Capa de Honras Mirandesa – Miranda do Douro

“Capa de Honras” Mirandesa

A “Capa de Honras” Mirandesa é uma peça de artesanato muito “sui generis” do planalto Mirandês, que tem por finalidade proteger os “boieiros” (guardadores de vacas) e pastores de todas as intempéries nos meses mais rígidos, nomeadamente no Inverno.

Como é uma das peças de artesanato mais ilustres do planalto Mirandês, como é óbvio, é indispensável a sua utilização em qualquer tipo de cerimónias, sejam de que índole forem.

É uma peça com grande valor etnográfico e que requer um trabalho minucioso por parte do artesão devido à sua grande complexidade.

Em terras de Miranda [Trás-os-Montes e Alto Douro] diz a sua gente: “Há nove meses de Inverno e três de inferno“. O clima é áspero e variável, a paisagem agreste, apenas convidativa na Primavera e em alguns dias de Outono. No resto, tocam-se os extremos do frio e do calor.

Por isso, o homem que tem vivido nesta terra criou a sua maneira de vestir para se defender no trabalho do campo, destes dois extremos.

A sua vida toda ela de natureza agro-pecuária, levou-o a criar os trajes de certa maneira austeros, simples e belos, artesanais e domésticos, feitos à base dos recursos locais, o linho e a lã (burel).

É, pois, feita de, fiada, urdida, tecida e pisoada (pardo-burel) a Capa de Honras Mirandesa.

É uma das peças do trajo popular português, pesada, a mais imponente e a mais antiga.

Origem

Deve ter tido origem na capa de “Asperges” gótica, de raiz medieval de algum mosteiro Leonês.

Muito ornamentada de lavores nas bandas, gola – carapuça sui generis e rabicho que, por detrás, pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica medieval”, como observa Trindade Coelho. É parecida com a Capa de Burel de Aliste mais rica e mais solene.

Como diz Ernesto Veiga de Oliveira, “Vemos em terra de Miranda numa categoria à parte a capa de honras, em Burel, a mais nobre peça do nosso traje popular, de capuz, honra e aletas, com aplicações recortadas e ponteadas, em cuja confecção se chegavam a gastar 60 dias e mais“.

De cor castanha, fabrico caseiro, ainda hoje se confecciona em Constantim (Miranda do Douro) e é utilizada por individualidades em actos célebres e por pastores e lavradores desta região transmontana, principalmente no Inverno.

De notar que cabeção “HONRA“, pala, orlas das abas e da racha, atrás são ornadas com aplicações de burel finamente recortadas, cosidas à mão sobre o fundo intermédio de tecidos de lã preto.

O cabeção e a honra rematam em franja. A pala do capuz é debruada por uma barra de tecido de lã preta.

O nome “HONRA” não provém unicamente do seu uso por pessoas mais ricas e nobres, mas sim por muito trabalhada.

Antigamente e nos tempos de hoje

Antigamente era usada pelas pessoas que possuíam um estatuto social mais elevado, “mais ricas”. Era um traje domingueiro. Ao longo dos tempos passou a ser usada por pastores e lavradores da região.

Hoje verifica-se grande procura por pessoas de fora e autóctones, o que vem confirmar a admiração, riqueza e beleza desta preciosidade do artesanato português.

Como se pode constatar por esta descrição pormenorizada isto premeia a grande dedicação, rigor e mesmo grande imaginação por parte do artesão.

Isto faz com que seja uma peça de artesanato de grande exemplar da cultura portuguesa e além disso constitui um grande orgulho do artesão.

Domingos Raposo

Lenda do Menino Jesus da Cartolinha | Miranda do Douro

O Menino Jesus da Cartolinha

A lenda mais conhecida de Miranda do Douro, cidade do distrito de Bragança, no nordeste transmontano, banhada pelos rios Fresno e Douro e em plena fronteira com Espanha, é a do Menino Jesus da Cartolinha.

Conta a tradição que a cidade se encontrava cercada de tropas espanholas, estando estas na eminência de tomarem as muralhas, muito cobiçadas pela sua importância estratégica. De repente surgiu, não se sabe de onde, um jovem que ia gritando pelas ruas, incitando toda a população à defesa da localidade.

