Os trajes dos saloios (séc. XIX e 1ª metade do séc. XX)

Os trajes saloios

Introdução

As formas de trajar sempre tiveram uma importância vital na identificação social, cultural e profissional dos povos.

Antes de se chegar à “standartização” dos nossos dias, em que quase toda a gente veste o mesmo tipo de roupa, existia a possibilidade de se conhecerem inúmeras características de uma pessoa pelo trajo que esta envergava. Hoje em dia, embora essa possibilidade ainda se verifique em algumas situações, é muito mais difícil de se conseguir.

Nas classes mais endinheiradas havia grandes preocupações quanto à sumptuosidade e riqueza das roupas.

Trajo Saloio – Mulher

As várias modas que foram surgindo ao longo dos tempos, com maior ou menor ostentação e riqueza, mais ou menos vistosas, espelhavam, sobretudo nas classes altas, a própria evolução social e cultural. E sublinhavam também a maior (ou menor) abastança dos próprios países.

Por outro lado lado, há que levar em linha de conta a protecção do corpo contra as alterações climatéricas e ambientais. Terá sido mesmo essa a primeira preocupação do Homem quando começou a cobrir o seu corpo.

As várias alterações estéticas que os homens impuseram nas suas formas de trajar, essas sim, variavam já consoante a sua própria cultura, o que influenciava os gostos e os costumes.

Ressalta pois que da preocupação puramente protectora, o vestuário foi assumindo carácter de diferenciação social e económica e, obrigatoriamente, cultural.

Em Portugal não se pode afirmar que tenha havido grandes diferenças em relação aos restantes países da Europa. Contudo há (e houve) aspectos identificadores de cada país e dentro deste de cada região. Outra vez a cultura e o clima de mãos dadas na definição de modas, costumes e hábitos de trajar.

Na zona da capital portuguesa, os “campónios” têm uma denominação própria, são os saloios.

E podemos afirmar que foi possível, durante muitos anos, distinguir um saloio (rural) de um citadino, através da roupa que envergava.

Não é, decerto, o único traço distintivo destas gentes, mas é, obviamente, aquele que primeiro se nota.

Sem se poder distinguir um trajo propriamente saloio, é, no entanto, possível afirmar um conjunto de características que definem a roupa que o saloio mais comummente enverga, que a chamada domingueira – ou de “ir ver a Deus” -, quer a outra que usa diariamente na sua labuta camponesa.

Sobre o trajar dos saloios

Não é muito fácil definirmos concreta e definitivamente o trajo saloio. Cremos mesmo não ser muito correcta a afirmação TRAJO SALOIO, mas sim o TRAJAR DOS SALOIOS

O saloio é, cremos que poucas dúvidas se levantam hoje em dia, o camponês dos arrabaldes de Lisboa, aquele que durante muitos anos forneceu a cidade dos produtos frescos provenientes das hortas destes sítios.

Assim o trajar destes homens do campo tinha uma ligação muito estreita com esta sua actividade, não se podendo, no entanto, diferenciar do de outros camponeses que trabalhavam noutras zonas da Estremadura ou mesmo do Ribatejo ou do Alto Alentejo.

Não cremos que haja uma característica de indumentária exclusiva dos saloios. Barretes, peça que, de facto, identifica sobremaneira o homem saloio, existem também em vários outros pontos de Portugal; bem assim como as faixas na cintura; bem assim como o varapau.

Nas mulheres o uso do lenço e o seu tipo, é muito semelhante, por vezes igual, ao da maior parte das regiões do país. Mas, na indumentária feminina encontramos algo que, ao que pudemos observar até agora, se pode revelar como único, a célebre carapuça saloia, a que faremos maior referência no capítulo seguinte.

Depois de observarmos muitas gravuras, podemos, para já, concluir pela exclusividade deste elemento, com estas características, como algo retintamente saloio.

Particularidades e diferenças

Há no trajar dos saloios algumas particularidades e diferenças, que não são estabelecidas em função das várias profissões que existem como até se podia supor.

Ou seja, o jornaleiro, o moleiro ou o condutor de carroças, quando trabalham envergam o mesmo tipo de roupa, a grande diferença (e possível diferenciação) está quando chegam os dias de festa ou os dias santos, em que se usam os melhores fatos, aqueles mais novos e onde é então possível vislumbrar quem tem maiores posses, maior poder monetário para compor de forma mais adornada o seu vestuário.

Afirmamos pois que o saloio não possui um trajo que o distinga claramente de outros camponeses seus vizinhos.

Mas também não podemos escamotear o facto de os saloios trajarem de forma muito semelhante entre si e que, frequentando mais assiduamente a cidade de Lisboa que os camponeses de outros locais, se tenha fixado um certo tipo de trajar como o trajo saloio e que, aos longo de muitos anos, vários estudiosos, pintores e fotógrafos tenham tentado fixar este homens e estas mulheres com os seus trajos característicos.

É isso que aqui, de forma sucinta, breve (tendo em conta o século XIX e primeira metade do século XX) e o mais completa possível, iremos agora fazer. Dar-lhes o retrato mais fiel do trajo envergado pelo saloio e pela saloia. No final falaremos, ainda que brevemente, do que cremos ser o trajar saloio hoje em dia.

A protecção para a cabeça

O barrete saloio é talvez a peça da indumentária masculina mais conhecida. Não é, no entanto, exclusivo destes homens.

Os campinos das lezírias ribatejanas também o usam, assim como os pescadores de várias zonas costeiras do país. Mas é, sem dúvida, com os homens saloios que este objecto mais se identifica.

É quase sempre negro, mas também se usou vermelho e verde, semelhante ao dos já citados campinos e por vezes com borlas coloridas, consoante o estado civil daquele que o usa. Mas foi o barrete totalmente negro que mais se difundiu e, cremos, que nenhum saloio retinto o tenha, alguma vez, deixado de usar.

Mas não era esta a única protecção para a cabeça que os saloios usavam. O chapéu de abas largas era também muito usado e, por vezes, a cartola surgiu igualmente (chamado chapéu “zabumba”). Nos nossos dias o comum boné substituiu, em larga escala, todos os outros.

Nas mulheres o lenço foi rei e senhor. Houve tempos, até meados do século XIX, em que, em conjunto com o lenço, a mulher saloia cobria a cabeça com uma carapuça, conhecida exactamente como carapuça saloia. Curiosa a quadra que J. Leite de Vasconcellos recolheu no Cancioneiro Popular Português:

«Sou Saloia, trago botas,
e também trago meu mantéu,
Também tiro a carapuça
a quem me tira o chapéu».

Mas enquanto esta carapuça caía em desuso o lenço foi-se mantendo, sendo ainda hpoje muito usado pelas saloias mais idosas.

O Tronco

Consoante a sua função, a estação do ano e, sobretudo, a ocasião, assim o saloio a e saloia vestiam a blusa, a camisa, o colete, o casaco, a casaquinha, o mantéu ou a jaqueta.

Da roupa interior, sempre utilizada, falaremos mais adiante, mas por cima da sua camisola e no que diz respeito ao tronco, o saloio vestia, invariavelmente, uma camisa.

Assim, este homem usava a sua camisola interior, de cor branca e muitas vezes, em situação de trabalho, de outras cores, nomeadamente cores escuras. Por cima desta usava a camisa que era, normalmente, “enfiada” pela cabeça.

Estas eram aquelas camisas que tinham apenas uma pequena enfiada de botões na parte superior, no chamado espelho. Havia também outras que tinham duas frentes de botões até ao fundo. Outra característica residia no facto de terem ou colarinho, ou a chamada “gola à padre”.

Estas camisas eram, na sua grande maioria de cor branca, mas também as havia de outras cores, sempre sóbrias.

Colete e jaqueta

Por sobre a camisa vestia, invariavelmente, o colete preto, cinzento ou castanho, quase sempre. Este colete, em situação de trabalho, e por vezes mesmo nas festas, usava-se desabotoado.

Quando trabalhava era esta a cobertura do tronco, quando assim não ac0ntecia vestia ainda a jaqueta de cores escuras com maiores ou menores adornos (tais como os alamares) consoante o maior ou menor poder económico do seu proprietário.

