Capucha e mantilha – peças de vestuário feminino

A Capucha

De entre as peças de vestuário que apresentam simplicidade de feitio e riqueza de aplicação recorde-se a capucha, de que se ocupou José Júlio César, em Terra Portuguesa.

«Nunca a fértil imaginação de alfaiate ou modista inventou peça de vestuário mais apropriada e útil.

Não é fácil precisar bem a sua origem, mas tudo leva a crer que viesse do Oriente, sendo trazida à região pelos Árabes, se é que o modelo não foi extraído de alguma gravura, estampa ou desenho vindo dos Lugares Santos, o que é muito natural.

Portanto a capucha ainda hoje é precisamente o manto que, desde o princípio do Cristianismo, aparece cobrindo a maior parte das imagens. Apenas foi modificado o modelo, adaptando-lhe no cimo, na parte que há-de assentar na cabeça, uma semi-rodela de pano em forma de meia-lua.

É ordinariamente de burel, de fabrico caseiro, havendo-as, também, destinadas especialmente para os domingos e dias de festa, de uma espécie de saragoça preta, muito lustrosa, a que chamam briche.

Usa-se em zonas serranas

Usa-se na serra do Caramulo e em parte dos concelhos de Viseu, Vouzela, Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, Castro Daire e em alguns pontos de Trás-os-Montes.

Também se usa em alguns povos dos Açores, mas aí um pouco modificada na parte que cobre a cabeça, que é em forma de capucho ou touca.

A sua utilidade é incomparável.

Se é preciso conduzir um carrego, de uma das pontas faz-se a rodilha, radoiça ou matula, para à cabeça o levar, como de toda ela faz a serrana boa e cómoda almofada que, ficando presa na cabeça, assenta entre os ombros, dando assim o melhor jeito para conduzir pesadas canastras ou enormes molhos de lenha, pastos ou outros fardos.

Por esta forma levam os oleiros de Modelos a sua afamada e característica loiça preta aos confins do País e até à própria Espanha.

Do mesmo modo levam as serranas a Águeda e outros povos, a mais de 20km ou 30km, os afamados queijinhos do Caramulo.

Ainda mais utilidade

Se precisam de levar cereais, hortaliças ou quaisquer outros objectos, e não têm à mão com que melhor os possam conduzir, sem a tirar da cabeça fazem de uma das pontas uma espécie de saca, e com grande facilidade se leva uma grande pontada, como por ali vulgarmente se diz.

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas, e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração.

Serve também, enrolada ou torcida, ao comprido, para enfeixar coisas diversas, à maneira de corda ou atilho. Estendida no chão, sobre elas secam feijão, milho ou outros cereais.

Se é preciso estender a toalha, para as frugais refeições em pleno campo, e não há perto lage ou relvado, a capucha estira-se no solo, à guisa da mesa, evitando deste modo que a alva toalha vá sujar-se sobre a aterra.

Proteção contra rigores do tempo

De dia é excelente resguardo das chuvas, neve e granizo. De noite serve de manta na cama. Óptima capa para os rigores do tempo, aproveitam-na pelos dias de Estio para sobre ela se deitarem e, devidamente dobrada, pode servir de travesseira.

Numa das pontas levam, por vezes, a merenda, como no Outono a aproveitam para conduzir os ouriços dos castanheiros que encontram pelos montados.

E até pastores há que dela se têm servido para afugentar os lobos dos rebanhos, assegurando que não há lobo que, em assim vendo caminhar para ele, com o improvisado trapo, como no redondel para o toiro, não fuja desabridamente ou a sete pés, como por lá se diz.

Tem ainda a vantagem de se ajustar bem ao corpo e escoar a água, como nenhum outro fato e de, especialmente os homens, poderem sobre ela assentarem o grosso e largo chapéu, para melhor livrarem a chuva da cara.»

A Mantilha – traje da Beira

Capa com capuz, ou «crapucha», que usam as mulheres no Jarmelo (Beira), sobretudo em enterros. Creio que é o mesmo que capucha.

Usada por uma noiva, à volta de 1880, na Rapa: espécie de capa de pano preto, guarnecida de veludo, mas sem coca [côca], posta pelo ombro, e de que há exemplares ainda em 1918. De coca, também no Ervedal.

Em Celorico da Beira, ainda por 1870, as senhoras e as mulheres do povo mas assenhoradas usavam mantilhas para ir à missa, à confissão, a visitas, mas sobretudo à igreja.

