O Ouro do Minho – O Ouro de Viana | Trajes do Minho

O Ouro do Minho – O Ouro de Viana

Introdução

Etnograficamente, a mulher minhota sabe, como ninguém, usar o ouro. O fio de contas e os brincos não contam como ouro. São elementos amuléticos, as contas pela sua parecença com o sol, a lua e as estrelas.

Os brincos (porque obrigam a furar as orelhas), desde os botões que ataviam os alvores da infância, até aos brincos “à rainha” ou as “argolas” e “arrecadas” protegem a cabeça através de orifícios mais expostos aos espíritos malignos (esterilidade).

Por isso, a rapariga de Viana no seu traje de trabalho ou de cotio não se sente “ourada” quando usa brincos e colar de contas (este, às vezes, com uma “pendureza”, normalmente, uma borboleta).

No Traje de Domingar e já a fazer versos nos lenços de amor, usa o primeiro cordão que lhe concede o estatuto de rapariga namoradeira (namorar no Alto Minho significa já a posse; tudo o que aconteceu antes é “flirt”, assunto de conversados).

Por isso, este cordão é oferecido pelos pais, melhor, pela mãe. Era a mãe que escolhia se era um cordão grosso (soga), ou um cordão fino (linha); nunca um cordão (oco).

No São João

Este acto realizava-se pelo S. João, já que era nesta altura que a mãe colocava, também, ao pescoço da filha, o amuleto da moeda de três vinténs ou um conjunto de três moedas, furada(s), pelo orifício da qual se passava um fio de linho, de pontas unidas com três nós sobrepostos.

Na noite de S. João e antes da sua “iniciação” às fogueiras ou ao arrincar dos linhares, a filha tinha que jurar à mãe não mostrar o amuleto fosse a quem fosse e só o tiraria quem o colocou.

Daí, a tradição da mãe tirar os três vinténs do pescoço da noiva, precisamente, na hora de sair de casa para a Igreja.

E o povo não deixou de referir este acontecimento na seguinte quadra: com um homem de certa idade / casou a minha vizinha / ele tinha os três vinténs / mas ela nem isso tinha.

Diversos trajes

O Traje de Feira, mete negócio e “chieira” e um outro ourar. Duas informações:

– Ramalho Ortigão nas “Farpas” (1885) refere o ouro das lavradeiras no mercado semanal em Viana – Jovem viúva, tecedeira em Cardielos (arrecadas, o colar de ouro); uma velha, sessenta a setenta anos (arrecadas de filigranas, colar de grandes contas, de ouro polido).

Leite de Vasconcelos (O Traje em 1917) diz: “Muito Ouro, costumava dizer-se para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes”.

Só o “traje de festa”, também designado por “traje de luxo” é que “obriga” a rapariga a aparecer “ourada”.

E isto significa, quando são mordomas, a aquisição do segundo cordão com “peças” (medalhas de libra ou meia libra), borboletas (corações invertidos), a “laça”, os brincos “à rainha”, a pregadeira das “três libras”, a “Santa Custódia” ou “Brasileira” a lembrar tempos de emigração.

O Traje de Noiva – obriga ao terceiro cordão, oferta do noivo – um cordão grosso, a “soga”, um cordão “de bom cair” pelo seu muito peso; ao trancelim.

O Traje de Morgada – sinónimo de casa farta, boa lavoura, criadagem, tulha cheia, soalhos encerados e o cheiro a mosto das adegas. Uma só jóia na casaquinha justa – a gramalheira / grilhão / bicha:

– Gramalheira – por se assemelhar a uma corrente grossa usada para suspender os potes de três pernas da lareira;

– grilhão – pela sua analogia com as correntes metálicas;

– bicha – pela semelhança da parte do colar a uma cobra com escamas.

– A união do colar – ao centro com chapas de ouro lisas e geometricamente recortadas – faz-se com uma roseta em relevo com pedras.