À volta da cintura, o saloio usava, frequentemente, a faixa ou cinta de cor preta (mais raramente vermelha), por vezes com um bordado nos dois extremos e franjas nas pontas.

Nos dias invernosos usavam a samarra ou o capote, que vários autores consideraram como “irmão gémeo do capote alentejano”.

A saloia era mais alegre e graciosa nas vestes que cobriam o seu tronco. Assim, e de maneira geral, usava uma blusa cintada, com aba, franzida ou com um machinho, blusas estas que tinham padrões floridos e, não raras vezes, eram de cores alegres e vivas.

Por sobre estas usavam as vasquinhas, curtos gibões, ou casaquinhos de chita, ajustados ao busto. Usavam também um xaile pelas costas, sobretudo em casa, predominantemente as mais velhas.

Como roupa interior, a saloia usava igualmente o corpete, servindo para “segurar o seio”; algumas preferiam o espartilho. Era alva esta roupa interior.

Também a saloia usava capote, ou capa, para se proteger do frio e dos dias chuvosos.

As pernas

O saloio usava, obviamente, calças. Calças que, de forma geral, tinham bolsos direitos, apertavam à frente com botões e atrás ajustavam com uma fivela; eram de talhe direito e folgadas ou, mais comummente, justas à perna alargando em baixo de forma a tapar a parte superior da bota.

Eram, usualmente, em cotim, às riscas verticais ou lisas, e também em fazenda ou outros tecidos grossos. No trajar mais “cuidado” usavam calças feitas de “pele de diabo” – bombazina.

A saloia usava, obviamente, saias. A saia era sempre comprida, embora nunca fosse aarrastar pelo chão. Em situações de trabalho usava-a um pouco mais curta, de forma a não atrapalhar os movimentos do seu trabalho.

Para além das saias, a saloia usou durante muito tempo a sobresaia que, muito provavelmente, foi mais tarde substituída pelo avental (também chamado anágua). Este objecto não tinha apenas a função utilitária de evitar sujar a saia, mas era igualmente um adorno utilizado não só nos dias de trabalho mas também em situações festivas, onde era costume estrear um avental novo.

Os pés

Nos pés os saloios usavam quase sempre botas de couro. No trabalho, na festa, na igreja. Só os mais endinheirados usavam, por vezes, o sapato, embora mesmo estes optassem, frequentemente, pela bota ou botim, talvez uma pouco de melhor qualidade e por conseguinte mais caro.

Eram, normalmente, de couro branco, curtido com o passar do tempo e do uso. Eram também ferrados, com o fim de durarem mais tempo e os saltos tanto podiam ser de prateleira com um pequeno tacão.

Tanto estas como as de tacão raso tinham sempre as “tacholas”. Podiam ser de cano inteiriço, até meio da perna, mas o mais natural era serem mais baixas, sobretudo as que eram utilizadas no trabalho do campo.

A saloia também usava bota, normalmente de cano curto e com um pequeno salto.

Em dias de festa deixava, por vezes, as botas e calçava sapatos rasos de cordovão de cabedal branco. Também havia aquelas que cobriam os pés com umas grossas botifarras de couro atanado, de cano alto e fechadas verticalmente por meio de uma carreira de botões.

Roupa interior

De alguma roupa interior já aqui falámos. Mas devemos agora dizer que esta era quase sempre de cor branca. A excepção mais notada era, como já vimos, a camisola que o homem usava por debaixo da camisa, que era, muitas vezes, de cor escura. Os homens, por debaixo da roupa “exterior” usavam umas cuecas ou mais comummente ceroulas e meias geralmente de lá grossa.

Nas mulheres, a roupa interior era mais complexa. Usavam no busto os corpetes ou os espartilhos, usavam também cuecas (anteriormente usavam os culotes) e saiotes – ou anáguas. As meias era, por vezes, de renda e muito trabalhadas, sendo apertadas um pouco acima do joelho por meio de uma liga ou atilho.

Acessórios

Os saloios e as saloias nunca foram de muitos enfeites, sobretudo aqueles considerados como mais ou menos supérfluos. E aqui, quando falamos de acessórios, referimo-nos a objectos de utilidade, cumprindo, por conseguinte, uma função específica no trajar destas gentes, ou complementando essa forma de trajar.

É assim que no homem é indispensável o uso do varapau ou cajado. Todo o saloio que se preza o usa, servindo-se dele como elemento decorativo, mas, igualmente, como apoio e “arma” de auto defesa em caso de rixas (muito comuns nas feiras ou romarias), ou então quando era vítima de alguma eventual tentativa de assalto.

Também alguns homens usavam, embora só em alturas festivas, um relógio de bolso, com a respectiva corrente pendente de um bolso para o outro do colete.

A saloia nunca foi mulher que fizesse muito uso da ostentação. Esta mulher do campo raramente usava pulseiras ou fios de ouro, a não ser em ocasiões muito raras e muito festivas. Os seus ornamentos eram um vestido mais novo e mais colorido que o usado nos dias normais.

As bolsas

No entanto, podemos falar de acessórios, também eles de muita utilidade prática, como eram as bolsas onde guardavam alguns haveres pessoais mais essenciais ao seu dia-a-dia, como um lenço de assoar ou algum, pouco, dinheiro.

Esta bolsa era feita em pano e tinha forma quadrada ou arredondada, Por vezes, usava uma outra bolsa, pendente à cintura por meio de atilhos e colocada por dentro da abertura da saia.

Outro acessório muito usado pelas saloias eram os brincos, que lhes eram colocados ainda em criança pelas suas mães.

Já vimos como na cabeça a saloia usava, quase sempre, o seu lenço, mas para segurar o cabelo, por exemplo em carrapito, esta mulher também usava um pente de grande dimensões, feito em tartaruga, que com os seus grandes dentes permitia prender o cabelo, impedindo que este se soltasse. A mulher saloia raramente andava com o seu cabelo (invariavelmente comprido) solto sobre os ombros.

Texto – “O Trajo Saloio” – Brochura editada pela Câmara Municipal de Loures / Departamento Sócio-cultural – Texto e selecção de fotos de Francisco Sousa – Novembro de 1995 (texto editado e adaptado) | imagem de destaque: “Saloias” por Silva Porto

Fonte da imagem

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Hoje vamos bailar o Bailarico! | Danças tradicionais

Bailarico

Baile, balho, bailho, bailarito e bailarico são termos para designar popularmente o acto de bailar.

Por qualquer razão, hoje impossível de determinar, fixou-se um tipo coreográfico-musical com o nome de bailarico, de ritmo aparentado com a polca, em compasso binário (sem embargo de haver exemplares grafados em quaternário).

O bailarico é dançado pelo Alentejo, Ribatejo, Algarve e Estremadura. Armando Leça registou uma Moda do bailarico em Alte, Loulé [Algarve].

O lugar comum, que se encontra muito generalizado, mesmo entre os estudiosos, de que o bailarico é saloio, ou que, pelo menos, é na região saloia que mais é dançado, não se encontra comprovado através de rigorosas e competentes investigações de campo e análises comparativas.

Tudo indica tratar-se de um mito criado, como tantos outros nesta matéria da coreografia popular, e depois repetido por toda a gente, sem fundamento (tal como o vira em relação ao Minho, o fandango em relação ao Ribatejo e o corridinho em relação ao Algarve).

No caso do bailarico, a asserção parece ter nascido de uma inocente quadra popular que refere “o bailarico saloio

O bailarico saloio
Não tem nada que saber
É andar com um pé no ar
E outro no chão a bater,

quadra que, aliás, ocorre também referentemente a outras modas bailadas do nosso povo.

Coreografia

A coreografia estremenha do bailarico é a seguinte: uma roda, com os pares “desagarrados”, frente a frente e de costas viradas para o outro elemento do par vizinho.

Na primeira parte da música, a roda gira, com as raparigas recuando a bailar e os rapazes avançando em direcção a elas.