Era uma capa de pano preto que cobria o corpo todo até aos pés, e tinha em cima uma coca de papelão, a qual podia ser de duas formas: arqueada e bicuda. A mantilha arqueada chama-se de arco, e a bicuda, de bico. Parece que as de bico são de origem anterior.

Mantilha vista de lado

Usavam indiferentemente uma e outra. Envolviam o corpo todo, porém não tinham colchetes nem botões, fechavam-nas com a mão adiante.

Muito parecido com este é o trajo de missa no Fratel, aldeia do concelho de Vila Velha de Ródão.

Usam a mantilha, que chega só até às ancas, com saia preta, blusa preta, meias e sapatos igualmente pretos. Só se usa a coca de arco.

Ainda é usada em 1968 pelas mulheres mais velhas (para cima de quarenta anos) e tanto quanto se sabe tem-se usado só para ir à missa.

As fotografias [acima] foram obtidas junto da Capela do Espírito Santo, no Fratel, em Agosto de 1944.

No Mação usam, segundo Alberto Pimentel, capucho e mantilha (estes como os do Fratel).

Textos retirados de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

O Xaile | Trajes tradicionais portugueses

As origens do Xaile

Os primeiros destes xailes vieram para a Europa no séc. XVIII, provenientes de Caxemira, na Índia, “descobertos” por viajantes (principalmente ingleses) que os traziam como presentes para esposas, mães e filhas.

Diz-se que, em 1796, um persa cego chamado Yehyah Sayyid visitou Cachemira e governador afegão ofereceu-lhe um xaile. Sayyid, por sua vez, ofereceu-o ao Quediva do Egipto, que o presenteou a Napoleão e o deu a sua esposa a Imperatriz Josefina de Beauharnais.

Em França causou inveja e em breve as mulheres elegantes procuraram por todo os meios obter o seu próprio xaile de Caxemira.

Os xailes tornaram-se o desejo de qualquer dama elegante da Europa e América.

A raridade, elevado preço e muita procura fomenta o surgimento de imitações em França, Alemanha e Inglaterra, produzidas com lã de cabra, lã merina, de seda e de algodão.

Introdução em Portugal

O xaile terá chegado a Portugal sensivelmente na mesma altura que ao resto da Europa, diz-se que também trazido por marinheiros regressados do oriente.

Francisco Ribeiro da Silva detectou a presença de um xaile entre o rol das mercadorias confiscadas na Alfândega do Porto entre 1789 e 1791.

Como é óbvio, sendo um artigo contrabandeado significa que existe uma procura, um mercado, que é apetecível e que seria um produto apenas ao alcance de alguns privilegiados. Por via do contrabando os ricos não privilegiados conseguiam obter produtos que os colocava a par dos privilegiados e, aparentemente, o xaile seria um excelente sinal exterior de riqueza.

O Dicionário de António Morais Silva (2ª edição de 1813) define “Chalé, s.m. (do Hespanhol) – lenço pintado de marca mayor, que as mulheres trazem pelos ombros, dobrado de sorte que fique em três pontas, sendo o lenço quadrado. Os ingleses chamão chales a uma porção de certo longor, e largura de tecido mui fino de lã de camello, de comum amarela, que as mulheres lançavão ao pescoço, e as pontas enrolavão em redor do corpo até à cintura, e são assás caros; vêi da Índia Oriental (a Shale).”

A inscrição da palavra “Chalé” no dicionário de António Morais Silva significa que esta peça de vestuário era já conhecida e utilizada em Portugal no primeiro quartel do séc. XIX.

Origem espanhola?

Por outro lado, a referência à origem espanhola estará directamente relacionada com o “Manton de Manila”.

Ao que se diz foi inventado pelas operárias das fábricas de tabaco em Sevilha. As folhas de tabaco vinham das Filipinas embrulhadas em panos chineses velhos, muito ornamentados e de forma quadrangular. As mulheres cortavam-nos e colocavam-nos em triângulo sobre os ombros deixavam os braços livres para trabalhar e simultaneamente protegiam do frio. Era prático, mesmo para uma saída rápida à rua.

António Morais Silva faz ainda referência à origem do xaile, situando-a na Índia Oriental e à sua difusão entre as mulheres da sociedade inglesa.

Como é do conhecimento geral, entre nós a moda foi sempre muito influenciada pelo estrangeiro e este terá sido o principal motor para a introdução do xaile em Portugal, sendo mais plausível que a palavra xaile provenha da denominação inglesa “shawl”, do que da sua origem persa Shãl (shawl, chalé, xale, xaile).

