Romaria Minhota 2019 em Belém – Lisboa

 

No próximo dia 15 de Setembro, no Jardim Vasco da Gama, em Belém – Lisboa, a Casa do Minho em Lisboa vai realizar a sua já tradicional Romaria Minhota, de cujo programa fazem parte das seguintes atividades:

15h00 – Missa Campal (em louvor de Nª Sª do Minho e Santiago, presidida pelo Rev.mo Senhor Padre Alexandre Santos)

16h00 – Procissão solene

16h30 – Tarde folclórica, com a participação dos seguintes grupos:

– Associação Rancho Folclórico Alegria do Minho (Alto Minho)

– Grupo Danças e Cantares do Alto do Moinho (Douro Litoral Norte)

– Rancho Folclórico da Casa do Minho em Lisboa (Alto e Baixo Minho)

Com o apoio de toda a Imprensa Minhota

A Casa do Minho em Lisboa

A Casa do Minho em Lisboa (a mais antiga associação regionalista minhota em Lisboa) foi fundada em 1923, por um grupo de minhotos. A ideia era criar uma agremiação que congregasse todos os minhotos que residem em Lisboa, com a finalidade de defender os interesses do Minho e das suas gentes, divulgando e preservando as suas culturas, através do Rancho Folclórico e da Estúrdia Minhota (Grupo de Cantares), bem como dos seus tradicionais almoços e muitos outros eventos.

Sobre o Minho

“Criada como província em 1936, mas extinta como tal em 1976, esta região situa-se no Noroeste de Portugal, entre o rio Minho e o Douro Litoral e entre o oceano Atlântico e Trás-os-Montes e Alto Douro. Ocupa uma área de cerca de 4838 km2 e abrange os distritos de Viana do Castelo e Braga.

O Minho é uma das regiões mais chuvosas da Europa e a de mais elevada precipitação do país. No Inverno há dias relativamente frios, sobretudo no enfiamento dos vales, enquanto o Verão é moderado, apresentando nevoeiros nas zonas mais fundas.

Aqui, a costa marítima desenvolve-se em elevação gradual e circular voltada a oeste. A costa é baixa e recortada, alternando os pequenos lanços de praia arenosa com os rochedos que as marés cobrem na maior parte da superfície.

É uma zona montanhosa, em anfiteatro para o mar desde as serranias do Gerês, Marão e Montemuro, cheia de vertentes alcantiladas, propícias ao desenvolvimento de espécies selvagens, sendo, também por isso, uma das regiões do país com mais notáveis belezas naturais.

Relativamente à vida agrícola, o Minho caracteriza-se pela policultura intensiva e pelo extremo fraccionamento da propriedade. As culturas principais são o milho e a vinha, sendo célebres os seus vinhos verdes. De entre as actividades industriais que contribuem para a riqueza da região, merecem destaque os têxteis, as indústrias eléctricas e electrónicas, as confecções, as construções mecânicas, a celulose, a fiação e o mobiliário.

O Minho apresenta, nos seus principais pratos típicos, a broa, o caldo verde, os rojões e o cozido minhoto, várias receitas de bacalhau, o arroz de pato, e, na doçaria, os mexidos, as cavacas e a aletria de ovos, entre outros.

O povoamento da província data dos mais recuados tempos pré-históricos. Têm sido descobertos, ao longo do litoral e nos vales minhotos, abundantes vestígios da passagem dessas populações primitivas. Mas o património histórico de modo nenhum se limita a este tipo de vestígios, pois por esta zona abundam as casas brasonadas e outros valores arquitectónicos.

O Minho possui uma fisionomia musical popular muito própria. Relativamente ao folclore, esta região não cede primazia a qualquer outra, encontrando o seu poder máximo de expressão na infindável série de grandes e pequenas romarias que ocorrem, sobretudo, no Verão. São, aliás, tradicionais no Minho as manifestações festivas originadas em serviços que impliquem trabalho colectivo.”

Fonte: Minho. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

 

O Folclore e as Marchas Populares em Portugal

O Folclore e as Marchas Populares – O Estado Novo e as tradições são-joaninas

À memória do poeta Silva Nunes, consagrado letrista das marchas populares de Lisboa.

A celebração do Solstício de Verão que ocorre no dia 21 de Junho marca as tradições são-joaninas – ou juninas – que levam o povo a festejar os chamados “santos populares”.

Nas regiões mais a norte, os festejos são predominantemente dedicados a São João enquanto as comunidades piscatórias, por afinidade de ofício, celebram a São Pedro.

Em Lisboa, terra onde nasceu Fernando de Bulhões que haveria de ficar consagrado como Santo António, a devoção popular adquiriu tal dimensão que S. Vicente, padroeiro da cidade, acabou por ser remetido ao esquecimento.

As Marchas Populares de Lisboa

 As marchas populares de Lisboa, tal como actualmente as conhecemos, datam a sua origem de 1932, altura em que desfilaram na avenida da Liberdade os primeiros “ranchos” como então se diziam.

Porém, pelo menos desde o século XVIII que as mesmas se realizavam, inserindo-se nas tradições são-joaninas que têm lugar um pouco por todo o país, com as suas características fogueiras e festões, manjericos e alho-porro.

À semelhança de outras festividades que ocorrem noutras épocas do ano, a escolha do dia 24 para celebrar o S. João é devido ao calendário juliano.

As marchas populares foram naturalmente influenciadas pelas quadrilhas que, geralmente, tinham lugar por ocasião dos festejos a Santo António e que se formavam de pequenos grupos constituídos por cerca de quarenta participantes.

Percorriam as ruas da cidade e detinham-se em frente aos palácios aristocráticos ou de outras famílias abastadas onde, ao som do apito do marcador, se exibiam de forma ruidosa e sem grandes preocupações em relação à coreografia.

Este ritual, que também nos remete para a “marche aux flambeaux”, ou seja, a marcha dos archotes que ocorria em França, foi levado pelos portugueses para o Brasil onde, sobretudo nas regiões do nordeste, se popularizou e veio a misturar com as danças brasileiras já existentes à época

São precisamente as quadrilhas que, de um modo geral, com as modificações que lhe foram introduzidas, acabariam por dar a forma às marchas populares e aos próprios corsos carnavalescos que antecedem a chegada da Primavera.

Caracterizada originalmente como uma dança a quatro pares, a quadrilha constituiu uma adaptação da countrydance inglesa, impropriamente traduzida para o francês como “contredance” e, finalmente, vertida para a Língua portuguesa como “contradança”.

No entanto, tais celebrações possuem origens bem mais remotas e perdem-se nos confins dos tempos.

