GF Verde Minho promove jornada gastronómica

O arroz de sarrabulho com rojões à moda de Ponte de Lima vai fazer as delícias dos melhores apreciadores da cozinha tradicional minhota.

Trata-se de uma jornada gastronómica levada a cabo pelo Grupo Folclórico Verde Minho, em parceria com os restaurantes de Sarrabulho em Ponte de Lima, a ter lugar no próximo dia 2 de Fevereiro de 2020, no refeitório da Câmara Municipal de Loures.

O arroz de sarrabulho é uma das mais ricas especialidades da cozinha portuguesa em geral e minhota em particular.

Um autêntico manjar próprio dos deuses! Ao invés das papas de sarrabulho que são feitas à base de farinha de milho, aqui impera o arroz como a própria designação indica.

Desde a perna do porco às belouras, do chouriço verde às farinhotas e outros aromas e delícias de fazer crescer água na boca, o porco compromete-se na elaboração deste magnífico prato.

As carnes são temperadas com louro, cravinho e noz-moscada, sal e pimenta e, no final, com os cominhos que lhe conferem um paladar muito peculiar e único.

Depois de cozinhadas e desfiadas, as carnes juntam-se ao arroz e vão de imediato à mesa.

E porque onde há Minho há alegria e tradição, lá estará o Grupo Folclórico Verde Minho, para animar o evento com as mais alegres rapsódias do folclore do Alto Minho.

Grupo Folclórico Verde Minho

Disse um dia o escritor transmontano Miguel Torga, “…no Minho tudo é verde, o caldo é verde, o vinho é verde…” – não podiam, pois, os minhotos que vivem na região de Lisboa, deixar de tomar para si a identificação cromática que caracteriza a sua região.

Respondendo ao chamamento da terra que os viu nascer, os minhotos que vivem nos arredores de Lisboa, mais concretamente no Concelho de Loures, decidiram em tempos criar um grupo folclórico que os ajuda a manter a sua ligação afectiva às origens.

Assim nasceu em 1994 o “Grupo Folclórico e Etnográfico Danças e Cantares Verde Minho”, anunciado como seu propósito a preservação, salvaguarda e divulgação das suas raízes culturais.

Visa através da sua atuação promover as tradições da nossa região nomeadamente junto dos mais jovens ao mesmo tempo que valoriza os seus conhecimentos musicais e da etnografia minhota.

Este Grupo está a realizar um diversificado conjunto de iniciativas, no âmbito da celebração das suas Bodas de Prata. Ler+ 

 

XII Feira do Porco e as Delícias do Sarrabulho

De 31 de janeiro a 2 de fevereiro de 2020, Ponte de Lima vai acolher a XII Feira do Porco e as Delícias do Sarrabulho, consolidando, assim, uma festa dos saberes e sabores tradicionais.

Ponte de Lima, a Vila mais antiga de Portugal orgulha-se de um passado tradicional, rico em usos e costumes. E foi com base nestes valores ancestrais que foi sendo construída uma Vila atrativa, moderna, empreendedora e dinâmica, transformando-se cada vez mais no ponto de encontro de famílias e turistas que se encantam pela tipicidade das ruas históricas e pelas nossas gentes, afáveis e acolhedoras.

As Feiras temáticas que, anualmente, são realizadas nesta Vila do Alto Minho, aliadas à arte de bem cozinhar, transformam-se em eventos de referência, a nível empresarial e turístico, atraindo milhares de visitantes ao longo de todo o ano.

A revitalização dos costumes do povo limiano através da valorização das velhas tradições passará pela mostra de produtos regionais – derivados do Porco – e pela tradicional matança do porco, que em tempos foi uma prática recorrente do mundo rural português.

O evento, que propõe uma combinação de experiências gastronómicas, num conceito ligado à terra e à tradição, procura promover e consolidar o ex-líbris da sua gastronomia, e um dos verdadeiros motores do desenvolvimento económico do concelho: o Arroz de Sarrabulho à Moda de Ponte de Lima.

O ex-libris da gastronomia limiana, o Arroz de Sarrabulho à Moda de Ponte de Lima, é um dos verdadeiros motores do desenvolvimento económico do concelho, atraindo ao longo de todo o ano milhares de visitantes.

