Capa de Honras Mirandesa – Miranda do Douro

“Capa de Honras” Mirandesa

A “Capa de Honras” Mirandesa é uma peça de artesanato muito “sui generis” do planalto Mirandês, que tem por finalidade proteger os “boieiros” (guardadores de vacas) e pastores de todas as intempéries nos meses mais rígidos, nomeadamente no Inverno.

Como é uma das peças de artesanato mais ilustres do planalto Mirandês, como é óbvio, é indispensável a sua utilização em qualquer tipo de cerimónias, sejam de que índole forem.

É uma peça com grande valor etnográfico e que requer um trabalho minucioso por parte do artesão devido à sua grande complexidade.

Em terras de Miranda [Trás-os-Montes e Alto Douro] diz a sua gente: “Há nove meses de Inverno e três de inferno“. O clima é áspero e variável, a paisagem agreste, apenas convidativa na Primavera e em alguns dias de Outono. No resto, tocam-se os extremos do frio e do calor.

Por isso, o homem que tem vivido nesta terra criou a sua maneira de vestir para se defender no trabalho do campo, destes dois extremos.

A sua vida toda ela de natureza agro-pecuária, levou-o a criar os trajes de certa maneira austeros, simples e belos, artesanais e domésticos, feitos à base dos recursos locais, o linho e a lã (burel).

É, pois, feita de, fiada, urdida, tecida e pisoada (pardo-burel) a Capa de Honras Mirandesa.

É uma das peças do trajo popular português, pesada, a mais imponente e a mais antiga.

Origem

Deve ter tido origem na capa de “Asperges” gótica, de raiz medieval de algum mosteiro Leonês.

Muito ornamentada de lavores nas bandas, gola – carapuça sui generis e rabicho que, por detrás, pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica medieval”, como observa Trindade Coelho. É parecida com a Capa de Burel de Aliste mais rica e mais solene.

Como diz Ernesto Veiga de Oliveira, “Vemos em terra de Miranda numa categoria à parte a capa de honras, em Burel, a mais nobre peça do nosso traje popular, de capuz, honra e aletas, com aplicações recortadas e ponteadas, em cuja confecção se chegavam a gastar 60 dias e mais“.

De cor castanha, fabrico caseiro, ainda hoje se confecciona em Constantim (Miranda do Douro) e é utilizada por individualidades em actos célebres e por pastores e lavradores desta região transmontana, principalmente no Inverno.

De notar que cabeção “HONRA“, pala, orlas das abas e da racha, atrás são ornadas com aplicações de burel finamente recortadas, cosidas à mão sobre o fundo intermédio de tecidos de lã preto.

O cabeção e a honra rematam em franja. A pala do capuz é debruada por uma barra de tecido de lã preta.

O nome “HONRA” não provém unicamente do seu uso por pessoas mais ricas e nobres, mas sim por muito trabalhada.

Antigamente e nos tempos de hoje

Antigamente era usada pelas pessoas que possuíam um estatuto social mais elevado, “mais ricas”. Era um traje domingueiro. Ao longo dos tempos passou a ser usada por pastores e lavradores da região.

Hoje verifica-se grande procura por pessoas de fora e autóctones, o que vem confirmar a admiração, riqueza e beleza desta preciosidade do artesanato português.

Como se pode constatar por esta descrição pormenorizada isto premeia a grande dedicação, rigor e mesmo grande imaginação por parte do artesão.

Isto faz com que seja uma peça de artesanato de grande exemplar da cultura portuguesa e além disso constitui um grande orgulho do artesão.

Domingos Raposo

Trajo de Apanhadores de Chá (par) – Açores

Trajo de Apanhadores de Chá

Trajo masculino

Camisa e calças | Acessórios: Chapéu de palha e sandálias de cabedal

Chapéu de palha feito com tranças de seis pernas. Diferente dos das mulheres que são feitos com tranças de oito pernas.

A camisa é bastante comprida; indo até o joelho e com umas abertas aos lados. As mangas são pouco franzidas e terminam com punho abotoado por um botão. Junto ao pescoço é rematado por um cós baixo a partir do qual, e ao meio, tem uma trincha que remata com botões.

A fazer o peito tem nervuras perpendiculares que terminam na altura da trincha. Calças largas de cor igual à camisa e sandálias de cabedal com tira larga sobre o pé deixando os dedos à mostra.

Trajo feminino

Blusa de linho e saia em xadrez | Acessórios: Lenço branco, chapéu abeiro, avental, meias rendadas e galochas

A cabeça é coberta com um lenço branco que envolve o rosto e amarra sobre a nuca, chapéu abeiro em palha regional, feito muitas vezes pelas próprias mulheres, com uma fita à volta de metade da copa que desce entre a aba e a copa, amarrando debaixo do queixo.

Blusa branca com nervuras nas mangas, que são compridas, rematando em baixo com um folhinho em bordado inglês. Esta blusa em linho grosseiro, é usada por fora da saia em xadrez de duas cores, cor-de-rosa e branco.

A saia é franzida na cintura e deve rematar com um cós baixo abotoado com um botão simples e com uma abertura que fecha com molas. Nos pés usa meias brancas rendadas e galochas simples, que devem ser cepos de madeira cobertos de tecido.”

Fonte: “O Trajo Regional em Portugal” – Tomás Ribas

O chá Gorreana (do tipo Orange Pekoe), produzido nos Açores, para além de muito saboroso é ainda um dos mais ricos em antioxidantes. A Gorreana tem a particularidade de possuir a única fábrica de chá da Europa. Saiba mais sobre os benefícios do chá para a saúde.

Imagem de destaque 

Trajes tradicionais de Santana – Madeira

Trajes tradicionais do concelho de Santana – Madeira

Homem

O Fato Serrano

Este traje é típico da Freguesia de S. Jorge.

O homem veste calça de lã preta, a camisa de linho, colete de lã preto, chapéu preto e calça bota chã.

O traje era usado nas idas à missa e em momentos festivos.

O Traje Serrano

De um modo geral, o homem usava o chamado “traje serrano” composto por: calça e colete de seriguilha e camisa de linho; na cabeça usava um barrete semelhante a uma carapuça ou barrete de orelhas (carapuça ou ninho de melro preto); lenço ao pescoço e calçava bota chã.

Este traje era usado pelo homem Santanense nas suas lides caseiras.