Os passos são miúdos e saltitantes e tanto eles como elas levam as mãos no ar. Na segunda parte da música, os pares agarram-se e “valseiam” (bailam agarrados girando no mesmo sítio), primeiro para um lado e depois para o outro.

Este era o “bailarito singel” (singelo), pois havia o “bailarito passado”, em que, a certa altura, cada um “passa” pelo elemento do par vizinho que lhe está mais próximo, fazendo um oito em seu redor e regressando ao seu par.

O bailarico dançava-se “de quatro, de seis ou de oito” (quatro pares, seis pares, ou oito pares).

(in Terra Mater) Texto editado e adaptado

Texto e imagem retirados de  Programa “O Povo a Cantar” – IRIS FM

Grupo de Danças e Cantares do Catujal

 

Grupo de Danças e Cantares do Catujal / Unhos

Grupo de Danças e Cantares do Catujal / Unhos foi fundado a 11 de Dezembro de 1993, no Catujal, actual União de Freguesias de Camarate, Unhos e Apelação, concelho de Loures.

Tudo começou cerca de 6 meses antes, com o empenhamento de um certo número de pessoas que para aqui vieram morar há muitos anos, oriundos de diversos pontos do país.

Eram entusiastas das cantigas e danças populares, e com uma grande vontade de conviver alegremente, pelo que pensaram em formar um “Rancho”, o que iria permitir uma reunião, uma vez por semana, e assim dar largas à alegria de viver.

A primeira exibição teve lugar numa festa de crianças e o êxito foi tal que, pouco tempo depois, começaram a pensar em levar o assunto mais a sério, de modo a poderem representar diversos aspectos da cultura popular tradicional saloia, desde os finais do séc. XIX até aos anos 30/40 do séc. XX, e cuja orientação ainda mantêm.

Todos os anos levam a efeito um festival de folclore, proporcionando aos grupos convidados visitas a lugares de interesse no concelho, onde incluem a realização de jogos tradicionais.

Também promovem a realização de uma grande festa de aniversário que incluí, pelo menos, uma visita de estudo e um almoço para convívio de todos os seus elementos e familiares. Participam, também, em diversos festivais de outros grupos

Constituição, trajes e instrumentos

O Grupo é constituído por cerca 50 elementos, entre bailadores, tocadores e figurantes. Algumas crianças compõem também o Grupo, onde vão aprendendo a dançar, tocar, bem como algumas brincadeiras de outros tempos.

Os seus trajes são o resultado de pesquisa no concelho de Loures, e são, essencialmente, trajes de trabalho, de festa, de romaria ou domingueiros, e um ou outro abastado ou rico, representando algumas actividades económicas como a peixeira, pescador, cavador, lavadeira, carroceiro, lavrador, a aguadeira, a ceifeira, etc.

Os instrumentos utilizados são a viola, o bombo, o reque-reque, os ferrinhos, o acordeão, a concertina, a flauta e a pandeireta. No seu repertório constam “modas de roda”, viras, verde gaios, bailaricos, entre outras de raiz popular e tradicionais.

Está inscrito na Câmara Municipal de Loures e é filiado no INATEL desde 1996, como colectividade de Cultura e Recreio.

Sobre as localidades…

A Freguesia de Unhos é uma das mais antigas do concelho de Loures, está situada na margem direita do rio Trancão, um pouco antes da sua foz em Sacavém.

Possuía ancoradouro fluvial com grande movimentação de pescadores que se deslocavam para o rio Tejo e mar alto, e comerciantes que transportavam as suas mercadorias de e para Lisboa.

Possui Igreja Matriz, o seu patrono é São Silvestre, tem dois cruzeiros e um poço manuelino.

Catujal fica na parte alta da freguesia, tendo sido, em tempos, terra de cultivo, olivais, vinhas e de pastoreio. Possui uma capela muito antiga, denominada Capela da Nossa Senhora da Nazaré.

Contatos
Casa da Cultura, Rua 25 de Abril – Lote 266 – Unhos

E-mail: catujal.unhos.gdc@gmail.com
Telemóvel: 926 499 328 | Facebook

 

A Região Saloia fica a oeste de Lisboa

A Região Saloia

Existe na Estremadura uma área, mais ou menos vasta, com particularismos que a tornam uma região específica do ponto de vista etnográfico.

Trata-se da chamada região saloia que se estende a norte e ao longo da faixa litoral a oeste de Lisboa, desde Mafra e Loures, passando pelos concelhos de Sintra, Oeiras e chegando até às portas de Benfica onde em tempos idos se efectuava a pesagem dos produtos que entravam na cidade.

Aqui, à medida que a população urbana aumentou, a cidade alargou os seus domínios para os arrabaldes transformando velhas hortas em novas construções de betão e cimento armado.

A designação alfacinha que tradicionalmente se atribuía aos lisboetas ficou como uma ténue lembrança de uma época há muito desaparecida e que evoca a proximidade rural da cidade e dos tempos de lazer dos seus habitantes.

Da velha Porcalhota resta agora um típico chafariz. O crescimento desordenado da Amadora tudo fez desaparecer, até o afamado “Pedro dos Coelhos“. Desde a Funcheira até aos cabeços de Mafra inúmeros foram os moinhos que desapareceram.

O desenvolvimento extinguiu antigas profissões como o almocreve e a lavadeira, o moleiro e o carroceiro. Sobrevivem, no entanto, muitas quintas rurais e alguns pastores continuam a apascentar os seus gados nos terrenos que ainda restam com os prédios à vista a pouca distância.

Feiras e Romarias

As antigas feiras saloias como as que se realizam na Malveira, Mercês ou em S. Pedro de Penaferrim continuam bastante concorridas mantendo muito do seu tipicismo.

Contudo, já não são apenas alfaias, os produtos hortícolas e outros géneros produzidos pelos agricultores da região o que se encontra nessas feiras, mas também as bugigangas da era electrónica e outros artigos de fancaria.

O povo ainda acorre em romaria à Senhora das Mercês e à Senhora da Natividade, preservando costumes que se apresentam estranhos aos novos habitantes que para ali foram viver, levados pelo comboio que liga Lisboa a Sintra.

Na Feira das Mercês, considerada uma das mais características da região saloia, as moças já não se derretem à passagem dos rapazes junto ao muro. A lembrar tal costume ficou o “muro do derrete” consagrado na toponímia local.

E, a perpetuar os antigos costumes saloios, deixou Leal da Câmara magníficas aguarelas que podem ser admiradas na casa-museu que ostenta o seu nome e está instalada nas proximidades do recinto da feira.

«Saloias», por A. Dias Beja – “Ilustração” – nº102 – 16 de Março de 1930

São muitos os grupos folclóricos desta região que, de igual modo, preservam a memória das suas gentes, alguns dos quais acessíveis através da Internet, como sucede nomeadamente com as “Lavadeiras da Ribeira da Lage“.

Também o cinema português celebrizou esta região, salientando-se o desempenho de Beatriz Costa no célebre filme “A aldeia da roupa branca” enquanto a banda desenhada consagrou “grilinho” e “zé pacóvio” entre os seus heróis.

A típica aldeia saloia do mestre João Franco

No entanto, um ponto digno de especial referência é a típica “aldeia saloia” do mestre João Franco.

Quem vai de Mafra à Ericeira tem forçosamente a obrigatoriedade de parar na pequena localidade do Sobreiro onde o artista deu vida a um verdadeiro espaço etnográfico que lembra o modo de vida das gentes locais, reconstituindo o açougue e o ferrador, a capela e o moinho, a taberna e a escola da nossa infância.

Das mãos do barrista saem verdadeiras obras de arte popular muito procuradas por quem visita o local, o qual supera o próprio Convento de Mafra em número de visitantes.

Sempre que vem a Portugal, o escritor brasileiro Jorge Amado visita a “aldeia saloia” e abraça o seu amigo que ali não larga a roda do oleiro [ambos agora já falecidos].

Desde os primórdios da nacionalidade, foi preocupação dos nossos primeiros reis que os mouros, judeus e cristãos vivessem em comunidades separadas a fim de prevenir possíveis conflitos, gozando no entanto de protecção.

