Dossier sobre o Barro Preto de Bisalhães – Vila Real

Barro Preto de Bisalhães – Vila Real

O Estado Português reconheceu a Louça Preta de Bisalhães – Vila Real, dado o seu valor patrimonial e social e enquanto elemento identitário da região, como manifestação do Património Cultural Imaterial.

A Louça Preta de Bisalhães representa um elemento singular e ancestral da olaria nacional devendo a sua notoriedade à cor negra, que realça as suas formas e o seu cariz único.

A sua confeção, através de processos tradicionais, mantidos até à atualidade sem alterações de maior, de preparação, modelação, decoração manual, transporte e cozedura do barro, consiste numa atividade historicamente ancorada na comunidade que lhe confere a designação, com raízes que remontam, pelo menos, ao século XVI.

Procura-se, assim, com a referida candidatura, face ao acentuado declínio desta atividade secular e dado o seu caráter emblemático para a cultura popular da região, dar novo impulso a todas as ações de reabilitação e promoção deste património imaterial e eliminar o risco da sua extinção, pugnando-se também pela dignificação das condições de trabalho dos oleiros atuais e pela rentabilidade desta “arte nobre”.

A candidatura e respetivo plano de salvaguarda já receberam o apoio incondicional de inúmeras entidades, públicas e privadas, tanto ao nível nacional como local.

Barro negro – Bisalhães – Vila Real

Bisalhães, aldeia vizinha de Vila Real, foi um dos mais importantes centros oleiros do norte do país. Os alguidares, potes e panelas que ali se faziam eram levados pelas mulheres, à cabeça, em grandes cestos e vendidos distrito fora.

Ainda hoje os mais velhos contam como era duro calcorrear caminhos sinuosos, Marão acima, distâncias enormes percorridas pelos oleiros descalços, com os panelos às costas.  

É a cozedura na soenga, forno escavado no chão, que dá a cor negra ao barro. Depois de estar em brasa, a loiça é abafada com musgo e terra, adquirindo o seu aspecto final. É o homem que trabalha na roda de oleiro.

Usa pedras do rio para fazer o polimento das peças, o brunido. É também com pedras que as mulheres voltam a polir e a decorar. Saber +

“Artesanato – as marcas de um povo” – Olaria

Olaria diz-se da arte de oleiro que é relativa a “panelas”, de barro. Para o povo transmontano, a Olaria passa, não só, pela componente decorativa, como também se afirma como utilitária, exprimindo-se em formas simples e funcionais. Saber +

O jogo do panelo

Na noite do dia 28 de Junho, véspera da Festa de S. Pedro, também conhecida em Vila Real como «Feira dos Pucarinhos», é costume (apesar de estar a cair em desuso), algumas pessoas, particularmente os jovens, comprarem algumas peças de barro preto (barro de Bisalhães), em especial as peças defeituosas (que, pelo facto, eram mais baratas), e fazerem um jogo em roda, em que a peça de barro é atirada de uns para os outros, sem direcção nem altura certa, até que alguém não a conseguisse apanhar e esta se quebrasse no contacto com o chão. Saber +

Feira de S. Pedro (Feira dos Pucarinhos)

Pelo São Pedro, é de costume realizar-se em Vila Real, na província de Trás-os-Montes, uma curiosa «feira», tradicionalmente chamada «feira dos pucarinhos». 

Tal feira é uma exposição de trabalhos regionais, não só de olaria, mas também de tecidos de linho; – aparecendo ainda à venda mantas, cobertas de cama, e coisas assim. Tudo isto proveniente de incansável indústria caseira, que ali, embora rústica, se revela artística na ideação e na execução. Saber +

Pucarinhos – o que são?

«De todos os artigos de uso doméstico… fabricam também exemplares em ponto pequeno, como brinquedos de crianças, e, finalmente, umas 50 espécies de peças que não excedem 1cm de altura e que reproduzem em miniatura as peças grandes ou mesmo outras que ao espírito do oleiro ocorre fabricar como curiosidade.

A técnica da fabricação desta olaria minúscula tem certos pormenores exigidos pelas dimensões reduzidas dos objectos. Saber +

Olaria de Bisalhães – Picar o barro

«O barro, tirado da barreira, era partido e guardado numa dependência, a que chamavam “caleiro”. Quando fosse necessário, levavam-no para o pio e, deitando-lhe água, malhavam-no até o reduzir a pó.

Passavam-no pela peneira, para afastar as impurezas. Havia dois tipos de peneira, conforme os utensílios a produzir: o crivo (malha larga) para a “louça churra”; e a peneira de rede fina, destinada à confecção de louça decorativa.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Moldar o barro

«A mesa de trabalho é formada por duas rodas e pelo banco. A de cima, grossa, tem um orifício reforçado com latão (“bucha de roda”), onde insere um eixo de madeira (“bico de trabulo”), que liga a outra, colocada por baixo.

No centro do tampo há uma elevação, com um palmo de diâmetro, onde se pousa o barro. Movimentando a roda inferior, com o pé, faz girar a que está por cima, onde coloca o barro de onde sairá a peça a elaborar.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Gogar

«Terminado o artefacto, usa uma palheta para aperfeiçoar os rebordos e um “gogo” (pedra do rio) para a polir. Os desenhos são aprimorados com um pedaço de pau, afiado, desenhando os motivos decorativos.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Colocar as peças no forno

«Depois de seca, a louça é metida no forno (buraco na terra que leva cerca de mil peças grandes, ou seis mil pequenas, de cada vez), pousada numa grelha sobre lenha a arder.