A população já se encontrava descrente e sem forças não podendo oferecer resistência por muito mais tempo, pois o cerco mantinha-se há vários meses. A fome e a sede eram os principais inimigos da população sitiada.

Mas, como por milagre, o incitamento feito por aquele jovem fez renascer as forças já quase esgotadas, e, após uma dura batalha, os invasores foram expulsos.

A praça de guerra foi salva! Procuraram o menino-prodígio! Queriam homenageá-lo, honrá-lo, mas não o encontraram. Como aparecera assim também desaparecera!

Foi um milagre de Jesus”- do Menino Jesus da Cartolinha – disse o povo.

Outra lenda!

Outra lenda conta que havia na cidade um jovem oficial, noivo de uma senhora da Corte, com a data de casamento marcada.

Na defesa da praça, cercada por tropas espanholas, esse jovem, que teria uma brilhante carreira militar, morre. A noiva fez então a promessa de lhe honrar a memória, oferecendo ao Menino Jesus a farda correspondente à que o seu noivo iria vestir depois da guerra.

Os mirandeses têm tanta fé no seu “Menino” que ainda hoje exclamam em momentos de grande aflição “Ai, Meu Menino! Ai Meu Menino!”.

Estas lendas podem estar relacionadas com a Guerra da Restauração da independência (1640-1668) ou com a Guerra da Sucessão espanhola.

A figura do Menino Jesus da Cartolinha está na Sé Catedral de Miranda, em altar próprio. A imagem sai em procissão no Dia de Reis, vestido com a tradicional capa de honras mirandesa, e o seu andor é carregado por quatro crianças.

Fonte (texto adaptado) | Imagem

 

Festa em honra de São Sebastião | Alturas do Barroso

Festa em honra de São Sebastião

Em Alturas do Barroso – Boticas realiza-se anualmente, no dia 20 de Janeiro, a festa em honra de São Sebastião.

Reza a lenda que esta festa se começou a fazer por causa de uma peste que há muitos anos atrás matou muito gado. Prometeram então, os habitantes da aldeia, festejar anualmente o S. Sebastião, advogado contra a fome e a peste.

Esta festa é organizada por mordomos (4 ou 5 vizinhos) num sistema de rotatividade pelas casas da aldeia.

Antigamente, era hábito darem pão e vinho para as pessoas comerem. Há cerca de duas décadas, começaram também a oferecer feijoada ao final da tarde e desde então para cá a sua dimensão e a sua fama tem vindo a crescer.

Antes da realização da festa, os mordomos andam pela aldeia a recolher a contribuição que cada uma das casas queira oferecer. Desde o fumeiro à carne de porco (pé e peito) e dinheiro com o qual se compram vários alimentos como arroz, feijão, pão e vinho.

Os preparativos para a festa começam uma semana antes. Preparam-se as loiças, o espaço, a lenha e a comida.

No dia 20 de Janeiro em Alturas do Barroso

No dia 20, ainda de madrugada, na ampla sala do edifício da sede de Junta de Freguesia, numa lareira construída para o efeito, começa a confeccionar-se a refeição comunitária que consistirá em feijoada, arroz, pão e vinho.

De manhã, por volta das 10h30, realiza-se uma missa em honra de São Sebastião, no final da qual se faz uma procissão, com o andor de S. Sebastião a desfilar pelas principais ruas da aldeia até ao local da festa.

Entoam-se cânticos e orações pedindo a protecção do Santo ou agradecendo pelas benesses concedidas.

Chegados ao local da festa, o padre procede à bênção da comida, em especial do pão que mais tarde vai ser distribuído pelos fiéis “… que depois o comem ou o dão aos animais para ficarem livres de doenças”.

O andor com o Santo é colocado numa mesa à entrada da sala, onde, como patrono, preside à refeição. Depois inicia-se a refeição comunitária.

À entrada da sala os mordomos pedem esmolas às pessoas que em fila aguardam a sua vez de entrar. Cada um que lá vai tem direito a um prato de feijoada, a pão e vinho. Também há broas a vender.