Certo é que os primeiros xailes foram importados e simbolizavam estatuto social e poder económico só ao alcance de alguns.

A conjectura socioeconómica e a popularização do Xaile

O xaile só chega às camadas populares no início do séc.XX, em resultado de um conjunto de circunstâncias sócio-económicas favoráveis.

Fim das convulsões sociais e políticas da 1ª metade séc.XIX (Invasões francesas / guerra civil);

Incremento de uma revolução industrial tardia, iniciada com o Fontismo (1868-1889);

Evolução tecnológica (mecanização);

Melhoria das vias de comunicação e do escoamento da produção (aumento da rede ferroviária e rodoviária);

Matérias-primas abundantes e baratas;

Alguns exemplos:

Rede rodoviária – 476Km – 1850 / 11.754km – 1907

Rede ferroviária – 69Km – 1856/ 2.898Km – 1910

Indústria têxtil principal empregadora entre 1850 e 1913 (61% em 1852 e 37% em 1911)

Em 1890 os salários dos tecelões entre 280 réis/dia e 800 réis/dia (Covilhã)

Na indústria entre os 360 réis/dia e os 500 réis/dia para os homens e os 160 réis/dia e os para as 220 réis/dia mulheres.

Salário médio na poda em Vila Real entre 139 réis/dia e os 185 réis/dia

Um xaile dos Pirinéus nos Armazéns do Grandela em 1913/14 custava entre 3.600 e 5.500 réis.

Uma operária fabril ganhava entre 4.160 e 5.720 réis/mês

De artigo de luxo a peça da indumentária popular feminina

A mulher camponesa sempre usou pelas costas uma espécie de agasalho, uma saia dobrada, capa, capucha, capoteira ou mantéu e finalmente apareceu o xaile.

O xaile, beneficiando da nova conjectura torna-se mais acessível às bolsas populares e contribui também imenso para o desenvolvimento da indústria.

Por outro lado a preferência popular pelo xaile resulta de:

Prático no uso diário – permitia maior amplitude e liberdade de movimentos;

Durabilidade – grande resistência, o que os tornava mais duráveis:

Facilidade de manter e acondicionar – não necessitavam de grandes cuidados com limpeza e ocupavam pouco espaço quando arrecadados;

Compunha a figura – uma mulher envolta num xaile escondia a pobreza do seu trajar e dando-lhe dignidade.

O xaile na vida da mulher-mãe

O xaile está presente em todas as ocasiões da vida da mulher-mãe.

Aconchega o recém-nascido e retribui a parteira;

Aos domingos e dias de festa é um complemento do melhor fato;

Peça de enxoval e complemento do trajo de noiva;

Resguardo do frio e da chuva;

Nos momentos de tristeza embiocava a cara e escondia a sofrimento. No luto cobria o corpo e xaile de cor é tingido de preto, pois noutra cor não teria mais utilidade;

Serve de mortalha;

É a peça que melhor passa de mãe para filha, uma vez que na maioria das vezes nada mais havia para herdar;

O Xaile é o “tapa misérias”.

Embora possamos encontrar xailes em todas as regiões do país, o gosto, os costumes locais e a riqueza da região ditaram preferências por determinados tipos de xaile.

O xaile nas diversas regiões de Portugal

Em Trás-os-Montes e nas Beiras o xaile é negro, seja domingueiro ou de uso diário. No Alentejo, Ribatejo e Algarve além do negro, surgem outras cores, como o castanho ou o cinzento, lisos ou com padrões sóbrios.

O xaile adquire expressão máxima na região da Beira Litoral, sobretudo nos distritos de Aveiro e Coimbra, que considero a “Capital do Xaile”.

Nesta região, o gosto popular pelo uso do xaile enquanto complemento e adorno do traje, levou ao uso de uma multiplicidade de tecidos de materiais diversos, de padrões, de estampados e de cores inaudito e singular, fomentando uma indústria e um conjunto de artes e ofícios intimamente relacionado com esta peça de vestuário.

O xaile está intimamente ligado à figura da mulher e à sua vivência.

Carlos Cardoso, In “Trajes de Portugal” | Imagem de destaque

Vendedora do mercado semanal de Viana do Castelo

Trajos de Entre Douro e Minho

Vendedora do mercado semanal de Viana do Castelo

“As vestimentas das vendedoras, conservando aqui, excepcionalmente, toda a pureza do costume tradicional, são as mais pitorescas, as mais graciosas, as mais variadas de cor e de linha, as mais felizmente achadas para fazer realçar a graça das formas, a ondulação dos movimentos, o mimo da expressão feminil.