 

Falar saloio | Usos, costumes e tradições

Falar saloio

A fala bem típica do çalaio originário do moçárabe, perante a industrialização cada vez maior da sociedade e a urbanização citadina absorvendo cada vez mais o espaço rural e os seus habitantes cujos usos e costumes vão falecendo de maneira célere assim se perdendo toda a tradição etnográfica do Termo, ainda assim vai sobrevivendo no falar dos mais idosos, cuidando de a transmitir aos mais novos e a legar aos diversos ranchos folclóricos e etnográficos que, a despeito das maiores dificuldades económicas com que se debatem, conseguem manter viva a cultura “sui-generis” do Termo de Lisboa que é a região etnograficamente demarcada Saloia.

Com efeito, o falar saloio é ainda preservado pelos mais antigos na Murteira, em Caneças, em Bucelas e em Lousa, com um e outro foco esporádico nesta e naquela aldeia resistente aos modernos usos e costumes urbanos, por norma descambando em vícios novos por lhes faltar a argamassa das regras morais de conduta ancestral de uma sociedade tradicional rural, que ao absorvê-los inevitavelmente se desintegrará e fenecerá.

Pois sim, apesar de o falar saloio parecer todavia não é linguajar algaraviado, antes, linguagem cujos vocábulos insistem no português arcaico que possui tanto de verbos gregos quanto latinos, e, principalmente no vocabulário do Termo, árabes.

Originalmente este “linguajar” seria puro arábico, e após a Reconquista cristã do Termo e em contacto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, tornar-se-ia arcaico face às novas falas da urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem, hoje rústica, é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” (saloio) entrou na literatura e nas falas da cidade através do Teatro vicentino.

A origem do falar saloio

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar e deste ao português arcaico (luso-galaico) que chegou até hoje.

No seu vocabulário ainda se encontram termos arábicos, como “azebro”, e mudéjares, como “almácega”, “almácica” ou “almaça”.

A vastíssima Literatura de Cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico pela estropiação de palavras e incorrecções sintácticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com a intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa Literatura vislumbra-se também a sabedoria saloia, orbitando entre o jocoso e o grave, a par de teimar manter-se independente das coisas e loisas das gentes finórias da cidade, mesmo que, anacronicamente, certamente por sobrevivência, participando indirectamente da vida delas, resistindo assim à «colonização» do campo pela cidade, pois que terminando a agricultura a indústria pouco mais poderá sobreviver, assim também o núcleo citadino.

Tamanha resistência saloia poderá ser igualmente interpretada como resquício subconsciente da original marginalidade a que foi remetido o árabe após a Reconquista, sendo arrojado para fora de portas ou de muralhas da cidade.

Tem-se aí o conflito entre o agrário e o industrial, cada vez menor por ambos os tipos se sedentarizarem numa sociedade altamente tecnológica e tecnocrática, desfavorecendo a sobrevivência das profissões tradicionais, a maioria manuais, assim como os usos e costumes tradicionais ou folclóricos, no sentido filológico exacto de folclore significar tradição.

Expressões desaparecidas ou transformadas

Na comédia O Saloio Cidadão alinharam-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo”; “por linha lhe vem a tinha”; “filho de burro não pode ser cavalo”; “ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou, então, a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cotejo deles atrás, carregados de trouxas de roupa, atira-lhe o seguinte remoque, ao que ela riposta, com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!
– Adeus, meu filho!

Com essa, parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento; encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje, tudo está em mudança célere. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, de escritório ou de centros comerciais, e a dos rapazes primeiro para a tropa e depois para empregos no comércio e na indústria, aproximaram a cidade do campo por aquela tomado, e assim os saloios foram tomados por novos costumes e novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam completamente despercebidos.

Memória desse Passado recente aí está o vastíssimo património etnológico e etnográfico tradicionais dos Concelhos de Odivelas e Loures, a estudar quanto antes e a preservar a todo o custo.

 

Sugestão de leitura: Os trajes dos saloios

 

Do falar arcaico no Termo e em desfecho final, recolhi alguns termos orais e escritos (para isso tendo também recorrido a algumas bibliografia da especialidade: parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra.

Esse trabalho baseia-se nos estudos anteriores de

– João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol. 2, pp. 65-72, 1930-31,

– e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948,

com os quais compus um pequeno glossário de termos como homenagem à mais singular etnia luso-arábica que já conheci e a quem a cidade tudo deve: a Saloia.

Na página seguinte, um pequeno glossário de termos saloios.

Larmanjat e outros transportes no Termo

Larmanjat e outros transportes no Termo

O projecto literário que encetei no início de 1990 sobre a Cultura Saloia do Termo de Lisboa, o qual ainda aguarda edição pela Entidade Autárquica Odivelense ou Lourense (das duas, uma… que ambas foram contactadas há muito, e de ambas ainda aguardo resposta), levou-me a inscrever no mesmo e publicar modestamente às minhas próprias custas em edição limitada mas ainda assim muito divulgada, este estudo datado de 1994, com o título original de Transportes saloios no século XIX.

Com efeito, ainda nos inícios do século XX rareava o transporte regular de pessoas do Termo para a capital, e vice-versa.

Diligência e mala-posta

Havia a diligência, antigo meio de transporte do colectivo, puxada por fogosos cavalos, vinda de Torres Vedras, atravessando Loures e procedendo à muda de equídeos na estação da Malaposta, junto ao Olival Basto, antes de seguir para a estação central na Calçada do Combro, junto ao Correio Geral, conforme informa Maria Amélia da Motta Capitão in Subsídios para a História dos Transportes Terrestres em Lisboa no Século XIX, Lisboa, 1974.

O serviço de mala-posta, inaugurado em 17.9.1798, desapareceu por completo no primeiro quartel do século XX, tendo sido o principal meio de comunicação e distribuição de correio na Estremadura.

Além do correio, a diligência podia levar quatro passageiros, ao preço de 9.600 réis por pessoa, e mais 320 de gorjeta para o cocheiro e os sotas (isto cerca de 1802).

Serviço executado duas vezes por semana, o horário coadunava-se com o aproveitamento da melhor temperatura do dia, no Inverno, sendo a partida às 5 horas; no Verão, às 17 horas (in Maria Amélia Capitão, ob. cit.).

O omnibus – carreiras públicas

A par da mala-posta, criada para longos cursos, havia as carruagens públicas, ou omnibus (do latim omnes = todas as pessoas, toda a gente), fazendo pequenas carreiras em Lisboa e também ligando esta aos lugares mais próximos no Termo: Oeiras, Cascais, Sintra, Mafra e Loures.

A Companhia de Carruagens Omnibus de Lisboa foi constituída com estatutos aprovados em Abril de 1836 (ou em 29.4.1837), tendo as carreiras começado com dez carros, em 1835.