Fonte: CM de Boticas (texto editado e adaptado) | Imagem recolhida na net

 

Provérbios populares sobre os amigos e a amizade

Provérbios  sobre os amigos e a amizade

Os provérbios ou ditados populares são elementos de sabedoria popular que transmitem conhecimentos comuns sobre a vida do dia-a-dia, às vezes contraditórios, pois a “verdade” a que dizem respeito não pode ser separada da comunidade sócio-cultural que lhe deu origem.

Abaixo, uma listagem de provérbios e ditados populares sobre os amigos e a amizade, recolhidos na região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

No final, transcrevemos uma fábula de Esopo* sobre este mesmo tema.

» Amigo de mesa não é de firmeza.

» Não me dês nada, mas mostra-me agrado.

» Amigo fiel e prudente é melhor do que parente.

» Amigo velho vale mais que dinheiro.

» Bom amigo é melhor do que parente ou primo.

» Amigo diligente é melhor que parente.

» Amigo verdadeiro, vale mais do que o dinheiro.

» A casa do teu amigo não vás sem ser requerido.

» Amigos de longe, contas de perto.

» As boas contas fazem os bons amigos.

» Amigos velhos, contas novas.

» Amigos, amigos, contratos à parte.

» Bom amigo: bom conselho.

» Conselho de amigo: aviso do céu.

» Quem me avisa meu amigo é.

» Quem do amigo despreza o aviso, é ingrato e falta de siso.

» Arrenego do meu amigo que me encobre o perigo.

» Ao amigo não encubras o teu segredo, para que não venhas a perdê-lo.

» Defeitos do meu amigo lamento-os, mas não os maldigo.

» Quem não te ama, na praça te difama.

» Nunca queiras do teu amigo mais do que ele quer contigo.

» Do amigo não esperes aquilo que tu puderes.

» Amigo não empata amigo.

» Amigos e caminhos, se não se frequentam, ganham espinhos.

» Aonde te querem muito, não vás muito a miúdo.

Uma fábula de Esopo* sobre a Amizade

Os Viajantes e o Urso

Um dia, dois viajantes encontraram-se, frente a frente, com um urso. O primeiro fugiu e salvou-se escalando uma árvore, mas o outro, sabendo que não ia conseguir vencer sozinho o urso, atirou-se ao chão e fingiu-se de morto.

O urso aproximou-se dele e começou a cheirar a cabeça e o pescoço, junto às orelhas. Convencido de que o viajante estava morto, foi-se embora.

O amigo que estava na árvore, depois de descer, perguntou-lhe:

– O que é que o urso te esteve a dizer?

– Ora, ele só me avisou para pensar duas vezes antes de voltar a viajar com pessoas que abandonam os amigos na hora do perigo.

Moral da história: A desgraça põe à prova a sinceridade e a amizade!

Esopo (Nessebar, 620 a.C. – Delfos, 564 a.C.) foi um escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade das fábulas como género literário.

Fonte: Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – Joaquim Alves Ferreira, IV Volume, 1999 | Imagem de Cheryl Holt

As Cantigas de Roda e duas dança-jogo

Cantigas de Roda

“As danças populares eram todas feitas à roda [por isso, também chamadas “cantigas de roda“]:

– ao domingo, no largo da povoação;

– em dias de festa no recinto da ermida;

– no fim dos trabalhos, na eira ou no terreiro.

Ao som da concertina, do bombo e dos ferrinhos, ou de simples gaita de boca, rapazes e raparigas, alternados, ora de mãos dadas, ora abraçados. Umas vezes, elevando as mãos, outras, apoiando-as na cinta. Agora fazendo estalar as pontas dos dedos, à guisa de castanholas. Depois, batendo as palmas, rodopiavam para a direita e para a esquerda, ao mesmo tempo que exteriorizavam jovialmente, em redondilhas maiores ou menores, quase sempre em leixapren, a sua esfusiante alegria.

Eram assim verdadeiras danças dramatizadas.”

Uma “dança-jogo” 1

Uma roda de rapazes e raparigas, com um rapaz ao centro. Enquanto o do meio acena com um lenço, os da roda cantam:

No alto daquela serra,
Está um lenço a acenar,
Está dizendo: viva, viva,
Morra quem não sabe amar.