O buraco é coberto com musgo, caruma e terra, fazendo uma abertura para facilitar a circulação do ar.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Cozer a louça

«Tapado o forno, a temperatura atingia novecentos graus. Há fornos feitos com tijolo, medindo metro e meio de profundidade, por três de diâmetro. Aplicavam um pião (cilindro), para facilitar a difusão das chamas pelas peças, e “roncas” (panelas estragadas), evitando que quebrassem, adquirindo um tom avermelhado se não fosse abafada.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Retirar a louça do forno

«O fumo provocado pela combustão, dá a cor característica do barro da região.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Esconder, na liga, os pucarinhos do peito

«A par dos utensílios de barro preto, usados nas lides domésticas, havia minúsculas peças ornadas com um lacinho na asa ou no gargalo. Os namorados procurando agradar ao ente querido, ofereciam-lhas, trazendo-as ao peito enquanto durassem os festejos. Daria mais sorte se fossem roubadas.» Saber +

Olaria de Bisalhães – Expôr a louça

«Até à construção do IP4, um pouco antes de chegar a Vila Real, havia tendas de louça preta a ladear a estrada. O viajante, atraído pela cor das peças, parava e o negócio lá se ia desenvolvendo.

Com a a abertura da via rápida, as tendas foram transferidas para pequenos pavilhões, à entrada da cidade.

Nalguns, pode-se admirar o trabalho do oleiro, na azáfama de elaborar as belas peças que exibe penduradas por dentro e por fora da loja.» Saber +

O Jogo do Panelo na Feira dos Pucarinhos, em Vila Real

O Jogo do Panelo

Na noite do dia 28 de Junho, véspera da Festa de São Pedro, também conhecida, em Vila Real e na região, como «Feira dos Pucarinhos», é costume (apesar de ter caído muito em desuso), algumas pessoas, particularmente os jovens, jogarem o “Panelo”.

Este jogo consiste, basicamente, no seguinte:

Utilizando peças defeituosas de barro preto de Bisalhães, comprada ao desbarato, ou mesmo roubada, aos vendedores instalados no Largo da Capela Nova (Rua Combatentes da Grande Guerra), os participantes formavam uma roda e arremessavam uma peça de barro de uns para os outros, sem direcção nem altura certa, até que um deles não a conseguisse apanhar e esta se quebrasse ao bater no chão.

A animação era grande e maior a algazarra, pois todos procuravam distrair o jogador a quem atiravam a peça. Quem a deixasse cair era obrigado a disponibilizar outra peça, para o jogo poder continuar, até já não ser mais possível.

Antigamente, e de um modo especial os jovens estudantes do Liceu Nacional de Vila Real (hoje Escola Secundária de Camilo Castelo Branco), costumavam organizar-se de maneira a que, enquanto uns distraiam os vendedores, apreçando as peças que estavam mais longe, outros iam tirando as peças que ficavam mais perto da beira da rua.

Contam os mais idosos que as crianças, dado não terem dinheiro para comprar um «panelo» metiam-se por debaixo das compridas saias das pessoas mais velhas e surripiavam uma ou outra peça. Apesar da cumplicidade das donas das saias, eram, muitas vezes, descobertos.

Sobre a Feira de São Pedro ou Feira dos Pucarinhos

Pelo São Pedro [29 de Junho], é de costume realizar-se em Vila Real, na província de Trás-os-Montes, uma curiosa «feira», tradicionalmente chamada «feira dos pucarinhos». Tal feira é uma exposição de trabalhos regionais, não só de olaria, mas também de tecidos de linho; – aparecendo ainda à venda mantas, cobertas de cama, e coisas assim. Tudo isto proveniente de incansável indústria caseira, que ali, embora rústica, se revela artística na ideação e na execução. Ler+

 

Gastronomia de Vila Real: delícias de montes e vales!

A Gastronomia de Vila Real

Logo a encimar a arte gastronómica surge o porco, onde cada pedaço é aproveitado, e com a sua expressão mais nobre no Fumeiro, sendo o presunto e os enchidos componente ou complemento habituais, em qualquer ponto ou lugar do distrito.” Ler mais

Carnes – Fumeiro

Por terras transmontanas, o porco é recurso cimeiro na alimentação do seu povo.

O consumo deste tipo de carne, fortemente enraizado, nasceu das adversidades geográficas, climatéricas e de relevo, da fabulosa capacidade de gentes capazes de tudo aproveitar e transformar em manjares divinos.

A cultura gastronómica transmontana apoia-se num princípio extremamente racional – a terra é dura, o que ela dá deve ser maximizado e segundo processos que permitam uma conservação alargada.

Assim, o porco é alimentado com excedentes alimentícios, perfeitamente dispensáveis, engorda, vem a matança, a festa da carne fresca, e a labuta do processo de a conservar ao longo do ano.

Os resultados expressam-se em verdadeiros pitéuspresunto, salpicão, alheiras, linguiças, moiras, disponíveis na generalidade dos restaurantes transmontanos, sendo também encontrados em algumas feiras do distrito e estabelecimentos com charcutaria.

Todo um desfile de aplicações se pode acrescentar, no respeitante ao fumeiro, contribuindo para a confecção de uma variedade de pratos, apurados e substanciais com uma riqueza de sabores inigualável.

O presunto e o salpicão

O Presunto advém da salga da perna do porco, temperada em seguida com colorau, depois fumada, no crepitar das enormes lareiras dos lares transmontanos.

O frio desempenha um papel importantíssimo, sendo decisivo na qualidade do presunto, que não corre, assim, um tão grande risco de deterioração.

Em qualquer situação de confraternização, como entrada, como elemento acompanhante de outros pratos, como ingrediente, o presunto constitui um petisco unanimemente apreciado.

O Salpicão pode ser considerado o enchido nobre, em que se utiliza as melhores partes do porco.

O enchimento da tripa é feito com grandes nacos do lombo do porco, previamente temperados com colorau, alho, louro e vinho, tradicionalmente chamado “vinha d’alhos”.