Foi assim que surgiu o bairro lisboeta da mouraria, tal como existira as judiarias para os lados da actual rua da Madalena e junto à ribeira velha.

Com o tempo, os mouros forros, assim chamados por se tornarem livres, foram-se estabelecendo nos arredores de Lisboa, dedicando-se preferencialmente à agricultura e outros trabalhos relacionados com esta actividade.

Herança árabe

Foram estes mouros que passaram a ser designados por saloios, expressão cuja origem não se conhece com rigor mas que deve em princípio ser originada das palavras árabes salah, çala ou çalaio que significam, respectivamente, a oração que o muçulmano reza diariamente ou ainda o imposto a que eram obrigados os padeiros saloios.

Fisionomicamente, o saloio genuíno conserva ainda muitas das características que o ligam aos povos do norte de África. De resto, a região é rica em topónimos e outros vestígios de origem árabe.

Salientam-se nomes como Penaferrim, Albarraque, Algueirão e Almoçageme, além de restos de antigas habitações, necrotérios e mesquitas transformadas em templos cristãos.

A chamada região saloia constitui, por assim dizer, um dos mais coloridos azulejos que integram o diversificado painel de costumes locais que a Estremadura representa e que inclui nomeadamente as comunidades piscatórias e os salineiros da outra banda do rio Tejo.

É, no entanto, uma área condenada ao desaparecimento à medida que a sua agricultura vai sucumbindo ao avanço da construção urbana e consequente fixação de novas populações constituídas por “saloios” das mais diversas proveniências.

Nem sempre o desenvolvimento representa um efectivo progresso para o bem-estar do ser humano!

Conjunto escultórico alusivo à tradição da região saloia, em Loures. (Foto: Carlos Gomes)

 

Origem da palavra “saloio”? (1)

Quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos mouros, para não despovoar a terra, deixou-os ficar de posse dos seus bens e casas, impondo-lhes certos tributos.

Este benefício e tolerância, que a política e a humanidade aconselhavam, estendeu-se aos lugares circunvizinhos da cidade.

Esta foi logo aumentando em população cristã, que em si absorveu a raça mourisca pelo decurso dos tempos, o que não era tão fácil no campo.

Dizem que a estes mouros dos arredores davam, antigamente, o nome de Çaloyos ou Saloios, tirado do título da reza que repetem cinco vezes ao dia, chamada çala.

Ficou subsistindo o nome, ainda depois de povoados esse lugares por cristãos.

E talvez da mesma origem proviesse um antigo tributo que se pagava do pão cozido em Lisboa e seu termo, e que era conhecido pela denominação de çalayo.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | (1) Fonte: “Ilustração” nº262 – 1936

Romaria ao Senhor da Serra | Belas – concelho de Sintra

Romaria ao Senhor da Serra

Nos finais do século XIX e começos do século XX, a romaria ao Senhor da Serra, foi uma das mais afamadas e concorridas que então ocorriam nos arredores de Lisboa. Esta realizava-se na localidade de Belas, no concelho de Sintra.

As festas tinham lugar na magnífica herdade do antigo Paço Real de Belas, a poucos quilómetros de Queluz. Este Paço integra uma capela do Senhor da Serra e a Via-sacra, constituindo estes os principais motivos de atracção dos romeiros.

A região é abundante em monumentos megalíticos, existindo no local um dólmen sobre cuja tampa se encontrava derrubada. Tinham por costume os romeiros escorregar sobre ela, tradição que sugeria a sobrevivência de ritos ancestrais ligados à fertilidade.

Terminada a romaria, os festeiros regressavam como podiam: de carroça e a pé ou de comboio, que tinham de o apanhar na gare de Queluz.

Em 1873, foi inaugurada a linha de Sintra ou, para ser mais rigoroso, a linha do Oeste. Esta, a partir da localidade do Cacém, dispunha do ramal de Sintra. No trajecto, por estrada, de retorno a Lisboa, muitos faziam uma paragem para cear na Quinta do Caliça ou no Pedro dos Coelhos. Este foi celebrizado no romance “Os Maias”, de Eça de Queirós.

O Paço Real de Queluz

O Paço Real de Queluz, também conhecido por “Quinta do Marquês”, remonta ao século XIV e teve origem numa propriedade pertencente ao cavaleiro Gonçalo Anes Correia. Ao longo dos tempos, mudou sucessivamente de dono, tendo inclusivamente pertencido a Diogo Lopes de Pacheco, um dos assassinos de Inês de Castro, razão pela qual foi expropriada por D. Pedro e aí construído o palácio onde também residiu.

À semelhança do que se verificou com outras festividades populares que envolviam uma componente religiosa, a Romaria ao Senhor da Serra veio a entrar em declínio e finalmente a desaparecer em consequência do ambiente político marcadamente anti-clerical e mesmo anti-religioso que se seguiu. De notar que as fotos datam de 1907, escassos três anos antes da implantação do regime republicano em Portugal.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Fotos: Arquivo Fotográfico da da CM de Lisboa

Falar saloio | Usos, costumes e tradições

Falar saloio

A fala bem típica do çalaio originário do moçárabe, perante a industrialização cada vez maior da sociedade e a urbanização citadina absorvendo cada vez mais o espaço rural e os seus habitantes cujos usos e costumes vão falecendo de maneira célere assim se perdendo toda a tradição etnográfica do Termo, ainda assim vai sobrevivendo no falar dos mais idosos, cuidando de a transmitir aos mais novos e a legar aos diversos ranchos folclóricos e etnográficos que, a despeito das maiores dificuldades económicas com que se debatem, conseguem manter viva a cultura “sui-generis” do Termo de Lisboa que é a região etnograficamente demarcada Saloia.

Com efeito, o falar saloio é ainda preservado pelos mais antigos na Murteira, em Caneças, em Bucelas e em Lousa, com um e outro foco esporádico nesta e naquela aldeia resistente aos modernos usos e costumes urbanos, por norma descambando em vícios novos por lhes faltar a argamassa das regras morais de conduta ancestral de uma sociedade tradicional rural, que ao absorvê-los inevitavelmente se desintegrará e fenecerá.

Pois sim, apesar de o falar saloio parecer todavia não é linguajar algaraviado, antes, linguagem cujos vocábulos insistem no português arcaico que possui tanto de verbos gregos quanto latinos, e, principalmente no vocabulário do Termo, árabes.

Originalmente este “linguajar” seria puro arábico, e após a Reconquista cristã do Termo e em contacto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, tornar-se-ia arcaico face às novas falas da urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem, hoje rústica, é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” (saloio) entrou na literatura e nas falas da cidade através do Teatro vicentino.

A origem do falar saloio

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar e deste ao português arcaico (luso-galaico) que chegou até hoje.

No seu vocabulário ainda se encontram termos arábicos, como “azebro”, e mudéjares, como “almácega”, “almácica” ou “almaça”.

A vastíssima Literatura de Cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico pela estropiação de palavras e incorrecções sintácticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com a intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa Literatura vislumbra-se também a sabedoria saloia, orbitando entre o jocoso e o grave, a par de teimar manter-se independente das coisas e loisas das gentes finórias da cidade, mesmo que, anacronicamente, certamente por sobrevivência, participando indirectamente da vida delas, resistindo assim à «colonização» do campo pela cidade, pois que terminando a agricultura a indústria pouco mais poderá sobreviver, assim também o núcleo citadino.

Tamanha resistência saloia poderá ser igualmente interpretada como resquício subconsciente da original marginalidade a que foi remetido o árabe após a Reconquista, sendo arrojado para fora de portas ou de muralhas da cidade.

Tem-se aí o conflito entre o agrário e o industrial, cada vez menor por ambos os tipos se sedentarizarem numa sociedade altamente tecnológica e tecnocrática, desfavorecendo a sobrevivência das profissões tradicionais, a maioria manuais, assim como os usos e costumes tradicionais ou folclóricos, no sentido filológico exacto de folclore significar tradição.