Mulher

O Traje da Mulher Viúva

Com de ovelha preta era feita a saia “preta”, sendo esta por toda ela pregada e comprida;

Vestia uma blusa enramada em tons escuros onde dominava a cor preta, com um pala, franzida até à cintura tanto na frente como nas costas, terminando com um folho por toda a blusa, de mangas compridas; no seu interior vestia um colete de pano branco para maior elegância;

Usava um calção branco justo à perna com uma liga de renda branca; devido à lã ser áspera, usava um saiote no comprimento da saia com uma renda branca;

A cabeça era coberta por um lenço enramado em tons escuros, azul-escuro, acastanhados ou pretos e calçava uma bota chã de listra vermelha.

Este traje era natural e típico da Freguesia de Santana.

Era o traje que as mulheres Santanenses usavam quando ficavam viúvas, nas suas lides caseiras e, por vezes, quando se deslocavam à fazenda ou mesmo quando tinham de sair para qualquer sítio.

O Traje Domingueiro de Santana

Com lã das ovelhas brancas, após preparada e tecida, era feita a “saia branca”, sendo esta por toda ela pregada e comprida;

Vestia uma blusa enramada com tons suaves, contendo tanto na parte da frente como nas costas, uma pala com franzido até à cintura, terminando com um folho por toda a blusa, guarnecida de liga de bicos branca, de mangas compridas;

No seu interior vestia um colete de pano branco para maior elegância;

Usava um calção branco justo à perna com uma liga de renda branca; devido à lã ser áspera, usava um saiote no comprimento da saia com uma renda branca;

Acabeça era coberta por um lenço enramado onde dominava a cor branca ou o beije e calçava uma bota chã de listra vermelha. Este traje era típico da Freguesia de Santana.

Era usado pelas mulheres Santanenses aquando da ida à missa ou em ocasiões festivas.

O Traje de Trabalho

Com lã de ovelha, castanha e branca era feita uma mistura denominada “saia castanha escura”, sendo esta por toda ela pregada e comprida;

Vestia uma blusa branca;

Afrente era composta por pregas cobrindo a cintura; nas costas levava uma pala franzida até o terminar da blusa, sendo esta guarnecida de ligas de bico brancas, de mangas compridas;

No seu interior vestia um colete de pano branco para maior elegância;

Usava um calção branco justo à perna com uma liga de renda branca;

Devido à lã ser áspera, usava um saiote no comprimento da saia com uma renda branca;

A cabeça era coberta por lenço enramado e calçava uma bota chã de listra vermelha.

Fonte do texto | Imagem de destaque

Trajo de Trabalho do Sargaceiro | Trajes Tradicionais

Trajo de Trabalho do Sargaceiro

Apúlia | Século XX

Branqueia | Acessórios: cinto e chapéu

Casaco designado por branqueia, de burel branco cortado em viés e abotoado com botões do mesmo tecido. Na cintura cinto de cabedal.

Chapéu sueste do mesmo tecido, burel por vezes revestido de um outro tecido impregnado de óleo para o impermeabilizar; a copa é talhada em gomos e a aba, pespontada, é mais larga atrás, para proteger o pescoço.

Trajo profissional todo ele concebido para a função a desempenhar, isto é, proteger o corpo do sargaceiro na água.

A própria designação, branqueta, como se referiu, estendeu-se também ao próprio trajo. Esta peça apresenta um corte invulgar, talvez proveniente do saio medieval, talhado em viés que permite ficar justo ao corpo e alargar-se a partir da cintura facilitando o movimento das pernas.

Vestia-se directamente sobre a pele para evitar perder-se o calor do corpo mesmo depois de molhado.

De assinalar o próprio material em que são feitos os botões de branqueia o que mostra o seu arcaísmo.

O sargaceiro segura na mão um galhapão, espécie de instrumento composto por um saco de rede ligado a uma armação de madeira (boca) e seguro por um cabo do mesmo material, com o qual apanha o sargaço trazido pelas correntes e pela ondulação até à praia1.

A apanha do sargaço pelo Sargaceiro

O minhoto soube aproveitar as condições do meio e fertilizar as areias com os produtos do mar.

A apanha de algas assumiu grande importância ao longo da costa Norte. Os campos estéreis da beira-mar foram enriquecidos com pilado – caranguejos em cardume – e sargaço.

Hoje, com a generalização dos adubos químicos, esta actividade está em declínio. Mas, em certos locais, a apanha das algas tem ainda alguma importância. Em Castelo do Neiva, nas primeiras horas da manhã, ainda é possível observar os apanhadores de algas.

O sargaço é apanhado nos meses de Verão. Os sargaceiros entram no mar e com o redenho recolhem as algas que estão à superfície ou submersas, junto ou próximo da praia.

As “branqueias”

Antigamente, os sargaceiros, antes de entrarem no mar, envergavam branqueias, um casaco de tecido de lã, grosso e branco, que envolve o corpo dos sargaceiros até ao joelho.

Na cintura é cingido por um cinto de couro e a parte de baixo é rodada.

Quando o mar já não permite a apanha, os montes de algas molhadas não transportados para os sequeiros, nas dunas, em cestos, padiolas ou carros de mão com duas rodas.

Nos sequeiros as algas são estendidas com o auxílio do engaço – uma espécie de ancinho.

Uma vez secas, as algas são empilhadas, formando uma palhota. A parte superior é coberta por um telhado de duas águas, construído com colmo. Aí ficam até serem transportadas para os campos que vão fertilizar2.

 

Sargaceiros na Praia da Apúlia. Fonte

Fontes: 1.- “O Trajo Regional em Portugal” – Tomás Ribas | 2.- “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” | Imagem de destaque

Trajo de Romaria da Póvoa de Varzim | Trajes tradicionais

Póvoa de Varzim. Século XX.       

Trajo masculino

Camisa, camisola e calça  | Acessórios: catalão, precinta e soletas

Camisa oculta pela camisola de malha de lã branca, cujo feitio segue o corte de uma camisa tradicional, decorada com motivos marítimos, bordados a ponto de cruz com fio de lã vermelho e preto.

Calças de branqueta, com bolsos abertos acima dos dianteiros, pespontados a preto e vermelho; maneira e costuras laterais também pespontadas. Precinta branca ajusta o cós das calças. Na cabeça, catalão de malha vermelha com barra branca. Calça soletas de couro com rasto de pau.

Neste conjunto, a camisola é a peça que merece um olhar mais atento.