Em seguida, o do meio ajoelha-se aos pés de uma rapariga e canta:

De joelhos a teus pés,
Nem assim, nem assim tens compaixão?

Então a moça cortejada responde-lhe cantando:

Levanta-te e dá-me um beijo,
Meu amor, meu amor do coração.

Depois, seguem os dois para o meio, acenando cada um com seu lenço, enquanto os da roda repetem:

No alto daquela serra,
Está um lenço a acenar,
Está dizendo: viva, viva,
Morra quem não sabe amar.

A cena repete-se com os outros personagens, até dar a volta à roda e terminar o jogo, dançando.

Roda Infantil, de Cândido Portinari , 1932. Pintura a óleo / tela, 39 X 47 cm. Pintada em Brodowski, São Paulo.

Outra “dança-jogo”1

Os da roda, de mãos dadas, cantam:

Quando eu era menina,
Menina, menina,

Depois, largam as mãos e afagam as faces dizendo:

Eu fazia assim,
Eu fazia assim:

Em seguida, batem as palmas e continuam a cantar:

E também assim,
E também assim.

De novo de mãos dadas, cantam:

Quando eu era professor(a),
Professor(a), professor(a),

Largam as mãos. Cada um bate na mão do vizinho, imitando o bater da palmatória, e cantam todos:

Eu fazia assim,
Eu fazia assim:

Depois, batendo as palmas:

E também assim,
E também assim.

Outra vez de mãos dadas:

Quando eu era avô(ó),
Avô(ó), avô(ó),

Fazendo o gesto de embalar:

Eu fazia assim,
Eu fazia assim:

Seguidamente, encurvados e coxeando:

E também assim,
E também assim:

O jogo pode continuar com as mesmas palavras, mas variando os gestos, conforme o que se pretende imitar: a costureira, o pedreiro, o carpinteiro, etc.

1 Danças-jogo recolhidas na freguesia de Mouçós – Vila Real

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – II volume – Cancioneiro”, Joaquim Alves Ferreira

Cantigas à Desgarrada e Cantigas de Escárnio

Cantigas à Desgarrada

“Nas feiras, festas e arraiais, dois cantadores, ou cantador e cantadeira, divertiam os romeiros curiosos improvisando ou repetindo versos, ao som da concertina ou de simples gaita de boca. Se havia cantadeira, era dela a última estrofe.

Havia, pois, as cantigas improvisadas e as decoradas, geralmente do tipo pergunta e resposta.

Como é habitual na poesia popular, exprimiam-se em quadras de redondilha maior, mas transformadas em sextilhas divididas em dois grupos de três versos, com os seguintes esquemas:

1º b a b, b c d

2º a a b, b c d

Exemplo duma quadra com dois esquemas:

Boa noite, meus senhores,
Vamos então começar:
Diz-me lá, ó cantador,
Quantos peixes há no mar.

1º esquema

Vamos então começar:
Boa noite, meus senhores,
Vamos então começar.

(Pausa)

Vamos então começar:
Diz-me lá, ó cantador,
Quantos peixes há no mar

2º esquema

Boa noite, meus senhores,
Boa noite, meus senhores,
Vamos então começar.

(Pausa)

Vamos então começar:
Diz-me lá, ó cantador,
Quantos peixes há no mar.”

Cantigas de Escárnio

“O povo português é profundamente poeta, quer quando canta, quer quando reza, quer ainda quando vasa a sua experiência milenária em máximas e provérbios.

Se bem que a sua inspiração esteja voltada fundamentalmente para o lirismo amoroso, como continuador da primitiva lírica trovadoresca das cantigas de amigo e cantigas de amor, não deixou, contudo, de cultivar também, embora em menor grau, a poesia satírica, na sequência lógica das cantigas de escárnio e maldizer.

Todavia esta sátira, humorística e moderada, nuns casos, irónica e mordaz, noutros, não se dirige a pessoas em particular, a não ser nas cantigas à desgarrada, entre cantador e cantadeira, mas a grupos de pessoas, as maiores dos quais são os dos homens e o das mulheres em geral.

É um fenómeno muito curioso a que poderíamos chamar de amigável guerra dos sexos, porque, como diz a sabedoria do povo, quem desdenha quer comprar.