As saias curtas, descobrindo a base piramidal da perna nua, são de pano carmesim ou de serguilha, de uma infinita variedade de combinações de lã urdida com estopa, em linho e em algodão: brancas às listas pretas, castanhas ou azuis; cinzentas às riscas vermelhas, azuis, castanhas ou brancas, numa enorme diversidade de tons.

Camisas dum grosso linho alvíssimo, mangas largas, bordadas em apanhados bizantinos no alto do braço, bordadas em entremeios abertos no mesmo linho sobre os ombros, bordadas ainda a linha de cores, à russa, nos canhões chatos muito justos ao pulso.

Grandes colarinhos redondos, de renda ou de linho, com barra de folho ou barra de renda.

O colete muito curto, redondo na cinta, levemente espartilhado, vermelho, cinzento ou preto, sempre guarnecido de uma larga barra de veludo preto lavrado, no estilo de Utreque, ordinariamente pespontado numa espiguilha de ouro ou de prata.

O cós das saias são invariavelmente de linho branco, com meio palmo de largura em pregas miudíssimas, presas aos debruns encarnados, pretos ou azuis.

Os aventais, estreitinhos e curtos, encabeçados em funéus de linho bordado a cores, são de sirguilha com soberbos bordados em ponto de tapete, nos mais ricos tons de escarlate e de azul- persa.

Brincos largos de filigrana de ouro. Colares de contas de ouro liso. Algibeiras pendentes da cintura, um lado, em ampla châtelaine de pano, com aplicações policromas guarnecidas de lantejoulas.

Os lenços da cabeça, em toucado de diversas formam, já em grande laço como na Alsácia, fazendo diademas sobre os cabelos apertados ao meio, já achatados no alto no alto da cabeça, à semelhança do que usam as mulheres dos Apeninos, já envolvendo o rolo da trança sobre a nuca e caindo em duas pontes sobre as espáduas, são ordinariamente vermelhos, de um magnífico vermelho ardente, de púrpura, cor da flor dos cactos.”

Descrição feita por Ramalho Ortigão

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

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Trajo do Monte Real – Leiria | Estremadura

Trajo do Monte Real

Na descrição do tipo de vestuário de Monte Real, temos sucessivamente de considerar o dos homens, o das mulheres e o das crianças.

1.- Homens:

No trajo dos homens devemos ainda distinguir o fato do domingo e o fato da semana.

a) O trajo do domingo consta geralmente de um fato de cotim preto, formado por um casaco curto com os cantos arredondados; por um colete com gola, deixando ver a camisa, quase sempre de riscado, com um colarinho estreito com os cantos arredondados, onde às vezes se nota uma gravata de cores berrantes; e por umas calças com a forma de boca de sino.

O calçado é, em geral, constituído por sapatos de prateleira ou de meia prateleira, e mais raras vezes por botins, usados em geral pelos que são remediados. As meias usam-se ainda pouco. Para a cabeça têm um chapéu de abas largas, a que dão o pomposo nome de chapéu fino.

Trazem ainda, ao domingo, grandes correntes de prata ou de ouro, às vezes com um cornicho, e também cordões de libras, que prendem de um lado um relógio metido dentro de uma bolsa de lã com borlas, e do outro, por vezes, um pequeno espelho. Para as costas têm, quando remediados, uma capa preta, mas que só usam em ocasiões solenes.

b) O trajo da semana é muito mais simples do que o que acabamos de descrever. Em geral, ainda em mangas de camisa, isto é, sem casaco, e apenas com umas alças velhas arregaçadas, ou umas ceroulas de ganga, ou de pano cru, curtas e largas. Sempre descalços; trazem no Inverno um barrete na cabeça, e no Verão às vezes um chapéu velho.

2.- Mulheres:

O vestuário das mulheres é constituído, em Monte Real,

– por blusas ou batinés com mangas compridas e de abotoar ao lado;

– por saias de chita ou estamenha, franzidas junto a um cós largo e com barras de ganga de assento preto e olhos amarelos, frequentemente alteadas com um cordel tecido com algodão de várias cores e com maçanetas nas extremidades;

– por aventais de riscado escuro; por canos para as pernas, usados mesmo no rigor do Verão.