Consumido como aperitivo, em cru, ou então assado, ou incluído num prato de Cozido e num de Feijoada, o salpicão assume paladares irresistíveis.

As alheiras, as linguiças e as moiras

As Alheiras resultam de factos históricos significativos, crê-se inventadas pelos judeus, chamando-se por isso chouriço judeu.

Como a religião judaica impedia o consumo de carne de porco, sendo por isso perseguidos pela Inquisição, os judeus criam uma outra variante de enchido fumado com uma variedade de carnes, que incluíam vitela, coelho, peru, pato, galinha, em alguns casos perdiz, envolvidas por uma massa de pão.

A receita generalizou-se entre os cristãos, que lhe acrescentaram, naturalmente, a popular carne de porco. Fritas em azeite, ou grelhadas, as alheiras são geralmente servidas com legumes, geralmente grelos, batatas cozidas ou fritas.

As Linguiças são confeccionadas nos mesmos moldes dos salpicões, a diferença está no tipo de carne utilizada, magra a gorda, e no formato, mais delgada. Podem-se comer cruas, assadas na brasa, ou na chapa. Incluí-las também no Cozido e na Feijoada, ou noutras iguarias transmontanas.

As Moiras, tal como o seu próprio nome sugere, são um tipo de fumeiro bastante escuro, negro, sendo esta característica atribuída pelo sangue utilizado na sua confecção.

A carne, já de menor qualidade do que aquela empregada na linguiça, tem o tempero de vinha d’alhos. Cozem-se e junta-se-lhes pão, vão ao fumo, e depois é só prová-las, assadas ou com arroz de couve tronchuda são tentadoras.

Na página seguinte, conheça alguns pratos tradicionais da gastronomia do distrito de Vila Real!

 

Gastronomia tradicional do distrito de Vila Real

“(…) à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras, os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã,
a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio.
Dias depois desmancha-se a bizarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.

Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove…”
(Miguel Torga, in Portugal)

Apesar do distrito de Vila Real ser constituído por zonas, tão distintas entre si, como

as Terras de Basto,

o Barroso,

o Alto Tâmega,

o Douro,

Trás-os-Montes, etc.,

a gastronomia é sempre substancial, na directa proporção com a altura das serras, a largueza de horizontes e a dureza das fainas agrícolas.

O facto do esforço físico despendido pelos trabalhadores agrícolas exigir mais alimento do que o esforço intelectual, aliado ao conhecimento, de «experiência feito», de que o “ar do campo – particularmente o da montanha – abre o apetite”, justifica bem que existam por toda a Região os “pratos de resistência”, magníficos na quantidade, na variedade e na qualidade dos seus ingredientes.

Gastronomia no distrito de Vila Real – cozinha antiga a sábia

É, sem dúvida, uma cozinha antiga e sábia, temperada a preceito, substancial, completa e saudável, que aumenta as saudades da Região a quem, algum dia, teve o privilégio de a experimentar.

As «Carnes», os «Peixes», os «Enchidos» caseiros acompanhados com Pão de Centeio ou Broa de Milho, a que, forçosamente, se devem seguir os bolos, os pastéis e os doces de travessa (herança de antigas tradições conventuais).

Estes manjares exigem vinhos adequados e que não desmereçam: desde os frescos Vinhos Verdes e os sólidos Vinhos de Mesa do Douro, passando pelos refrescantes Rosés, pelo aromático Moscatel de Favaios, pela Jeropiga de Valpaços ou de Chaves.

Para terminar nos Vinhos Finos ou Generosos da Região do Douro (verdadeiras “jóias da coroa” que do Porto apenas têm o nome).

Delícias de montes e vales1

Uma das necessidades básicas do Homem é comer, e quando o faz com arte e engenho, fá-lo da forma mais perfeita, conquistando um lugar de destaque nos marcos da cultura.

A geografia e as condições de vida são determinantes nos costumes e práticas culturais transmontanas.

Os hábitos alimentares são marcados pelo isolamento a que, durante séculos, Trás-os-Montes se viu confinado, sustentado na inexistência ou precariedade de vias de comunicação, e em duas imponentes barreiras naturais, de respeito – a Serra do Marão e o Rio Douro, outrora tumultuoso, além da zona igualmente montanhosa, ou de relevo acidentado, do nordeste do distrito.

Os transmontanos não renegaram a terra, respeitaram-na e souberam moldar as agruras que a definem, às necessidades mais prementes do seu quotidiano, e da sua condição humana.

Assim, de toda a dureza de uma terra, conseguiram, com um esforço hercúleo, fazer brotar dela o alimento, tão rústico quanto saboroso e mesmo saudável.

Começa -se pelo porco

Logo a encimar a arte gastronómica surge o porco, onde cada pedaço é aproveitado, e com a sua expressão mais nobre no Fumeiro, sendo o presunto e os enchidos componente ou complemento habituais, em qualquer ponto ou lugar do distrito.

Barro negro de Bisalhães – Vila Real | Artesanato

Barro negro de Bisalhães

Bisalhães, aldeia vizinha de Vila Real, foi um dos mais importantes centros oleiros do norte do país. Os alguidares, potes e panelas que ali se faziam eram levados pelas mulheres, à cabeça, em grandes cestos e vendidos distrito fora. Ainda hoje os mais velhos contam como era duro calcorrear caminhos sinuosos, Marão acima, distâncias enormes percorridas pelos oleiros descalços, com os panelos às costas.

É a cozedura na soenga, forno escavado no chão, que dá a cor negra ao barro. Depois de estar em brasa, a loiça é abafada com musgo e terra, adquirindo o seu aspecto final. É o homem que trabalha na roda de oleiro. Usa pedras do rio para fazer o polimento das peças, o brunido. É também com pedras que as mulheres voltam a polir e a decorar.