Confeccionada em malha de lã branca, segue de perto o corte da camisa, mantendo ainda a forma antiga de fechar, isto é, com os cordões em vez de botões. São ainda notáveis os motivos decorativos bordados, inspirados nos apetrechos marítimos, usados pelo pescador.

Quanto a origem desta decoração, têm-se levantado algumas interrogações. Podemos no entanto acrescentar ser prática corrente entre os pescadores poveiros marcarem os seus pertences com siglas, para os identificarem com maior facilidade.

Terá sido este costume que levou esses velhos lobos-do-mar a marcarem também as suas roupas, dando origem aos desenhos nas emblemáticas camisolas.

Trajo feminino

Camisa, saia e colete | Acessórios: lenços, listrão, chinelas e ouros

Camisa de algodão branco, quase oculta pelo colete de berre, isto é, pano de lã vermelho, debruado a verde, com costuras pespontadas e ajustado na frente.

Saia de vestir de lã branca (branqueta) com preguinhas miúdas junto à cintura e macho largo na frente; sobre a anca, arregaçando a saia, cordão policromo (listrão ou ourelo).

Cruzado sobre o peito, lenço de metim (sarjinha miúda) com as pontas atadas nas costas. Na cabeça, lenço estampado cachené, trespassado na nuca; deixando cair as pontas na frente.

Calça chinelos pretos de bico arrebitado. Das orelhas pendem «flores de ouro» e sobre o peito cordão com moedas e cruz.

Embora não se mostrem aqui, faziam ainda parte deste trajo, a saia de costas, que tal como o nome indica se colocava sobre as costas. Tinha dimensões específicas na altura e na roda, servindo também como peça de luto.

O casaco curto, de pano piloto com barras de cetim ou de veludo lavrado, completava o conjunto.

Uma explicação sobre o listrão ou ourelo merece ser dada. Com a sua aparência singela, este cordão continha um sentido e uma mensagem de conteúdo amoroso.

O moço poveiro casadoiro embarcado, quando ia à Galiza tinha por tradição trazer à sua amada o listrão.

De regresso, quando o barco assomava à praia, lá estava ela esperando o sinal do seu amado, que de longe lhe acenava com o listrão na mão. A este aceno corria a rapariga ao seu encontro e no meio de abraços recebia o presente esperado.

O listrão deixou mais tarde de vir da Galiza e passou a ser feito na terra, tomando o nome de ourelo.

Fonte: “O Trajo Regional em Portugal” – Tomás Ribas

Traje de Branqueta

Os pares que o formam envergam os trajes que correspondem ao de romaria da Classe Piscatória Poveira no final do século XIX, usados quando os pescadores poveiros se dirigiam aos centros de peregrinação, para cumprir as promessas que faziam em momentos de perigo ou de doença grave.

A grave tragédia marítima de 27 de Fevereiro de 1892 que, ao vitimar grande número de pescadores poveiros, afogou a Póvoa no luto da viuvez, orfandade e familiar levou ao desaparecimento dos trajes garridos da comunidade piscatória.

Em 1936, com a fundação do Rancho Folclórico Poveiro, este vistoso traje foi recuperado, constituindo a indumentária do Grupo.

Os homens envergam as características camisolas poveiras, de lã branca, bordadas a ponto de cruz, com motivos marítimos, as calças são de branqueta, enfaixada, a cabeça cobre-se com um típico “catalão” vermelho, forrado a branqueta, e calça meias de algodão com “berloques” e chinelos de cabedal amarelo.

As mulheres vestem camisa branca e colete vermelho, apertado com atacadores, saia de branqueta, comprida e bastante rodada sobre um saiote vermelho de branqueta, à volta da cinta, para arregaçar as saias, um ourelo (cordões de lã) de cores diversas, pelas costas traçam um xaile branco e cobrem a cabeça com lenço de merino, de cores garridas.

Ao pescoço usam ricos cordões de ouro nos quais penduram lindos crucifixos. Calçam meias de algodão, rendas e chinelos de verniz preto, arrebitados no bico, característica local.

Fonte do texto e da imagem de destaque

Trajes do Vale do Lima – Alto Minho | Trajes tradicionais

Lã e linho – fibras naturais com que se confecionavam os trajes no Vale do Lima

A lã e o linho constituíam, por excelência, as fibras naturais usadas para a confecção da roupa. Esta última adoptada sob o tríplice aspecto de linho, estopa e tomentos. As fibras do linho eram e ainda são usadas para fazer camisas, saias, lenços… enfim, a roupa da casa.

As peças de vestuário que a família não estava habituada a fazer eram entregues aos cuidados de um profissional.

O vestimenteiro, para os homens, fazia um terno: calças, colete e jaqueta. O colete que, em tempos pouco distantes, eram geralmente de linho e mais ou menos bordados (Cabração), deu lugar aos coletes de cotins e riscados.

As calças, de burel (Rebordões, Amarela, Arga), de lã e estopa (Soajo) ou até de qualquer outro tecido mais moderno para a festa, vieram substituir os calções outrora em voga e hoje apenas usados em algumas localidades (Lindoso).

Chapéus e lenços

O chapéu de aba larga não se vê em mulheres, mas é comum nos homens. Nos trabalhos do estio, porém, o chapéu de palha de centeio, fabricado geralmente no local, é que era adoptado. As mulheres usavam frequentemente o lenço adquirido nas feiras.

Os homens usavam como agasalho uma capa comprida com cabeção e gola alta, sem mangas nem botões (Refoios, Rebordões).

Os agasalhos das mulheres eram os extintos mantéus. De resto, contra o frio, os meios de defesa eram parcos. Do Soajo a Lindoso, e na Amarela, as mulheres punham um avental sobre a cabeça e ombros.

Avental que, aliás, quando é mais amplo e específico para esse uso recebe o nome de “mantilha“.

Já em Arga e nas povoações adjacentes como Estorãos e S. Lourenço, adoptam, pela cabeça e ombros, uma saia. Antes, porém, de se generalizar este costume, a moda era o mantéu, “do pescoço até ao giolho“, sem mangas, nem gola ou capuz.

Capucha para homens e mulheres

Mas entre todos os agasalhos, a capucha era o mais vulgarizado e preferido, tanto por homens como por mulheres. Consistia num rectângulo que, cobrindo a cabeça, prendia ao pescoço, dilatava-se nos ombros e podia, até, descer um pouco, adaptando-se ao corpo.