O omnibus era um carro pesado e barulhento de grandes dimensões, com quatro rodas, cinco janelas de cada lado, porta na retaguarda, estribo para os passageiros subirem, etc. Podia transportar quinze pessoas.

Era puxado por duas parelhas de cavalos ou de muares, indo um sota na parelha da frente e o cocheiro sentado no tejadilho, com as rédeas bem seguras.

A aparição da concorrência de outras companhias de carruagens, ditou o declínio desta primeira empresa de omnibus (nome que se popularizou no Brasil sob o designativo ónibus, que entre nós, portugueses, é o autocarro) por volta de 1868, o qual já começara em 24.2.1865, quando um violento incêndio nas suas cocheiras matara mais de metade dos cinquenta cavalos (in Vasco Callixto, As Rodas da Capital – História dos Meios de Transporte da Cidade de Lisboa, Junta Distrital de Lisboa, 1967).

O larmanjat: comboio de tracção mecânica

Em 1870, o lisboeta e o saloio conheceram um “exótico” comboio de tracção mecânica: o larmanjat (nome herdado do francês seu criador, J. Larmanjat).

Este comboio deslizava sobre um carril central e duas “passadeiras” de madeira, para as rodas laterais. Em 31.1.1870 foi inaugurado este sistema em Lisboa, no trajecto Largo de Santa Bárbara – Alameda do Lumiar, gastando cerca de uma hora na viagem de ida e volta. A estação central ficava no Palácio dos Condes de S. Miguel, na Rua de Arroios.

O larmanjat foi mal aceite por utentes e não utentes, cocheiros e carroceiros, poetas e toda a imprensa, ridicularizaram-no, chamaram-lhe “comboio de areia”, “demónio negro”, etc. Houve mesmo espancamento de maquinistas e actos de sabotagem.

Para revigorar este sistema foi fundada uma empresa inglesa, que recebeu as concessões da anterior: a Companhia dos Tramways a Vapor, com escritórios em S. Sebastião da Pedreira e estação central nas Portas do Rego, de onde partiam duas novas linhas:

– a de Sintra, inaugurada em 2 de Julho (ou Junho) de 1873, sendo aberta ao público no dia 5. Gastava 1 hora e 55 minutos na viagem;

– e a de Torres Vedras, cujo serviço começou em 6.9.1873, levando cerca de 5 horas por viagem.

Houve muito entusiasmo das populações que vitoriaram o rei D. Luís, a soberana inglesa, o marechal Saldanha, etc., quando se mostraram viajando neste comboio, num acto político público visando demonstrar que este era um meio de transporte seguro, o que não convenceu praticamente ninguém, e foram aclamados só pela sua grande coragem, ousadia ou loucura em viajar no “comboio da morte”, fama de que nunca se livrou enquanto existiu.

Sugestão de leitura

Crenças sobrenaturais saloias

Com efeito, o larmanjat teve vida curta por causa dos frequentes descarrilamentos, dos tombos dos passageiros, das avarias, da muita poeirada, dos grandes atrasos e, em especial, da má administração da empresa.

Apesar de terem sido organizados serviços especiais para as feiras do Campo Grande e das Mercês, o larmanjat acabou de vez em 1877 (in Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, 1994).

Requiem pelo Museu de Arte Popular

O Museu de Arte Popular – Lisboa

O Museu de Arte Popular encerrou as suas portas para dar lugar ao “Museu da Língua Portuguesa”.

Ao contrário do que se verifica noutras capitais europeias, o povo português deixou de possuir em Lisboa um espaço museológico onde dava a conhecer as suas tradições mais genuínas, o seu artesanato e os seus trajes característicos, enfim os seus usos e costumes.

Entretanto, a actual1 ministra da Cultura veio a público garantir que aquele espaço continuará a alojar o referido Museu de Arte Popular, embora renovado e em moldes actuais. O que também de algum modo nos parece uma contradição atendendo a que os critérios museológicos que presidiram à sua organização também valem por si mesmos em termos de preservação do património cultural uma vez que marcam uma determinada época.

Vista panorâmica de Belém com o Museu de Arte Popular ao fundo

Constituído em 1948, no âmbito da Exposição do Mundo Português, então com a designação de “Pavilhão da Vida Popular”, o seu acervo reunia um conjunto de peças que foi apresentada na Exposição de Arte Popular Portuguesa que teve lugar em Genebra, em 1935.

O seu espólio repartia-se por diferentes salas dedicadas às mais diversas regiões do país e ainda um espaço para exposições temporárias, nelas predominando as cerâmicas e as alfaias agrícolas, os trajes e instrumentos musicais tradicionais, a joalharia e as artes de pesca, as carroças e a cestaria, a maioria das quais recolhida nos começos do século passado.

O Mercado da Primavera

Aspecto do Mercado da Primavera

Como complemento do Museu de Arte Popular, funcionava no espaço exterior uma feira de artesanato denominada por “Mercado da Primavera”, tendo mais tarde mudado o nome para “Mercado do Povo”.

Constituía um espaço de animação e divulgação da cultura tradicional, acorrendo àquele local numerosos artesãos vindos de todo o país, incluindo a célebre Rosa Ramalho, criadora dos galos de Barcelos.

A decisão de ali instalar o Museu de Arte Popular coube ao ministro António Ferro e o edifício foi originalmente concebido pelo arquitecto Veloso Reis, tendo posteriormente sido sujeito a remodelação com vista a acolher o museu, tendo o projecto de adaptação pertencido ao arquitecto Jorge Segurado.

O Museu de Arte Popular constituiu seguramente o exemplar mais representativo das concepções museológicas e ideológicas do Estado Novo, facto que só por si justificaria a sua continuidade e preservação.

Porém, não foi esse o entendimento das entidades governamentais, a começar pela anterior ministra da Cultura que preconizava inclusivamente a sua demolição. Ao que tudo indica, o seu espólio foi transferido para o Museu de Etnologia, do qual ultimamente fazia parte como “Núcleo de Arte Popular”.

Incapazes de conceberem de raiz, em tempo útil, um edifício adequado ao projectado Museu da Língua Portuguesa e para não ficarem atrás do Brasil que já concebeu uma iniciativa idêntica, o Ministério da Cultura optou por aproveitar para esse fim uma obra que não apenas do ponto de vista histórico, como arquitectónico e escultórico nos remete para a estática defendida pelo Estado Novo.

Exposição do Mundo Português

Na realidade, à excepção do Mosteiro dos Jerónimos, quase toda a área de Belém foi concebida nessa época para a realização da Exposição do Mundo Português, incluindo a fonte luminosa e o Padrão das Descobertas.

E, não tivesse o Pavilhão de Honra e de Lisboa da referida exposição sido construído em material perecível, não teríamos entretanto assistido às polémicas estéreis que envolveram a construção do Centro Cultural de Belém.