A Feira do Porco e as Delícias do Sarrabulho enquadra-se nos Fins-de-semana Gastronómicos, e visa promover o Arroz de Sarrabulho à Moda de Ponte de Lima, mostrando também algumas iguarias derivadas do Porco, com destaque para os enchidos e fumados.

Neste evento, os visitantes poderão encontrar propostas irresistíveis dos vários restaurantes do concelho, assim como, expositores de produtos regionais e artesanato.

Esta iniciativa está integrada no projecto “Em Época Baixa, Ponte de Lima em Alta”, cuja principal missão visa promover uma maior atratividade e visibilidade para o concelho e para a região, mantendo a aposta no turismo gastronómico em “Época Baixa”, projeto que o Município de Ponte de Lima dinamiza até maio.

 

Folclore: onde surgiu o primeiro Grupo Folclórico?

Onde surgiu o primeiro Grupo Folclórico?

Durante muito tempo, considerou-se o antigo Rancho das Lavradeiras de Carreço, fundado em 1904, como o mais antigo agrupamento folclórico constituído em Portugal.

Contudo, um documento que data de mais de dez anos anteriores à sua fundação leva-nos a concluir que, até novas provas em contrário, foi em Ponte de Lima que pela primeira vez surgiu um grupo folclórico devidamente organizado e trajado.

Com efeito, o jornal humorístico “O Sorvete” que se publicava no Porto, dava a conhecer na sua edição nº. 123 de 4 de Setembro de 1892 a deslocação àquela cidade do “grupo de lavradeiras de Ponte do Lima” (foto da página do jornal abaixo nesta matéria).

O grupo de lavradeiras de Ponte do Lima no Porto

E, com o título “O grupo de lavradeiras de Ponte do Lima no Porto“, fá-lo nos seguintes termos:

Graças á iniciativa dos generosos Bombeiros Voluntarios tiveram os portuenses occasião de vêr com os seus proprios olhos o que é uma esturdia no Minho. Lavradores e lavradeiras de puro sangue. Musica genuina da aldeia; cantadores e cantadeiras de fina raça; danças e cantares, tudo, enfim que o Minho tem.

Lourenço, o director da musica, tornou-se a figura mais saliente entre o seu grupo, pois que, ás primeiras gaitadas adquiriu logo as simpatias do publico que o chamou repetidas vezes e o cobriu de aplausos delirantes.

O sympathico Lourenço, quer na flauta, que toca bem – quer no sanguinho de Nosso Senhor Jesus Christo – mostrou-se um bom beiço. Das raparigas: a Thereza, a Rita e a Maria, muito alegres e folgazonas, as outras tambem muito pandegas. E p’ra que viva Ponte do Lima!

A notícia vem acompanhada de uma ilustração que constitui um desenho assinado pelo próprio responsável da publicação, o conceituado caricaturista Sebastião de Sousa Sanhudo, também ele natural de Ponte de Lima.

O traje característico das lavradeiras

A gravura mostra as lavradeiras com o seu traje característico incluindo os lenços de franjas, os aventais de quadros e as chinelas enquanto os homens com seus coletes e casacas de botões negros e, como não podia deixar de suceder, o inconfundível chapéu braguês por vezes bastante esquecido entre os grupos folclóricos minhotos da actualidade.

Uma particularidade que nos salta à vista é o facto do sympathico Lourenço que aparece com a sua flauta e era o director da música ser um negro cuja origem se desconhece, aparecendo aqui integrado naquele que se julga ter sido o primeiro grupo folclórico português.

Crónica de Severino Costa

Em 14 de Janeiro de 1966, o jornal limiano “Cardeal Saraiva” transcrevia uma crónica produzida pelo jornalista Severino Costa no “Comércio do Porto“. Nela asseverava ser o “grupo de lavradeiras de Ponte do Lima” originário da freguesia da Correlhã, dizendo a dado passo:

Lembrava-me muito bem do simpático Lourenço. Era um exímio tocador de flauta que na minha infância ouvi diversas vezes, não podendo porém, dizer como nem onde. Mas da pessoa lembro-me muito bem. Era um homem de fala muito suave, muito educado, alegre, e tinha uma prosóide curiosa… Nada sei da sua família e de como veio para Ponte de Lima”.

