Trajes alegres para gente triste (opinião em 1931)

Trajes alegres para gente triste

Derrotado Napoleão em Waterloo, quando restava das amaneiradas modas do século XVIII foi varrido, nas cidades, pela severa e monótona indumentária britânica. À paixão pelos trajos de variadas e vivas cores sucedeu-se a dos tecidos pardacentos ou de coloridos atenuados.

Pois essa grande mancha cinzenta, crescentemente alastrante, foi a causa remota da extinção dos mil e um jeitos de vestir que dividiam a humanidade em zonas de cor e gosto perfeitamente definidas. Supomos, mesmo, que esta uniformidade de indumento representa, no decorrer dos tempos, a única modalidade igualitária, em verdade triunfante.

Neste naufrágio do pitoresco e da policromia, houve, nalguns países, pontos de excepção. Portugal, com a Espanha, é, talvez, do que mais conserva. Rotina. Passividade. Certo é que, porém, que nem todos os tipos tradicionais desapareceram.

Da varina em Lisboa à tricana em Coimbra

Não é preciso que o leitor penteie cabelos brancos para que recorde, da Lisboa de há vinte anos, curiosas maneiras locais de vestir já em desuso.

Hoje, sensivelmente empobrecidos, limitamo-nos, na capital, à varina airosa, de tamanquinhas saltitantes, calcorreadora pertinaz de calçadas íngremes e ruelas estreitas que o sol só beija no alto dos seus prédios.

Ainda perto de nós, no Ribatejo, nas vastas herdades em que o gado bravo retoiça, correm, soldados às suas montadas como cossacos do Don, os campinos que brandem longas e finas varas, cingem o corpo num trajo esbelto e fazem flutuar, junto aos rostos morenos, a dobra dos aguçados barretes de borla, feitos de panos de garridas cores.

Lá para o Norte, no Minho já, ainda aparecem, nas feiras e desfolhadas, aqueles trajos femininos que, tão curiosamente belos, o estrangeiro conhece como sendo os de todo o Portugal. E bem lindos eles são na orquestração das suas inúmeras cores, na intenção sensual com que os seus corpetes desenham os seios fartos das minhotas.

Deste espólio de trajos tradicionais que o progresso velozmente cerceia, algo conservamos, ainda, na Beira Litoral e na bacia do Mondego. São as tricanas, cujos ternos amores amenizam a dureza dos estudos sérios de Coimbra, e cuja indumentária, ligeira e alegre, faz esquecer a severidade do trajo dos estudantes, dos poucos que na Europa se conservam, no seu recorte medieval e na sua cor lutuosa.

Do Alentejo à Nazaré

Nas charnecas do Alentejo subsiste o camponês de çafões e pelicos.

Nas abruptas serranias de Trás-os-Montes, em Terras de Barroso, continuam a usar-se as solenes capas de honra 1 de todos os séculos.

Leiria defende, quanto possível, o seu pitoresco trajo regional; o Porto, o das suas vareiras; nos campos da Maia, há o das gentes do campo.

E, no debruar de todo o litoral, particularmente na Nazaré, encontramos os pescadores, classe refratária a modas e garridices, vestidos quási do mesmo modo que os seus ascendentes das Descobertas.

Territórios afastados das grandes zonas urbanas, as gentes que neles assistem permanecem insensíveis às fantasias indumentárias propagadas por Paris. Mas o caixeiro viajante, heraldo dos monótonos tecidos de padrões universais, é que não respeita a poesia de tais sobrevivências.

Em nome das conveniências fabris, ele trata de violentar e extirpar costumes que obrigam à produção de um género e cores que, pelo limitado e modesto dos respectivos mercados, representam um magro negócio.

Somos um povo triste (?)

Somos um povo triste. Gememos e choramos, não só nas quadras melancólicas do fado mas, e esta é uma verdade completa, em toda a nossa vastíssima lírica e em toda a nossa literatura popular, do que é documento a História Trágico-marítima.