Dos braços laterais caem franjas e, ao centro, o medalhão que pode atingir 20 centímetros com os mais variados motivos folclóricos. (…)

O Uso do Ouro – Os Amuletos – As Promessas

A Mulher Fanada

Já vimos que o fio de contas e os brincos não contavam como ouro, mas sim como amuleto. A mulher nunca tirava o fio de contas do pescoço, nem o brinco das orelhas. O povo era contumaz sempre que uma mulher aparecia sem brincos: era uma mulher fanada!

Tradição de tal modo importante que à nascença de uma menina eram logo perfuradas as orelhas e colocados uns brincos designados botõezinhos oferecidos pela sua madrinha de Baptismo.

Atente-se, também, no antigo hábito de no primeiro banho do recém-nascido/nascida se lhe juntar moedas ou peças em ouro na convicção premonitória de ser rico/rica.

Também a água desse primeiro banho deveria ser em caso de rapaz lançada à rua para que ele fosse andarilho, se menina era guardada dentro de casa e lançada na “comua” para que fosse caseirinha.

As mães punham ao pescoço no berço e até na cintura das crianças, medalhinhas, figas, sino-saimões – para as defender das bruxas, do mau-olhado ou quebranto.

A forma, também, das peças de ouro estavam adaptadas às crenças que vinham dos antepassados, quer na forma esférica ou arredondada como acontecia com as contas de Viana ou nas formas lunulares que nos aparecem nas arrecadas, nos brincos à Rainha, nos brincos de “chapolas”, parolos ou de luas.

O sol e a lua aparecem-nos com simbologias antigas em que a Deusa Lua era a filha do grande Deus Sol (civilizações Egípcia e Maia), dizendo-nos que, quer a lua quer o sol, sempre exerceram imenso fascínio nas pessoas.

O poder de exorcismo e purificação

O mesmo podemos dizer dos triângulos invertidos. O triângulo com o verso para cima simboliza o fogo e o sexo masculino (signo alongado); com o verso para baixo simboliza a água e o sexo feminino (signo cheio), ambos ligados à fertilidade.

É nas arrecadas de Viana que se constata todo este poder amulético:

a) pela forma lunular na “Janela” ou “pelicano” ou “bambolina”;
b) A presença de campainhas (antigamente chocalhos) comum em todas as religiões no seu número ímpar. As campainhas têm a virtude de afastar os maus espíritos tal como o “reque-reque” pelo barulho que faz;
c) Os SS de filigrana são uma estilização dos patos a voar (símbolo da união e da fidelidade conjugal – macho e fêmea – nadam sempre juntos);
d) O triângulo invertido na parte terminal da arrecada é a estilização de um cacho de uvas (fertilidade).

Não esquecer que os ouvidos são os únicos orifícios que não têm válvulas e estão permanentemente abertos ao exterior e vulneráveis, quer à entrada nos maus espíritos como à saída dos bons.

Por isso, é que a mulher do Minho tem obrigatoriamente de usar brincos ou arrecadas, mesmo a dormir, pois tem sempre receio do mal pior: ser estéril.

Povo que lavas no rio / A Senhora da Peneda

“No princípio do primeiro escadório, cá em baixo, onde as promessas principiavam, uma lavradeira vestida com o fato de pano preto do seu noivar e do seu mortório, entrara para um caixão.

Soubemos mais tarde que prometera todo o seu oiro, mais aquele sacrifício de se amortalhar, se a Senhora lhe trouxesse, vivo e são, o namorado embarcadiço, na altura, para as bandas da Gronelândia.

E o rapaz voltara!

Logo, o casamento dele com a Deolinda Ruça marcou-se para o Natal próximo.

Todavia, antes, a rapariga quis cumprir a jura, atravessando, sem fala, a serra. Como andava descalça, ela, que era mimosa, trazia os pés em sangue. Seis homens de roupa escura (entre eles o pai e o noivo!), pegavam-lhe, agora ao caixão.

À frente, ia o padre.

E o cortejo avançou, lentamente, pelo vasto largo da romaria, subindo, em seguida, a grande escadaria que termina lá no alto da encosta.

À porta do templo, o préstimo deteve-se.

E o sacerdote entrou sozinho, na igreja, enquanto que os homens de roupa escura, pousavam sobre o lajedo, o caixão, para descansar um pouco.