De resto, não sabemos o que levou o autor a concluir a proveniência daquele “grupo de lavradeiras“, a não ser porque ainda deverá ter conhecido ou obtido informações a respeito de algumas das pessoas mencionadas na notícia publicada em “O Sorvete“.

E conclui: “Mas do que parece não ficarem dúvidas, depois do aparecimento deste documento autêntico, é que Correlhã tinha, em 1892, um rancho folclórico. Não se concebe que alguém se tenha lembrado, por acaso, da freguesia de Correlhã.

Se dali foi levado ao Porto, pelos Bombeiros Voluntários, tal grupo, é porque ele existia constituído, com suas danças próprias, com nome firmado, com indumentária“.

Jornal “O Sorvete”

Em todo o caso e qualquer que seja a proveniência exacta do primeiro grupo folclórico, a referida edição do jornal “O Sorvete” vem documentar ter sido em Ponte de Lima a sua origem, informação essa que vem corrigir uma opinião que durante muito tempo foi sustentada nomeadamente pelas vozes mais autorizadas.

Não obstante, o eventual aparecimento de novas provas poderá reservar-nos mais surpresas e inclusive contrariar as conclusões a que até agora chegámos, pelo que nunca devemos dar por definitivo os resultados da nossa investigação.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História (texto e imagens)

33º Festival Folclórico “Do Amor à Tradição”

 

Vai realizar-se, no próximo dia 1 de setembro, o 33º Festival Folclórico “Do Amor à Tradição”, promovido pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “A Telheira” de Barqueiros (Barcelos).

Esta iniciativa terá início pelas 15h30, na Rua da Estrada Medieval (junto ao infantário de Barqueiros – Barcelos) com o desfile dos grupos que vão participar:

Rancho Folclórico “Os Camponeses” de São Francisco – Alcochete | Rancho Folclórico “As Andorinhas” S. Silvestre – Murtosa – Aveiro | Rancho Folclórico de Boelhe – Penafiel | Rancho Folclórico Cuide de Vila Verde – Ponte de Lima | e o grupo anfitrião, o Rancho Folclórico e Etnográfico “ A Telheira” – Barqueiros,

a que se seguirá a entrega das lembranças aos grupos presentes e, por fim, a atuação e uma pequena amostra da cultura tradicional da região/localidade de origem de cada um dos grupos.

Contamos com a visita e energia de todos aqueles que nos queiram conhecer melhor, de todos os amantes do folclore tradicional minhoto e de todos os amigos desta associação que se queiram juntar a nós para passar uma tarde muito animada, com muita música, muita dança e, também, um sorteio de prémios de rifas que podem adquirir junto dos elementos do nosso Rancho.

Agradecemos à Junta de Freguesia de Barqueiros, à Câmara Municipal de Barcelos, ao Centro Social e Bem-Estar de Barqueiros, à Federação Portuguesa de Folclore, às diversas indústrias de comerciantes e ainda a todos os elementos, familiares e amigos que nos ajudam e trabalham para que este festival seja possível.

Sobre o Rancho Folclórico e Etnográfico “A Telheira”

O Rancho Folclórico e Etnográfico “A Telheira” nasceu formalmente no dia 10 de julho de 1985 (embora a sua primeira atuação pública tenha sido no dia 15 de agosto de 1983), e pretende divulgar a cultura da telheira e da tendedeira, que remonta ao período de 1750-1810.

Esta cultura antiga de Barqueiros deu origem e muito influenciou o nosso Grupo e, por isso, nas nossas apresentações mostramos utensílios usados no fabrico do barro e da telha, bem como as danças e os cantares que exibimos, para além de mostrarem os tradicionais viras minhotos, também demonstram o que era vivido nesta comunidade.

 

 

Lenda do Rio Lima – Rio Lethes | Ponte de Lima

Lenda do Rio Lima – Rio Lethes

Comandadas por Décios Junos Brutos, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a. C.

A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse, os soldados negaram-se a atravessá-lo.

Então, empunhando o estandarte das águias de Roma o comandante chamou da outra margem a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do esquecimento.”

«Com relação ao rio Lima, história e lenda encontram-se tão interligadas que nem sempre é fácil delimitar onde acaba uma e começa outra.

