção da camisa de linho ou estopa, e alguns colares ou cordões donde pendem um coração, uma cruz ou outras medalhas, caminha para o mercado ou para a feira a jovem aldeã.

Sobre o lenço que apenas cobre o alto e a parte posterior da cabeça pousa a sogra ou rodilha em que assenta o canastrel, onde leva o que há-de ir vender.

As mangas arregaçadas deixam ver dois braços roliços mas alvos, e por entre a saia e o colete espipa na cinta um refego da camisa.

Sem perder tempo para o trabalho vai fiando a sua rocada de linho, e quando voltar a casa terá feito algum negócio, e trará meia dúzia de massarocas para acrescentar à teia do ano.

É um traje pitoresco, como todos os do nosso Minho e Beira, que o lápis de Manoel de Macedo teve a descrição de copiar do natural.

Mulher do Alto Minho (Desenho de M. de Macedo) “O Occidente”, nº178

 

Uma ceifeira da província do Minho

A nossa gravura representa uma ceifeira do Alto Minho, com os seus costumes pitorescos e excêntricos, que constituem uma verdadeira riqueza artística para os pintores do nosso país.

É mais um estudo dos costumes nacionais da vasta e opulenta galeria de Manoel de Macedo, um dos poucos que sabe avaliar e explorar o pitoresco português.

Uma ceifeira da província do Minho (Desenho do natural por M. Macedo) “Occidente”, nº150

 

Mulher dos arredores do Porto

“A gravura representa um dos variados tipos de mulheres do Douro que, todos os dias se avistam na cidade do Porto, onde vêm vender nos mercados as frutas, hortaliças, legumes, etc. das suas aldeias.

O seu trajo é extremamente pitoresco, realçado pelo ouro que lhe pende das orelhas e do colo, indo descansar sobre o peito que fica completamente coberto de corações e imagens da virgem, tudo de filigrana do precioso metal.

Esta riqueza representa ordinariamente o fruto das suas economias e quanto tem quanto trazem em cima de si, e a paixão que têm pelas joias obrigam-nas muitas vezes às maiores privações, para adquirirem mais um coração, mais uma conta para o colar de ouro, etc.

Estas mulheres do Douro, assim como as do Minho são de uma grande actividade, trabalhando na lavoura e no seu comércio com mais vigor que os homens daquelas províncias.”

Mulher dos arredores do Porto (Desenho natural por M. Macedo) “Occidente”, nº158

Traje dos estudantes do Liceu – a batina | Alentejo

Traje dos estudantes do Liceu – a batina

«Os estudantes do liceu trajam ainda a teológica batina.

É um resto dos costumes de outrora, em que o ensino era mais eclesiástico de que leigo.

O mesmo se observa noutros liceus, como, por exemplo, no da Guarda.

Por várias vezes se tem debatido na imprensa se convém ou não que os estudantes tenham uniforme.

Os rapazes influem-se principalmente com isto por um bocado de vaidade de se destacarem dos futricas.

Aqui há uns meses os estudantes passam pelo cómico de pedirem ou tentarem pedir ao Governo que lhes desse a batina dos estudantes de Coimbra!

Ora a batina em Coimbra tem uma certa significação, porque representa antigas tradições, embora se vá de tal modo já secularizado, que, com o tempo, tem perdido uma parte do seu comprimento e está hoje reduzida a um casaco.

No Porto, porém, não há esta tradição.

A escola de Medicina, de que me honro de ser filho, teve uma origem muito diversa da Universidade; portanto, a implantação da batina nela parece-me um anacronismo, que só posso explicar pelo hábito que todos têm de imitar o que é dos mais.

Se querem um uniforme, escolham outro; ainda que eu acho isto uma coisa secundária, sem essa grande vantagem que lhe apregoam, e entendo que a principal distinção do estudante é a sua aplicação e o seu saber. » (1)

***

No blogue “Viver Évora” – de onde foi retirada a imagem acima – encontramos o texto de um edital, mandado publicar, a 18 de Julho de 1861, pela reitoria do Liceu de Évora:

EDITAL

João Rafael de Lemos, comissário dos estudos do distrito de Évora e reitor do Liceu Nacional desta cidade, por S. Magestade (sic) o Senhor D. PedroV, (…) faz saber que:

Os alunos do Liceu Nacional desta cidade são obrigados a apresentarem-se em todos os actos escolares com o vestido talar académico, cujo uso lhes foi concedido pela Portaria do Ministério do Reino de 27 de Outubro de 1860, sob pena de serem riscados do livro de matrículas os contraventores.