A capucha era de tomentos (Arga), ordinariamente de burel (Cabreira, Gralheira, etc.) e, para a missa ou dias festivos, de saragoça.

À coroça ou palhoça, principal protecção contra a chuva, há a acrescentar o safão, especialmente destinado aos trabalhos no mato e no monte. Na serra de Arga, os safões era feitos geralmente de pele de cabrito.

Suspensos da cintura aos joelhos ou começando mesmo a meio do peito, impedem o estrago das roupas nas segadas. Note-se, no entanto, que, como no Soajo, o safão é já ou virá a sê-lo, em breve, um acessório dispensado e esquecido.

Meias e calçado

As meias eram fabricadas em malha de lã e, inicialmente, de retalhos unidos. Abundavam na serra sob as denominações de, para homens, “carpins” ou “meiotes” e, para mulheres, “piúcas” (quando sem pé). Estas eram meias de malha de lã, geralmente brancas, apenas do cano do joelho ao tornozelo (Arga).

O desuso das meias de lã tradicionais instala-se, contudo, no Soajo e na Amarela, tendo-se-lhe antecipado nas faldas da Serra de Arga (Cabração): onde se usavam as chamadas “peúgas de cabrestilho“, ou seja, com uma presilha por baixo.

Os socos de madeira, hidrófugos e quentes, eram e ainda são o calçado usado por ambos os sexos, concebido para os maus caminho do campo.

Os socos, chancas ou tamancos são abertos, no Verão, ou fechados, no Inverno, e são feitos de madeiras locais, como o amieiro. Os modelos fechados são umas botas de couro e sola de “pau”, de cano curto e apertadas com cordões de couro.

Ao calçado ocorre associar as polainas que, apesar de terem caído em desuso, são inequivocamente úteis para o frio, a chuva, a neve e, de um modo geral, todo o serviço no campo ou no monte.

Geralmente eram só adoptadas pelos homens mas as mulheres serranas, da Arga, também as usavam na estação rigorosa. As polainas femininas também eram de burel mas mais curtas.

Os lenços de namorados

Os lenços de namorados, outrora de estopa (Arga) e, depois, de linho e de cambraia, eram comuns quer na zona ribeirinha, quer nas localidades serranas. Bordados a ponto cruz, apresentavam dizeres de cariz amoroso, como esta quadra da serra Amarela:

«Neste lenço quis fazer
Obras da minha habilidade
Para um dia dar de prenda
A quem tenho amizade.»

Ou esta outra:

«Nada mais
Posso dizer
Soute firme
Até morrer.»

Fonte: “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” (texto editado com subtítulos) | Imagem de destaque

Traje de Vila Verde | Trajes do Minho

Traje de Vila Verde – Minho

O Traje de Vila Verde é, como qualquer traje, um reflexo da vida das pessoas que o envergavam no séc. XIX e início do séc. XX.

Ele é mais rico e variado na mulher que no homem. Assim, possuímos três grandes variantes do traje, que indicam, só por si, as actividades que o homem (ou mulher) possuíam: quer os de trabalho, quer os de lazer.

Essas variantes são: o traje de encosta, que é um traje de festa ou também designado por Domingueiro (pois era colocado pelas pessoas ao Domingo para ir à missa).

Este possui uma variante, o traje de noiva. Nele só a mulher vai diferente, com alguns aspectos como o ramo, o guarda-chuva, o véu de tule e o xaile.

A segunda variante principal é o traje de Ribeira, Lavradeira ou de Feira. Indica como se depreende, o seu uso, quando o homem ou a mulher se deslocam à feira.

É um traje que procura um certo compromisso entre o traje Domingueiro e o traje de trabalho, situando-se assim num meio-termo.

Este é-nos indiciado pelo lenço ou xaile garrido que a mulher usava para cobrir o busto ou pelo cachené que ela colocava à cabeça. No homem pouco ou nada mudará em relação ao traje Domingueiro.

Finalmente, a terceira variante, designado por de trabalho ou de uso geral, é, como o nome indica, o traje de trabalho.

Aqui destacamos o chapéu de palha, usual nos trabalhos do campo, para proteger do sol o trabalhador, bem como as botas, as meias grossas, os socos, a croça, etc.

Traje Domingueiro Feminino

Traje destinado para a Boda, Festa e Romaria, e, finalmente, deixado para a Mortalha.

Constituído pela jaqueta ou casaca, a saia e o avental guarnecidos a vidrilhos, veludo, cetins e rendas, onde o preto predominava contrastando com o abundante ouro e o branco do véu, ou com as cores garridas dos lenços de tapete, de pedida ou de namorados e de cinta.

É, por tudo isto, o traje por excelência de Vila Verde, originário dos montes deste Concelho e Terras de Bouro.

Traje Domingueiro Masculino

O Traje Domingueiro ou de Festa, masculino, não é tão criativo como o feminino, razão pela qual não varia muito de terra para terra ou mesmo de região para região.

Mas em dias especiais, de Festa e Romaria, os Homens da Terra aprumavam-se vestindo

– calça, colete de pelúcia e casaca ou jaqueta (com alamares dourados ou prateados), predominantemente em preto,

– acompanhados pelo uso de sapatos de pele atanada pespontados a branco com rebordo a vermelho, ou bota igualmente de pele atanada, cardada ou não,

– contrastando com a camisa de linho bordada a vermelho e/ou branco,

– a faixa preta ou vermelha

– e o uso de chapéu predominantemente preto.

Traje de Noivos

O Traje de Noivos, variante do Traje de Encosta, é a continuação, na versão cerimonial, do Traje Domingueiro ou de Festa.

Tanto no traje feminino como no masculino a cor que predomina é preto.

O Homem vestia calça e botas pretas, próprias de cerimónia, camisa de linho bordada especialmente a branco, colete e casaca pretos de pelúcia e chapéu preto.

A Mulher vestia saia, avental e casaca pretas ricamente guarnecidas a vidrilhos, veludos e rendas, e chinelos pretos contrastando com as meias brancas.

O branco também marcava presença no véu em tule de algodão igualmente bordado a branco.

O abundante ouro era presença obrigatória neste dia, símbolo do dote da mulher minhota.

Salienta-se, porém, pela sua unicidade, o facto da mulher não levar o ramo na mão mas sim um pequeno ramo de flores de laranjeira colocado no peito sobre o lado esquerdo com grandes fitas de seda branca pendentes, simbolizando a pureza da noiva.