Foi sempre a beleza do rio a provocar encómios e o sentimento de incapacidade duma expressão condigna a atrair o poder sugestivo da lenda.

Vem dos velhos tempos o processo. Estrabão designou-o por Beliom e relata ter ocorrido nas suas margens um episódio militar entre Túrdulos e Célticos. Iam já a atravessá-lo quando surgiu entre os dois povos uma discórdia.

Lutaram e foi o sangue do próprio comandante que se juntou ao de muitos outros a macular a brancura das águas. Desorientados ficaram os soldados e, sem comando, se dispersaram pelas margens, em luta pela sobrevivência.

Lucano chamou-lhe o “Deus do Tacitus“, em virtude da mansidão com que corriam as suas águas.

Tito Lívio denominou-o “Rio do Esquecimento” (“Oblivionis fluvis ou flumen“).

Rio Lima ou rio Lethes

Surgiu, então, a sua identificação como Lethes da mitologia, que tinha o condão de provocar em todos os que o transpusessem o olvido do passado e da própria pátria.

Campos Elísios passaram, em consequência, a apelidar-se os que circundavam, isto é, as suas margens.

Mais semelhantes a jardins, no conceito mitológico; onde, segundo o testemunho de Políbio, só durante três meses do ano as rosas não floriam.

É ainda Estrabão que nos diz ser esta a terra perfeita por qualquer fugitivo de Roma.

Dentro deste condicionalismo, aqui chegaram um dia, sob o comando de Décios Junos Brutos, as legiões romanas, com as altivas águias a tremularem nos pendões.

Vitoriosas haviam pisado as terras que estavam para sul e propunham-se prosseguir. Desciam, a justante, dos lados de Ponte de Lima e teriam iniciado a jornada desse dia em Vitorino das Donas:

“Daqui saiu Bruto pelos campos tão celebrados com o nome de Elysios a procurar lugar em que com o se exército pudesse vadear as cristalinas águas do Lethes tão respeitadas com a fabula virtude de encantadoras.” (João de Barros, Antiguidades de Entre Douro e Minho).

Um líder é sempre o primeiro

Encontravam-se no lugar da Passagem e fácil pareceu ao comandante a travessia. Nesse sentido emitiu ordens, mas encarniçada se revelou a resistência dos soldados, conhecedores como eram dos poderes sortílegos atribuídos às suas águas.

Não perdeu ele a serenidade nem achou conveniente procurar convencê-los por meio de palavras. Tomou a bandeira, ergueu-a ao alto, transpôs o vau e, já da outra margem, a muitos chamou pelo nome e incitou a seguirem-lhe o exemplo.

Por esse meio os convenceu de que, afinal, não era verdade o que a lenda propalava.

Assim exaltado nos advém, das mais longínquas eras, o fascínio deste rio que até aos nossos dias tem sido cantado por todos quantos puderam contemplá-lo.»

Fonte: Conde de Bertiandos, in Lendas, 1898 | Imagem de destaque

Lenda do Galgo Preto | Ponte de Lima – Minho

Se alguma vez passares ao anoitecer na ponte que dá o nome á encantadora villa do Lima, talvez enxergues uma sombra dando reviravoltas no areal, aproximando-se do rio, parecendo beber com sofreguidão, quedar-se a olhar atonita para a corrente das águas, e depois caminhar vagarosa e cabisbaixa para os lados de Vianna, até desaparecer de todo.

Correndo atrás d’ella, correra tambem, e, quando suppozeres que está perto, has de vel-a dar um salto, e sumir-se nos ares.

A configuração do duende não ta saberei dizer; o povo teima desde longo tempo em chamar-lhe o Galgo preto do areal. Há quem no tenha visto sair detrás da igreja dos Terceiros; donde vem, para onde vai, ninguém o pôde ainda explicar.

É uma alma penada. Não tenhas dúvida, leitor; pois outra coisa pôde ser uma aparição de tantos anos, em fadário assim constante e aborrecido?!

A Lenda do Galgo Preto

«Quando EI-Rei D. Manuel foi a Ponte do Lima levou na comitiva um galante moço, a que muito se affeiçoára, por nome D. Ruy de Mendonça.