É sobretudo deste tema que tratam as sátiras a seguir apresentadas.”

Aos Homens:

A folha do castanheiro
É bicada, com má renda.
Ninguém se fie nos homens,
Olhem que são de fraca tenda.

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – II volume – Cancioneiro”, Joaquim Alves Ferreira | Imagem

Cinco jogos e brincadeiras infantis – tradições populares

Brincadeiras infantis e jogos em Trás-os-Montes e Alto Douro

Numa época em que não havia outros divertimentos, os jogos eram o passatempo favorito dos adolescentes e jovens, que a eles se entregavam, sempre que se podiam libertar da tutela dos pais ou da maçada da escola. Era uma espécie de teatro infantil relacionados com os elementos da sua experiência quotidiana, na vida agrícola (…)”, etc. 1

Reis e rainhas 2

1.- Tem de haver tantos rapazes como raparigas, que constituem grupos de sexos diferentes, afastando-se para não se ouvirem.

2.- No grupo dos rapazes (reis) o valete põe os nomes aos seus companheiros. No grupo das raparigas (rainhas) é a dama a fazer o mesmo.

3.- Postos os nomes, o valete vem com o rei ao pé da dama e diz:

Ó rei D. Sebastião (ou outro nome) vai casar com…

Declara a dama:

Com a rainha dos olhos negros (ou outro nome).

Então D. Sebastião aponta para uma das rainhas. Se for essa a dos olhos negros, casa com ela, saindo do jogo de mãos dadas. Não acertando, a rainha apontada vira-lhe as costas. Os nomes das rainhas, entretanto, podem ir sendo mudados.

4.- O jogo continua até se casarem todos. Por fim casam-se, sem a estratégia da adivinha, o valete e a dama.

5.- Feitos os casamentos, os parem cumprimentam-se com vénias à moda antiga e dançam.

Fitinhas 2

Junta-se um grupo de crianças e uma delas baptiza cada uma com o nome de uma cor. Observando a distância que não permita ouvir os nomes, estão outras duas crianças, fazendo uma de Anjo Bom e a Outra de Anjo Mau. Aproxima-se o Anjo Bom e trava o seguinte diálogo com a criança que pôs os nomes:

– Truz, truz.
– Quem é?
– Anjo Bom.
– Que deseja?
– Uma fita.
– De que cor?

O Anjo Bom pronuncia o nome da cor. Se esta existir no grupo, leva consigo a criança que lhe corresponde. Não existindo, vai-se embora. Vem em seguida o Anjo Mau, adoptando-se o mesmo processo. Ganha o anjo que conseguir mais crianças.

Palmatória 2

1.- Um rapaz encosta-se a uma parede, com os olhos fechados e as mãos voltadas para trás, nas costas.

2.- Os outros participantes, em número variável, vão-lhe batendo, com mais ou menos força, nas palmas das mãos, tentando ele adivinhar quem lhe bateu.

O jogador em cujo nome acertar é o que amoicha de seguida.

Saca 2

Dispositivo inicial
Jogo de rapazes, tendo um número ilimitado de participantes, sendo um deles o fiscal e outro o que vai de olhos vendados ficar de cócoras, de costas voltadas para os restantes jogadores. Estes encontraram-se em fila, lado a lado, a uns três metros dele.

Desenvolvimento
Um dos jogadores que está na fila vai junto do que está de cócoras, dá-lhe uma palmada no rabo e volta para o lugar.
O que está de cócoras tira a venda e vai até à fila de jogadores, trazendo às costas o que ele pensa que lhe bateu, até ao sítio em que se encontrava.

Chegado aqui, o fiscal diz se foi ou não aquele que lhe deu a palmada. Se foi, fica este na posição de cócoras, processando-se novamente o jogo como no princípio. Se não foi, vai ter de o levar às costas para o lugar onde estava, trazendo novamente outro jogador que ele pensa que foi, até conseguir acertar.

Quando isto acontecer o jogador que lhe deu a palmada fica na posição de cócoras e de olhos vendados, indo o outro para junto dos jogadores que se encontram em fila, recomeçando-se o jogo da mesma forma como antes se processou.