Expressões desaparecidas ou transformadas

Na comédia O Saloio Cidadão alinharam-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo”; “por linha lhe vem a tinha”; “filho de burro não pode ser cavalo”; “ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou, então, a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cotejo deles atrás, carregados de trouxas de roupa, atira-lhe o seguinte remoque, ao que ela riposta, com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!
– Adeus, meu filho!

Com essa, parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento; encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje, tudo está em mudança célere. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, de escritório ou de centros comerciais, e a dos rapazes primeiro para a tropa e depois para empregos no comércio e na indústria, aproximaram a cidade do campo por aquela tomado, e assim os saloios foram tomados por novos costumes e novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam completamente despercebidos.

Memória desse Passado recente aí está o vastíssimo património etnológico e etnográfico tradicionais dos Concelhos de Odivelas e Loures, a estudar quanto antes e a preservar a todo o custo.

 

Sugestão de leitura: Os trajes dos saloios

 

Do falar arcaico no Termo e em desfecho final, recolhi alguns termos orais e escritos (para isso tendo também recorrido a algumas bibliografia da especialidade: parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra.

Esse trabalho baseia-se nos estudos anteriores de

– João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol. 2, pp. 65-72, 1930-31,

– e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948,

com os quais compus um pequeno glossário de termos como homenagem à mais singular etnia luso-arábica que já conheci e a quem a cidade tudo deve: a Saloia.

Na página seguinte, um pequeno glossário de termos saloios.

Larmanjat e outros transportes no Termo

Larmanjat e outros transportes no Termo

O projecto literário que encetei no início de 1990 sobre a Cultura Saloia do Termo de Lisboa, o qual ainda aguarda edição pela Entidade Autárquica Odivelense ou Lourense (das duas, uma… que ambas foram contactadas há muito, e de ambas ainda aguardo resposta), levou-me a inscrever no mesmo e publicar modestamente às minhas próprias custas em edição limitada mas ainda assim muito divulgada, este estudo datado de 1994, com o título original de Transportes saloios no século XIX.

Com efeito, ainda nos inícios do século XX rareava o transporte regular de pessoas do Termo para a capital, e vice-versa.

Diligência e mala-posta

Havia a diligência, antigo meio de transporte do colectivo, puxada por fogosos cavalos, vinda de Torres Vedras, atravessando Loures e procedendo à muda de equídeos na estação da Malaposta, junto ao Olival Basto, antes de seguir para a estação central na Calçada do Combro, junto ao Correio Geral, conforme informa Maria Amélia da Motta Capitão in Subsídios para a História dos Transportes Terrestres em Lisboa no Século XIX, Lisboa, 1974.

O serviço de mala-posta, inaugurado em 17.9.1798, desapareceu por completo no primeiro quartel do século XX, tendo sido o principal meio de comunicação e distribuição de correio na Estremadura.

Além do correio, a diligência podia levar quatro passageiros, ao preço de 9.600 réis por pessoa, e mais 320 de gorjeta para o cocheiro e os sotas (isto cerca de 1802).

Serviço executado duas vezes por semana, o horário coadunava-se com o aproveitamento da melhor temperatura do dia, no Inverno, sendo a partida às 5 horas; no Verão, às 17 horas (in Maria Amélia Capitão, ob. cit.).

O omnibus – carreiras públicas

A par da mala-posta, criada para longos cursos, havia as carruagens públicas, ou omnibus (do latim omnes = todas as pessoas, toda a gente), fazendo pequenas carreiras em Lisboa e também ligando esta aos lugares mais próximos no Termo: Oeiras, Cascais, Sintra, Mafra e Loures.

A Companhia de Carruagens Omnibus de Lisboa foi constituída com estatutos aprovados em Abril de 1836 (ou em 29.4.1837), tendo as carreiras começado com dez carros, em 1835.

O omnibus era um carro pesado e barulhento de grandes dimensões, com quatro rodas, cinco janelas de cada lado, porta na retaguarda, estribo para os passageiros subirem, etc. Podia transportar quinze pessoas.

Era puxado por duas parelhas de cavalos ou de muares, indo um sota na parelha da frente e o cocheiro sentado no tejadilho, com as rédeas bem seguras.

A aparição da concorrência de outras companhias de carruagens, ditou o declínio desta primeira empresa de omnibus (nome que se popularizou no Brasil sob o designativo ónibus, que entre nós, portugueses, é o autocarro) por volta de 1868, o qual já começara em 24.2.1865, quando um violento incêndio nas suas cocheiras matara mais de metade dos cinquenta cavalos (in Vasco Callixto, As Rodas da Capital – História dos Meios de Transporte da Cidade de Lisboa, Junta Distrital de Lisboa, 1967).

O larmanjat: comboio de tracção mecânica

Em 1870, o lisboeta e o saloio conheceram um “exótico” comboio de tracção mecânica: o larmanjat (nome herdado do francês seu criador, J. Larmanjat).

Este comboio deslizava sobre um carril central e duas “passadeiras” de madeira, para as rodas laterais. Em 31.1.1870 foi inaugurado este sistema em Lisboa, no trajecto Largo de Santa Bárbara – Alameda do Lumiar, gastando cerca de uma hora na viagem de ida e volta. A estação central ficava no Palácio dos Condes de S. Miguel, na Rua de Arroios.

O larmanjat foi mal aceite por utentes e não utentes, cocheiros e carroceiros, poetas e toda a imprensa, ridicularizaram-no, chamaram-lhe “comboio de areia”, “demónio negro”, etc. Houve mesmo espancamento de maquinistas e actos de sabotagem.

Para revigorar este sistema foi fundada uma empresa inglesa, que recebeu as concessões da anterior: a Companhia dos Tramways a Vapor, com escritórios em S. Sebastião da Pedreira e estação central nas Portas do Rego, de onde partiam duas novas linhas:

– a de Sintra, inaugurada em 2 de Julho (ou Junho) de 1873, sendo aberta ao público no dia 5. Gastava 1 hora e 55 minutos na viagem;

– e a de Torres Vedras, cujo serviço começou em 6.9.1873, levando cerca de 5 horas por viagem.

Houve muito entusiasmo das populações que vitoriaram o rei D. Luís, a soberana inglesa, o marechal Saldanha, etc., quando se mostraram viajando neste comboio, num acto político público visando demonstrar que este era um meio de transporte seguro, o que não convenceu praticamente ninguém, e foram aclamados só pela sua grande coragem, ousadia ou loucura em viajar no “comboio da morte”, fama de que nunca se livrou enquanto existiu.

Sugestão de leitura

Crenças sobrenaturais saloias

Com efeito, o larmanjat teve vida curta por causa dos frequentes descarrilamentos, dos tombos dos passageiros, das avarias, da muita poeirada, dos grandes atrasos e, em especial, da má administração da empresa.

Apesar de terem sido organizados serviços especiais para as feiras do Campo Grande e das Mercês, o larmanjat acabou de vez em 1877 (in Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, 1994).

Pregões Saloios | Usos, costumes e tradições

Pregões Saloios

Não vai muito longe o tempo em que Lisboa acordava, logo após as primeiras luzes da aurora, ao som do vozerio dos saloios apregoando por toda a cidade os bens essenciais trazidos do Termo com que nutriam as gentes da cidade.

A pé ou em seus burricos, os saloios formavam um tipo sui-generis de graça e cor que há muito o alfacinha se habituara a não dispensar. Lisboa não era só a tagana varina canastreira, mas igualmente a alcandorada saloia garrida. Uma e outra davam vida e movimento ao bem típico espírito popular, misto de bairrista com campesino.

Pregões de Lisboa

O grande olisipógrafo Júlio de Castilho (in Lisboa – Revista Municipal, n.º 116-117, pág. 73, 1968), no seu estudo Pregões de Lisboa, Música do Coração do Povo, escreveu:

«A melopeia dos pregões é música, deliciosa música, nativa no coração do povo. Em cada nota diz-nos muito; na letra e na harmonia solta eflúvios de campo, lembra as hortas do Areeiro, os pomares de Benfica, as latadas de Loures, a fragrância das sebes nas sombrias azinhagas, as fainas das bandadas casaleiras.