Na realidade, o Museu de Arte Popular nunca foi visto com agrado pelas entidades responsáveis que quase sempre o deixaram ao abandono e a necessitar de obras de restauro.

O Mercado da Primavera foi extinto e o seu espaço vandalizado, praticamente nada restando da sua decoração original. No entanto, apesar da sua escassa divulgação, sempre atraiu visitantes nacionais e estrangeiros e os seus responsáveis acarinharam vários grupos folclóricos que ali se deslocavam ou procuravam apoio.

O Mercado da Primavera era um local bastante concorrido
As carroças tradicionais do Alentejo faziam parte do espólio do Museu
Aspecto de uma das salas do Museu de Arte Popular
O Museu encontrava-se repleto de motivos pictóricos e escultóricos

Fotos do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa

As origens da museologia em Portugal

Quando, em 1772, o Marquês de Pombal aprovou os Estatutos da Universidade de Coimbra e simultaneamente referiu que “…muitas pessoas particulares por gosto, e curiosidade tem ajuntado muitas Collecções deste género, que fechadas nos seus Gabinetes privados não produzem utilidade alguma na Instrucção pública”, determinando a criação junto daquela Instituição “huma collecção de productos, que pertencem aos três Reinos da mesma natureza”, revelava já a preocupação pedagógica traduzida na transmissão de novos conhecimentos através da exposição de peças que, conforme também é dito, “deve ser o Thesouro público da História Natural, para a Instrucção da Mocidade”.

Na realidade, a prática do coleccionismo constituiu o germe da museologia e da construção do museu enquanto local de exposição permanente ou temporária de um conjunto de objectos devidamente ordenados de uma forma temática, relacionados entre si, classificados e ordenados, transmitindo informação e até dialogando com o visitante.

Não obstante, os primeiros museus não passavam de um amontoado de curiosidades sem qualquer lógica científica, ordenamento ou estrutura temática nem preocupação de conservação ou catalogação das peças expostas ou guardadas.

Os primeiros museus em Portugal

Em Portugal, encontram-se nesta primeira fase, além do mencionado

– Museu da Universidade de Coimbra,

– o Real Museu da Ajuda,

– o Museu de História Natural que viria a ser devassado pelas tropas de Napoleão,

– a colecção de numismática na Casa da Moeda,

– o Museu Sisenando Cenáculo Pacense,

– o Museu Mayense,

– o Museu Nacional criado pela Academia das Ciências de Lisboa e, finalmente,

– o Museu Real do Rio de Janeiro.

A museologia conhece uma segunda fase a que se encontra associada a implantação do liberalismo e se prolonga até 1910, altura da implantação do regime republicano.

Para além das preocupações de natureza cultural e científica, de transmissão de ideias e novos conhecimentos, não é por certo também alheio o encerramento de muitos conventos, mosteiros e casas particulares contendo inúmeras obras de arte.

A criação em 1833 do Museu Portuense marca precisamente o início de uma nova época na qual já se revela a preocupação de um ordenamento temático.

Neste caso, de pinturas e estampas e, simultaneamente, com a natureza de museu público por oposição ao museu privado, com a intenção deliberada de espalhar “até nas últimas classes do Povo o gosto do bello, o amor e o sentimento das Artes”.

O museu, qual templo dedicado às musas, deixava assim de constituir um mero repositório de colecções de obras de arte, de objectos científicos e outras curiosidades para passar a ser um local de estudo e de transmissão de conhecimentos ao mesmo tempo que assegura a sua salvaguarda e preservação.

Museus regionais

São deste período entre muitos outros, incluindo diversos museus regionais, o Museu Arqueológico do Carmo, o Museu Nacional de Belas Artes, o Museu Etnográfico Português e o Museu dos Coches Reais.

A implantação da República em 1910 veio a traduzir-se num verdadeiro movimento de renovação dos espaços museológicos, procedendo a um ordenamento territorial e reconhecendo os mesmos como um “complemento fundamental do ensino artístico e elemento essencial da educação geral”.

Tal como sucedera com o estabelecimento do liberalismo, foram durante esse período criado inúmeros museus municipais e regionais, em grande parte utilizando os edifícios de antigos conventos, e paços episcopais expropriados à Igreja, bem assim o seu recheio de obras de arte.

Aliás, no processo de criação de museus durante o período da Primeira República esteve a Lei de separação do Estado das Igrejas promulgada em 1911 e que estabelecia nomeadamente as expropriações necessárias à instrução pública, incluindo bibliotecas e museus, e ainda a “salvaguarda do património artístico” quando estes se encontrassem na posse de entidades que não cuidassem da sua preservação.

Uma das decisões produzidas pelo novo regime consistiu em transformar o então já existente Museu Nacional de Belas Artes em dois museus nacionais – o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Nacional de Arte Contemporânea.

De igual modo, também ao novo regime deve o Museu da Cidade de Lisboa a sua constituição, apesar da sua criação ter sido pensada durante os últimos anos da monarquia.

Mais de uma dúzia de museus regionais foram criados em todo o país durante a sua vigência.

Porém, a criação do Museu da Revolução, tendo na realidade sido o primeiro museu constituído pela Primeira República, dadas as suas características, antecipa já uma certa ideia de utilização do museu não apenas como complemento pedagógico mas ainda como veículo de transmissão de uma ideologia através do qual se pretende mais doutrinar do que esclarecer.

 

Pregões Saloios | Usos, costumes e tradições

Pregões Saloios

Não vai muito longe o tempo em que Lisboa acordava, logo após as primeiras luzes da aurora, ao som do vozerio dos saloios apregoando por toda a cidade os bens essenciais trazidos do Termo com que nutriam as gentes da cidade.

A pé ou em seus burricos, os saloios formavam um tipo sui-generis de graça e cor que há muito o alfacinha se habituara a não dispensar. Lisboa não era só a tagana varina canastreira, mas igualmente a alcandorada saloia garrida. Uma e outra davam vida e movimento ao bem típico espírito popular, misto de bairrista com campesino.

Pregões de Lisboa

O grande olisipógrafo Júlio de Castilho (in Lisboa – Revista Municipal, n.º 116-117, pág. 73, 1968), no seu estudo Pregões de Lisboa, Música do Coração do Povo, escreveu:

«A melopeia dos pregões é música, deliciosa música, nativa no coração do povo. Em cada nota diz-nos muito; na letra e na harmonia solta eflúvios de campo, lembra as hortas do Areeiro, os pomares de Benfica, as latadas de Loures, a fragrância das sebes nas sombrias azinhagas, as fainas das bandadas casaleiras.