Para além disto, ela levava um xaile de seda no braço direito, símbolo do seu enxoval e também um guarda-sol com o fim de embelezar o seu traje.

Traje de Lavradeira

O Traje da Ribeira, de Feira ou Lavradeira, originário da parte Este e Sudoeste do concelho de Vila Verde apresenta-se como o segundo traje mais importante da nossa terra, já que as Feiras foram, e ainda o são em certa medida, o maior ponto de permuta de culturas e de géneros agrícolas desta região, assim como de animais de criação caseira.

Este traje constituído, na Mulher, pelo

– colete ou corpete preto guarnecido a vidrilhos ou de linho bordado a gosto;

– a saia e avental pretos;

– a blusa de linho fino bordada a branco;

– a algibeira,

– o xaile

– e o cachené.

O traje masculino pouco ou nada varia em relação ao domingueiro.

Traje de Trabalho

As roupas que o povo usava no dia-a-dia, isto é, para o seu árduo trabalho agrícola eram de uso comum para todos os trabalhos, e como tal as mais velhas, as mais usadas, as mais resistentes e as mais práticas, como

– a saia simples acompanhada pelo avental tecido em teares manuais,

– ou as calças de cotim,

– as chancas e socos,

– as blusas ou camisas de linho mais grosseiro

– e os chapéus de palha para se protegerem do sol ou até mesmo da chuva.

No Traje de Trabalho masculino surge também a croça usada pelos guardadores ou chamadores de gado.

Fonte (texto e imagens): CM de Vila Verde (páginas já desativadas) | Imagem de destaque: pormenor de fotografia do Grupo “O Cancioneiro do Alto Minho ” – Luxemburgo, retirada daqui.

Folclore e Política – As Políticas do Folclore

 

No Centenário da Implantação da República*

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, existiu um “grupo de danças” que então apresentava coreografias assaz curiosas, alegadamente baseadas no folclore minhoto. Entre outras bizarrias, dançavam uma chula na qual, os dançarinos, empunhavam foices e martelos, estilizados, construídos em madeira e, à medida que volteavam, faziam sobrepô-los numa clara alusão ao símbolo mundialmente adoptado por todas as organizações comunistas e a própria URSS, desde os tempos da chamada “social-democracia revolucionária”.

Pretendiam, dessa forma, transmitir a sua ideologia assente na “aliança entre operários e camponeses”, idealizada por Karl Marx e Friedrich Engels no seu “Manifesto Comunista” como forma de atingir uma sociedade socialista.

Tal como sucedia em relação às coreografias, também os trajes eram estilizados a partir de uma versão dos trajes domingueiros minhotos, já de si adulterados. As saias das moças não iam além de duas barras de cor vermelha e amarela, sobrepostas num pano escuro.

Tratava-se, como se pode adivinhar, de um “grupo de danças” que, em complemento com outras iniciativas do género, se inseria numa estratégia de propaganda que era então desenvolvida por um pequeno partido de inspiração maoísta. Esses tempos ainda são recordados por algumas pessoas que os viveram, incluindo alguns dos seus componentes e o próprio ensaiador que ainda se mantêm nestas lides.

Para além de algumas tentativas esporádicas de utilização do folclore para fins políticos, esta limita-se na maior parte das vezes à sua participação em manifestações de carácter político e sindical, com especial preferência para os grupos de zé-pereiras devido ao troar dos seus bombos.

A razão do desinteresse que a actual classe política manifesta em relação ao folclore prende-se directamente com a utilização que lhe foi dada ao tempo do Estado Novo, associando-a aos chamados “três efes” que, supostamente, constituíam a sua trilogia – Fado, Folclore e Fátima – e como tal consideradas “formas de alienação do povo”.

Apesar de, ironicamente, algumas dessas “formas de alienação” terem adquirido maior relevo nos tempos actuais, como sucede com o futebol, cujos jogos passaram a realizar-se indiscriminadamente em qualquer dia da semana, e a sua discussão a dominar quase todos os momentos da vida das pessoas.

E, reveladora do desprezo a que o folclore do povo português é votado pelo actual regime político, é notória a sua omissão dos grandes eventos culturais e da programação televisiva na estação oficial, bem assim a forma pejorativa com que frequentemente o termo folclore é utilizada.

Um rancho de Castelo Branco actuou no “Primeiro Concurso Nacional de Folclore” que se realizou em 1958, em Lisboa. Arquivo Fotográfico da CML

O folclore ou melhor, a sua representação através de grupos folclóricos propositadamente constituídos para esse fim, remonta aos finais do século XIX quando um “grupo de lavradeiras de Ponte de Lima” se deslocou ao Porto, a convite dos bombeiros portuenses, conforme nos dá conta o jornal humorístico “O Sorvete”, na sua edição nº. 123, de 4 de Setembro de 1892. Doze anos depois, foi constituído o Rancho das Lavradeiras de Carreço, em Viana do Castelo.

O seu aparecimento não foi certamente alheio ao espírito cívico que então se manifestava através da criação de inúmeras associações com as mais diversas finalidades e jornais locais, a maior parte das vezes inspirada na propaganda republicana quando não mesmo obra sua, levada a cabo através das lojas maçónicas então constituídas.

De resto, apesar do claro predomínio dos sectores monárquicos e católicos na maior parte do país, caracterizado ainda por uma sociedade marcadamente rural, os republicanos dispunham a sua base de apoio numa burguesia fixada nos meios urbanos, inclusive nas pequenas cidades da província. A até aí entendia a Maçonaria a sua organização, como sucedeu com o Grande Oriente Passos Manuel, mais conhecido por “Maçonaria do Norte”, que integrou nomeadamente a Loja “Fraternidade” de Viana do Castelo e o Triângulo nº. 28, de Ponte de Lima.

A foto, publicada na Ilustração Portugueza, de 1 de Março de 1926, mostra “meninos da primeira sociedade” mascarados com trajes minhotos.

Com o advento da I República, passaram as exibições do folclore a ser aproveitadas no contexto das “paradas agrícolas” de onde se derivaram os chamados “cortejos etnográficos”, exposições industriais e ainda nos congressos regionalistas que à época se realizaram já então com o propósito de debaterem a criação de regiões administrativas – províncias – em substituição da circunscrição distrital herdada da monarquia constitucional e que ainda vigora.

Em relação aos trajes tradicionais, passou o seu uso a ser incentivado junto dos meios burgueses da capital como máscara de Carnaval, havendo uma especial preferência pelos trajes minhotos com que se vestiam as crianças.