Pregões da Primavera no Bairro Alto, nas vielas de Alfama ou do Castelo, lembro-me bem das íntimas saudades, que na mente dorida me acordáveis, quando, longe dos meus, em plaga estranha, destes torrões natais curti a ausência. Escutava na memória da alma as sabidas vetustas melodias dos pregões desta mágica Lisboa…»

E mais ainda…

Diz, ainda, Júlio de Castilho: «Há pregões ternos e melancólicos; há outros engraçados e burlescos; há outros indiferentes, sem inteligência e sem cor; uns são preguiçosos e estiraçados como lazarones; outros, finos e flexíveis como enguias; outros, fleumáticos e calculistas como os onzeneiros da Rua Nova; uns são gordos, outros, magros; estes são garotos, aqueles circunspectos.

(…) Em suma: o pregão é feição especialíssima da comédia das nossas ruas, e espelho do carácter nacional de uma classe. O certo é que, salvas algumas excepções, os pregões de Lisboa são afectuosos, afinados, e teatrais.

«Finalmente, lembraremos que há (ou havia) pregões que se ouviam com mais frequência neste ou naquele bairro, nesta ou naquela zona. Dependia do produto vendido, o qual, muito naturalmente, tinha um maior número de interessados em determinadas partes da capital.

Também variam com as horas do dia e as estações do ano. Melancias e sorvetes, por exemplo, não eram vendidos no Inverno, e as castanhas, ontem como hoje, aparecem no Outono, adivinhando o Inverno que se aproxima…» (in Lisboa Antiga – Bairro Alto, vol. V, pp. 223-224, 3.ª ed., 1966)

Pregões antigos do séc. XVI

Neste estudo, apenas indicarei os pregões saloios que Lisboa foi ouvindo ao longo dos tempos, em especial nos últimos 110 anos que vão dos meados do século XIX até cerca de 1960. Contudo, não se deve esquecer, como informa Júlio de Castilho, que os pregões de Lisboa são muito antigos e que já no século XVI eram apregoados os produtos vindos nas naus da Índia.

Em 1980 ainda se ouvia, por uma ou outra ruela dos bairros alfacinhas, a voz de uma ou outra velha varina, tentando perpetuar os seus encantadores mas já moribundos pregões… era o seu canto de cisne!

Mesmo hoje, 2008, ainda ouço quase fantasmagoricamente, tal a raridade, os pregões de um amolador de facas e tesouras ou dum vendedor ambulante de mantilhas e capachos. São raridades etnográficas em rápida extinção…

Mas vamos aos pregões saloios que recolhi, aconselhando, a quem queira fazer um estudo mais pormenorizado deste tema, a consulta à bibliografia no final do presente.

Listagem com alguns pregões

Da “água” à “fava rica”

Água: Áá-Áá! – Áúúú! (1903); Á–ú! – Áááuga! (1903).

Alecrim: Mér-c´Àlecriim! (1903); Mérc-c´ò mólho d´alecriim! (1903).

Alhos: Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos! (1903).

Amêijoas da Ribeira de Frielas: Quem quér a-mêêi-joas, pr´à àrrõz?! (1903); Amêêijôas p´r àrrôôz! (1940).

Amoras: Riic´àmóra da hóórta – Amóóra-friia! (1903).

Azeite, petróleo e vinagre: Azêêêti dôôci! (1903); Aa-zêite dôôce! (1903); Aazêite duuce! – Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine! – Azêite dôô-c´i bom vináágre! (1903); Óh petroliiii-ne… Azêite dôôce i vináágre! (1903).

Azeitonas: A trinta réis ô salamiin! Quem quer azêitõonas nóóóvas? (1903); Déz tostões – salamiim! Quem quer azêitõonas nóóóvas?! (1940).

Broas: Nem p´lô Natal… há brõa igual! Ó meniinas, vinde comprár as brõas do Manél, que curam a tosse – e sábem a mél! (1903).

Vassouras, abanos, chapéus de palha: O abano fáz ô bento – bis, Par´ácender ô fõgão…, Báárre, báárre, bassourinha – bis, Bassourinha bárr´ô chão…, Ólh´ò lindo cestiinho!!! (1940).

Favas: Fáva tôrradiinha! (1903); Fáva riiica! – Fááá-va rii-ca! (1903 e 1940).

Dos “figos” aos “marmelos”

Figos: Quem quér fiigos, quem quér álmôcáár? Quem quér fiigos de capa rôôta?! (1903); Óh figui-nhu de capa rôôta!… Quem quér fiigos –, quem quér álmôçáár…! (1940).

Galinhas: Éh! Galiiinhas! (1903); Mérca frâangos! (1903); Galiiiiiiiii-nhas! Quem nas quér i com ôvo?! (1903).

Hortaliças: Ólh´à cou-ve lombar-da! (1903); Mérc´à mão de náá-bos! (1903); Méérc´ò mólho de náábos! (1903); Ólh´ò timááti, quem quér timááti? O móó-di cinou-las… (1940); Ólh´àbóbra, quem quér abóóbra? Côrteirão de pimentos… Ólh´àlfácia, quem quér àlfáácia…? (1940); Cá estão nábos, cenouras, tomátes ou pepinosi tud´ô mais que a hórta dá! (1940).

Laranjas: Mééc´à la-rããnja da Chii-na! (1864); Quem quér do rããmo?! Quem quér larããnjas nóóvas?! (1940); É do rããmo!… Quem quér laranja bõõa?! (1940).

Leite: Éééé, chêga lá vaquiii-nha, chêêga! – Anda lá, Rosita… Então estás a fazer-te esquerda?! (estas palavras, este pregão de 1903, eram dirigidas à vaca que o saloio trazia até à porta da freguesa. Leite mais fresco não havia… Este uso de vender leite levando as vacas ou as cabras às portas dos compradores, terminou em 1920, com proibição imposta por lei, apesar de não serem raras as transgressões à mesma).

Marmelos: Óólha ô marméé-lo – assadiinho nô fôrno! (1940); Quem quér – ôs ricos marmelos – assadiinhos no fôrno?!!! (1940).

Da “melancia” às “uvas”

Melancia e melão: Mérc-c´ ò par de melancii-as! (1903); Mérc-c´ ò par de melõões! (1903); É da Váárzia… Melanci´à – fááca! (1903).

Mexilhão da Ribeira de Frielas: I-érre, I-éérre, me-xi-lhão! Ih! Êrre-érre, mexilhão! P´r´à patroa i p´r´ò patrão!… (1903); Éérri éérre, mexilhão! Cá está ô mexilhãão, óh mexilhãão! (1940).

Morangos: Mérc-c´ò cabáz de môran-gos! (1903); Ólh´òs môrãangos! São de Siintra! (1940).

Ovos: Mérc´à dúzia de óóvos! (1903).

Pão: Pãizinhos quentiinhos – com linguiiça! (antes de 1903).

Pêras: A vintém o quarteirão! – Quem acáb´às pê-ras?! (1903).

Perús: Méér-c´ò casál de perús!… – Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!! (1903).

Queijo saloio: Méérca ô quêi-jo sa-lôôio! (1864); Quem n´ô quér salôôio – ?! (1903); Queijô sa-lôô-io! – Ái! Ô quêi-jô salôôio…!!! (1903); Óh quêêijô salôôi-ô! Óh quêêijô frêês-co! (1940).

Rebuçados caseiros: A tôstãão, cada matacãão! (1940).

Tremoços: Óh tremôô-ço saalôôio! – Tremôôç´salôôi-ô! – Tremôô-çôs salôôi-ôs! (1940).

Uvas: A quin-ze réis – Quem acá-b´àzúú-vas?! (1903); Quem quér úvas de vi-nha! Quem quér bôô-as úúvas! (1903).

No regresso ao Termo

Os saloios, depois de venderem as hortaliças e terem almoçado, encetavam o regresso ao Termo percorrendo as ruas da cidade apregoando: Léév´às fôôlhas – Léév´às cááscas… E as donas de casas davam as sobras imprestáveis do que haviam comprado, pois “não ficavam com lixo em casa”, o qual se destinava aos animais da horta.