Dividiram-se os cavalleiros do sequito, luzido e numeroso, pelas casas dos fidalgos; e coube a D. Leonel de Lima albergar o escudeiro valido.

Era D. Leonel de honrada estirpe e ainda aparentado, segundo diziam, com a família dos viscondes de Villa Nova da Cerveira;

mas pobre, e malavindo com os parentes, pois casára à sua vontade (conforme o dizer dos linhagistas) com a filha de um cavalleiro, cujo nome não andava nos livros de EI-Rei, filha que houvera de uns amores em Arzilla com uma sectaria de Mafoma.

Assim como nas igrejas não é permitido que se venerem duas imagens da mesma devoção, não quiz também a natureza que o typo ideal da mulher tivesse naquela casa duas representações iguaes;

e talvez por isso Magdalena – que assim se chamára a christã filha da moira – finára-se tranquilamente no dia em que sua filha Beatriz de Lima completára dezasseis anos, e podia já substituil-a no labutar quotidiano e creação de dois irmãos de curta idade.

Beatriz era uma jóia

Era uma joia esta Beatriz, mas qu ninguém apetecia.

Não só lhe faltavam ocasiões de aparecer, mas, naquelas poucas em que a viam, era o seu trajar tão simples, contrastando por tal forma com a magnificiencia do trajar de suas parentas, que os mancebos dos arredores preferiam, a perscrutar-lhe os encantos, dedicar-se ás frequentadoras triumphantes dos saraus, ou espinotear os seus ginetes em frente ás geloseias das grandes herdeiras.

Além d’isso, a sua beleza tinha antes a suavidade do luar que o brilho do sol; não havia os resplendores que atordoam nos seus olhos límpidos e claros, nem no seu porte modesto os meneios que seduzem.

Era uma santa, diziam; e talvez fosse. Contudo, se alguém mais perspicaz attendesse ao seu olhar de certas occasiões, e reparasse como por vezes a sua mão nervosa se contrahia, adivinhava logo que naquella natureza alguma liga houvera que não provinha do ceo.

Era talvez o sangue da avó moira a referver-lhe nas velas, da avó, que, segundo cochichavam as mulheres de alguns velhos homens-de-armas, fôra grande mestra em bruxedos e feitiçarias.

D. Ruy de Mendonça preso de amores a Beatriz

Ficar D. Ruy de Mendonça para logo preso de amores a Beatriz admirou de certo muito ás netas dos infanções e ricos-homens, que requintavam em galas e louçanias para agradar ao moço cortezão, e chasqueavam soberbas da neta da africana; mas não era justo o reparo.

A grandezas de luxuosa fidalguia, a primores de elegancia e opulência estava o escudeiro habituado; nesse gencro não podia encontrar na villa coisa que o espantasse.

E parecer-lhe-ia talvez que se não casavam bem arrebiques com a simplicidade amena da paisagem. A serra, o valle e a campina exigem, por certo, na mulher que tiver de lhes dar vida e colorido, alguma diferença das mentiras que a humanidade mais civilizada inventa para esconder em ouropeis a corrupção que vai minando os grandes centros.

Aí, netas dos infanções e ricos-homens! Beatriz, se não era melhor que vós, era ao menos mais artista…

 

Lenda da Cabração | Cabração – Ponte de Lima

Lenda da Cabração

«Após o recontro no Rêgo do Azar, quiz D. Afonso Henriques voltear pelas montanhas próximas, caçando ursos e javalis.

Convidou alguns poucos ricos-homens e infanções. Quando estavam no sítio que hoje se chama Cabração, apareceu muito açodado o Capelão das freiras de Vitorino das Donas, que à frente de moços com cestos pesados andava desde manhã à busca do real monteador, com um banquete mandado do Mosteiro.

Em boa hora vinha a refeição. Estendeu-se na relva uma toalha de linho e sentados em troncos de carvalho cortados à pressa, começou o jantar. Alegre ia correndo.

D. Nuno Soares por alcunha Nuno Velho o postrimeiro para diferença de seu avô, a quem também haviam chamado o Velho e cujas proezas ainda se recontavam em toda a terra da Cervaria, começou a trinchar um leitão assado.