Depois, o pai da moça procedeu à abertura da urna. Mas de súbito recuou!

Quis falar e não pôde.

Os outros debruçaram-se, então, sobre o esquife.

Foram a ver

A Deolinda estava morta.”

(Homenagem a Pedro Homem de Mello – Afife/2004)

Uma nota final / Seguindo os apontamentos sobre o ouro de Maria Emília de Vasconcelos:

Como já vimos em toda a entrega do ouro aparece-nos a Grande Mãe como a Matriarca da família. Mesmo quando pedida em casamento, na ida a Viana com o noivo e os pais do noivo, a Mãe estava junto à filha.

Então o povo dizia o seguinte: – Foram ao “ulives” para ourar a noiva.

Ultimamente tem-se verificado que a colocação do Ouro no diverso trajar (Cotio, Domingar, Feirar, Peditório, Luxo, Mordoma, Noiva e Morgada) não está a observar as regras que recebemos dos nossos maiores e dizem respeito à tradição. Assim repetimos: o que usa e como usa (a Minhota) no seu corpo, o ouro?

Ao pescoço

Colares de contas, cordões, gargantilhas, trancelins e grilhões (cordões como já dissemos devem dar pelo menos três voltas e cair folgadamente no “colo” da Lavradeira, tendo sempre pendurada na parte mais comprida uma das seguintes peças: borboleta, cruz raiada de filigrana, cruz fundida ou maciça, peça ou medalha, custódia ou laça.

Ao peito

As chamadas pendurezas que podem ou não estar ligadas, quer aos cordões, quer ainda, aos trancelins e mesmo aos colares de contas: crucifixo, cruzes de Malta, cruzes de sacramento, cruzes de canovão e cruzes barrocas, imagens de Nossa Senhora da Conceição ou as Senhoras do Caneco, relicários, laças, corações (opados e em chapa e que podem ser barrocos, de bico, de chapa, duplos, filigranados ou coroados, flamejantes, opados, de segredo, simples e de veneras), borboletas, alfinetes (de moedas de libra ou de cavalinho que conforme diz a cantiga “são lindas, elegantes, comparantes aos meus beijinhos”; de laço com ou sem pedra), pregadeiras, custódias (brasileiras ou lábias), peças e medalhas.

Nas orelhas

Brincos à Rainha ou à Vianesa ou picadinhos; brincos à Rei, arrecadas de filigranas, brincos de moedas de imitação (libras, meias libras, quintos e quintinhos); e brincos de chapola, parolos ou de luas; argolas (barrocas, carretilha, a cigana, de leque com ou sem turquesas, torcidas, regueifa, indiana, carniceiras ou de Barcelos).

Nos pulsos

Pulseiras de chapa e de trancelim.

Nos dedos

Anéis de argola, de cordão e de chapa.

A colocação de qualquer “peitilho” onde foi colocado o ouro que faz parte da montra da Lavradeira está contra a tradição e como tal deverá ser corrigido.

Igualmente, e conforme referia o sempre lembrado Amadeu Costa qualquer colocação do ouro abaixo do umbigo, igualmente é reprovado porque é um atentado ao pudor uma vez que os olhos maliciosos são levados a fixar-se em partes mais íntimas do corpo.

Também, uma mulher nunca ia trabalhar ourada porque era uma forma de má administração e até falta de precaução; em contrapartida, o fato de ir à feira já deve ter uma boa aparência para que corra bem o negócio, nunca esquecendo, porém, que o “ouro” tenta os ladrões.

Francisco Sampaio, in Brochura “Festa do Traje” | Romaria D’Agonia – Viana do Castelo – 2006 (texto editado e adaptado)

A Povoação de Agarez | Lendas de Portugal

Lenda da povoação de Agarez

Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez.

Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.

A imaginação que ajudou a criar os caprichosos desenhos dos seus bordados ajudou também a criar a curiosa lenda que nos explica a sua génese.

Em tempos muito remotos, no mesmo lugar em que se encontra o actual povo de Agarez, havia um outro chamado Aragonês, nome que lhe fora dado pelos seus fundadores, originários do Reino de Aragão.