Lamento não ser possível que todos esses pregões não estejam acompanhados das respectivas músicas. Mas voto que, mesmo assim, tenha dado uma ideia tanto quanto possível aproximada dos pregões saloios, pedindo a compreensão do leitor. A quem interessar a transcrição musical pode consultar a obra de Calderon Dinis, indicada na bibliografia final, que transcreve 25 pregões, com música do pianista Norberto Wolmar Silva.

Obras consultadas

= Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa. Lisboa, 1994.

= Júlio de Castilho, Ribeira de Lisboa e Lisboa Antiga, em especial o volume V do Bairro Alto.

= Luís Chaves, Notas de Etnografia de Lisboa. In Lisboa – Revista Municipal, n.º 6, Ano II, 1940, pp. 39-53.

= Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, em especial o volume 3, 1992.

= Calderon Dinis, Tipos e factos da Lisboa do meu Tempo. 2.ª edição, s/d 1993, Editorial Notícias.

= Guilherme Felgueiras, Comércio Popular Errante em Lisboa e Subúrbios. In Boletim Cultural – Assembleia Distrital de Lisboa, III Série, n.º 87, 2.º Tomo, 1981, pp. 39-58.

= Alfredo Mesquita, Portugal Pittoresco e Illustrado – Lisboa – Compilação e Estudo por… Lisboa, 1903.

Dr. Vitor Manuel Adrião, Professor e Investigador | vitoradriao@portugalis.com

Crenças Sobrenaturais Saloias | Superstições e Crendices

Crenças Sobrenaturais Saloias

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando descodificadas, não raro apresentam base mágica de natureza quase inevitavelmente evocatória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de cariz exclusivamente recreativo mas cuja narração é constantemente envolta num halo sobrenatural e que, igualmente, não raro se remata numa lição moral.

Dessas últimas lembro a lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, que já descrevi num livro meu editado pela Câmara de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993) e ainda num outro também meu editado pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996), além dessas outras narrativas orais sobre grutas mágicas e santões misteriosos, como essa da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) ligando ao Mosteiro de Odivelas, ou então da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada.

Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, assim pouco importando que realmente a improbabilidade subsista.

Não sendo eu, por natureza e brio profissional, um teórico ficando-me por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos miraculosos” que as lendas contam para tentar comprovar se, acaso, haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…

Lenda do Senhor da Ribeira

Respeitante à lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela está atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), estando desaparecida a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava.

Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a observar, mas hoje estando plantado por sobre o seu lugar um prédio.

Outra situação, aquela das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam vestígios manuelinos.

A Quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a Serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros.

Isso não pude comprovar, mesmo que tenha adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda…

Jazida paleolítica do Vale do Tejo

Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o de preservação desse espaço patrimonial).

Foi habitada por povos colectores e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolático, como seja, à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.

Para terminar, dou um terceiro exemplo na lenda atlante de Bucelas a qual acabou levando-me à anta celtibera do Zambujal, onde realmente confirmei que “não há fumo sem fogo”…

Lenda dos Ferreiros

Essa lenda bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):

Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.

Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.

Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.

Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.

Deixando de lado a interpretação ctónica remetendo para o deus Vulcano dessa lenda, passo de seguida às lendas de foro mágico, as quais têm diversas origens quase sempre misturadas inextrincavelmente: célticas, judaicas e arábicas.

O culto dos elementos da natureza

O factor celta para o culto dos elementos da Natureza; o judaico para a magia talismânica revestida do cunho agrícola; e o arábico para a espargiria ervanária, natural, revelando-se como base da medicina popular, campesina, através dos unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.

Mas esses ingredientes celtas, judaicos e árabes, de uma forma ou de outra, por norma entram todos juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a Vida e a Morte num contexto marginal ao crédito científico e à religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.

Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas «pessoas com virtudes», com dotes sobrenaturais capazes de falar com os «espíritos», fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo num mesmo efeito causas divinas e diabólicas.

Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993), conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.

Contudo, os saloios fazem distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.

A Casa Saloia | Arquitectura e construções populares

A casa saloia

Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas nuances e comparando-as às descrições de crónicas e fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a paisagem do Termo.

Casas chãs aglomeradas formando curtas ruas calcetadas, ou de terra batida que era o mais usual;

casario isolado em meio de hortas e quintedos onde, destacado ou discreto, o solar apalaçado dum nobre ou o convento exíguo de alguma freiria de vocação ermitã abrilhantavam ainda mais o já de si soberbo quadro rural lourenho, cujo tipicismo peculiar ou singular é hoje lembrado pelos mais idosos com nostalgia e saudade.

A região saloia

Tal quadro rural de Loures não será muito diferente do da Sintra Saloia de há não muitos anos atrás, como descreve Vitor Serrão (in Sintra (os aglomerados saloios). Editorial Presença, 1.ª edição, Lisboa, 1989):

«A chamada Região dos Saloios – a região que integra os limites cistaganos do Município Olisiponense, ou seja, o território da península de Lisboa, cingido a norte pelos actuais concelhos de torres Vedras e de Alenquer – tem no concelho de Sintra uma das suas zonas mais interessantes sob o ponto de vista de genuíno património edificado.

São vários os núcleos que subsistem, com maior ou menor grau de integridade, característicos da arquitectura dos «saloios», isto é, autóctones moçárabes, herdeiros da cultura hispano-romana florescente nos agrido Município Olisiponense:

são eles, entre outros, o casal de A-dos-Rolhados (freguesia de Algueirão), a aldeia de Broas – nos limites confluentes do concelho com o de Mafra –, o casal de Bolelas e, apesar das contaminações abusivas provocadas pelo urbanismo desordenado e sem critério, as aldeias de S. João das Lampas, Barreira, Cabrela, Azóia, Penedo, Ulgueira, e outras.

«A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos, adega, estábulos e curral, com as suas típicas coberturas de quatro águas, um peculiar sistema de aberturas, etc., reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem saloio, que continua como os seus antepassados a ser o çahroi da época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.»

O saloio é descendente do moçárabe

Sendo o saloio descendente do moçárabe, será da cultura arábica que herda muitos dos seus usos e costumes, inclusive a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele que é o seu tecto habitual.

Sobre isto, diz Maria Micaela Soares (in A Mudança na Cultura Saloia. Artigo inserto em Loures, Tradição e Mudança, vol. I, pág. 170. Loures, 1986):

«Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País, ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na Estremadura.»

Tal singularidade tem base ou raiz sagrada que, para ser compreendida devidamente, ter-se-á de recorrer à intenção do sentido da arquitectura árabe, distendendo-se do Algarve à Estremadura, passando os Alentejos [vd. Casas Portuguesas (Alguns apontamentos sobre o arquitecturar das Casas Simples), por Raul Lino. Lisboa, 1933].

Apesar deste ou aquele excesso destoante, a casa saloia, tal como a árabe, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto sobre uma planta quadrada, tendo a primeira no seu centro a casa de fora, ou da entrada, por onde se acedia às restantes divisões.

A segunda fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou uma fonte, ou ambas as coisas: tratava-se do universo fechado em quatro dimensões (centro, comprimento, largura, altura).

O jardim central, proibido a estranhos à casa, era uma evocação do “Jardim Proibido” do Éden, aberto exclusivamente à influência celeste (in Dicionário de Símbolos, por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Paris, 1906).

As construções de planta quadrada

Para Abu Ya´qûb, o quaternário era o número perfeito: o da inteligência e o do nome divino, ALLH.

Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no Mundo Islâmico (cf. Arquitectura Alentejana: o Quadrado, por Jaime Manuel Sousa. In O Estudo da História, Boletim dos Sócios da Associação dos Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988).

Na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um local sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho (in Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. Revista História, n.º 96, Outubro de 1986).

Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: «O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do Céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige».

Sendo a casa a imagem do homem, de seu morador e dono, vimos na Idade Média a combinação das proporções, a unidade de medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, e geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico fosse comum o uso de um sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum), no traçado de plantas de catedrais.

O Homem – microcosmo

Esta concepção foi traduzida na célebre imagem de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito num círculo e num quadrado.