Geralmente andam descalças e só nas ocasiões solenes deixam ver uns sapatos pretos e umas meias pretas ou da cor do vinho.

Na cabeça nota-se-lhes quase sempre um lenço encarnado, atado de modo a poderem colocar-se as suas pontas num chapéu preto, de forma arredondada, como no Minho, enfeitado com um penacho preto e penas de várias cores, fixas numa conta dourada.

Nas abas do chapéu, encontra-se quase sempre um lenço branco, muito bem dobrado.

Para as costas têm, em harmonia com as posses, saias de estamenha, de castorinha ou beata, e também já xailes.

Nas orelhas luzem botões de ouro; ao pescoço uma medalha, e nos dedos anéis de prata ou de chumbo.

Aos domingos, quando as posses o permitem, trazem cordões aparelhados com libras, medalhas, cruzes e, às vezes, corações, que noutros tempos teriam servido de amuleto e cuja significação se perdeu.

3.- Crianças:

As crianças até aos três anos usam apenas umas botas que lhes deixam à mostra parte das pernas, e andam em gadelhe (em cabelo).

Ao pescoço trazem, por vezes, bentos e amuletos.

Depois, até aos cinco anos, passam a usar um barrete na cabeça, umas calças abertas, mas já com bolsos, e andam vulgarmente em mangas de camisa, a não ser aos domingos, em que trazem umas blusas de cor ou camisolas azuladas ou verdes, andando descalças até mesmo nesses dias.

Depois desta idade, o trajo das crianças começa a assemelhar-se ao dos adultos.

Extractos de um estudo sobre o trajo do Monte Real (concelho de Leiria), feito por Manuel Domingues Heleno Júnior, estudante da Faculdades de Letras de Lisboa, datado de Maio de 1917.

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

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Trajo Português – Trajos e conexos | Etnografia Portuguesa

Trajo Português

Neste artigo, vamos divulgar, de forma minimamente sistematizada, informações  publicadas pelo Dr. José Leite de Vasconcelos na sua obra “Etnografia Portuguesa” – Livro III, sobre os trajos em Portugal:

“O trajo em geral pode ser considerado segundo o tempo, a idade, o sexo e a fortuna.

Segundo o tempo: primitivo, medieval, quinhentista, setecentista, oitocentista, moderno, da moda (ou à moda), de partes do dia e de estações do ano.

Segundo a idade: de criança de colo, de jovem, de adulto e de velho.

Segundo o sexo: masculino e feminino.

Segundo a fortuna: pobre e rico.

O trajo em particular

apresenta-se-nos conforme as alíneas que seguem:

Trajo interior (ou roupa branca, de baixo ou interior ou trajos menores);Trajo civil (ou usual ou paisano, ou à paisana);

Trajo típico (ou de classe): de fadista, de papo-seco, de cigano, etc.;

Trajo circunstancial: de luxo (domingueiro, de cerimónia, de festa), de fantasia (de actrizes, de artistas de circo, etc.), do Carnaval, caseiro, de trabalho, de casamento, de luto, quotidiano ou de semana, de praia;

Trajo profissional: de caçador, de pescador, banheiro, peixeiro, peixeira, pastor, pastora, sapateiro, ferreiro, ferrador, operário, padeiro, porteiro, cozinheiro, etc.;

Trajo regional: de províncias ou áreas geográficas; não há propriamente trajo nacional, mas trajos nacionais;

Trajo uniforme: militar, eclesiástico (talar, hábito, bispo, padre, etc.), académico, de justiça (juiz, advogado, carrasco, etc.), de diplomatas, de funcionários cortezãos, de criados, de gente de bata branca (médicos, enfermeiros, farmacêuticos, químicos); e

Elementos complementares do trajo: adornos, armas, arrimos, objectos de uso pessoal, cosméticos, tatuagens, barba e cabelo.