Flores 2

Dispositivo inicial
Não é necessário material

O número de jogadores pode variar, assim como as idades dos participantes; estes eram geralmente jovens do sexo feminino entre os 15 e os 17 anos.

Formava-se uma roda de jogadores todos sentados; uma das jogadoras ia para o centro, sentando-se; todas as outras escolhiam entre si o nome de uma flor, mas sem o revelarem à jogadora do centro.

Desenvolvimento
Quando todas as jogadoras estavam prontas, a jogadora do meio dava um suspiro:

Ai!
– Que tens? – perguntavam as restantes jogadoras em coro.
– Saudades – respondia a jogadora do centro.
De quem? – perguntava o coro
– Da rosa (por exemplo) – respondia a jogadora do centro.

Aquela que tivesse o nome desta flor levantava-se e tomava o lugar daquela que estava no centro da roda; no caso de não haver o nome da flor que ela escolheu, as perguntas e as respostas repetem-se novamente, escolhendo ela o nome de outra flor.

Novamente as jogadoras combinavam nomes de flores, mas sem escolher o nome da flor que anteriormente tinham escolhido, e sem o revelarem à jogadora do centro.

O jogo continuava na mesma ordem acima referida até dar a volta a todas as jogadoras.

Acabava este jogo num baile.

1 in “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – IV volume – Miscelânea”, Joaquim Alves Ferreira

2 Fonte: “Tradições Populares – I”, António Cabral, editado pelo INATEL, 1999  | Imagem de Dean Moriarty

 

Provérbios populares sobre os frutos e sobre o pão

Provérbios sobre o pão

» Pão pela cor, vinho pelo sabor.

» Fraca é a padeira que diz mal do seu pão.

» Pão que veja, vinho que salte, queijo que chore.

» Pão que sobre, carne que baste, vinho que falte.

» Por carne, vinho e pão, deixa tudo o que te dão.

» Pão de centeio, melhor no ventre que no seio.

» Com pão, baila o cão se lho dão.

» Pão do vizinho tira o fastio.

» Pão de taberna não farta nem governa.

» Com pão e vinho, anda caminho.

» Não há mau pão com boa fome.

» Quando há fome, não há pão mal feito.

» Saboroso é o pão duro, quando não há mais nenhum.

» Vale mais pão duro que figo maduro.

» Vale mais pão duro que nenhum.

» Caldo sem pão só no inferno o dão.

» Vale mais um pão com Deus que dois com o diabo.

» Vale mais pão hoje que galinha amanhã.

» Lágrimas com pão ligeiras são.

» Quem dá o pão dá a criação.

» Quem dá o pão dá o pau.

» Fidalgo sem pão é vilão.

» Quem quer o filho ladrão tira-lhe o pão.

» De mau grão, mau pão.

» Em ano de pão, guarda pão.

» Onde há pão, há ratos.

» Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

» Nem mesa sem pão, nem exército sem capitão.

» Fraca é a mesa que não deixa migalhas.

» Migalhas também é pão.

Gastronomia tradicional do distrito de Vila Real

“(…) à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras, os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã,
a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio.
Dias depois desmancha-se a bizarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.

Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove…”
(Miguel Torga, in Portugal)

Apesar do distrito de Vila Real ser constituído por zonas, tão distintas entre si, como

as Terras de Basto,

o Barroso,

o Alto Tâmega,

o Douro,

Trás-os-Montes, etc.,

a gastronomia é sempre substancial, na directa proporção com a altura das serras, a largueza de horizontes e a dureza das fainas agrícolas.

O facto do esforço físico despendido pelos trabalhadores agrícolas exigir mais alimento do que o esforço intelectual, aliado ao conhecimento, de «experiência feito», de que o “ar do campo – particularmente o da montanha – abre o apetite”, justifica bem que existam por toda a Região os “pratos de resistência”, magníficos na quantidade, na variedade e na qualidade dos seus ingredientes.

Gastronomia no distrito de Vila Real – cozinha antiga a sábia

É, sem dúvida, uma cozinha antiga e sábia, temperada a preceito, substancial, completa e saudável, que aumenta as saudades da Região a quem, algum dia, teve o privilégio de a experimentar.