Com esse propósito, promoviam-se concursos e bailes de mascarados nas colectividades de cultura e recreio, incluindo nas casas regionais que entretanto foram aparecendo, inicialmente frequentadas por uma espécie de elite que, apesar de migrada, ainda dispunha de tempos livres e meios para poder consumir, o que não sucedia com os seus conterrâneos sujeitos a uma vida miserável de escravidão.

O xé-xé foi uma figura típica do Carnaval alfacinha até aos finais do século XIX. Na imagem, seguida por vários foliões entre os quais se distingue um galego e uma ovarina. Arquivo Fotográfico da CML

A vulgarização do uso do traje regional como máscara carnavalesca teve sobretudo a ver com a necessidade de suprimir o incómodo xe-xé, zombando de tudo e de todos, figura brutal que em tudo desagradava aos políticos e à burguesia citadina que não lhe poupavam o seu atrevimento jocoso e a crítica mordaz.

Porém, havia de ser o Estado Novo, designação pela qual se tornou conhecida a II República, aquele que maior atenção prestou às coisas do folclore. Contudo, não constituiu seu propósito identificá-lo e preservá-lo da mesma forma como actualmente o entendemos, apesar de ter existido uma forte tendência com vista à sua musealização.

Procurou antes, como aliás era próprio da época a outras latitudes, aproveitá-lo para os seus propósitos propagandísticos, quer na divulgação das potencialidades turísticas que o país oferecia, no contexto de uma indústria então nascente, como ainda na educação do povo nos valores pátrios e comunhão com a sua própria identidade.

A partir de meados do século passado, os “ranchos folclóricos” multiplicaram sobretudo através da organização das “casas do povo”. Para tal, o Estado Novo utilizou os serviços do Ministério da Educação Nacional, o Secretariado da Propaganda Nacional, a Mocidade Portuguesa, a Junta Central das Casas do Povo, a influência dos governadores civis e ainda a acção da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Organizou feitas e concursos.

E, através de intelectuais de renome identificados com o regime, apurou as músicas, alterou e inventou coreografias, modificou os adornos dos trajes e introduziu uma vertente mais técnica e artística à sua representação. Em resumo, por mais bem intencionada que tivesse sido a sua intervenção neste domínio, os responsáveis pelo Estado Novo acabaram por produzir estragos irreparáveis ao folclore.

Aspecto de um festival de folclore, em 1962, no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa. Repare-se atentamente na exibição das moças. Arquivo Fotográfico da CML

Por falta de pesquisa e método de análise, a maior parte das pessoas passou a dar como genuíno aquilo que não é mais do que uma versão estereotipada produzida pelo Estado Novo. E assumem-no com tal convicção que passou a constar dos seus próprios critérios de avaliação. E, no entanto, são visíveis em quase todas as coreografias e não só, as marcas deixadas pela intervenção que foi feita, quando não se trata mesmo de puras invenções.

O mesmo se verifica com o traje, os instrumentos que são utilizados, as músicas e letras que compõem o reportório e os moldes em que decorre a própria apresentação. De resto, é notória a insistência em mencionar os prémios alcançados, os concursos em que participaram, as organizações em que se filiam e os países que percorreram em digressão em vez que descreverem aquilo que realmente interessa ao público e que consiste naquilo que vão representar.

Paradoxalmente, o preconceito com que actualmente o folclore do povo português é encarado, mesmo em relação ao folclore de outros países, não impediu o actual regime político de ter recuperado a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), alterando a sua designação para Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), apesar de à partida ter sido constituída à semelhança da sua congénere italiana Opera Nazionale Dopolavoro.

E, justiça seja feita, aquela organização continua a manter um departamento para o Folclore, para além de numerosas iniciativas do maior interesse na valorização cultural e na ocupação dos tempos livres dos trabalhadores e da população em geral. E, isso é tanto mais importante quando porventura nunca foi tão necessário manter a alegria no trabalho!

* Artigo escrito e publicado, inicialmente, em 2010, por ocasião da celebração do centenário da implantação da República em Portugal.

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Bibliografia: GOMES, Carlos. A Maçonaria em Ponte de Lima. O Anunciador das Feiras Novas. Ano XXIV. Série II. 2007. Ponte de Lima

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Vestidos populares da freguesia de Lavos (1917)

Vestidos da freguesia de Lavos

As mulheres usam saias largas, com «quatro panos», de cores escuras, que as engrossam, devido ao «saiote» de flanela amarela ou cor-de-rosa e à anágua de pano branco.

Quando trabalham passam um cordão sobre as saias, um palmo abaixo da cintura, puxando-as para cima e prendendo-as, de maneira que sobre os quadris formam uma roda larga, ficando a saia pelo joelho ou barriga da perna.

Assim alteadas é que trabalham, vão à fonte, lavam a roupa ou andam mesmo habitualmente.

No Inverno, quando o frio é áspero, principalmente aquelas que vendem peixe ou trabalham no cais, usam uma espécie de canos de meias, de fazenda, a que chamam canos; às vezes, são verdadeiros canos de meias.

No tronco, usam blusas ou corpinhos: as blusas mais largas são de uso quase exclusivo das velhas.

As raparigas e mesmo as mulheres casadas preferem os corpinhos, que as tornam mais elegantes; umas e outros são enfeitados com rendas e entremeios.

Também usam xaile…

Por sobre tudo isto trazem um xaile, mais ou menos rico, que dobram em forma de triângulo, e na cabeça põem um lenço que pode ser atado na nuca por de baixo de uma ponta que descai até aos ombros, ou por cima dessa ponta, ou no alto da cabeça passando pela nuca e pelas orelhas.

Nos dias de festa calçam meias e sapatos amarelos com biqueiras mais escuras, ou de polimento, de biqueira comprida – afiambrados.

Nestes dias, as saias não se alteiam, têm menos roda, são de fazendas caras, enesgadas, e têm uma barra de seda.

Os corpinhos são mais ricos, têm mais rendas e entremeios com fitas de seda, e o xaile e o lenço são de seda.

As raparigas mais da moda não põem xaile nem lenço nos dias de festa e fazem da cabeça uma montra de travessas e ganchos, que dizem ser de trataruga.

 

Sugestão de leitura: O que é o Traje de Lavradeira no Minho?

 

Os homens nada usam de particular: calças nem demasiado justas nem demasiado largas, camisa de chita sem gravata, colete desabotoado; é assim que trabalham.

