Traje Popular nos arredores de Braga na mudança do século

Quer se destinasse para o casamento dos filhos, quer para vestir o «juiz» ou «mordomo», depositário de confiança da comunidade e seu representante nas festas colectivas, era o prestígio de uma «casa», que se punha à prova dos olhares avaliadores de povoação. O prestígio alcançado por essa família ultrapassava-a e tornava-a extensivo a toda a comunidade. Era um factor de coesão.

Traje Popular nos arredores de Braga na mudança do século

Nestas circunstâncias, ao contrário do habitual, a opinião pública exige que se gaste, que «arda a casa» nem que seja à custa da penhora ou da venda do património familiar. O traje, símbolo visual destes valores, feito para durar num «tempo longo», fruto de tamanho investimento afectivo e económico, passava também a ser património.

Depois de usado uma vez, o traje…

Havia de acompanhar o indivíduo pela vida fora, cuidadosamente guardado e dobrado do avesso. Saindo da «caixa», noutras festas ou em momentos solenes como aquele que escolhemos para esta exposição: a vinda à cidade para tirar o retrato que se enviava aos familiares quando a ausência era já longa.

Sempre que se usasse, despertaria memórias, mas a principal referência, seria a do momento para que fora concebido… (…)

Uns eram enterrados vestindo os seus proprietários, outros eram repartidos pelos que ficavam.O apreço pelo acto de trabalhar é uma constante própria da sociedade rural, apesar da exigência de árduo e permanente esforço físico.

Embora, como notou Lidón Tolosana, o trabalho não seja considerado como um objecto em si mesmo, isto é, um ideal de vida, mas um meio para alcançar riquezas que permitirão, viver sem trabalhar, a verdade é que «ser trabalhador» é uma qualidade moral exigida a qualquer um.

Ao ponto de estar sempre presente como referente simbólico para um «bom partido de casamento». A imagem da moça casadoira era a daquela que, além de «teres», havia de «comer no avental», isto é, possuir no quotidiano, hábitos de vida que a não diferenciassem muito da jornaleira ou da serviçal.

Os diversos tipos de traje

O traje de trabalho também designado por traje de cotio ou traje da semana, vestia-se como o próprio nome indica, durante a semana, para trabalhar. Com características próprias, de acordo com a função a que se destinava, havia de reflectir a imagem que a comunidade tinha acerca do trabalho e as relações sociais construídas segundo esse modelo.

O trabalho unia abastados e jornaleiros numa cadeia de interdependência criadora de intimidades e laços de solidariedade geradoras duma quase uniformização do trajar.

O traje de trabalho oculta diferenças sociais.

O traje de lazer, de cerimónia, acentua-as.

Se na festa se admite o dispêndio, como atrás, referiu, fora dela, é um acto condenável pela opinião pública. Murmura-se, sancionando o acto de esbanjar. E é esbanjamento o gasto de economias em roupagens para vestir aqueles que se ocupavam, segundo a expressão popular, em «trabalho sujo».

Traje Popular nos arredores de Braga na mudança do século

Usavam-se nessa época, para a confecção de trajes de trabalho, materiais produzidos pelo próprio grupo doméstico, ou tecidos de algodão, de baixo preço, como os cotins, as chitas e os riscados, que se estreavam ao domingo ou numa ida à feira, passavam a «semaneiros» depois de usados, acabando em cueiros para os filhos ou agasalho para os pobres.

Raríssimos trajes escaparam a tão intenso e desgastante percurso.

Felizmente, restaram fotografias que pesquisamos e seleccionamos (…) e do seu contributo para o estudo do traje desta região falam elas próprias.

Lídia Máximo Esteves e Angélica Cruz Barreto (texto editado com introdução de subtítulos )| Imagens: lllustração Portugueza