– Parece-me que tens mais jeito para matar infiéis, – disse-lhe o Rei brincando. – Ai Real Senhor, antes eu ficasse morto com os últimos que matei, que desde essa refrega não passo um dia que me não lembre do momento em que o bom cavaleiro Gonçalo da Maia exalou o derradeiro suspiro encostado ao meu peito.

– Quisera eu ouvir da tua boca essa heróica morte do Lidador, interrompeu o Monarca triste, mas curioso. E o Senhor da Torre do Loivo obedeceu, com voz pausada e lágrimas nos olhos.

Ia escurecendo o dia e era tão esquisita a coincidência de estar ali um punhado de homens, senão solenizando um aniversário, festejando uma vitória, que talvez um pressentimento apertasse o coração dos guerreiros.

Dos lados da Galiza…

Atentos, escutavam silenciosos a narração. De golpe ergueu-se o Espadeiro e olhou fito para as bandas da Galiza.

– Que examinas D. Egas? – perguntou o Príncipe. – Vejo além muito ao longe um turbilhão de pó, que se aproxima. São talvez inimigos que procuram encontrar-nos descuidados.

De facto vagalhões de poeira negra encobriam multidão fosse do que fosse. O ruído do tropel era cada vez mais distinto.

– Sejamos prestes – gritou o Rei, cingindo o seu enorme espadão. Todos fizeram o mesmo. – Cavalgar, cavalgar; já não era outra a voz que se ouvia, enquanto cada um se dirigia para o lugar onde prendera o seu cavalo. O capelão olhou, escutou e sentou-se começando a comer aqui e além os deliciosos postres e bebendo aos goles pachorrentos um licor estomacal, resmungando… – Deixa-los ir que voltam breve. Eu era capaz de apostar todo o mel deste monte, em como sei que inimigos são aqueles. E mais dizem que é mel igual ao do Himeto. A história do Lidador é que lhes esquentou a cabeça.

“Cabras são…”

Pouco depois voltavam os monteadores rindo à gargalhada. – Cabras são: – disse o rei ao apear-se, e, dirigindo-se ao padre: – bem fizestes vós que não bulistes. E D. Afonso tomando um púcaro e enchendo-o de vinho num cangirão, acrescentou.

– Bebei todos, que estais muito quentes e podeis ter um resfriado, e dizei-me depois se não valeu a pena o engano para nos refrescarmos agora com este delicioso néctar.

Capelão, quero comemorar o caso de confundir rebanho de cabras com mesnada de leonezes e beneficiar o convento para vos honrar a vós que fostes, não sei se mais perspicaz, se mais valente do que nós debicando mui sossegadamente em todos os doces. Vou coutar aqui uma terra, para que as boas monjas possam de vez em quando apanhar bom ar da montanha e rir-se de nós.

Riscou-se o couto e nessa noite os cavaleiros dormiram na ermida da Senhora de Azevedo. O dito do Rei “Cabras são” corrompeu-se em Cabração

Fonte: Conde de Bertiandos, Cabras São, in Almanaque de Ponte de Lima, 1923. (texto editado) | Imagem

A arquitectura popular no Minho (Soajo)

Arquitectura popular no Minho

Absorvido pela terra que o alimentava, a si e à sua família, o minhoto pedia à casa só um abrigo, sem luxo nem conforto. Mas o desenvolvimento da lavoura e uma vida de maior desafogo vieram exigir mais daquela que passou a ser também a sua habitação.

A casa típica, de granito e de carvalho, associa e funde numa só, a modos de presépio, a habitação humana e o curral do gado.

As casas são de planta rectangular e geralmente de dois pisos baixos:

– o andar sobradado, para habitação,

– e o térreo, para as cortes de gado e lojas.

Nos baixos recolhe-se uma parte da alfaia e localiza-se a adega, às vezes o celeiro e até as cortes.

Uma escada de pedra, guardada ou não e de um só lanço, sobe geralmente ou longo da fachada e varanda. Esta é coberta com alpendre, por onde se entra no sobrado.