Às vezes trazem uma camisola, e o casaco, raro é vestirem-no, a não ser no Inverno. Preferem trazê-lo sobre um dos ombros, sobre que poisam as enxadas, as foices, os alviões, os instrumentos de lavoura que trazem do campo.

Nos domingos, o fato é o mesmo, mas em geral preto, e a camisa é de chita mais cara.

Por vezes a gravata aparece também, mas é raro. Vi já o facto curioso de um aldeão que trazia a gravata sobre o pescoço, por de baixo e por dentro do colarinho da camisa desabotoada.

Nos pés calçam botas ou sapatos, quase sempre sem meias e que, quando as viagens são longas, descalçam e põem ao ombro, enfiadas no cajado pelas presilhas.

O chapéu é mole, de formato vulgar. Durante a semana, em lugar de chapéu, põem um barrete de flanela, no fundo do qual andam o tabaco e as mortalhas.

Extractos de um estudo sobre os vestidos populares da freguesia de Lavos, feito por Joaquim Faria Correia Monteiro, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de 10.07.1917

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado)| Imagem

O Traje Masculino do Alto Minho | Textos e opiniões

Traje masculino no Alto Minho

Desde os primórdios da humanidade, a função primordial do vestuário consistiu em agasalhar.

Porém, para além do conforto que proporcionava, o Homem sentiu ainda a necessidade de se cobrir e criar a sua intimidade, à semelhança de Adão e Eva ao tomarem a consciência da sua própria nudez.

Entretanto, à medida que a sociedade foi evoluindo e o ser humano tornando-se sedentário, adaptou a sua maneira de vestir às diferentes exigências do trabalho e do clima.

Para além disso, passou a também a utilizá-lo como meio de comunicação, através dele exprimindo diferentes estados da alma, mormente alegria ou tristeza, festa ou luto, paz ou revolta. E, quando era chamado a combater, engalanava-se com as suas melhores vestes para, de forma cerimonial, se entregar à morte ou a glória.

Natureza utilitária

A natureza utilitária do vestuário antecede a sua função decorativa que, aliás, não a substitui. Modernamente, o casaco constitui uma peça de vestuário concebida geralmente em tecido mais pesado e grosso com o objectivo de proteger contra o frio.

Originalmente, esta peça aparecia sempre associada ao colete e às calças, constituindo um terno. Aliás, pela forma que o caracteriza, o uso do colete não parece fazer sentido sem o casaco.

Mas, para além da sua utilização como meio de agasalho, representa em virtude do seu aspecto, da sua funcionalidade e do seu relativo custo um elemento cerimonial e identificador de estatuto social. Aliás, à semelhança do que sucede com a capa de honras utilizada em Miranda do Douro.

 

Nesta imagem que apresenta um traje do Baixo Minho, o casaco exibe ferragens e o colete botões de metal. O rapaz apresenta o chapéu braguês.

Fatos apresentados por Grupos de Folclore

Pelas mais variadas razões, o fato masculino no traje do Alto Minho, exibido por alguns grupos folclóricos, tem com alguma frequência sido apresentado com um corte arredondado e botões de grandes dimensões que lhe retiram a sua funcionalidade enquanto peça de vestuário para se transformar num adereço de fantasia.

Os próprios botões, geralmente em plástico e de cor branca, estendem-se em grande número ao longo das mangas ou mesmo em seu redor, conferindo a quem o veste um aspecto algo apalhaçado.

Concebido a partir de resíduos do petróleo, o plástico tal como o conhecemos constitui um produto inventado no século XX. Difundiu-se sobretudo após a segunda guerra mundial.

A partir de então deu origem a novos conceitos de moda identificados com a denominada “linha POP” ou PopLine. Daqui deriva o termo popelina.

Apenas a baquelite foi inventada em 1909 e esta mais usada no fabrico de equipamentos eléctricos.

Por conseguinte, o emprego do material plástico em peças de vestuário que são apresentadas como reproduções das que eram usadas nos finais do século XIX não parece fazer o menor sentido.

Materiais diversos

Os materiais utilizados no fabrico dos botões eram em geral de metal, podendo estes variar consoante a função do vestuário e o estatuto social de quem o usava.

Assim, de acordo com a peça de vestuário em causa ou seja, tratando-se do colete ou do casaco, em traje domingueiro ou de trabalho, podiam apresentar-se sob a forma de botões ou de ferragens, de metal mais ou menos nobre, ou ainda de osso feito das pontas dos chifres das cabras.

Os coletes apresentavam aberturas de casas para os botões enquanto os casacos utilizam frequentemente presilhas.

A utilização de madrepérolas surgia geralmente no vestuário feminino das pessoas mais abastada

Haverá ainda espaço disponível para acrescentar mais botões decorativos ao casaco?

Do Carnaval para o palco do Folclore

Pela sua exuberância e colorido, o traje à vianesa e demais trajes minhotos em geral, foram desde sempre os preferidos de crianças e adultos nas suas brincadeiras de Carnaval como se de um fato carnavalesco se tratasse.

Não admira, pois, que de igual forma o mesmo se tenha prestado à fantasia e imaginação de quem o utiliza. E com o decorrer do tempo, lhe tenham sido introduzidas alterações com o propósito de o tornar ainda mais vistoso.

Acabaram por levar para o palco do folclore uma imagem de traje que não corresponde inteiramente à sua realidade mas que, pela repetição constante do erro, acabou de certa forma por adquirir foros de autenticidade que não possui.

Para além do colete não ter a utilidade devido ao seu corte arredondado e ao tamanho exagerado dos botões, estes apenas cumprem uma função decorativa. A registar também a ausência de casaco, os sapatos de pala, camisa de corte recente e chapéu incaracterístico.
A fantasia vai ao ponto de apresentar botões em redor das mangas do casaco.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História (texto editado)

A Indústria Chapeleira e o Traje Tradicional

A Indústria Chapeleira e o Traje Tradicional

A fotografia constitui uma das fontes documentais não apenas para quem estuda os acontecimentos da História contemporânea como também para quem procura com algum rigor conhecer os usos e costumes desde meados do século XIX, nomeadamente aspectos relacionados com o traje utilizado à época.

Porém, o aparecimento da fotografia coincide com a industrialização dos processos de produção que levaram a uma inevitável alteração de hábitos e a uma padronização cada vez maior no modo de vestir.