E para que chegue a notícia aos interessados (…)

Évora, 18 de Julho de 1861

O comissário de estudos e reitor do Liceu

João Rafael de Lemos

(1) Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

Trajos de Entre Douro e Minho | Lavradeira e Trajo de Afife

Trajo à Lavradeira

O que no país se chama trajo à minhota, à moda do Minho, à vianesa, não é próprio de todo o Minho, como toda a gente sabe naturalmente: em regra è próprio de Viana de Castelo.

No Minho chamam-lhe trajo à lavradeira.

É próprio da aldeia de Santa Marta de Portuzelo, no concelho de Viana do Castelo.

Desnecessário é descrevê-lo: é conhecimento geral e aparece muito particularmente na época carnavalesca.

Mas, diga-se de passagem, que perde muito fora do corpo forte das lavradeiras do Minho, porque só elas sabem luzi-lo, com a sua mobilidade extrema, que lhes dá inimitável graça e donaire.

Trajo de Afife

Outro vestuário típico de Viana do Castelo é o de Trajo de Afife.

As mulheres trazem uma blusa justa ao busto, adulteração do primitivo trajo aldeão. Foi influência da cidade, que é perto.

A saia diferença-se da de Santa Marta de Portuzelo em certas listas serem mais largas, as fundamentais.

Por exemplo: listas largas vermelhas e entre elas uma listazinha preta ladeada por listazinhas brancas.

O forro da saia (isto é, a barra da saia) é, em geral, preto, ao passo que em Santa Marta de Portuzelo é vermelho.

O lenço é semelhante ao de Santa Marta, mas mais franjado.

O avental é semelhante aos da cidade: estreito e não tecido.

Sobre o peito traçam, nem sempre, em lenço, em geral cor de canário.

Usam sombrinha como a das senhoras da cidade.

Extractos de um estudo sobre o trajo minhoto apresentado a José Leite de Vasconcelos, por António de Jesus Gonçalves, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, em 04.07.1916.

“Uma lavradeira de Afife provida de uma sombrinha luxuosa”

Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem: “Ilustração Portugueza” nº181 – 9 de Agosto de 1909

Trajos de Entre Douro e Minho – Vila Nova das Infantas

Traje característico das mulheres de Vila Nova das Infantas nos arredores de Guimarães

Traje de andar a cotio ou dos dias da semana

As mulheres têm duas espécies de trajo: o de andar a cotio ou dos dias de semana e o dos Domingos.

O trajo de andar a cotio ainda varia conforme se está no Verão ou no Inverno

No Verão é extremamente simples: camisa de tomentos encabeçada de linho ou estopa fina de meia manga rematada por entremeio e renda de croché, cingida ao corpo pelo original colete de rabos, profusamente guarnecido de fitas de cor, franzidas, ao sabor da fantasia da possuidora.

Este colete é extremamente elegante: nas costas não tem mais de um decímetro de largura, e pelas cavas, fundas, aparecem as ombreiras da camisa, com pregas bordadas a algodão vermelho.

Este colete, muito curto de cinta, termina por seis rabos, dois largos à frente, dois menos largos atrás e entre estes, outros dois estreitos, talvez de um centímetro.

As saias brancas de farta roda são geralmente de pano-cru e por sobre três ou quatro destas saias cai uma outra de riscado, chita ou de um tecido misto (linho de lã) de cor escura.

Um avental grande, também dos mesmos tecidos, cobre a saia até quase à fímbria.

Um lenço de chita, com ramagens, que lhe envolve o busto, cruzado no peito, e um outro apertado no alto da cabeça completam o vestuário usado todos os dias.

Os pés, quase sempre nus, ou, quando muito, dentro de uns socos grosseiros e já concertados (socos tachados).

No Inverno, algumas das saias brancas são substituídas por um saiote vermelho, e por sobre o colete e o lenço de chita usam um casaco redondo, que apenas chega à cintura.

Trajo de Domingo

O trajo de Domingo pode ser igual, mas com maior riqueza, isto é, a camisa toda de linho e bordada nas mangas, o colete de veludo, as saias de fazenda, os aventais de veludo bordado a vidrilhos (mendrilhos, segundo elas), os socos de verniz e forrados, ou então chinelas e meia branca.

Os lenços são: de seda, o da cabeça; um cachené, o do peito.

Às vezes acrescentam a isto o tal casaco redondo, de fazenda leve, com pele a debruá-lo.

Completa o vestuário domingueiro um lenço de bolso, de linho, com entremeio e renda bastante larga, todo bordado a vermelho.

O assunto desse bordado é quase sempre amoroso: uma pomba com uma carta no bico, dois corações juntos engrinaldados de flores, etc., e sempre com uma quadra.

De uma delas me lembro eu:

Nos nossos corações unidos
Brotam sempre lindas flores;
No teu brotam malmequeres;
No meu perfeitos amores.