Pregões da Primavera no Bairro Alto, nas vielas de Alfama ou do Castelo, lembro-me bem das íntimas saudades, que na mente dorida me acordáveis, quando, longe dos meus, em plaga estranha, destes torrões natais curti a ausência. Escutava na memória da alma as sabidas vetustas melodias dos pregões desta mágica Lisboa…»

E mais ainda…

Diz, ainda, Júlio de Castilho: «Há pregões ternos e melancólicos; há outros engraçados e burlescos; há outros indiferentes, sem inteligência e sem cor; uns são preguiçosos e estiraçados como lazarones; outros, finos e flexíveis como enguias; outros, fleumáticos e calculistas como os onzeneiros da Rua Nova; uns são gordos, outros, magros; estes são garotos, aqueles circunspectos.

(…) Em suma: o pregão é feição especialíssima da comédia das nossas ruas, e espelho do carácter nacional de uma classe. O certo é que, salvas algumas excepções, os pregões de Lisboa são afectuosos, afinados, e teatrais.

«Finalmente, lembraremos que há (ou havia) pregões que se ouviam com mais frequência neste ou naquele bairro, nesta ou naquela zona. Dependia do produto vendido, o qual, muito naturalmente, tinha um maior número de interessados em determinadas partes da capital.

Também variam com as horas do dia e as estações do ano. Melancias e sorvetes, por exemplo, não eram vendidos no Inverno, e as castanhas, ontem como hoje, aparecem no Outono, adivinhando o Inverno que se aproxima…» (in Lisboa Antiga – Bairro Alto, vol. V, pp. 223-224, 3.ª ed., 1966)

Pregões antigos do séc. XVI

Neste estudo, apenas indicarei os pregões saloios que Lisboa foi ouvindo ao longo dos tempos, em especial nos últimos 110 anos que vão dos meados do século XIX até cerca de 1960. Contudo, não se deve esquecer, como informa Júlio de Castilho, que os pregões de Lisboa são muito antigos e que já no século XVI eram apregoados os produtos vindos nas naus da Índia.

Em 1980 ainda se ouvia, por uma ou outra ruela dos bairros alfacinhas, a voz de uma ou outra velha varina, tentando perpetuar os seus encantadores mas já moribundos pregões… era o seu canto de cisne!

Mesmo hoje, 2008, ainda ouço quase fantasmagoricamente, tal a raridade, os pregões de um amolador de facas e tesouras ou dum vendedor ambulante de mantilhas e capachos. São raridades etnográficas em rápida extinção…

Mas vamos aos pregões saloios que recolhi, aconselhando, a quem queira fazer um estudo mais pormenorizado deste tema, a consulta à bibliografia no final do presente.

Listagem com alguns pregões

Da “água” à “fava rica”

Água: Áá-Áá! – Áúúú! (1903); Á–ú! – Áááuga! (1903).

Alecrim: Mér-c´Àlecriim! (1903); Mérc-c´ò mólho d´alecriim! (1903).

Alhos: Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos! (1903).

Amêijoas da Ribeira de Frielas: Quem quér a-mêêi-joas, pr´à àrrõz?! (1903); Amêêijôas p´r àrrôôz! (1940).

Amoras: Riic´àmóra da hóórta – Amóóra-friia! (1903).

Azeite, petróleo e vinagre: Azêêêti dôôci! (1903); Aa-zêite dôôce! (1903); Aazêite duuce! – Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine! – Azêite dôô-c´i bom vináágre! (1903); Óh petroliiii-ne… Azêite dôôce i vináágre! (1903).

Azeitonas: A trinta réis ô salamiin! Quem quer azêitõonas nóóóvas? (1903); Déz tostões – salamiim! Quem quer azêitõonas nóóóvas?! (1940).

Broas: Nem p´lô Natal… há brõa igual! Ó meniinas, vinde comprár as brõas do Manél, que curam a tosse – e sábem a mél! (1903).

Vassouras, abanos, chapéus de palha: O abano fáz ô bento – bis, Par´ácender ô fõgão…, Báárre, báárre, bassourinha – bis, Bassourinha bárr´ô chão…, Ólh´ò lindo cestiinho!!! (1940).

Favas: Fáva tôrradiinha! (1903); Fáva riiica! – Fááá-va rii-ca! (1903 e 1940).

Dos “figos” aos “marmelos”

Figos: Quem quér fiigos, quem quér álmôcáár? Quem quér fiigos de capa rôôta?! (1903); Óh figui-nhu de capa rôôta!… Quem quér fiigos –, quem quér álmôçáár…! (1940).

Galinhas: Éh! Galiiinhas! (1903); Mérca frâangos! (1903); Galiiiiiiiii-nhas! Quem nas quér i com ôvo?! (1903).

Hortaliças: Ólh´à cou-ve lombar-da! (1903); Mérc´à mão de náá-bos! (1903); Méérc´ò mólho de náábos! (1903); Ólh´ò timááti, quem quér timááti? O móó-di cinou-las… (1940); Ólh´àbóbra, quem quér abóóbra? Côrteirão de pimentos… Ólh´àlfácia, quem quér àlfáácia…? (1940); Cá estão nábos, cenouras, tomátes ou pepinosi tud´ô mais que a hórta dá! (1940).

Laranjas: Mééc´à la-rããnja da Chii-na! (1864); Quem quér do rããmo?! Quem quér larããnjas nóóvas?! (1940); É do rããmo!… Quem quér laranja bõõa?! (1940).

Leite: Éééé, chêga lá vaquiii-nha, chêêga! – Anda lá, Rosita… Então estás a fazer-te esquerda?! (estas palavras, este pregão de 1903, eram dirigidas à vaca que o saloio trazia até à porta da freguesa. Leite mais fresco não havia… Este uso de vender leite levando as vacas ou as cabras às portas dos compradores, terminou em 1920, com proibição imposta por lei, apesar de não serem raras as transgressões à mesma).

Marmelos: Óólha ô marméé-lo – assadiinho nô fôrno! (1940); Quem quér – ôs ricos marmelos – assadiinhos no fôrno?!!! (1940).

Da “melancia” às “uvas”

Melancia e melão: Mérc-c´ ò par de melancii-as! (1903); Mérc-c´ ò par de melõões! (1903); É da Váárzia… Melanci´à – fááca! (1903).

Mexilhão da Ribeira de Frielas: I-érre, I-éérre, me-xi-lhão! Ih! Êrre-érre, mexilhão! P´r´à patroa i p´r´ò patrão!… (1903); Éérri éérre, mexilhão! Cá está ô mexilhãão, óh mexilhãão! (1940).

Morangos: Mérc-c´ò cabáz de môran-gos! (1903); Ólh´òs môrãangos! São de Siintra! (1940).

Ovos: Mérc´à dúzia de óóvos! (1903).

Pão: Pãizinhos quentiinhos – com linguiiça! (antes de 1903).

