Trajes Micaelenses – Trajos dos Açores      

 

O trajo que mais dá nas vistas dos visitantes da ilha é sem contradição o capote e capelo, usado pelas mulheres. Consiste ele em uma rodada capa, sempre de pano azul, distinguindo-se pelo capelo, que tem feitio particular e que, excluindo os usados na ilha de Santa Maria e na do Faial, muito parecidos, não consta existirem iguais em outra qualquer parte. Estes capotes pesados, e que nos afiguram incómodos, oferecem contudo vantagens às pessoas costumadas a usá-los, que quase em geral são pessoas menos abastadas, não sendo contudo raro vê-los de custo superior a trinta mil réis. Nalgumas freguesias rurais existe também outra forma de capote, que consta de uma capa de pouca roda, com um pequeno cabeção, usado a maior parte das vezes pendente da cabeça.

Em tempos, que não vão longe, o que mais se distinguia nesta ilha eram as carapuças usadas pelos aldeãos. Conquanto o seu feitio fosse desconhecido em outra qualquer parte do Mundo, como o afirmavam ilustrados viajantes, e até certo ponto ridículo, não deixavam, contudo, de oferecer comodidade. A respeito desta carapuça escreveu há anos o distinto escritor Sr. Francisco Maria Supico o seguinte: «O luxo do camponês micaelense, pelo que só a ele diz respeito, pode dizer-se que se manifesta na carapuça. Usa-se de custo excedente de 7200 réis; e a forma com ser singular, e até manifestar as diferenças de localidade por modificações no feitio, não deixa contudo de ser muito cómoda. As palas, bicudas ou redondas, são amplas sempre e por isso bom resguardo do sol e da chuva. Caem da copa até aos ombros boas tiras de pano, que agasalham das ventanias do Inverno, e não afogueiam no Verão, pela facilidade de as levantar. Se urge a necessidade, lá está o colchete ou botão que a conchega mais, apertando-a por sobre a barba, embora fiquem assim escondidas as bordaduras da camisa de linho, nem sempre fino, em que se revela o mérito da consorte ou da filha para os trabalhos da agulha.» Hoje é raro ver-se uma daquelas carapuças, porque a moda tem quase desaparecido, e alguma que por acaso aparece é tão modificada que a muito custo dá ideia das antigas.

É belo ver nas aldeias as mulheres em seus trajos domingueiros. Seus vestidos de cassa branca ou chita, alegremente enramada, seu amplo lenço, sempre de cores vistosas, seus sapatos decotados, caminhando ligeiras, frescas e rosadas para a igreja paroquial, onde a última badalada do sino as advertiu de que o pároco vai subir ao altar.

Sugestão de leitura

Vestuário dos Terceirenses – Trajos dos Açores

 

Se algum orvalho as apanha, ou o frio é intenso, a ampla saia do vestido virada para cima e cobrindo-as da cintura até à cabeça lhes serve de resguardo. Mas o que ainda tem maior poesia é vê-las de volta da fonte, pés nus, saia enrolada à cintura e com a talha ou jarra à cabeça, direita ou inclinada, conservando sempre perfeito equilíbrio, caminhando desembaraçadas…

De um artigo de Joaquim Cândido Abranches, intitulado Costumes Populares Micaelenses

Fonte:  “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

 

Capote e Capelo e Trajo de Lã Rico Masculino | São Miguel – Açores (1908)

Ela com trajo sóbrio de lã preta podendo ser azul escuro, composto de manto e capelo com saia de estemenha vermelha com ornamento preto na parte inferior, camisa de linho com rendas, entremeios e refegos, avental de linho branco bordado, lenço da cor da saia garrido e sapato abotinado antigo muito usado até ao início deste século, embora remonte ao séc. XVI.

Ele com fato de lã preto composto por calças únicas só com aberturas nos lados, casaco com algumas ornamentações também a preto, jaleque, camisa de linho branco bordada a azul, chapéu de lã preta por fora, e feltro vermelho por dentro com abas sobre as costas e botas pretas com vermelho no bordo. Este é um trajo usado pelos camponeses abastados do campo. Existe um original no Museu Carlos Machado (São Miguel, Açores) onde o Grupo efectuou a respectiva recolha. – (In Grupo Folclórico de Cantares e Balhados da Relva)

Fonte do texto e das imagens