As «Carnes», os «Peixes», os «Enchidos» caseiros acompanhados com Pão de Centeio ou Broa de Milho, a que, forçosamente, se devem seguir os bolos, os pastéis e os doces de travessa (herança de antigas tradições conventuais).

Estes manjares exigem vinhos adequados e que não desmereçam: desde os frescos Vinhos Verdes e os sólidos Vinhos de Mesa do Douro, passando pelos refrescantes Rosés, pelo aromático Moscatel de Favaios, pela Jeropiga de Valpaços ou de Chaves.

Para terminar nos Vinhos Finos ou Generosos da Região do Douro (verdadeiras “jóias da coroa” que do Porto apenas têm o nome).

Delícias de montes e vales1

Uma das necessidades básicas do Homem é comer, e quando o faz com arte e engenho, fá-lo da forma mais perfeita, conquistando um lugar de destaque nos marcos da cultura.

A geografia e as condições de vida são determinantes nos costumes e práticas culturais transmontanas.

Os hábitos alimentares são marcados pelo isolamento a que, durante séculos, Trás-os-Montes se viu confinado, sustentado na inexistência ou precariedade de vias de comunicação, e em duas imponentes barreiras naturais, de respeito – a Serra do Marão e o Rio Douro, outrora tumultuoso, além da zona igualmente montanhosa, ou de relevo acidentado, do nordeste do distrito.

Os transmontanos não renegaram a terra, respeitaram-na e souberam moldar as agruras que a definem, às necessidades mais prementes do seu quotidiano, e da sua condição humana.

Assim, de toda a dureza de uma terra, conseguiram, com um esforço hercúleo, fazer brotar dela o alimento, tão rústico quanto saboroso e mesmo saudável.

Começa -se pelo porco

Logo a encimar a arte gastronómica surge o porco, onde cada pedaço é aproveitado, e com a sua expressão mais nobre no Fumeiro, sendo o presunto e os enchidos componente ou complemento habituais, em qualquer ponto ou lugar do distrito.

Provérbios sobre as actividades agrícolas e o clima 

Provérbios sobre as actividades agrícolas e o clima 

Os provérbios são elementos de sabedoria popular que transmitem conhecimentos comuns sobre a vida do dia-a-dia, às vezes contraditórios, pois a “verdade” a que dizem respeito não pode ser separada da comunidade sócio-cultural que lhe deu origem.

Abaixo, uma listagem de provérbios sobre as atividades agrícolas e o clima, recolhidos na região de Trás-os-Montes e Alto Douro:

De Janeiro a Julho

» Por Sto Antão (17.1), neve pelo chão.

» Por S. Sebastião (20.1), laranja na mão.

» Por S. Matias (24.2), começam as enxertias.

» Por S. Matias, noites iguais aos dias.

» Por S. Marcos (25.4), bogas e sáveis nos barcos.

» Por S. Barnabé (16.5), seca a palha pelo pé.

» Pelo S. João (24.6), ceifa o pão.

» Pelo S. João, lavra se queres ter pão.

» Lavra pelo S. João: terás palha e grão.

» No S. João, semeia de gabão.

» Pelo S. João, deve o milho cobrir o cão.

» Pelo S. João, figo na mão.

» Até ao S. João, é sezão.

» Para o S. João guarda o melhor tição.

» Até ao S. João sempre de gabão.

» Ande por onde andar o Verão, há-de vir pelo S. João.

» Galinhas de S. João, pelo Natal, ovos dão.

» Sardinha de S. João pinga no pão.

» Ande o calor por onde andar, pelo Santo António (13.6), há-de chegar.

» No dia de S. Pedro (29.6), vai ver o olivedo. Se vires um bago, conta um cento.

» Por S. Pedro, fecha o rego.

» Por Santa Marinha (18.7), vai ver a tua vinha.

» Por Santa Ana (26.7), limpa a pragana.

De Julho a Setembro

» Por S. Gens (25.8), vareja as nozes se as tens.

» Chuva por Santo Agostinho (26.8), é como se chovesse vinho.

» Por S. Mateus (21.9), pega nos bois e lavra com Deus.