A cobertura típica, geralmente de duas águas pouco inclinadas,

– é de telha caleira

– ou, nos casos mais rústicos, de colmo e giesta,

como sucede em certas aldeias do curso superior do Lima português. No século XVIII ainda se conservava o antigo costume de cada honrada ser coberta de colmo e não de telha

À volta da casa minhota não podem faltar a eira, as medas ou moreias, o poço, as cortes e os inseparáveis espigueiros. Da Galiza veio o gosto pelos espigueiros de granito como os de Soajo (Arcos de Valdevez) ou de Lindoso (Ponte da Barca).

A típica casa minhota

A típica casa minhota, em que os baixos arrecadam e armazenam e no andar existem os aposentos de viver, surge contudo sob diversos estilos que a fortuna ou a localização quase sempre explicam.

No Lindoso, é frequente uma casa exterior dar acesso a uma varanda de granito corrida ao longo da fachada e cuja cobertura, muito baixa, apoia em singelos pilares. No térreo, a varanda faz de coberto de arrumos.

Em Cabração, Moreira de Lima e Estorãos (Ponte de Lima) eram comuns as varandas de madeira, assentando sobre pilastras.

Na Serra de Arga e na Labruja (Ponte de Lima) já as varandas, para proteger do frio, são baixas e vedadas, estreitos os respiros e os postigos.

Em Ermida e Germil (Ponte da Barca), na serra Amarela, as janelas são diminutas, escassas e muito chegadas ao beiral para fazer face às inclemências do clima.

 

Fonte: “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” (texto editado e adaptado)

A Vaca das Cordas | Usos, costumes e tradições

 

Existe desde tempos remotos na vila de Ponte de Lima [Minho] o peculiar costume de, anualmente, na véspera do dia de Corpo de Deus, correr uma vaca preta presa e conduzida pelos ministros da função que assim procedem com o auxílio de três longas cordas. Esse divertimento, cuja verdadeira origem se desconhece, mas que ainda se mantém e parece ganhar ainda mais popularidade, atraindo à terra numerosos forasteiros, era outrora executada por dois moleiros que a isso eram obrigados sob pena de prisão, conforme determinavam as posturas municipais. Muitos desses moleiros eram oriundos da Freguesia de Rebordões – Santa Maria, localidade que possuía numerosos moinhos e que, com a sua decadência, os moleiros da terra emigraram para o Brasil, fixando-se muitos em Goiás.

Ao começo da tarde, uma vaca preta é presa ao gradeamento da igreja Matriz, aí permanecendo exposta à mercê do povo que outrora, num hábito que com o decorrer do tempo se foi perdendo, por entre aguilhoadas e gritaria procurava embravecer o animal a fim de que ele pudesse proporcionar melhor espectáculo. Invariavelmente, às dezoito horas, lá aparecem os executantes da corrida que, após enlaçarem as cordas nos chifres da vaca, desprendem-na das grades e dão com ela três voltas em pesado trote em redor da igreja após o que a conduzem para a Praça de Camões e finalmente para o extenso areal junto ao rio Lima. E, por entre enorme correria e apupos do povo, alguns recebem a investida do animal aguilhoado e embravecido ou são enredados nas cordas, enquanto as janelas apinham-se de gente entusiasmada com o espectáculo a que assiste.

Quando soam as trindades, o espectáculo termina e dá lugar aos preparativos dos festejos que vão ocorrer no dia seguinte. As gentes limianas decoram as ruas com um tapete florido feito de pétalas e serrilha por onde a procissão do Corpo de Deus irá passar.

Com atrás se disse, desconhecem-se as verdadeiras origens deste costume antiquíssimo. Contudo, uma tela de Goya que se encontra exposta no Museu do Prado, em Madrid, leva-nos a acreditar que o mesmo era mantido noutras regiões da Península Ibérica. De igual modo, a tradicional corrida à corda que se realiza nos Açores sugere-nos ter este costume sido levado para aquelas ilhas pelos colonos que as povoaram a partir do continente.

Em meados do século dezanove, o cronista pontelimense Miguel dos Reys Lemos arriscou uma opinião baseada na mitologia, a qual publicou nos “Anais Municipais de Ponte de Lima” e que pelo seu interesse a seguir reproduzimos:

“Segundo a mitologia, Io, filha do Rei Inaco e de Ismene – por Formosa e meiga – veio a ser requestada por Júpiter. Juno, irmã e mulher deste apaixonado pai dos deuses, que lia no coração e pensamentos do sublime adúltero e velava de contínuo sobre tudo quanto ele meditava e fazia, resolvera perseguir e desfazer-se da comborça que lhe trazia a cabeça numa dobadoura.