A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, formando portanto uma cruz (o quaternário), e corresponde à medida do lado do quadrado.

Considerado o centro do Universo, segundo Pico de Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da natureza), através do Homem, cuja individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, de sua casa, se concretiza a quadratura do círculo, problema geométrico designativo da ascese mística, corrente entre os neo-platónicos, permissor da elevação do homem racional à esfera divina.

Por princípio a casa saloia é térrea, chã, encrostando-se no chão como que arrancando a este a seiva telúrica dos veios da Terra, e ao mesmo tempo como que se ocultando das influências funestas da Lua: o saloio é um homem do dia, não da noite. Madruga com os animais e as plantas, não é noctívago e dorme encostado ao seio da Grande Mãe Atégina, a Deusa da Terra, das semeaduras e colheitas, enfim, da Agricultura.

Geralmente o saloio fazia a sua própria casa

Geralmente o saloio, mesmo o abonado, não comprava casa para sua moradia: fazia-a ele mesmo, e por isso as aldeias progrediam aumentando permanentemente os seus fogos (in O Saloio de A a Z, por Maria Isabel Ribeiro. Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra).

A casa saloia quase nunca se limitava a dois compartimentos. Geralmente tinha três divisões: cozinha, casa de fora e alcova. Outras, quatro; e outras, seis divisões, segundo João Paulo Freire (in O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948).

Raramente havia casas de banho. E a azoteia árabe ou mourisca foi sistematicamente substituída pelo terraço alpendrado, característico do casal saloio.

O saloio defendia-se sempre, na sua habitação, das nortadas. Para o lado do norte, a casa geralmente não tinha janelas. Na arribana as teias de aranha eram mantidas, porque “fazia mal tirá-las”, e para aconchego do gado.

Dava-lhes uma quentura especial que beneficiava o ambiente. O água-vai do saloio, era o indispensável condimento para que o mato se transformasse em estrume, que era uma das grandes riquezas do pequeno lavrador saloio.

Ele não perdia pitada do água-vai, e o mato que o recebia, apodrecia e ganhava aquela fortaleza que o tornava o melhor e o mais barato dos adubos.

A casa caiada de branco

A casa era geralmente caiada de branco e a telha tradicional era a mourisca, em telhado mourisco de duas águas. As mais evoluídas apresentavam quatro e desenvolviam-se em dois pisos.

A principal distinção que pode fazer-se é entre a morada cujos habitantes eram de lida ou à jorna. No primeiro caso, existiam anexos – palhêros ou abogoarias – para acomodação do gado e alfaias; no segundo, somente as divisões destinadas a habitação.

Os saloios mais folgados, com maior pé de meia, tinham casas maiores, com o rés do chão lajeado e uma escada exterior para o sobrado, onde estavam os quartos para toda a família.

A porta tinha um alpendre formado de três lajes e lambris pintados de azul ou vermelho. Assim a casa passava a ter dois pisos corridos: o térreo – as lojas – como arrecadação de aprestos de lavoura, abogoaria, etc., e o andar nobre como local de habitação (cf. Benfica Através dos Tempos, por Padre Álvaro Proença. Lisboa, 1964).

Mas há outro motivo de grande beleza nos solares saloios: o portão do pátio. O frontão que o encima geralmente revela apurado sentido estético, com o seu fino recorte, ladeado por volutas de cal e areia, terminando por elegante pináculo.

Tais ornamentos são milagres de alvenaria. Não é raro que enquadrem painel de azulejos com Nossa Senhora ou São Marçal, este para livrar a casa de ladrões e incêndios, ou ainda Santo António, santo brejeiro e meio pagão na crença popular.

As casas e solares saloios, testemunhos da vivência humana e sagrada do “homem do campo”, ainda hoje e mesmo que rareando, são património a preservar e divulgar, nisto, no que nos toca como concelhio, pelos devidos órgãos dos Municípios de Loures e Odivelas, a bem da Cultura Patrimonial deste belíssimo pedaço do Termo dos Saloios.

Dr. Vitor Manuel Adrião, Professor e Investigador | vitoradriao@portugalis.com

Fonte da imagem de destaque

 

FolkLoures 2018 – XXVI Encontro de Culturas

 

FolkLoures 2018 – Encontro de Culturas

A edição do FolkLoures’18 – Encontro de Culturas, vai ter o seu início no dia 30 de Junho, prolongando-se durante toda a semana até ao dia 7 de Julho, dia em que se realizará um grandioso espectáculo de culturas tradicionais, a ter lugar no Parque da Cidade, em Loures.

Através desta iniciativa, que inclui exposições, conferências e outras iniciativas de carácter tradicional, os minhotos que vivem em Loures procuram, de alguma forma, retribuir à terra o excelente acolhimento com que foram recebidos neste concelho dos arredores de Lisboa e, ao mesmo tempo, contribuir para a integração e convivência saudável entre todas as comunidades imigrantes que aqui vivem, sejam elas de origem lusófona ou de outras culturas.

O FolkLoures é uma iniciativa do Grupo Folclórico Verde Minho, que conta com o apoio imprescindível da Câmara Municipal de Loures, e tem o seguinte Programa

Dia 30 de Junho

15h30 – No Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte, no Parque da Cidade em Loures, estará patente ao público uma exposição temporária de ” Fotografias da aldeia da Furna” no átrio da entrada do referido Palácio no mesmo dia.

16h00 – Palestra sobre os habitantes de Vilarinho da Furna, pelo Prof. Doutor Manuel Antunes, a ter lugar no Auditório do Palácio dos Marqueses da Praia.

Dia 7 de Julho

16h00 – Feira de artesanato. Abertura de tasquinhas com o Grupo de Bombos Arrufarte e Mareantes do rio Douro.

17h30 – Colocação de Insígnias e entrega de Lembranças Institucionais aos grupos presentes a ter lugar no Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte.

20h00 – Desfile, seguido de Espetáculo Internacional de folclore e recriações da cultura tradicional

24h00 – Sessão de encerramento com fogo-de-artifício

Grupos participantes

Grupo de Bombos Mareantes do Rio Douro – Douro

Grupo de Bombos Arrufarte – Estremadura

Representação da Festa dos Tabuleiros de Tomar – Ribatejo

Tradições Baile dos Pedreiros de Penafiel – Douro Litoral

Grupo Etnográfico Verde Minho – Minho

Danças Tibetanas – República Popular da China

Grupo Coral e Etnográfico Camponeses de Pias – Baixo Alentejo

Rancho Folclórico de Penafiel – Douro Litoral

Grupo Sargaceiros da Casa do Povo de Apúlia – Minho

Grupo de Danças e Cantares Alto do Moinho – Douro Litoral

Rancho Folclórico de Lousa – Loure Estremadura – Região Saloia

Grupo Folclórico Verde Minho – Loures

O Grupo Folclórico Verde Minho é o anfitrião do FolkLoures – Encontro de Culturas e a quem se deve a criação deste evento que se caracteriza pela sua originalidade, espírito fraterno e carácter inclusivo.

Disse um dia o escritor transmontano Miguel Torga, “…no Minho tudo é verde, o caldo é verde, o vinho é verde…” – não podiam, pois, os minhotos que vivem na região de Lisboa, deixar de tomar para si a identificação cromática que caracteriza a sua região.

Respondendo ao chamamento da terra que os viu nascer, os minhotos que vivem nos arredores de Lisboa, mais concretamente no concelho de Loures, decidiram em tempos criar um grupo folclórico que os ajuda a manter a sua ligação afectiva às origens. Assim nasceu em 1994 o “Grupo Folclórico e Etnográfico Danças e Cantares Verde Minho”, anunciado como seu propósito a preservação, salvaguarda e divulgação das suas raízes culturais.

Este Gripo Folclórico visa, através da sua atuação, promover as tradições da nossa região nomeadamente junto dos mais jovens ao mesmo tempo que valoriza os seus conhecimentos musicais e da etnografia minhota.

Se quiser saber mais informações sobre este ou dos restantes Grupos participantes, clique aqui

 

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