O Folclore e a Música Erudita | Textos e Opiniões

O Folclore e a Música Erudita

A música erudita é, por definição, toda a criação musical resultante da erudição, produzida de acordo com regras que foram sendo estabelecidas ao longo de várias épocas. Integra vários géneros que respeitam a diferentes fases estéticas e que vão desde a Idade Média aos nossos dias.

Ela abrange períodos tão distintos que correspondem a categorias tão diversas como

– a música medieval e renascentista,

– a música barroca e a clássica,

– do Romantismo

– e a música contemporânea.

Com influência grega e hebraica, as suas raízes remetem para a liturgia cristã e das canções trovadorescas que estão na origem do cancioneiro galaico-minhoto.

Por conseguinte, o conceito de música erudita não contempla a música popular tradicional.

Porém, muitos foram os compositores que, ao longo dos tempos, se inspiraram nas tradições folclóricas para construírem as suas obras musicais. Bastará que nos recordemos de

– Brahms, Haydn e Beethoven, nos países germânicos,

– Lizt e Béla Bártok, na Hungria

– e Stravinsky, na Rússia.

E, entre nós, Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes Graça, Ruy Coelho e Vianna da Motta.

Conforme disse João de Freitas Branco: “Uma história da música portuguesa, ainda que tendo como objecto a arte sapiente de compositores e intérpretes, não pode ignorar o que é, afinal, a mais portuguesa de quantas músicas, porque vive no seio do povo”.

A origem das desgarradas

Desde logo, podemos situar nas “cantigas de escárnio e maldizer” a origem das desgarradas e cantares ao desafio, da mesma forma que os poetas repentistas se filiam na tradição dos jograis e menestréis, conservando a sátira como sua principal característica.

Retomando as palavras de João de Freitas Branco, “…as danças dos pauliteiros, com seus trajes e preceitos curiosíssimos, dir-se-iam também reconstituições de costumes medievais, enquanto as encomendações das almas acusam de outro modo a penetração cristã.

Os belos corais alentejanos sugerem a influência da música polifónica religiosa, que foi tão brilhantemente cultivada na região, e outros exemplos, nomeadamente no Douro Litoral, descendem também do canto a duas e mais vozes de há centenas de anos, conservando por vezes, pouco deterioradas, formas definidas, designadamente de vilancico, e permitindo até, num ou outro caso, aventar a hipótese de proveniência de trechos conhecidos por via dos cancioneiros renascentistas”.

Com efeito, o cante alentejano deve em grande parte a sua influência à música polifónica dos frades da Serra d’Ossa e à denominada “Escola de Évora” que constituiu um dos expoentes do período barroco, considerada a idade de ouro da música portuguesa, denunciando o cantochão no modo muito peculiar da forma mais solene de cantar na margem direita do rio Guadiana.

Antes, porém, encontramos no teatro de Gil Vicente a inspiração da música tradicional a acompanhar versos de sabor popular:

Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro
E gaita em cada palheiro;
E de vinte anos a cá
Não há hi gaita nem gaiteiro

Inspiração no folclore português

É ainda nesta época, mais concretamente durante o reinado de D. João V, que o célebre compositor Domenico Scarlatti, filho do não menos famoso Alessandro Scarlatti, se fixa em Lisboa e passa a viver na corte portuguesa, tendo aí desempenhado as funções de compositor real e mestre dos príncipes.

Também ele se inspira no folclore português e compõe duas sonatas baseadas num fandango e numa canção típica da Estremadura.

Michel Giacometti | Pessoas

Michel Giacometti

Etnomusicólogo corso, nascido em Ajaccio, na Córsega, a 8 de Janeiro de 1929 e faleceu em Faro, a 24 de Novembro de 1990.

Fez importantes recolhas etno-musicais em Portugal. Estudou na Suécia, doutorando-se posteriormente na Universidade da Sorbonne (Paris).

Numa visita ao Museu do Homem, em Paris, a música popular portuguesa despertou-lhe um interesse tal que fez com que se mudasse para o nosso país, em 1959, tendo-se instalado em Bragança. Um ano depois, Michel Giacometti já tinha fundado os Arquivos Sonoros Portugueses.

Ao longo de 30 anos (até 1982), percorreu o país, gravando centenas de cantares e músicas tradicionais, dando origem àquele que é, até hoje, o mais exaustivo levantamento da cultura musical portuguesa.

Do seu espólio constam ainda centenas de instrumentos musicais, fotografias, recolhas de literatura popular e de instrumentos e materiais ligados ao trabalho rural, parte dos quais deu origem, em 1987, ao Museu do Trabalho Michel Giacometti (Setúbal).

Editou, em colaboração com Fernando Lopes Graça, uma Antologia da Música Regional Portuguesa (1963, em cinco volumes) e, em 1981, um Cancioneiro Popular Português. Foi ainda autor de uma série de documentários televisivos, sob o título Povo que Canta.

Grande parte do seu espólio musical (também pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia e Etnografia, em Lisboa) encontra-se ainda por editar ou organizar.

Fonte: Enciclopédia Universal Multimédia da Texto Editora – 1997 (adaptado)

Michel Giacometti – Filmografia completa

Um documento único em Portugal!

«Há uma velha moda alentejana, entre as muitas que ele por cá ouviu e gravou, que diz: Eu sou devedor à terra / A terra me ‘stá devendo / A terra paga-m’em vida / Eu pago à terra em morrendo. Deste povo que canta a vida do mesmo modo que canta a morte, como se uma não tivesse sentido sem a outra, guardou Michel a alma antiga já em névoa. E por isso não foi morrendo que ele pagou a sua dívida à terra Portuguesa, foi nela vivendo. (…)

Michel Giacometti é, repete-se, um português que, não por acaso, nasceu um dia na Córsega. Sempre o vimos como tal. E continuaremos a vê-lo, agora que por graças da técnica, ele regressa vivo para nós.

Ouçam-no, vejam-no, admirem o seu trabalho e empenho. O que ele filmou e gravou ter-se-ia perdido para sempre, não fosse a sua teimosia. Giacometti salvou-nos a alma.»

Nuno Pacheco (Público) 

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