Pêras: A vintém o quarteirão! – Quem acáb´às pê-ras?! (1903).

Perús: Méér-c´ò casál de perús!… – Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!! (1903).

Queijo saloio: Méérca ô quêi-jo sa-lôôio! (1864); Quem n´ô quér salôôio – ?! (1903); Queijô sa-lôô-io! – Ái! Ô quêi-jô salôôio…!!! (1903); Óh quêêijô salôôi-ô! Óh quêêijô frêês-co! (1940).

Rebuçados caseiros: A tôstãão, cada matacãão! (1940).

Tremoços: Óh tremôô-ço saalôôio! – Tremôôç´salôôi-ô! – Tremôô-çôs salôôi-ôs! (1940).

Uvas: A quin-ze réis – Quem acá-b´àzúú-vas?! (1903); Quem quér úvas de vi-nha! Quem quér bôô-as úúvas! (1903).

No regresso ao Termo

Os saloios, depois de venderem as hortaliças e terem almoçado, encetavam o regresso ao Termo percorrendo as ruas da cidade apregoando: Léév´às fôôlhas – Léév´às cááscas… E as donas de casas davam as sobras imprestáveis do que haviam comprado, pois “não ficavam com lixo em casa”, o qual se destinava aos animais da horta.

Lamento não ser possível que todos esses pregões não estejam acompanhados das respectivas músicas. Mas voto que, mesmo assim, tenha dado uma ideia tanto quanto possível aproximada dos pregões saloios, pedindo a compreensão do leitor. A quem interessar a transcrição musical pode consultar a obra de Calderon Dinis, indicada na bibliografia final, que transcreve 25 pregões, com música do pianista Norberto Wolmar Silva.

Obras consultadas

= Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa. Lisboa, 1994.

= Júlio de Castilho, Ribeira de Lisboa e Lisboa Antiga, em especial o volume V do Bairro Alto.

= Luís Chaves, Notas de Etnografia de Lisboa. In Lisboa – Revista Municipal, n.º 6, Ano II, 1940, pp. 39-53.

= Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, em especial o volume 3, 1992.

= Calderon Dinis, Tipos e factos da Lisboa do meu Tempo. 2.ª edição, s/d 1993, Editorial Notícias.

= Guilherme Felgueiras, Comércio Popular Errante em Lisboa e Subúrbios. In Boletim Cultural – Assembleia Distrital de Lisboa, III Série, n.º 87, 2.º Tomo, 1981, pp. 39-58.

= Alfredo Mesquita, Portugal Pittoresco e Illustrado – Lisboa – Compilação e Estudo por… Lisboa, 1903.

Dr. Vitor Manuel Adrião, Professor e Investigador | vitoradriao@portugalis.com

Joaquim Teófilo Fernandes Braga | Pessoas

Teófilo Braga

Joaquim Teófilo Fernandes Braga (Ponta Delgada, 24 de Fevereiro de 1843 — Lisboa, 28 de Janeiro de 1924)

Escritor (poeta e ensaísta), sociólogo e político português. Estudou direito em Coimbra a partir de 1861, doutorando-se sete anos depois. Foi regente da cadeira de literaturas modernas no curso superior de letras, em Lisboa.

Fez parte do grupo de intelectuais que, insurgindo-se contra o ultra-romantismo e o estado da nação, originaram a Questão Coimbrã.

Republicano, dirigiu o governo republicano provisório, tendo sido presidente da república, embora por pouco tempo, em 1915.

A sua formação marca-se por um positivismo e anti-clericalismo que determinaram os seus trabalhos teóricos de análise da cultura portuguesa. Ficou conhecido sobretudo pelos seus estudos literários.

Procurou, à luz dos seus princípios teóricos e filosóficos, analisar e interpretar, nas suas múltiplas facetas, a história da literatura e a da cultura portuguesas.

As suas obras, embora carecendo por vezes de rigor e deixando transparecer alguma falta de preparação científica, precipitando-se em conclusões abusivas e facciosas, permanecem hoje das mais sugestivas e férteis sobre o tema. Importante ainda o seu contributo para a análise da poesia popular e das tradições portuguesas.

Bibliografia

Da sua obra imensa, destacam-se

– Traços Gerais da Filosofia Positivista (1877),

– História da Universidade de Coimbra (1892-1902),

– História do Teatro Português (1870-1871),

– Teoria da História Literária Portuguesa (1872),

– O Povo Português nos seus Costumes,

– Crenças e Tradições (1885)

– e Modernas Ideias na Literatura Portuguesa (1892).

Enquanto poeta, são seus a

– Visão dos Tempos (1864),

– Tempestades Sonoras (1864),

– Torrentes (1869)

– e Miragens Seculares (1884). 1

Compulsando vastos repositórios documentais, embora nem sempre cultivando a prudência interpretativa, Teófilo Braga teve, apesar dos deslizes, o mérito de esboçar a evolução da nossa literatura desde os alvores dos romances medievais e da produção dos trovadores galaico-portugueses ao ultra-romantismo e ao realismo da sua época.

Interessado pela etnologia e folclore

De bem cedo datam igualmente os seus interesses pela etnologia, pelo folclore e pela criatividade popular espontânea. Datam de 1867 os trabalhos

História da Poesia Popular Portuguesa,

– o Cancioneiro Popular coligido da tradição e o

– Romanceiro Geral, coligido da tradição.

Um pouco mais tardio, de 1869, é o livro

– Cantos Populares do Arquipélago Açoreano;

– os Contos Tradicionais do Povo Português são de 1883

– e os dois tomos da obra O Povo Português nos seus costumes, crenças e tradições remontam a 1885. 2

Fontes: 1 Enciclopédia Universal Multimédia da Texto Editora (1997) | 2 Centro Virtual Camões – Cultura Portuguesa

Festival CIOFF® Culturas Mediterrânicas em Lisboa

O Festival, que se assume como uma mostra cultural das tradições, usos e costumes dos países do mediterrâneo e de influência mediterrânica, decorre de 12 a 16 de Setembro em Lisboa, no Parque de Jogos 1º de Maio.

O Festival CIOFF® Culturas Mediterrânicas é uma iniciativa do CIOFF® Portugal em parceria estratégica com a Fundação INATEL.

O CIOFF® é a entidade mundial que regula os festivais internacional de Folclore no Mundo. Em Portugal tem 52 associados e é presidido pela Fundação Inatel. O CIOFF® Portugal candidatou-se a organizar, no nosso País, um Festival de Culturas Mediterrânicas, candidatura aceite pela organização.