No quadro da economia rural de tempos não muito distantes era costume trocar as peças por géneros alimentícios, servindo aquelas de medida. Por exemplo, um alguidar trocado por duas vezes a sua capacidade em batatas.

As mudanças inevitáveis

O plástico substituiu o barro no uso quotidiano. Agora já não se faz o café da manhã na chocolateira, nem se guarda o mel no pote com um bordo levantado que se enchia de água para desviar as formigas. A talha vinagreira já é dispensável e não se levam para o trabalho cantis, morigas ou bilhas com água ou vinho.

A via rápida (IP4) afastou os carros da sinuosa estrada do Marão (EN15) onde os oleiros mostravam e vendiam o seu trabalho em barracas. Havia, até há pouco [décadas de 70/80 do séc.XX], 40 oleiros em Bisalhães. [Agora restam dois ou três] … à entrada de Vila Real onde mostram as bilhas do segredo e as da rosca.

A Feira dos Pucarinhos, realizada em Vila Real por altura do São Pedro (29 de Junho), continua a ser o local de encontro dos [pouquíssimos] fabricantes de louça negra e, embora sem as dimensões doutros tempos, continua a merecer visita.

Olaria de outras terras

Na Beira também tem fama a loiça preta, com a reputação de dar bom gosto à água e à comida por ser muito porosa e enegrecida pelo fumo, retendo substâncias orgânicas que o fogo carbonizou. Mantêm-se em funcionamento pequenas olarias em Olho Marinho, que fabricam sobretudo a caçoila para a chanfana, prato tradicional da região.

Molelos (Tondela) foi das comunidades com mais oleiros no centro do país. Mantendo os acabamentos tradicionais (o brunir das peças com seixos, dando-lhes brilho acetinado)… os mais jovens inovaram as formas e a decoração das peças.

Fonte: GUIA Expresso “O melhor de Portugal” – 13 – Tradições, Arte Popular, Artesanato

Sobre os trabalhos do Oleiro de Bisalhães

Na próxima página fica a conhecer as várias fases do trabalho do oleiro com o barro negro de Bisalhães.

 

Ganchas de São Brás | Gastronomia tradicional

Ganchas de São Brás

As ganchas de São Brás são um «rebuçado» original da região de Vila Real.

Não fazem parte da chamada doçaria conventual, que tem expressão significativa na culinária transmontana, estando antes ligada às crenças religiosas e populares, mas com esteios de factos verdadeiros e históricos. Não lhes faltam também o complemento, comum a muitas outras, da fantasia de algumas lendas e tradições.

Estas, tantas vezes alicerçadas nas páginas do passado, vão adquirindo o «travo» que o tempo adultera e modifica ao gosto da época ou do contador. Mesmo que escritas, e não sendo coevas dos acontecimentos ou documentadas em provas irrefutáveis, ficam à mercê do testemunho oral até que os historiadores e cronistas as registem, quantas vezes já algo afastadas da realidade.

Não restam porém dúvidas que as ganchas estão associadas a São Brás .

Quem foi São Brás?

Viveu nos primórdios do Cristianismo (séc.IV) e tomou a púrpura do bispado.

Fez porém primeiro a sua vida no deserto em completo isolamento e oração, o eremitério onde não terá esquecido os seus estudos de medicina, e foi ali que o mandaram chamar para desempenhar o cargo diocesano na sua terra natal, Sebaste, cidade da Arménia.

Tornou-se assim num dos Bispos da Igreja que ascendeu à santidade, estatuto para que contribui o testemunho de obra ímpar e exemplo de vida, milagre acontecido na presença e acção ou por sua mercê e bênção na ausência.

Ao regressar à sua cidade para a sua nova missão de «pastorear um rebanho» que até ali o deserto lhe não proporcionara, encontrou uma pobre mulher que lhe apresentou um filho de tenra idade, que tinha uma espinha entalada na garganta.

A criancinha estava já roxa e agonizante quando o santo se acercou dela. Pôs-lhe as mãos nas faces e garganta e, depois de umas orações, deu-se o milagre: o rebento depressa recuperou o brilho dos olhos, o sorriso infantil iluminou-lhe o rosto e, ao mesmo tempo, acenou com gratidão a quem lhe fizera desaparecer o mortal padecimento.

São Brás, protector dos sofredores da garganta

Ficou a partir daí São Brás a ser conhecido como o orago e arrimo dos sofredores da garganta, e não tardou a que pelas proximidades, e sendo ele médico, o campo das maleitas encomendadas não se alargasse a outras do foro oral e otorrino.

Foi por algumas destas razões históricas que se chegou às origens das ganchas. É a solução incompleta e sem certeza feita, como acontece com factos e acontecimentos da raiz dos tempos, e sujeita ao que os tempos e as gentes por certo modificaram, e que a aturada pesquisa não conseguiu expurgar.

Com todos os cuidados que a Ciência Histórica recomenda, pois parecia simples e óbvio que a «gancha» fosse a iconização do báculo bispal de S. Brás, não faltam porém as alusões a uma espécie de espátula para «pincelar» gargantas ou desalojar objectos estranhos nela instalados.

A justificar a doçura são várias as razões. Nas mais aceitáveis a de que seria para «adoçar o bico» às crianças e facilitar o trabalho ou, como o mel, teria efeito balsâmico e apaziguador nas gargantas irritadas ou inflamadas, quando enriquecida a mistura com outros ungentos, ervas e aromas.

Chegamos assim ao S. Brás que, a 3 de Fevereiro de cada ano, se celebra e honra na sua capelinha de S. Dinis, em Vila Real, cumprindo-se ou fazendo-se novas promessas de tagarelas afónicas,  gargantas desafinadas, rouquidões tísicas, nós que não desatam, bocas abertas de espanto ou outros engaranhos orais.