Há ainda que entrar em linha de conta com os modos de usar certas peças de vestuário: curto, comprido, arregaçado, de lado, a direito, etc.”1

Trajos de Trás-os-Montes

Trajes de homem e de mulher (arredores de Bragança – depois de 1916)Ler
Pe. Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal

Trajos de homem e de mulher – Mirandela – Ler
Armando Artur do Valle, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de Julho de 1916

Trajos de Entre Douro e Minho

Maneiras de pôr o lenço na cabeça – Ler

Trajos da Beira

Trajos de Penamacor – Ler
Adelino Esteves Robalo, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa – 08.04.1917

Trajos do Alentejo

Descrição de trajos tradicionais do Alentejo (I) – Ler
Trajo característico | Trajo dos homens no trabalho do campo | Trajo de mulher no trabalho de campo (Vidigueira)

Trajos do Alentejo – Evolução do trajo e do penteado – Ler
José Francisco Figueiredo, Nisa

Trajos do Algarve

Trajo de mulher e homem – Ler
José Guerreiro Murta, 10.04.1917

Trajos da Madeira

Indumentária característica madeirense: camponesa e camponês – Ler
Artigo n’O Século, 23 de Junho de 1901

Vestes Tradicionais da Madeira – Ler
Extracto de um estudo de um aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, 30 de Junho de 1916

Vestuário da população de Fajã da Ovelha – Ler
João Augusto Correia de Gouveia, aluno de Antropologia, 18 de Maio de 1914

Trajos dos Açores

Vestuário dos Terceirenses – Ler
Judite Galles, aluna da Faculdade de Letras de Lisboa, 4 de Julho de 1916

Trajes Micaelenses – Ler
De um artigo de Joaquim Cândido Abranches, intitulado Costumes Populares Micaelenses

Peças de vestuário

Mantilha – Ler

A Capucha – Ler

O chapéu Ler

O lenço da cabeça – Ler

Trajos infantis e juvenis – Ler

Artigo em continua atualização.
1 Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

Trajos tradicionais da Madeira no início do séc. XX

Trajos tradicionais da Madeira

Indumentária característica madeirense: camponesa e camponês

“O trajo da camponesa é muito típico, quando aparece nas festas.

Na cabeça uma carapuça, saia curta de lã encarnada, com listas verticais de cores;

capa de meia cintura, azul-escura, debruada de largas fitas de renda da mesma cor, posta sobre o ombro esquerdo e passando por de baixo do braço direito, indo encontrar-se as duas extremidades um pouco abaixo do peito, descobrindo uma branca camisa de linho, abotoada por grandes botões de oiro, com numerosas pregas e caindo sobre as franjas de um colete de cores, sobre o qual assentam grossos grilhões de oiro.

Usam botas brancas de canhas, debruadas com uma lista vermelha. A meia é branca e vê-se quase até ao joelho, por ser uma saia curta.

O trajar do camponês não é também menos original.

Na cabeça uma carapuça, como a mulher, de forma cónica e pontiaguda, parecendo-se com um funil, feita de pano azul-ferrete.

Jaqueta curta, apertada na cintura, também de pano azul, colete de seda vermelha com botões de vidro de diversas cores, camisa branca, de linho, de grandes colarinhos de bico, voltados para baixo e apertados com dois grandes botões de oiro, de cadeia.

A calça é de linho branco, de pano azul ou de lã amarela, muito larga, caindo sobre uma bota branca, esmeradamente limpa a giz e sem salto.

Artigo n’O Século, 23 de Junho de 1901, sem assinatura” 1

Vestes Tradicionais da Madeira

“As vestes tradicionais são ainda hoje bastante usadas principalmente nas seguintes freguesias: Santo da Serra, Santa Ana, Canhas, Porto de Moniz e Caniçal.

Além das vestes tradicionais, há outros diversos tipos de vestes populares actuais, que por serem menos curiosos não me dei ao incómodo de notar.

No norte da Madeira, as mulheres fiam de lã branca de ovelha e tecem e fazem calças para os homens. Estas têm o nome de serguilha.

As saias riscadas das mulheres chamam-se saias cardadas. São de lã e têm conjuntamente as seguintes cores: amarela, azul, encarnada e verde.

As mulheres cardam a lã, depois tingem-na e tecem-na. Tingem com uns pós amarelos (batatinha) e com açafrão. Muitos chamam a estes pós: poses encarnados e verdes.

Antigamente, os homens usavam cueca branca de pano de linho da terra, camisa e botões dourados, faixa branca na cintura e carapuça (carbuça ou crabuça). Este trajo é ainda usado na freguesia do Caniçal: devo, porém, dizer que só o vi no sacristão da igreja.

Diz-se que antigamente as mulheres usavam saia, camisa copada, manga curta, colete bordado, como os do Minho, e carapuça; às vezes capa traçada e uns lenços de ouro, hoje muito apreciados.

Extracto de um estudo de um aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, 30 de Junho de 1916″ 2

1 e 2 Informações e foto retiradas de “Etnografia Portuguesa” – Livro III – José Leite de Vasconcelos  (texto editado)

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