»Por S. Mateus, vindimam os sisudos e semeiam os sandeus.

» Por S. Mateus, conta as ovelhas, que os cordeiros são teus.

» Nas têmporas de S. Mateus, pede bom tempo a Deus.

» Nas têmporas de S. Mateus, não peças chuva a Deus.

» Águas verdadeiras por S. Mateus as primeiras.

» Quem planta no S. Miguel (29.9), vai à horta quando quer.

» Quem se aluga no S. Miguel não se senta quando quer.

» S. Miguel soalheiro enche o celeiro.

» S. Miguel das uvas, tanto tardas e tão pouco duras!

» S. Miguel passado, tanto manda o amo como o criado.

» Se houvesse dois S. Miguéis no ano, não havia moço que parasse no amo.

Em Setembro e Outubro

» Por S. Francisco (4.10), semeia o trigo. O velho que tal dizia já semeado havia.

» S. Francisco veja o teu campo arado e teu trigo semeado.

» Por S. Lucas (18.10), colhidas estão as uvas.

» Por S. Lucas, mata os porcos e tapa as cubas.

» Por Santa Ireia (20.10), pega nos bois e semeia.

» Por S. Judas (28.10), colhidas são as uvas.

» Por S. Simão (29.10), semear sim, navegar não.

» Por S. Simão, favas na mão.

» No dia de S. Simão, quem não faz magusto não é bom cristão.

» Quem não planta horta pelos Santos (1.11), inveja a dos vizinhos e espreita pelos cantos.

» Por Todos os Santos, neve pelos cantos.

António Maria Mourinho | Pessoas ligadas à Etnografia

António Maria Mourinho

Nasceu, em 1917, em Sendim, Miranda do Douro. Aos doze anos iniciou os seus estudos no Seminário Diocesano de Bragança, terminando o Curso de Teologia, com distinção, em 1941.

No ano seguinte, exerceu as funções de professor de História de Portugal e de Apologética, na mesma instituição, até ser nomeado pároco da localidade de Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro.

Muito curioso em relação “às coisas” de Miranda

A par da sua vida clerical, foi colmatando a sua curiosidade em relação “às coisas” de Miranda, investigando e divulgando a Língua, a Literatura e a Cultura Mirandesa. Obteve, inclusive, várias bolsas de estudo no país e em Espanha.

Da sua investigação ficou um extenso rol de trabalhos e de publicações. Assim como a criação, em 1945, de um dos ex-libris da região mirandesa,

o “Grupo Folclórico Mirandês de Duas Igrejas“,

comummente chamado “Os Pauliteiros de Miranda“.

Entre os anos de 1962 e 1967, dedicou-se à actividade docente. Leccionou as disciplinas de Religião e Moral, Português, Educação Musical e História, quer no Ensino Básico quer no Ensino Secundário. Acabou por tirar o estágio para Professor do Ensino Básico em Bragança, na Escola Preparatória Augusto Moreno, com média final de 14,7 valores.

Em 1970, matriculou-se em História, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, como aluno voluntário, tendo terminado o curso, em 1975, com 16 valores.

Museu da Terra de Miranda

Em 1982, materializou uma das suas maiores aspirações a criação do Museu da Terra de Miranda, do qual foi fundador e primeiro director, cargo que desempenhou até 1995.

Ainda no decurso da década de oitenta, abandonou a vida eclesiástica e contraiu matrimónio.

No decénio seguinte, o seu estado de saúde agudizou-se, tendo sofrido vários enfartes de miocárdio. O “mirandês rural“, como ele próprio se apostrofava, sucumbiu a 13 de Julho de 1996.

António Maria Mourinho comunicou, publicamente, que doaria todo o seu arquivo à autarquia de Miranda do Douro a 10 de Julho de 1991, em sessão promovida em sua homenagem, pela referida edilidade.

A doação realizou-se legalmente através da escritura nº12/93 de 3 de Junho de 1993.

Maria Olinda Rodrigues Santana, in «Arquivo Pessoal de um erudito transmontano: António Maria Mourinho» – Estudos Transmontanos e Durienses, nº13 – Arquivo Distrital de Vila Real | Imagem de destaque

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