Vindos de Aragão

Quando estes lá chegaram, construíram as primeiras casas e começaram a surribar as terras arenosas e a cultivar o milho que era o prato forte da sua alimentação.

Um dia, no decorrer desta faina, encontraram, com espanto e alegria, um largo filão de oiro que parecia não ter fim. Abandonaram logo os trabalhos agrícolas para se entregarem, com avidez, à exploração do precioso metal que iam amontoando nos canastros do milho.

Depois de terem enchido os canastros, entenderam que era muito arriscado guardar ali tão valioso tesoiro e decidiram levá-lo para a serra e escondê-lo debaixo da areia.

Fizeram, para isso, grandes dunas, com galerias interiores, e trataram de o transportar para lá em carros de bois.

Encontro com o diabo…

Quando andavam naquela freima, passou lá o Diabo que, ouvindo o estridente chiar dos carros, se aproximou, curioso, e parou, agachado atrás dos arbustos. Arregalou bem os olhos e pôs-se à escuta:

– E se alguém descobre o oiro? — pergunta um.

– O Diabo seja surdo — respondem os outros em coro.

– E se alguma enxurrada leva a areia? — lembra outro.

– Cruzes, Canhoto, vociferam os restantes.

– Não, se Deus quiser, não vai acontecer nada disto — concordaram todos.

Perdem-se as pepitas

Neste comenos, um dos sacos rompeu-se e as pepitas espalharam-se pela encosta.

– Rais part’ó Diabo! — praguejou alguém.

Ao ouvir isto, o Diabo afinou, perdeu a paciência e não quis ouvir mais. Furioso, jurou vingar-se daqueles títeres desprezíveis que o infernizavam com alcunhas e pragas, e, ainda por cima, eram cristãos.

A espumar de raiva, deitando lume pelos olhos, com o rabo entre as pernas, esgueirou-se, sorrateiramente, para não ser notado, a cogitar na maneira de pôr em prática o seu propósito de vingança.

– Haviam de pagar, e com língua de palmo, o atrevimento, ou ele deixaria de ser Diabo.

Penaguião entra na história

Então, lembrou-se de que, lá para os lados de Penaguião, havia uma terra chamada Mafómedes, cujos habitantes seguiam a lei de Mafoma e eram, por isso, inimigos figadais dos cristãos.

Estugou o passo e para lá se dirigiu, sem perda de tempo. Com a promessa de lhes entregar um fabuloso tesoiro, facilmente convenceu os Mouros a acompanhá-lo. Com o Diabo na dianteira, armados até aos dentes, transpuseram, pela calada da noite, os desfiladeiros do Marão e chegaram a Aragonês, antes do dealbar, quando os Aragoneses dormiam, ainda, a sono solto.

Sem encontrar resistência, mataram todos os cristãos e destruíram-lhes todas as casas.

Ao romper da manhã, dirigiram-se para o local das dunas à procura do oiro escondido. Mas, quando começaram a revolver a areia que o cobria, um forte abalo sacudiu a encosta e fez rolar, lá do alto do Alvão, uma cordilheira de penedos que os esmagaram e soterraram, com armas e bagagens.

Daquela hecatombe, escapou apenas o Diabo, que deu às de Vila Diogo, sem mais aquelas, e um casal mouro que aí se fixou e reconstruiu a povoação à qual deu o nome de Agarez, em memória da sua ascendente Agar, a famosa escrava de Abraão, que deu origem aos Agarenos, seus correligionários.

Atualmente

Os habitantes da nova povoação passaram a dedicar-se à cultura do linho com o qual teciam e bordavam maravilhosos lençóis, cobertas e toalhas. Uma arte que os tornou conhecidos e que ainda hoje perdura, embora em menor escala.

É de lá que vêm as cobiçadas peças de linho que embelezam e valorizam a tradicional feira de São Pedro, a vinte e nove de Junho, em Vila Real.

É esse o seu oiro verdadeiro, porque o outro, esse lá continua, inacessível, debaixo dos impenetráveis penedos, bem guardado pelo Génio da Montanha!

Fonte: Literatura de Trás-os-Montes e Alto Douro, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)

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