Festa das Cruzes em Monsanto – Beira Baixa

Festa das Cruzes em Monsanto

A Festa das Cruzes, a 3 de Maio, celebra a vitória dos monsantinos num dos muitos cercos, dizem uns que dos romanos, outros dos mouros. As mulheres sobem até ao castelo tocando adufes e cantando.

Do alto das muralhas deitam um pote florido, simbolizando o gesto de há séculos, quando um vitelo foi lançado aos sitiantes. Isto para mostrar a que ponto os sitiados estavam providos de víveres. Depois deste episódio de guerra psicológica, diz a lenda que o cerco foi levantado.

Atente-se nas semelhanças com outros episódios lendários ou semi-lendários, como o da acção de Deladeu Martins durante o cerco de Monção pelos castelhanos.

A Festa das Cruzes, em Monsanto, tem uma particularidade: quando o 3 de Maio não calha a um Domingo, então a data é assinalada por uma cerimónia simples, como aquela que se descreveu atrás. A grande celebração fica para o Domingo seguinte.

Tradições da Festa das Cruzes

Nessa altura, em vez de um grupo de mulheres forma-se um cortejo com ranchos folclóricos, que chega a ter centenas de metros de comprimento, e sobe também até ao castelo para lançar a bezerra simbólica.

Outra tradição curiosa desta aldeia tem a ver com as marafonas. São bonecas de pano feitas por altura desta festa e às quais é atribuído o poder de proteger as casas dos seus possuidores contra o mal causado pelas trovoadas. Para que sejam “eficazes” na protecção, devem ficar deitadas nas camas.

O Pico onde se situa Monsanto (758 m) domina a planície em redor, tendo por isso sido habitado desde tempos remotos. As casas, em granito, trepam pelo monte acima. A aldeia é dominada pelo castelo, conquistado aos mouros por D. Afonso Henriques em 1165 e doado por este aos Templários.

A partir do séc. XVII, o castelo foi adaptado ao uso da artilharia. Ele desempenhou papel importante nas sucessivas guerras com Castela, dada a sua posição alcantilada e a proximidade da fronteira.

Cenário de sucessivos cercos ao longo dos séculos, desde o tempo dos romanos e dos mouros, passando pela época medieval, travou o seu maior combate durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1705), ao resistir a um exército espanhol que só entrou na praça após semanas de luta. Já no século passado um raio provocou a explosão do paiol fazendo mais estragos do que o invasor alguma vez fizera.

Texto (adaptado) e imagens: GUIA Expresso “O melhor de Portugal” – 12 – Festas, Feiras, Romarias, Rituais (texto editado e adaptado) |  Imagem de destaque

 

Adufe ou Pandeiro | Instrumentos musicais tradicionais

Adufe ou pandeiro

O adufe é um instrumento de percussão português que terá evoluído dos membranofones introduzidos na Península Ibérica pelos árabes, entre os séculos VIII e XII. A influência muçulmana não se fica pelos instrumentos como também os ritmos terão migrado do norte de África.

O adufe é um bimembranofone: instrumento quadrangular, talvez por motivos simbólicos alheios à sonoridade, pois esta forma apresenta dificuldades na sua construção. Também na fase em que as peles são esticadas sobre a moldura de pau de laranjeira, posteriormente cosidas entre si, manualmente. O pau de laranjeira é uma madeira leve e cuja árvore está culturalmente muito associada à castidade.

No seu interior são colocadas sementes, grãos de milho ou pequenas soalhas, com o objectivo de enriquecer a sonoridade. Nos quatro cantos ondulam fitas coloridas ornamentais. Resulta assim um instrumento com duas membranas paralelas em pele de cabra ou ovelha, mas apenas uma é percutida ao executar a música.

Um adufe segura-se com ambas as mãos em lados adjacentes, usando os polegares e o indicador da mão direita. A pele é então percutida pelos restantes dedos, executando diversos ritmos.

O adufe nas regiões de Porugal

Embora com pequenas diferenças na sua construção, o adufe existe na faixa oriental do país, na chamada zona raiana, do Alentejo a Trás-os-Montes.

É tradicionalmente um instrumento quase exclusivamente feito e tocado pelas mulheres: as adufeiras. São famosas as Adufeiras de Idanha-a-Nova e de Monsanto. O facto de serem zonas ricas em pastorícia justifica, de algum modo, a grande explosão de adufes saídos das mãos habilidosas das mulheres da Beira Baixa.

Antigamente era vulgar as pessoas juntarem-se nas casas umas das outras ou no largo da aldeia e tocarem adufe ao despique. Enquanto as mulheres cantavam, dançavam e tocavam, os homens jogavam o “truque” (um jogo de cartas).

O adufe também esteve, desde sempre, ligado aos acontecimentos religiosos e às romarias. Mesmo na Quaresma quando os divertimentos eram “proibidos”, acompanhando as melodias tristes, próprias daquela quadra.

Em Trás-os-Montes e no Alentejo o adufe é mais conhecido por pandeiro. Enquanto na província transmontana a sua decoração é muito sóbria, no Alentejo os pandeiros são enfeitados com cores mais garridas.

A utilização no lazer e no trabalho

Tal como na Beira Interior, em Trás-os-Montes os adufes ou pandeiros eram igualmente tocados pelas mulheres por ocasião dos “jogos de roda” e das “danças em paralelo”.

Estas eram antigas formas de convívio que, infelizmente, já não se verificam, mas que antigamente eram bastante frequentes, em especial por ocasião do fim das fainas agrícolas.

Após terminar a apanha da azeitona, a apanha da amêndoa ou as colheitas do trigo, as pessoas reuniam-se, tocavam os seus instrumentos, cantava-se, dançava-se e faziam-se grandes paródias.

Há cerca de cinquenta anos atrás, quando ainda se fazia a monda, as raparigas levavam consigo o pandeiro para irem tocando pelo caminho. Os rapazes transportavam o realejo, a gaita-de-beiços e a pandeireta, que também não faltava. Cantavam, tocavam e até dançavam enquanto iam e vinham da faina.

Dizem os mais antigos da região de Bragança que eram tempos muito mais animados, em que as pessoas, apesar das agruras e dificuldades da vida e do trabalho quotidiano, eram mais alegres. Agora, dizem que as novas tecnologias são factores de dispersão para os mais novos, que deixaram de ligar às riquezas da tradição das respectivas regiões, o que só se pode lamentar.

Fonte: imagens e compilação de textos recolhidos e adaptados da internet