Os destaques da programação anunciada em conferência de imprensa, no passado mês de Maio, vão para atuação de Rabih Abou-Khalil e do fadista português Ricardo Ribeiro, que abrem o festival no dia 12 de Setembro; no dia 13 é tempo de dar as boas vindas aos enérgicos Folk n’ Roll, da Grécia, que vêm animar o público com uma explosiva fusão entre a sonoridade dos balcãs, ska e reaggae; Diretamente da Macedónia chegam os Fanfarra Luboyna – nome maior da nova música tradicional macedónica – para uma atuação no dia 14. No dia 15, um dia antes do fecho do festival, uma das mais belas e representativas vozes da nova geração de fadistas nacionais, Joana Amendoeira, fecha a noite e o ciclo de apresentações de espetáculos de músicas do mundo. Os concertos têm lugar a partir das 21h. O festival continua no dia 16 de Setembro, com uma grande apresentação dos grupos tradicionais e de folclore dos países convidados.

No âmbito do Festival CIOFF® Culturas Mediterrânicas decorre, em paralelo, a Conferência Internacional “Mediterrâneo: Território dos 5 Sentidos”, organizada pelo CRIA – Centro em Rede de Investigação e Antropologia do ISCTE, pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) com o apoio da Associação Turismo de Lisboa – a realizar nos dias 12 e 13 de Setembro no ISCTE. A conferência pretende-se um espaço de encontro de especialistas e personalidades da cultura, para debate sobre o presente e o futuro no mediterrâneo e da cultura como promotor da Paz.

 

Sobre a Conferência

Espaço de encontro de especialistas e personalidades da cultura, para debate sobre o presente e o futuro no mediterrâneo. A cultura como promotor da Paz. Uma Conferência Internacional sobre a temática das culturas mediterrânicas será realizada nos dias 12 e 13 de setembro de 2018, marcando a abertura solene do Festival CIOFF® de Culturas Mediterrânicas.

Esta iniciativa será apoiada pelo Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) e pelo ISCTE-IUL, que a acolhe.

O mote para esta conferência será o de pensar e reflectir sobre várias temáticas, enquadradas por diferentes áreas de estudos, com o Mediterrâneo como pano de fundo, mas sobretudo norteada pelos cinco sentidos – visão, tacto, audição, olfacto e paladar. Para além das cinco conferências enquadradas pelos cinco sentidos, terá igualmente lugar uma conferência final onde se debaterão questões contemporâneas ligadas ao Mediterrâneo, quer enquanto área geográfica quer enquanto área de estudos, contando com oradores nacionais e internacionais.

Desta conferência resultará ainda a edição de um livro de atas, cujos exemplares editados serão oferecidos pelo CIOFF® Portugal a várias organizações e instituições de âmbito cultural reconhecido, bem como de ensino em Antropologia, Etnomusicologia e Sociologia e também a todos os países com representação no CIOFF®.

 

Horários e atividades

Nos dias 12 e 13 o recinto do festival está aberto das 15h às 23h, no dia 14 das 15h às 24, no dia 15 das 10h às 24h e no dia 16 das 10h às 22h. As atividades não se ficam pelos concertos: durante o dia há oficinas diversas, ciclos de cinema, espetáculos de folclore nacional e internacional, animações de rua, gastronomia, artesanato, exposições, uma zona de restauração e espaço criança com atividades para os mais novos. A entrada no recinto e todas as atividades são gratuitas.

Francisco Madelino, Presidente do CIOFF® Portugal, realça os seguintes aspetos deste evento e o porquê do empenho na sua organização:

– A afirmação da riqueza etnográfica do nosso País, quer nos seus conteúdos, quer na qualidade do trabalho dos nossos Festivais CIOFF® e dos grupos etnográficos nacionais associados, tendo estes feito uma adaptação impressionante, nos últimos anos, na investigação e no rigor do que representam.

– A promoção do diálogo intercultural entre os Povos, sobretudo numa região como Mediterrâneo, que tem sido um espaço milenar de misturas culturais, que nos enriqueceram e fazem, e, sobretudo, que deram à Europa contributos civilizacionais importantes.

– Promover espaços de partilha e usufruto, na Cidade de Lisboa e no País, entre gerações. Os países são feitos de raízes culturais ancestrais, mas que se renovam permanentemente, em processos intergeracionais, em que o antigo se renova, numa cadeia de união intemporal.

 

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Informações mais detalhadas sobre a iniciativa:

Festival

Programação

Países e Grupos participantes

Conferência Internacional

Exposições

Ciclo de Cinema Olhares do Mediterrâneo

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Aguadeiros e Aguadeiras | Profissões antigas

Aguadeiros e aguadeiras

Os aguadeiros em Lisboa

Ainda neste século [século XX], antes da vulgarização da água canalizada, o fornecimento doméstico era feito, em Lisboa, por galegos, quase exclusivamente, que continuavam uma tradição de há séculos relacionada com a gente do seu país e representavam os antigos escravos negros e mulatos, e até os ratinhos [ver imagem abaixo]. Diz Afonso Álvares (Descrição de Lisboa, de 1625 ou 1626) acerca do Chafariz de El-Rei:

Onde tantos aguadeiros,
tantos negros, tantas negras,
galegos, cabras, ratinhos
a quarta de água sustenta.

A frequência era tão grande (recorda Júlio de Castilho) que separavam, também para evitar conflitos, os tipos de aguadeiros por bicas: negros para uma, galegos para outra, etc.

Os galegos transportavam a água em barris e levavam-nos às casas, despejando-os directamente nos potes de barro colocados nos poiais das cozinhas. As donas de casa que queriam água colocavam um pano branco à janela, e isto evitava que elas perdessem tempo à janela a esperá-los ou se esfalfassem a gritar por eles: o galego passava, ia olhando e, ao ver o pano, subia.

Texto e imagem retirados de “Etnografia Portuguesa” – Livro III – José Leite de Vasconcelos
Foto de destaque: “Varinas e aguadeiros galegos no chafariz da Esperança, nos começos do século XX”. (Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

Aguadeiras em Vila Real

Os primeiros dados do abastecimento de água organizado a Vila Real remontam ao ano de 1905.

O sistema então utilizado era composto por diversos fontenários espalhados pela cidade, com origens próprias, sendo os principais e mais importantes os situados junto à Sé Catedral [ver imagem abaixo], hoje no Largo de Camões , o da Carreira Baixa frente ao [Restaurante] Espadeiro e o de S. Pedro junto às actuais escadas.

A distribuição de água à população mais abastada era assegurada diariamente por aguadeiras que levavam aos clientes cântaros de um almude (30 litros) cobrando 120 Reis por mês. Se fossem dois cântaros diários a despesa era de 200 Reis.

Os consumos então previstos, por pessoa e por dia, eram de 7,5 litros, situação que se manteve até ao início dos anos 30. Nos últimos anos e devido à escassez de água, a mesma era recolhida à noite no período de estio, dando origem a grandes bichas, discussões e mesmo disputas físicas normalmente só resolvidas pela polícia.