Extractos de um estudo intitulado “Traje característico das mulheres de Vila Nova das Infantas nos arredores de Guimarães” feito por Beatriz Aurora Maria de Almeida, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de 10.07.1916.

Lavradeiras negociando a troco de dez rezinhos para a santa da sua invocação o seu grande ramo de flores (Na romaria de São Tiago – Guimarães)

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos | Imagem (meramente ilustrativa): Lavradeiras minhotas na Romaria de São Tiago – Guimarães (“Ilustração Portuguesa” – 1913)

Trajos de Grândola e Trajos de Arronches | Trajos do Alentejo

Trajo de Grândola

O trajo dos pastores pouco difere dos demais trabalhadores rurais, que vivem nas casas de campo.

No entanto é neles mais frequente o uso

– dos botins (bota pelo meio da perna),

polainas (a que noutro tempo ouvi chamar geralmente botinos),

samarra (casaco de pele do ovelha, sem mangas e com uma pequena aba a proteger os úmeros),

pelico de pele de ovelha e semelhante à samarra, mas talvez mais curto diante e com aba da parte de trás (o tapa-cu), para cobrir o espaço debaixo a descoberto pelo guarda-matos (nome vulgar dos safões), podendo a samarra e o pelico terem mangas ligadas por cordões ou correias.

Usam também os trabalhadores de enxada e os ganhões (assalariados com contrato por ano, que se empregam geralmente em trabalhos de culturas e de colheitas) umas metades de chapéu ligadas em volta dos tornozelos, caindo sobre os sapatos para evitar a entrada de terra nestes, a que dão o nome de enteparras (por entreparras ou enteparras, decerto) e semelhantes às polainas vulgares.

Apontamento do Dr. Manuel Matos

Trajo de Arronches 

O alentejano da minha terra, ao contrário de que sucede em outras regiões de Portugal, não prescinde das ceroulas de pano cru e das meias grosseiras, de cores vivas, feitas em casa, por mãos de velhas nos serões de Inverno e nas tardes estivais.

Veste ordinariamente calça de casimira grosseira, que se ajusta inferiormente à perna e se chama por tal motivo calça de boca de sino. Por sobre a camisa ornada de colarinho mole, mas sem gravata, usa o colete quase sempre desabotoado.

Quando o tempo é quente a roupa de cima não vai além das peças já iniciadas, sucedendo usar-se às vezes a jaleca ao ombro. Quando o tempo, ao contrário, é frio, veste a sua jaqueta ou jaleca, talhada sempre curta e ajustando-se ao corpo de uma maneira apertada.

As golas de atraçã, os vivos ou debrunas de fita preta, as alamares de prata – tudo isto hoje está em desuso já, e apenas se conhece de memória e de tradição. O calçado é quase sempre branco – botas e sapatos.

Só domingueiramente se usa o calçado engraxado. A bota alta de montar e a polaina empregam-se apenas quando as necessidades rústicas o exigem. O chapéu usado é o chapéu braguês de aba comprida e larga, chapéu de enormes proporções, que antigamente possuía como ornamentos grandes borlas pretas, hoje desusadas também.

O tipo do capote alentejano é conhecido. Só com a gravura respectiva o poderia descreves competentemente. Os safões ou ceifões de pele de chibo comprados nas feiras usam-se apenas quando as necessidades da vida agrícola aconselham a sua convivência.

Vestuário feminino

O tipo do vestuário feminino está-se incaracterizado também.

As saias de cima, quase sempre de cores vivas, têm comummente muita roda e usam-se sempre compridas.

A mulher da minha terra não sofre como a mulher de Nisa, põe exemplo, a moda da saia curta. As blusas ou roupinhas duma simplicidade extrema, ajustando-se ao corpo e deixando conjecturar toda a plástica do busto.

Quase sempre se usa o lenço na cabeça, ora atado com um nó sob o queixo ora atado com um nó também no alto da cabeça. Este lenço da cabeça e às vezes um lenço de malha próprio usam-se no busto, caindo em pontas sobre as costas e abrindo em decote sobre o peito. A mulher da minha terra nunca anda sem meias ou sem sapatos.

Xaile e mantilha

O xaile, grande xaile de merino, é peça de roupa indispensável. Pode usar-se dobrado em bico ou em ar de manta. Este último processo é considerado um processo fino de usar o xaile.

Hoje já não se veem mantilhas; muito raramente também se vê o bioco. Este é caracteristicamente regional, penso eu. É uma espécie de capa de um tecido preto, deixando cair à frente sobre a cabeça e o rosto um véu de tecido preto por igual e transparente.

Era dantes muito usado nos domingos e dias de festa. Foi peça de roupa imprescindível num bragal completo e trajava-se quando ia à missa.

