Moinhos de Maré: um património a preservar

Moinhos de Maré

O moinho de maré de Corroios, no concelho do Seixal, foi mandado construir por D. Nuno Álvares Pereira em 1403, já lá vão mais de seis séculos de existência.

Situado junto à baía, encontra-se adaptado a ecomuseu, atraindo regularmente numerosos visitantes que desse modo entram em contacto com aspectos ligados à etnografia e à tecnologia associada ao aproveitamento da energia das marés.

Ao contrário do que sucede com as azenhas que utilizam a força motriz das correntes fluviais, os moinhos de maré baseiam-se nos ciclos das marés.

Estes moinhos dispõem de uma caldeira que se enche de água, a qual é fechada por uma adufa até à descida das águas. Estas passam então sob as arcadas do moinho onde se encontram os rodízios através dos quais vão mover as moendas. Existem moinhos de maré que chegam a ter uma dezena de moendas ou seja, pares de mós.

Calcula-se que remontem ao século XIII os primeiros moinhos de maré construídos em Portugal.

No Montijo, outrora designado por Aldeia Galega, o moinho de maré ali existente conserva ainda a cruz dos cavaleiros da Ordem de S. Tiago a encimar a porta de entrada.

A maioria dos que chegaram até aos nossos dias encontra-se em estado de abandono, sendo poucos os casos dos que foram recuperados para fins culturais.

Inúmeros moinhos em diversas localidades

Porém, existiram outrora inúmeros desses moinhos em Almada, Barreiro, Seixal, Moita, Montijo, Alcochete e Alhos Vedros. Também em Alcácer do Sal, aquele município adaptou o moinho da Mourisca, no estuário do rio Sado, a espaço museológico.

Curiosamente, não abundam nesta região os moinhos de vento. Tal deve-se, naturalmente, às características paisagísticas da região, dominada por numerosos esteiros e pouco relevo orográfico, o que a torna uma zona abrigada e, por conseguinte, pouco ventosa.

No concelho do Seixal apenas se conhece um único exemplar situado na Azinheira, em frente ao Barreiro.

A actividade moageira ligada aos moinhos de maré no estuário do rio Tejo revelou-se de importância primordial na época dos Descobrimentos. Era ali produzida a farinha com que era fabricado o biscoito que constituía a principal base alimentar dos navegadores.

Basta salientar que, no complexo Real de Vale de Zebro, existiam outrora

– quase trinta fornos de cozer o biscoito,

– armazéns de trigo,

– cais de embarque

– e ainda um moinho de maré com oito moendas que pertencia à Casa Real.

Os moinhos de maré e os Descobrimentos

Com efeito, era nos esteiros do rio Tejo e do rio Coina que se verificava a maior azáfama com a construção das naus.

A sua localização, de fácil navegabilidade mas simultaneamente afastada dos olhares curiosos de estranhos, permitia manter algum segredo à volta das viagens que se projectavam e ainda das próprias técnicas e materiais empregues na construção naval.

Não foi certamente em vão que Cristóvão da Gama, irmão de Vasco da Gama, possuiu no Seixal os estaleiros da Quinta da Fidalga. Da mesma forma que no sítio da Azinheira se enterravam no lodo dos sapais as madeiras utilizadas na construção das naus.

Tempos houve, porém, em que existiram moinhos de maré nos estuários de quase todos os rios portugueses. É, aliás, bastante provável que ainda alguns casos recuperáveis.

Os moinhos como pólos museológicos

Contudo, apenas se conhece as “Azenhas de D. Prior”, na foz do rio Lima, que, não obstante a designação, também constitui um moinho de maré. De resto. A edilidade vianense decidiu recuperá-lo e constitui actualmente um pólo museológico e de animação cultural aberto ao público.

Naturalmente, nem todos poderão ser recuperados para fins didácticos.

Mas, os espaços de que geralmente dispõem, quer no interior como no exterior, associado à magnífica paisagem que deles se desfruta e ainda à possibilidade de aproveitarem as marés para o próprio consumo energético, poderiam possibilitar a sua utilização para fins turísticos, permitindo dessa forma a sua reabilitação e a valorização das regiões que ainda os possuem.

No caso do rio Lima, a utilização para fins culturais das “Azenhas de D. Prior” poderiam vir ainda a ser complementadas com a recuperação das marinhas de sal outrora ali existentes. E, num plano mais vasto e integrado de aproveitamento cultural e turístico do rio Lima,

– incluir a recuperação dos antigos cais e ancoradouros, de Viana do Castelo a Ponte de Lima,

– sem esquecer a adaptação a metro de superfície da linha férrea do Vale do Lima, cuja construção não chegou a ser concluída.

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Michel Giacometti | Pessoas

Michel Giacometti

Etnomusicólogo corso, nascido em Ajaccio, na Córsega, a 8 de Janeiro de 1929 e faleceu em Faro, a 24 de Novembro de 1990.

Fez importantes recolhas etno-musicais em Portugal. Estudou na Suécia, doutorando-se posteriormente na Universidade da Sorbonne (Paris).

Numa visita ao Museu do Homem, em Paris, a música popular portuguesa despertou-lhe um interesse tal que fez com que se mudasse para o nosso país, em 1959, tendo-se instalado em Bragança. Um ano depois, Michel Giacometti já tinha fundado os Arquivos Sonoros Portugueses.

Ao longo de 30 anos (até 1982), percorreu o país, gravando centenas de cantares e músicas tradicionais, dando origem àquele que é, até hoje, o mais exaustivo levantamento da cultura musical portuguesa.

Do seu espólio constam ainda centenas de instrumentos musicais, fotografias, recolhas de literatura popular e de instrumentos e materiais ligados ao trabalho rural, parte dos quais deu origem, em 1987, ao Museu do Trabalho Michel Giacometti (Setúbal).

Editou, em colaboração com Fernando Lopes Graça, uma Antologia da Música Regional Portuguesa (1963, em cinco volumes) e, em 1981, um Cancioneiro Popular Português. Foi ainda autor de uma série de documentários televisivos, sob o título Povo que Canta.

Grande parte do seu espólio musical (também pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia e Etnografia, em Lisboa) encontra-se ainda por editar ou organizar.

Fonte: Enciclopédia Universal Multimédia da Texto Editora – 1997 (adaptado)

Michel Giacometti – Filmografia completa

Um documento único em Portugal!

«Há uma velha moda alentejana, entre as muitas que ele por cá ouviu e gravou, que diz: Eu sou devedor à terra / A terra me ‘stá devendo / A terra paga-m’em vida / Eu pago à terra em morrendo. Deste povo que canta a vida do mesmo modo que canta a morte, como se uma não tivesse sentido sem a outra, guardou Michel a alma antiga já em névoa. E por isso não foi morrendo que ele pagou a sua dívida à terra Portuguesa, foi nela vivendo. (…)

Michel Giacometti é, repete-se, um português que, não por acaso, nasceu um dia na Córsega. Sempre o vimos como tal. E continuaremos a vê-lo, agora que por graças da técnica, ele regressa vivo para nós.

Ouçam-no, vejam-no, admirem o seu trabalho e empenho. O que ele filmou e gravou ter-se-ia perdido para sempre, não fosse a sua teimosia. Giacometti salvou-nos a alma.»

Nuno Pacheco (Público) 

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