Primitivamente, a produção de vestuário era feita de forma artesanal e, sobretudo nos meios rurais, nem sempre existiam recursos materiais para se poderem adquirir nas feiras que se realizavam nas vilas os tecidos necessários à sua confecção, ao contrário do que sucedia com as classes nobres e abastadas para quem se importavam as mais luxuosas sedas.

No campo, cultivava-se o linho que depois se submetia a um laborioso ciclo até ficar pronto para o tear.

E era então que o vestuário, de linho, sorrobeco ou outros tecidos adquiria forma: com cores sóbrias ou garridas, com mais ou menos estopa, consoante a sua finalidade, de acordo com a condição da pessoa que o vestia e ainda com as características do clima ou da função, se destinava ao trabalho ou a ser usado em dia festivo.

E, tal como acontecia em relação ao vestuário, o mesmo se verificava com outros acessórios, incluindo os que serviam para cobrir a cabeça.

Ainda actualmente é possível encontrar teares sem qualquer utilização desde há imenso tempo, em muitas casas antigas nas aldeias minhotas. E ainda, para quem efectua pesquisas genealógicas, não é raro verificar a profissão de tecedeira nos assentos de baptismo outrora lavrados nos cartórios paroquiais do Minho.

O jornaleiro minhoto, de barrete e tamancos de coiro e madeira, segundo uma fotografia da Ilustração Portugueza de 1920.

O lenço e o chapéu

Enquanto o lenço servia às mulheres, o trabalhador do campo usava invariavelmente um barrete que se ajustava à cabeça, proporcionava conforto e não dificultava os movimentos, possuindo por vezes outras utilidades como a de esconderijo.

Ou então, quando a temperatura o aconselhava, um chapéu de palha que, à semelhança do vestuário, também era construído pelas mãos habilidosas das mulheres. Aliás, é esse talento de artista que levou Ramalho Ortigão, em As Farpas, a caracterizar a mulher e o homem minhotos da seguinte forma:

O trabalho das rendas basta, por ele só, para criar os hábitos de simetrização, de alinho, de asseio e de esmero, que necessariamente se comunicam da nitidez da operária a tudo que a rodeia – os seus vestidos, a sua casa.

O marido minhoto, por mais boçal e mais grosseiro que seja, tem pela mulher assim produtiva um respeito de subalterno para superior, e não a explora tão rudemente aqui como em outras regiões onde a fêmea do campónio se embrutece de espírito e proporcionalmente de desforma de corpo acompanhando o homem na lavra, na sacha e na escava, acarretando o estrume, rachando a lenha, matando o porco, pegando à soga dos bois ou à rabiça do arado, e fazendo zoar o mangual nas eiras, sob o sol a pino, à malha ciclópica da espiga zaburra”.

A indústria chapeleira em Braga

Na segunda metade do século XIX, a cidade de Braga destacou-se nomeadamente pela indústria chapeleira localizada sobretudo na Freguesia de São Víctor.

Esta indústria haveria mais tarde de se transferir para S. João da Madeira onde, aliás, veio a ser criado o Museu da Chapelaria. Adquiriu então notoriedade o chamado chapéu braguês, de copa alta e aba com cerca de sete centímetros de largura, cuja utilização se generalizou em todo o Minho.

Não havia lavrador que, sobretudo em dia de mercado, não ostentasse o seu chapéu fabricado pela conceituada indústria bracarense. E era vê-los, de chapéu na cabeça, com vara de marmeleiro e casaca sobre os ombros a negociar o gado na feira de Ponte de Lima, Barcelos ou noutras localidades, como aliás atestam as fotografias da época.

Não admira, pois, que os grupos folclóricos minhotos exibam com maior frequência o chapéu braguês em relação ao barrete, existindo porém alguns que já vão incluindo este na indumentária que exibem.

Outras regiões

Noutras regiões do país, também o uso do chapéu se generalizou sob diferentes formas relacionadas nomeadamente com condições climatéricas ou de ordem prática, como sucede com o utilizado pelo maioral ribatejano ou o chapéu de abas largas da região da Estremadura.

Como é sabido, o traje tradicional não escapou à influência das modas das várias épocas nem às fantasias resultantes de uma política de turismo que utilizava o folclore também como atractivo para quem pretendia visitar o país.

E, por maioria de razão, o folclore minhoto sofreu os efeitos dessa utilização, levando à assimilação de elementos originariamente estranhos que vieram a perdurar no tempo e a adquirir foros de autenticidade.

E, atendendo a que tal situação se verificou principalmente em grupos folclóricos de renome que foram destacados ao tempo do Estado Novo, as adulterações acabaram sendo reproduzidas por outros grupos posteriormente constituídos que tomarem aqueles como referência em vez de procederem à sua própria investigação.

Feira e Romaria de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, da autoria de Alfredo de Moraes.

O chapéu braguês

O chapéu braguês constitui precisamente um dos acessórios do traje minhoto que tem sido objecto de adulteração, sobretudo entre os grupos folclóricos da região do Alto Minho.

Para além de, na maior parte dos casos já não corresponder ao que era outrora usado, a imaginação e a fantasia levam-no a incluírem nele diferentes adornos e enfeites e até, nalguns casos, irem ao ponto de lhe darem o aspecto do chapéu de toureiro.

Sucede que, para sobreviver, o minhoto ocupava a maior parte do seu tempo na lavoura que era a base do seu sustento.

E, assim sendo, não se explica facilmente porque, em muitos grupos, os minhotos aparecem invariavelmente em traje de festa – eles de fato domingueiro e elas com o seu característico “traje à vianesa” – como se tratasse de um povo preguiçoso que mais não soubesse do que cantar e bailar, ao jeito da letra do malhão.

Por conseguinte, faltam em muitos grupos folclóricos as figuras que caracterizam as várias actividades da respectiva vivência rural, incluindo o pastor das regiões montanhosas das Argas, da Peneda e do Gerês com as suas coroças de junco.

Pese embora a adopção do chapéu braguês na indumentária exibida pelos grupos folclóricos, ao contrário do que se verifica com o típico barrete camponês, não se trata de um acessório genuíno mas antes um produto da era industrial, a qual veio ameaçar de extinção os antigos costumes rurais que se procuram representar e que acabaria por suscitar a criação de grupos de folclore com o objectivo de preservar as mais genuínas tradições populares, fenómeno este que surge precisamente em Inglaterra e noutros países industrializados.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

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