Com os tempos vieram outras andanças e modas, e outros modos de celebrar, cumprir a prometer. Todos lá vão, estudantes, doutores ou iletrados, e fazem a volta ao cemitério, às arrecuas, sem abrir a boca para não entrar enguiço.

Como se cantava ao São Brás, em Vila Real

Depois, é a festa, os foguetes e os sinos com a música a acompanhar e as quadras que ninguém esquece e trauteia ao compasso do badalo da torre de S. Dinis.

Eu vou ao S. Brás
de cú para trás
comprar uma gancha
p’ró meu rapaz

Eu vou ao S. Brás
de cú para a frente
comprar uma gancha
p’rá minha gente

Eu vou ao S. Brás
de cú para o lado
comprar uma gancha
p’ró meu namorado

Esta é a tradição que lembra a da Santa Luzia e dos «pitos», a 13 de Dezembro, outra festa a recordar o S. Brás. É a «relação» e o ritual de trocas e promessas do pito dado a quem deu a gancha e vice-versa.

Atente-se porém nas quadras que atribuem à rapariga a compra da gancha para dar. Talvez a lembrar oferta dezembrina não aceite?… Ou então, como refere escrito recente, a quem nunca lha tenha dado ou usado.

Repare-se que a gancha, retorcida como bengala, conforme se lhe pega, tanto arrebita para cima como cai para baixo…

Retirado de folheto promocional da Região de Turismo da Serra do Marão. Pesquisa histórica de Juvenal Cardápio | Imagem de destaque

Os famosos “Pitos” de Santa Luzia | Gastronomia tradicional

Os Pitos de Santa Luzia

Ao contrário da maioria da doçaria regional que teve berço “conventual” os pitos, que a tradição manda comer no dia de Santa Luzia [13 de Dezembro] tiveram criadora de origem rural e humilde, na aldeia de Vila Nova, em Vila Real, embora de “fábrica” igual à daqueles.

Foi uma moçoila dali que os “inventou” quando foi servir para o Convento de Santa Clara, onde tomaria o hábito depois dum noviciado entre a cozinha e o apoio aos pobres e doentes a que a Ordem, na sua misericórdia e caridade infinitas, dava guarida de hospital.

Maria Ermelinda Correia, de seu nome de baptismo, depois irmã Imaculada de Jesus, era deveras gulosa. Foi este defeito que levou a família a pedir a graça da clausura na esperança de lho transformar em virtude.

O pecado da gula

Conhecendo-lhe o “pecado”, a penitente abstinência que lhe impuseram foi por isso mais forte, e por tal mais redentora, o que lhe agravava o mal e aumentava o padecimento. Na resignação e força da fé lá resistiu às investidas dum estômago ávido de coisas boas e doces. Não tinha acesso às muitas iguarias que se faziam no Convento, pois eram feitas mais para fora e para as mesas de festa das irmãs regulares.

E se no intervalo dum silêncio de “regra” conventual falava de doces, a resposta de advertência era sempre a mesma: “nem vê-los“, dizia-lhe a madre superiora.

Na sua inocência, e começando a percorrer os caminhos da Fé e da Doutrina para o noviciado, tornou-se devota acérrima de Santa Luzia, orago dos cegos e padroeira das coisas da vista.

Não se sabe hoje ao certo o tempo e a razão desta arreigada crença. Os documentos consultados não o registam com evidente certeza. Tanto pode ter sido porque a madre superiora via muito mal, capacidade agravada na escuridão da clausura conventual, ou pelo agradecimento da ideia que lhe ocorreu para conseguir satisfazer, nos amargores do pecado, a doçura dos momentos escondidos.

Foi assim que os pitos de Santa Luzia lhe foram consagrados, e como tal testemunha a festa que ainda nos dias de hoje, a 13 de Dezembro, na capela de Vila Nova [freguesia de Folhadela], às portas da cidade, mantém a tradição.

E como apareceram os pitos?

A ainda Ermelinda, aspirante a irmã Imaculada de Jesus, tendo ouvido a história do Milagre das Rosas, ao orar a Santa Luzia teve uma visão que lhe aplacou a alma num milagre de doces esperanças.

Naquela manhã fizera o curativo a uns quantos enfermos. Na maior parte dos casos foram feridas, contusões e inchaços nos olhos. O remédio daquele tempo eram os “pachos de papas de linhaça“.

Eram uns quadrados de pano-cru onde se colocava a papa, dobrados de pontas para o centro para não verter a poção. A pequena “almofada” era depois colocada, como um penso, no ferimento.

Foi a sua redenção. Correu à cozinha e fez uma massa de farinha, pois a pouco mais tinha acesso, e cortou-a em pequenos quadrados. Não tinha doce mas, tendo guardado religiosamente o cibo de açúcar que lhe cabia em ração, fez uma compota de calondro (abóbora).

O tacho ao lume poucas suspeitas levantava. As cascas e sobras só lembravam o pouco uso que tinha no caldo e o muito na engorda do gado. E a massa escurecida pelo ponto do açúcar não mais do que a linhaça da mezinha, que se quer cozida.

Dobrou a massa por cima da compota, à imagem dos “pachos”, e cozeu-os no forno sempre quente a qualquer hora do dia. Despachou-se em seguida a escondê-los debaixo do catre da sua cela.

No caminho cruzou-se com a Madre Superiora. No meio da escuridão a abadessa pergunta-lhe o que leva no tabuleiro. A velha senhora ainda empina o nariz para ver se o adivinha pelo cheiro. Diz-se que na falta de um ou outro sentido os restantes se apuram, mas nesta apenas o ouvido era de tísica.

