Lavrador da Arada ou o Divino Pobrezinho

O “Divino Pobrezinho” ou o “Lavrador da Arada”

Vindo um lavrador da arada,
Encontrou um pobrezinho.
O pobrezinho lhe disse:
Leva-me no teu carrinho.

Apeou-se o lavrador
E no seu carro o metia,
Levou-o p’ra sua casa,
P’rá melhor sala seria.

Mandou-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que havia:
Por cima, damasco roxo;
Por baixo, cambraia fina.

Mandou-lhe fazer a ceia
Do melhor manjar que tinha.
Sentou-o à sua mesa,
Mas o pobre não comia.

As lágrimas eram tantas
Que pela mesa corriam,
Os suspiros tão profundos
Que até a mesa tremia.

Deitou-o na sua cama,
Mas o pobre não dormia.
Lá pela noite adiante,
O pobrezinho gemia.

Levantou-se o lavrador,
Foi ver o que ele teria.
Deu-lhe o coração um baque,
E como não ficaria!

Achou-o crucificado
Numa cruz de prata fina.
Ó meu Jesus, se eu soubera
Que em minha casa Vos tinha,

Mandara fazer preparos
Do melhor que encontraria.
Cala-te lá, lavrador,
Não fales com fantasia.

No céu te tenho guardada
Cadeira de prata fina,
Tua mulher a teu lado,
Que também o merecia.

Fonte: “Romanceiro – Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro” (5 vol.) – Joaquim Alves Ferreira

José Leite de Vasconcelos | Pessoas

José Leite de Vasconcelos

José Leite de Vasconcelos, nasceu em Ucanha, Tarouca, no dia 7.7.1858, e faleceu em Lisboa a 17.1.1941.


Escritor, arqueólogo, numismata, professor universitário e notável etnólogo e filólogo, era descendente de família da nobreza rural.

Com a idade de dezassete anos e meio foi para a cidade do Porto, levando consigo o exame de instrução primária e um pouco de Latim e Francês. Tira o Curso dos Liceus em três anos (1876-1879) e o de Ciências Naturais de 1879 a 1881.

Formou-se em Medicina, defendendo a tese «Evolução da Linguagem», em 1886.

No ano seguinte, 1887, conhecido já pelos seus trabalhos no campo das letras, é conservador da Biblioteca Nacional, cargo que desempenha até 1911, ano em que foi escolhido para professor da então recém-criada Faculdade de Letras de Lisboa. Nesta leccionou disciplinas de Filologia Românica até 1929, aposentando-se, então, por limite de idade.

Sem nunca ter afrouxado o seu lado científico, é a José Leite de Vasconcelos, empenhado em escrever a história do povo português, que se deve

– a fundação da Revista Lusitana (1887),

– a organização do Museu Etnológico de Belém (1893)

– e a criação da revista Arqueólogo Português (1895).

Publicou mais de três centenas de estudos relacionados com as antiguidades, a linguagem e a vida do povo português, domínio em que se tornou uma autoridade de renome mundial.

Bibliografia

Da sua bibliografia, vastíssima, salientam-se:

– A Barba em Portugal,

– Etnografia Portuguesa (3 vols. publicados em sua vida e 5 vols. Póstumos),

– o Dialecto Mirandês,

– Lições de Filologia Portuguesa,

– Esquisse d’une diactologie portugaise (tese de doutoramento em Filologia Românica apresentada na Universidade de Paris, 1901),

– Filologia Barranquenha,

– Antroponímia Portuguesa,

– Da Numismática em Portugal e Religiões da Lusitânia (3 vols. – 1897-1913),

– Estudos de Filologia Mirandesa, 1911, Opúsculos, 1928-1929, em quatro volumes,

– Etnologia Portuguesa, 1933-????, em oito volumes,

– Romanceiro Português, 1958, em dois volumes, e

– Contos Populares e Lendas, 1964, em dois volumes.

Fontes: Enciclopédia Universal Multimédia da Texto Editora e Dicionário Enciclopédico da História de Portugal

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