Ele, para salvar da vigilância uxória a sua apaixonada, metamorfoseou-a em vaca: – mas Juno, sabendo-o, mandou do céu à terra um moscardo ou tavão, incumbido de aferroar incessantemente a infeliz Io, feita vaca e de forçá-la a não ter quietação e vaguear por toda a parte.

Io, assim perseguida e em tão desesperada situação, atravessou o Mediterrâneo e penetrou no Egito: aí, restituída por Júpiter à forma natural e primitiva, houve deste um filho, que se chamou Epafo e, seguidamente, o privilégio da imortalidade e Osíris por marido, que veio ter adoração sob o nome de Ápis.

Os egípcios levantaram altares a Io com o nome de Isis e sacrificavam-lhe um pato por intermédio de seus sacerdotes e sacerdotizas: e parece natural que, não desprezando o facto da metamorfose, exibissem nas solenidades da sua predilecta divindade, como seu símbolo, uma vaca aguilhoada e errante, corrida enfim.

Afigura-se-nos que sim e, portanto, que a corrida da vaca, a vaca das cordas, especialmente quanto à primeira parte, as três voltas à roda da Igreja Matriz, seria uma relíquia dos usos da religião egípcia, como o boi bento, na procissão de Corpus-Christi, é representativo do deus Osiris ou Ápis, da mesma religião. E esta foi introduzida com todos os seus símbolos na península hispânica pelos fenícios, aceite pelos romanos que a dominaram, seguida pelos suevos e tolerada pelos cristãos em alguns usos, para não irem de encontro, em absoluto, às enraizadas crenças e costumes populares.

É que essa Ísis, a vaca de Júpiter, a deusa da fecundidade, teve culto especial precisamente na região calaico-bracarense, na área de Entro Douro e Minho; no Convento Bracaraugustano, ou Relação Jurídica dos Bracaraugustanos (povos particulares de Braga), de que era uma pequeníssima dependência administrativo-judicial o distrito dos límicos, prova-o o cipo encravado na face externa dos fundos da vetusta e venerada Sé Arquiepiscopal, – cipo que a seguir transcrevemos inteirado, conforme a interpretação que em parte, nos ensinou e em parte nos aceitou o eruditíssimo professor do Liceu, Dr. Pereira Caldas:

ISID · AVG · SACRVM LVCRETIAFIDASACERD · PERP · P ROM · ET · AVG
CONVENTVVSBRACARAVG · D ·

INTERPRETAÇÃO

ISIDI AUGUSTAE SACRUM; LUCRETIA FIDA SACERDOS PERPETUA POPULI ROMANI ET AUGUSTI, CONVENTUUS BRACARAUGUSTANORUM DICAT

TRADUÇÃO

“SENDO LUCRÉCIA FIDA SACERDOTISA PERPÉTUA DO POVO ROMANO E DE AUGUSTO, O CONVENTO DOS BRACARAUGUSTIANOS DEDICA A ISIS AUGUSTA (OU: À DEUSA ISIS) ESTE MONUMENTO SAGRADO”

Acredita-se porém que, no local onde se ergue a igreja matriz de Ponte de Lima existiu outrora um templo pagão onde se prestava culto a uma divindade sob a forma de uma vaca representada num retábulo, o qual era trazido para o exterior e efectuava as referidas voltas ao templo. Em todo o caso e atendendo à elevada importância deste animal na economia doméstica de uma região tão propícia à sua criação em virtude dos seus pastos verdejantes, é perfeitamente natural que a vaca tenha aqui sido venerada como símbolo de fertilidade e de abundância e, desse modo, sido prestado o devido culto. Não é completamente injustificada a frequente representação deste animal nomeadamente no artesanato da região minhota, ao qual a barrista barcelense lhe deu cores e vivacidade que o ajudaram a tornar-se famoso em todo o mundo.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Imagem de destaque: Monumento à “Vaca das Cordas” (foto de Carlos Gomes)

  

foto: Amândio Vieira

 

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