Foi quase descoberta

A resposta, depois de um primeiro engasgar, soltou-se logo. Era tudo em nome das duas santas, a da “receita” e a das rosas, imitadas nesta aspiração de ser igual quando se professa e toma hábito e voto:

São pachos de linhaça Irmã Madre… para os meus doentinhos que amanhã virão“.

Dali para a frente, e já Irmã Imaculada de Jesus, fez sempre que podia, houvesse ou não olho tumefacto, gretado, remeloso ou negro de um qualquer sopapo de briga de feira, os “pachos” de abóbora.

Não eram muito agradáveis à vista mas, ao menos, satisfaziam-lhe a gula e calavam na profundeza da alma o pecado que não sentia porque, comendo-os na escuridão da cela e da noite, sabia, porque o tinha ouvido dizer, que “do que não se vê não se peca“.

Da evolução dos pachos de abóbora para os pitos que no dia de Santa Luzia se celebram, não rezam as crónicas consultadas, e outras não há que o confirmem ou desmintam.

Vá lá a gente saber o porquê de uma história que, tendo origem tão santa, se vê, talvez na lucobricidade dos Homens, transformada num ritual de trocas e promessas. O pito é dado a quem, de outro santo e outro doce – as ganchas de S. Brás – a deram antes para receber aquele agora.

Retirado de folheto promocional da Região de Turismo da Serra do Marão. Pesquisa histórica de Juvenal Cardápio

Receita dos Pitos de Sta Luzia

Ingredientes

Massa: Farinha; sal; água; ovo

Recheio: Abóbora; açúcar; canela

Preparação

Num alguidar mistura-se a farinha, os ovos, o sal e a água até obter uma massa consistente. Forma-se uma bola com a massa, polvilha-se com farinha e deixa-se a massa a descansar.

Durante o tempo de espera prepara-se o recheio. Coze-se a abóbora passando-a pelo “passe-vite”. A este puré é adicionado o açúcar e a canela.

Estende-se a massa com o rolo e cortam-se quadrados de massa, colocando-se no centro destes uma colher de recheio. Juntam-se os cantos do quadrado de massa formando uma trouxinha. Levam-se ao forno num tabuleiro polvilhado com farinha.

 

I Encontro Nacional “Bisalhães – a louça preta”

I Encontro Nacional “Bisalhães – a louça preta”

Teatro de Vila Real | 29 de novembro de 2018

Iniciativa a realizar no âmbito das comemorações do Ano Europeu do Património Cultural e do 2º aniversário da classificação do Processo de Confeção do Barro Preto de Bisalhães como Património Imaterial da UNESCO.

Programa

09h30 – Receção

10h00 – Sessão de abertura pelo Presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Rui Santos | Diretor Regional de Cultura do Norte, António Ponte | Reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Fontainhas Fernandes | Presidente da Associação Empresarial NERVIR, Luís Tão.

I painel – Certificação da Louça Preta de Bisalhães

Moderador: Fernando Gaspar, coordenador do Gabinete para a Promoção das Artes e Ofícios (CEARTE).

10h15 – Património Cultural Imaterial – o processo de confeção da Louça Preta de Bisalhães | João Ribeiro da Silva (Direção Regional de Cultura do Norte).

10h45 – Coffee break | com demonstração de um oleiro de Bisalhães a trabalhar na roda, Miguel Fontes.

11h15 – A certificação das produções artesanais portuguesas. O caso da Olaria Negra de Bisalhães | Graça Ramos (Associação “Portugal à Mão”).

11h45 – Debate

12h15 – Almoço (livre)

II painel – Entre a tradição e o futuro

Moderador: Eugénia de Almeida, Vice-Presidente e Vereadora da Cultura do Município de Vila Real

14h00 – Velhas peças para velhos usos ou novas peças para velhos usos? Manter a arte pelo sabor… | Isabel Maria Fernandes (Museu de Alberto Sampaio)

14h45 – Olarias do Termo de Vila Real. Valor regional ou recursos turístico? | Alberto Tapada (AETUR).

15h15 – Debate

15h30 – Coffee break | Apresentação do Selo Postal da República “Louça de Bisalhães” em Vila Real (CTT).

III Painel – Contexto utilitário da Louça preta de Bisalhães no mundo rural

Moderadora: Gina Telmo, Diretora do Museu de Arqueologia e Numismática e do Museu da Vila Velha

16h00 – Os panelos na gastronomia maronesa. Hilário Néry de Oliveira (Confraria do Covilhete).

16h30 – À conversa com: Miguel Fontes (oleiro) e Belmira Fonte (filha e mãe de oleiro).

17h00 – Encerramento do Encontro pela Sra Vice-Presidente e Vereadora da Cultura do Município de Vila Real, Eugénia de Almeida.

Museu da Vila Velha | Lançamento do livro “Bisalhães”, de Duarte Carvalho

21h15 – Atuação da Tuna de Bisalhães

21h30 – Lançamento do Lançamento do livro “Bisalhães“, de Duarte Carvalho, com apresentação de António Ponte, Diretor Regional de Cultura do Norte.

Mons. Salvador Parente – Transmontano multifacetado

Salvador Parente Ribeiro

Nasceu em Águas Santas, freguesia de S. Tomé do Castelo, concelho de Vila Real, em 1.2.1934.

Ingressou no Seminário de Vila Real em 1944 e concluiu o curso Teológico em 1956. Logo nesse ano foi prefeito e professor de Latim, Matemática e Educação Física, no Seminário Diocesano de Figueira da Foz (até 1958).

Foi ordenado padre em 1958 e, desde esse ano até 1967, foi pároco de Vale de Nogueiras (Panóias).

Em 1962, com a abertura do Externato Liceal Fernão de Magalhães, em Sabrosa, foi nomeado Prof. de Matemática, Físico Químicas e Educação Musical.