Imagem: Postal Ilustrado – Fototipia – cerca de 1912 – Reedição dos Serviços Municipais de Cultura – Vila Real – 1999

Em Vila Real, nos finais da década de 30, foi fundado um Grupo Folclórico denominado “Aguadeiras Transmontanas“.

Os trajes dos saloios (séc. XIX e 1ª metade do séc. XX)

Os trajes saloios

Introdução

As formas de trajar sempre tiveram uma importância vital na identificação social, cultural e profissional dos povos.

Antes de se chegar à “standartização” dos nossos dias, em que quase toda a gente veste o mesmo tipo de roupa, existia a possibilidade de se conhecerem inúmeras características de uma pessoa pelo trajo que esta envergava. Hoje em dia, embora essa possibilidade ainda se verifique em algumas situações, é muito mais difícil de se conseguir.

Nas classes mais endinheiradas havia grandes preocupações quanto à sumptuosidade e riqueza das roupas.

Trajo Saloio – Mulher

As várias modas que foram surgindo ao longo dos tempos, com maior ou menor ostentação e riqueza, mais ou menos vistosas, espelhavam, sobretudo nas classes altas, a própria evolução social e cultural. E sublinhavam também a maior (ou menor) abastança dos próprios países.

Por outro lado lado, há que levar em linha de conta a protecção do corpo contra as alterações climatéricas e ambientais. Terá sido mesmo essa a primeira preocupação do Homem quando começou a cobrir o seu corpo.

As várias alterações estéticas que os homens impuseram nas suas formas de trajar, essas sim, variavam já consoante a sua própria cultura, o que influenciava os gostos e os costumes.

Ressalta pois que da preocupação puramente protectora, o vestuário foi assumindo carácter de diferenciação social e económica e, obrigatoriamente, cultural.

Em Portugal não se pode afirmar que tenha havido grandes diferenças em relação aos restantes países da Europa. Contudo há (e houve) aspectos identificadores de cada país e dentro deste de cada região. Outra vez a cultura e o clima de mãos dadas na definição de modas, costumes e hábitos de trajar.

Na zona da capital portuguesa, os “campónios” têm uma denominação própria, são os saloios.

E podemos afirmar que foi possível, durante muitos anos, distinguir um saloio (rural) de um citadino, através da roupa que envergava.

Não é, decerto, o único traço distintivo destas gentes, mas é, obviamente, aquele que primeiro se nota.

Sem se poder distinguir um trajo propriamente saloio, é, no entanto, possível afirmar um conjunto de características que definem a roupa que o saloio mais comummente enverga, que a chamada domingueira – ou de “ir ver a Deus” -, quer a outra que usa diariamente na sua labuta camponesa.

Sobre o trajar dos saloios

Não é muito fácil definirmos concreta e definitivamente o trajo saloio. Cremos mesmo não ser muito correcta a afirmação TRAJO SALOIO, mas sim o TRAJAR DOS SALOIOS

O saloio é, cremos que poucas dúvidas se levantam hoje em dia, o camponês dos arrabaldes de Lisboa, aquele que durante muitos anos forneceu a cidade dos produtos frescos provenientes das hortas destes sítios.

Assim o trajar destes homens do campo tinha uma ligação muito estreita com esta sua actividade, não se podendo, no entanto, diferenciar do de outros camponeses que trabalhavam noutras zonas da Estremadura ou mesmo do Ribatejo ou do Alto Alentejo.

Não cremos que haja uma característica de indumentária exclusiva dos saloios. Barretes, peça que, de facto, identifica sobremaneira o homem saloio, existem também em vários outros pontos de Portugal; bem assim como as faixas na cintura; bem assim como o varapau.

Estremadura – antiga província de Portugal

Estremadura

Instituída em 1936 como província portuguesa e desaparecida administrativamente como tal em 1976, a região da Estremadura ocupa uma faixa litoral no centro do território e compreende concelhos dos distritos de Leiria, Lisboa e Setúbal.

É banhada pelo oceano Atlântico a oeste, e confina com as regiões da Beira Litoral a norte, do Ribatejo a leste, do Alto Alentejo a sudeste, e do Baixo Alentejo a sul.

A Estremadura abrange uma área de 5345 km2 e compreende 31 concelhos:

– 8 do distrito de Leiria,

– 14 do distrito de Lisboa

– e 9 do distrito de Setúbal.

Sendo a faixa de terreno situada a norte e a sul do estuário do Tejo, constitui a parte mais ocidental do território continental português. Nesta região, situa-se Lisboa, a capital do País.

A actividade humana em volta de Lisboa domina todo o conjunto, enquanto centro cultural, político e comercial do país. Aí se destaca também o seu importante porto, e para aí convergem todas as estradas nacionais e as grandes vias internacionais.

Atividade económica e comunicações

Com fáceis comunicações, a Estremadura alimenta uma grande parte da economia, onde concorrem as produções locais, nacionais e até mesmo internacionais.

Em Lisboa e nos seus arredores, concentram-se importantes núcleos económicos de todos os géneros: metalurgia, construção naval, têxteis, produtos alimentares, pescas, produtos químicos, etc. A capital possui uma enorme variedade de empresas e constitui também o maior centro de serviços.

É ainda aqui que se estende a zona de mais intensa actividade turística. Não se limitando aos centros mais conhecidos, distribui-se por um elevado número de pequenas povoações que são o grande refúgio de muita população do País.

Nenhuma outra zona portuguesa avulta no turismo nacional como a Estremadura. Para isso concorrem os seus monumentos e museus, e a facilidade das suas comunicações.

À sua extrema variedade de paisagem e de terreno corresponde também uma variedade de culturas, hábitos e costumes, que se pode observar no seio da população.

Gastronomia e romarias

A Estremadura apresenta, nos seus principais pratos típicos,

– a caldeirada de sardinhas,

– as favadas,

– as pataniscas de bacalhau

– e as amêijoas à Bulhão Pato;

– várias receitas de bifes e de coelho;

– os pastéis de Belém e de feijão, o pão-de-ló, entre outros.

Nesta região, as romarias podem não ter a vivacidade e os tons alegres das romarias nortenhas, mas reúnem grandes multidões. A tourada é um elemento habitual dessas festas.

Na periferia de Lisboa realizam-se algumas das mais concorridas festas de Portugal, parte delas caracterizadas por um cerimonial de trajes que vem já de remota idade.

Muitas foram as individualidades que daqui deixaram o seu nome ligado à História portuguesa, na vida militar, na literatura, na arte, na política, etc.

Lisboa sobressai pelo número e qualidade dessas individualidades, dado que é de há muito o maior centro populacional, dotado de condições excepcionais.

Estremadura. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1