Hoje, como o culto católico está muito em decadência, como quase ninguém vai à missa e as igrejas estão fechadas, o bioco só muito raramente se vê em mulheres de certa idade, que ainda se conservam fiéis ao cumprimento dos preceitos religiosos tradicionais com que foram criadas.

Extractos de um estudo acerca do trajo de Arronches, feito por Teófilo de Oliveira Júnior, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de Julho de 1916

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa): “Tipo do Alentejo” – Boletim Fotográfico – nº10 e 11 – Out e Nov de 1900

Trajos de Entre Douro e Minho | Trajos tradicionais

Trajo da semana

O trajo da semana é pobríssimo, principalmente o das pessoas de idade mais avançada, e compõe-se do que passo a dizer:

– saia de serguilha tecida de lã, avental igual, colete (espartilho) redondo com quatro espigões, de cana à frente, com uma cinta de veludo guarnecida com lãs de várias cores e algumas lantejoulas;

– camisa de linho e um saiote branco com barro de chita, aparecendo por espaços remendos de diferentes cores;

lenço de chita ordinária ao pescoço e idêntico na cabeça;

– pequenas argolas e um fio de contas;

– andam descalças ou calçam uns socos (tamancos) muito usados.

Quando saem para a rega (para regar o milho) ou outro trabalho, usam o mesmo fato, apenas arregaçam as saias por causa da humidade, o que elas chamam ensacar. Na ceifa do centeio ou milho usam um chapéu de palha atado com as pontas do lenço que trazem na cabeça.

Trajo para a igreja

Para a igreja, principalmente em dias solenes, o trajo mudo:

– calçam chinelas pretas com um laço na parte superior e as mais das vezes são cheias de ramalhetes de algodão de várias cores;

– meias de cor, geralmente tecidas por elas;

– vestem quatro, cinco, e quantas vezes seis saias brancas de linho com folhos de morim, com um pequeno bico de croché;

– por cima destas um saiote de pano vermelho com duas barras estreitas de veludo preto, e por cima de tanta saia e saiote vestem a saia de beata preta, também com barras de veludo, avental do mesmo tecido com um folho de setim, chambre de cor com guarnições garridas e lacinhos na frente;

– três, quatro, cinco e mais fios de contas, grilhões em enormes medalhas de ouro, onde colocam os retratos dos seus tones (namorados).

– Das orelhas pende um ou dois pares de argolas grandes.

O penteado é com uma poupinha à frente, muito brilhante devido à banha de porco que elas usam, caindo sobre a testa caracóis ou cachos, que elas fazem com o auxílio de um rabo de garfo; lenço na cabeça completamente variado nas suas cores e cheio de enfeites.

Trajo de feira

O trajo da feira compõe-se do mesmo calçado, saia de anil com silvas de lã de diversas cores, avental do mesmo gosto, algibeira ao lado direito, bordada de missanga e lãs, com o nome de pessoa, onde se vê um lenço branco, marcado com algodão vermelho, tendo nos quatro cantos dizeres engraçados e curiosos;

ao meio do lenço sobressaem certos enfeites, que em geral são: um coração, um amor, um cravo, etc.;

colete vermelho guarnecido de sotage e missanga;

uma camisa alvíssima de linho com punhos ramalhados de vermelho ou azul;

um lenço franqueiro na cabeça;

muito ouro.

A propósito de ouro costumam dizer: «Para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes.»

Na mão esquerda usam muitos anéis de prata, naturalmente para indicarem o seu estado de solteiras.

Trajo para ocasião de luto ou dó

Quando é ocasião de luto ou dó vestem-se de preto, cobrem as argolas com pano da mesma cor e deitam uma saia pela cabeça.

Se os maridos se ausentarem por muito tempo, para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, também usam o mesmo vestuário triste.

Trajos de homem

Os homens, no seu trajo mais simples, usam nos dois dias de trabalho calças de linho, não trazem casaco, ou, se trazem, é esfarrapado, servindo o próprio forro remendado; na cabeça põem uma carapuça ou chapéu esfuracado.

Para a feira levam calças brancas, se é no Verão, e no Inverno outras quaisquer;

faixa azul ou vermelha em volta da cinta, colete de pele de coelho ou lebre;

corrente de prata com peças antigas, anéis e os retratos das tónias;

casaco preto, chapéu castanho;

sapatos de couro branco com a biqueira voltada para cima, ou então tamancos de couro preto com biqueiras amarelas.

Extractos de um estudo feito por Júlio Pereira Pinto Júnior, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de 02.03.1917.

Lavradeira dos arredores de Viana do Castelo

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem: “Ilustração Portugueza” – nº216, 11 de Abril de 1910.

Exit mobile version