Em 1967 foi nomeado pároco de Vilarinho de S. Romão. Dois anos depois (1969) foi transferido para a Paróquia de Provesende e S. Cristóvão do Douro (que lhe era anexa).

Em 1972 foi nomeado Professor Oficial de Educação Musical e de Português.

Em 1973 frequentou a Universidade Católica de Braga. No ano seguinte pede a transferência para a Faculdade de Filosofia do Porto, obtendo o bacharelato, em 1976.

Em 1977 fez estágio para o Magistério do 1.° grupo, na Escola Preparatória Diogo Cão, de Vila Real, que concluiu em 1978, passando a professor efectivo do 1.° grupo na Escola de Tabuaço.

Em 1979 transita para a Escola Preparatória Ferrão de Magalhães, em Sabrosa.

Nesse mesmo ano conclui a licenciatura em Filosofia (9.7.79). Em 1984 é nomeado pároco da Freguesia de Andrães, em Vila Real e passa a Prof. efectivo do 1.° Grupo da Escola Mon. Jerónimo Amaral, ensinando Português.

Em 1985 funda e coordena o jornal escolar: A Garotada, da responsabilidade organizativa do Clube Etnográfico.

Aposentou-se do ensino em 1995

Aposentou-se do ensino em 1995, e foi nomeado pároco de Abaças (anexa a Andrães). Em 1997 passa a leccionar Português no Seminário de Vila Real. No mesmo ano foi elevado à dignidade de Monsenhor.

É autor das seguintes obras:
– Cancioneiro Transmontano 1Cantigas da Roda – Ed. C.M. Vila Real.

Tem preparados:

– II Cancioneiro Agrícola e III Miscelânea, 1989;

– Contos tradicionais transmontanos, 1993;

– Cantares do Marão, 1994;

– Rudes Penedias (recolha de tradições, costumes e expressões idiomáticas regionais que vem fazendo desde 1991 e que está a ser publicada pela Tellus – Serviços Municipais de Cultura).

Tem várias obras inéditas, mas já tituladas:

– Justiça dos Homens;

– O Emigrante;

– Mais um copo;

– Onde há galo e canta a Galinha;

– Um médico distraído;

– A Mourinha de Provesende;

– Quadros Infantis;

– O Tanha;

– Poesia;

– Ditados Populares (30.165, portugueses e brasileiros) e

– Exemplos edificantes.

Tem colaboração assídua na imprensa regional e fez inúmeras palestras, debates, colóquios, sobre cultura popular transmontana.

Recolheu e sistematizou um conjunto grande provérbios com o título: O Porco no Rifoneiro Português.

Fonte: Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte (texto editado e adaptado)

O Calhau do Encanto | Lendas de Portugal

O Calhau do Encanto

A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade.

Lá bem no alto da serra, junto da povoação de Arnal, ergue-se um descomunal fragão, chamado Penedo Negro e também A Capela, por ter um recorte em forma de portão de igreja, forrado de musgo verde e macio.

Os pastores e os viandantes olhavam-no com curiosidade e receio e passavam lá com o credo na boca, pois havia quem dissesse que, à meia-noite, lá dentro, se ouvia um cantar muito triste e arrastado de mulher que, no entanto, ninguém conseguia ver.

Mas, certa madrugada, ainda com estrelas no céu, passou por lá um aldeão, recoveiro de ofício, que ia à Bila fazer compras, como de costume. E justamente quando ladeava o esfíngico penedo, ouviu um ruído surdo semelhante ao ranger de gonzos de pesado portão.

Apareceu um Senhora

Com os cabelos eriçados, olhou para o sítio donde viera o ruído estranho e deu com os olhos numa Senhora muito linda, de sorriso triste mas encantador, como nunca tinha visto, que lhe disse com voz meiga:

– Não tenhas medo e presta bem atenção ao que vou dizer-te. Eu sou uma moura encantada e tenho tanto oiro que não há balanças que o possam pesar. Pois todo este oiro será teu e eu própria irei para tua casa e casarei contigo, se conseguires desencantar-me. Para que isso aconteça, traz-me da Bila uma bola de quatro cantos. Mas toma bem sentido: não a “encertes” por nada deste mundo; se não, dobras-me o encanto.

Dito isto, desapareceu no interior do Penedo Negro e a porta voltou a fechar-se como se abriu.

O bom recoveiro, muito surpreendido com aquela inesperada aparição, retomou a jornada, serra abaixo, sempre a repetir as palavras da linda Senhora que não lhe saía do pensamento.

Mal entrou nas portas da Bila, tratou de mercar a bola de quatro cantos, não fosse o pão acabar cedo, pois era dia de feira. Só depois iniciou as outras voltas. Apreçou, aqui e ali, a mercadoria e fez as compras para si e para os vizinhos. Enfiou o alforge no grosso varapau de marmeleiro apoiado sobre o ombro e pôs-se a caminho de casa, já com o sol a baixar para trás da serra.

De regresso a casa

E, como não tinha comido nada, pois comer na estalagem é um roubo, e a jornada era longa e penosa, sentiu uma vontade irresistível de comer. Mas comer o quê, se só levava a bola de quatro cantos e a Senhora lhe recomendara tanto que a levasse bem inteirinha? E depois ia perder toda aquela riqueza que a Senhora prometera dar-lhe?

Pôs de parte aquela ideia maluca e continuou a caminhar.

Mas um pouco acima de Agarez, avistou uma fonte gorgolejante que o convidava a matar a sede e a descansar. E, como à fome e à sede ninguém resiste, resolveu parar, pensando lá com os seus botões:

É certo que prometi à Senhora levar a bola inteira e eu não sou homem de faltar à palavra. Mas, como diz o outro, a fome não tem lei. Vou comer só um canto e levo-lhe os outros três. A Senhora pareceu-me tão boazinha… há-de compreender e perdoar.

E, se bem o pensou, melhor o fez. Sentou-se à beira da fonte, pós o alforge no chão, comeu o canto da bola e bebeu uma tarraçada de água fresca. Depois, já reconfortado, retomou a subida da encosta.

O Penedo Negro

Ao chegar junto do Penedo Negro, bateu com a ponta do varapau. A porta abriu-se rapidamente e a Senhora reapareceu, mas agora com o semblante carregado, e disse-lhe com ar severo:

          Em cavalo de três pernas,
          Contigo não posso ir.
          Fecha-te, porta de pedra,
          Para nunca mais te abrir.

E desapareceu, enquanto o Diabo esfrega um olho, atrás da porta de pedra, para sempre.

O pobre do homem, com os três cantos da bola na mão e o alforje das compras ao ombro, partiu, desalentado, para a sua aldeia, onde passou o resto da existência, a lamentar a tentação de comer da bola de quatro cantos, e a calcorrear os caminhos da serra para ganhar a vida.

E a Senhora linda lá continua encantada, com os seus tesouros fabulosos, no Penedo Negro, a que os povos da serra, por essa razão, também chamam Calhau do Encanto.

Fonte: Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes) – texto editado

A Povoação de Agarez | Lendas de Portugal

Lenda da povoação de Agarez

Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez.

Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.

A imaginação que ajudou a criar os caprichosos desenhos dos seus bordados ajudou também a criar a curiosa lenda que nos explica a sua génese.

Em tempos muito remotos, no mesmo lugar em que se encontra o actual povo de Agarez, havia um outro chamado Aragonês, nome que lhe fora dado pelos seus fundadores, originários do Reino de Aragão.

Vindos de Aragão

Quando estes lá chegaram, construíram as primeiras casas e começaram a surribar as terras arenosas e a cultivar o milho que era o prato forte da sua alimentação.

Um dia, no decorrer desta faina, encontraram, com espanto e alegria, um largo filão de oiro que parecia não ter fim. Abandonaram logo os trabalhos agrícolas para se entregarem, com avidez, à exploração do precioso metal que iam amontoando nos canastros do milho.

Depois de terem enchido os canastros, entenderam que era muito arriscado guardar ali tão valioso tesoiro e decidiram levá-lo para a serra e escondê-lo debaixo da areia.

Fizeram, para isso, grandes dunas, com galerias interiores, e trataram de o transportar para lá em carros de bois.

Encontro com o diabo…

Quando andavam naquela freima, passou lá o Diabo que, ouvindo o estridente chiar dos carros, se aproximou, curioso, e parou, agachado atrás dos arbustos. Arregalou bem os olhos e pôs-se à escuta:

– E se alguém descobre o oiro? — pergunta um.

– O Diabo seja surdo — respondem os outros em coro.

– E se alguma enxurrada leva a areia? — lembra outro.

– Cruzes, Canhoto, vociferam os restantes.

– Não, se Deus quiser, não vai acontecer nada disto — concordaram todos.

Perdem-se as pepitas

Neste comenos, um dos sacos rompeu-se e as pepitas espalharam-se pela encosta.

– Rais part’ó Diabo! — praguejou alguém.

Ao ouvir isto, o Diabo afinou, perdeu a paciência e não quis ouvir mais. Furioso, jurou vingar-se daqueles títeres desprezíveis que o infernizavam com alcunhas e pragas, e, ainda por cima, eram cristãos.

A espumar de raiva, deitando lume pelos olhos, com o rabo entre as pernas, esgueirou-se, sorrateiramente, para não ser notado, a cogitar na maneira de pôr em prática o seu propósito de vingança.

– Haviam de pagar, e com língua de palmo, o atrevimento, ou ele deixaria de ser Diabo.

Penaguião entra na história

Então, lembrou-se de que, lá para os lados de Penaguião, havia uma terra chamada Mafómedes, cujos habitantes seguiam a lei de Mafoma e eram, por isso, inimigos figadais dos cristãos.

Estugou o passo e para lá se dirigiu, sem perda de tempo. Com a promessa de lhes entregar um fabuloso tesoiro, facilmente convenceu os Mouros a acompanhá-lo. Com o Diabo na dianteira, armados até aos dentes, transpuseram, pela calada da noite, os desfiladeiros do Marão e chegaram a Aragonês, antes do dealbar, quando os Aragoneses dormiam, ainda, a sono solto.

Sem encontrar resistência, mataram todos os cristãos e destruíram-lhes todas as casas.

Ao romper da manhã, dirigiram-se para o local das dunas à procura do oiro escondido. Mas, quando começaram a revolver a areia que o cobria, um forte abalo sacudiu a encosta e fez rolar, lá do alto do Alvão, uma cordilheira de penedos que os esmagaram e soterraram, com armas e bagagens.

Daquela hecatombe, escapou apenas o Diabo, que deu às de Vila Diogo, sem mais aquelas, e um casal mouro que aí se fixou e reconstruiu a povoação à qual deu o nome de Agarez, em memória da sua ascendente Agar, a famosa escrava de Abraão, que deu origem aos Agarenos, seus correligionários.

Atualmente

Os habitantes da nova povoação passaram a dedicar-se à cultura do linho com o qual teciam e bordavam maravilhosos lençóis, cobertas e toalhas. Uma arte que os tornou conhecidos e que ainda hoje perdura, embora em menor escala.

É de lá que vêm as cobiçadas peças de linho que embelezam e valorizam a tradicional feira de São Pedro, a vinte e nove de Junho, em Vila Real.

É esse o seu oiro verdadeiro, porque o outro, esse lá continua, inacessível, debaixo dos impenetráveis penedos, bem guardado pelo Génio da Montanha!

Fonte: Literatura de Trás-os-Montes e Alto Douro, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)

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