Os trajes dos saloios (séc. XIX e 1ª metade do séc. XX)

Os trajes saloios

Introdução

As formas de trajar sempre tiveram uma importância vital na identificação social, cultural e profissional dos povos.

Antes de se chegar à “standartização” dos nossos dias, em que quase toda a gente veste o mesmo tipo de roupa, existia a possibilidade de se conhecerem inúmeras características de uma pessoa pelo trajo que esta envergava. Hoje em dia, embora essa possibilidade ainda se verifique em algumas situações, é muito mais difícil de se conseguir.

Nas classes mais endinheiradas havia grandes preocupações quanto à sumptuosidade e riqueza das roupas.

Trajo Saloio – Mulher

As várias modas que foram surgindo ao longo dos tempos, com maior ou menor ostentação e riqueza, mais ou menos vistosas, espelhavam, sobretudo nas classes altas, a própria evolução social e cultural. E sublinhavam também a maior (ou menor) abastança dos próprios países.

Por outro lado lado, há que levar em linha de conta a protecção do corpo contra as alterações climatéricas e ambientais. Terá sido mesmo essa a primeira preocupação do Homem quando começou a cobrir o seu corpo.

As várias alterações estéticas que os homens impuseram nas suas formas de trajar, essas sim, variavam já consoante a sua própria cultura, o que influenciava os gostos e os costumes.

Ressalta pois que da preocupação puramente protectora, o vestuário foi assumindo carácter de diferenciação social e económica e, obrigatoriamente, cultural.

Em Portugal não se pode afirmar que tenha havido grandes diferenças em relação aos restantes países da Europa. Contudo há (e houve) aspectos identificadores de cada país e dentro deste de cada região. Outra vez a cultura e o clima de mãos dadas na definição de modas, costumes e hábitos de trajar.

Na zona da capital portuguesa, os “campónios” têm uma denominação própria, são os saloios.

E podemos afirmar que foi possível, durante muitos anos, distinguir um saloio (rural) de um citadino, através da roupa que envergava.

Não é, decerto, o único traço distintivo destas gentes, mas é, obviamente, aquele que primeiro se nota.

Sem se poder distinguir um trajo propriamente saloio, é, no entanto, possível afirmar um conjunto de características que definem a roupa que o saloio mais comummente enverga, que a chamada domingueira – ou de “ir ver a Deus” -, quer a outra que usa diariamente na sua labuta camponesa.

Sobre o trajar dos saloios

Não é muito fácil definirmos concreta e definitivamente o trajo saloio. Cremos mesmo não ser muito correcta a afirmação TRAJO SALOIO, mas sim o TRAJAR DOS SALOIOS

O saloio é, cremos que poucas dúvidas se levantam hoje em dia, o camponês dos arrabaldes de Lisboa, aquele que durante muitos anos forneceu a cidade dos produtos frescos provenientes das hortas destes sítios.

Assim o trajar destes homens do campo tinha uma ligação muito estreita com esta sua actividade, não se podendo, no entanto, diferenciar do de outros camponeses que trabalhavam noutras zonas da Estremadura ou mesmo do Ribatejo ou do Alto Alentejo.

Não cremos que haja uma característica de indumentária exclusiva dos saloios. Barretes, peça que, de facto, identifica sobremaneira o homem saloio, existem também em vários outros pontos de Portugal; bem assim como as faixas na cintura; bem assim como o varapau.

Nas mulheres o uso do lenço e o seu tipo, é muito semelhante, por vezes igual, ao da maior parte das regiões do país. Mas, na indumentária feminina encontramos algo que, ao que pudemos observar até agora, se pode revelar como único, a célebre carapuça saloia, a que faremos maior referência no capítulo seguinte.

Depois de observarmos muitas gravuras, podemos, para já, concluir pela exclusividade deste elemento, com estas características, como algo retintamente saloio.

Particularidades e diferenças

Há no trajar dos saloios algumas particularidades e diferenças, que não são estabelecidas em função das várias profissões que existem como até se podia supor.

Ou seja, o jornaleiro, o moleiro ou o condutor de carroças, quando trabalham envergam o mesmo tipo de roupa, a grande diferença (e possível diferenciação) está quando chegam os dias de festa ou os dias santos, em que se usam os melhores fatos, aqueles mais novos e onde é então possível vislumbrar quem tem maiores posses, maior poder monetário para compor de forma mais adornada o seu vestuário.

Afirmamos pois que o saloio não possui um trajo que o distinga claramente de outros camponeses seus vizinhos.

Mas também não podemos escamotear o facto de os saloios trajarem de forma muito semelhante entre si e que, frequentando mais assiduamente a cidade de Lisboa que os camponeses de outros locais, se tenha fixado um certo tipo de trajar como o trajo saloio e que, aos longo de muitos anos, vários estudiosos, pintores e fotógrafos tenham tentado fixar este homens e estas mulheres com os seus trajos característicos.

É isso que aqui, de forma sucinta, breve (tendo em conta o século XIX e primeira metade do século XX) e o mais completa possível, iremos agora fazer. Dar-lhes o retrato mais fiel do trajo envergado pelo saloio e pela saloia. No final falaremos, ainda que brevemente, do que cremos ser o trajar saloio hoje em dia.

A protecção para a cabeça

O barrete saloio é talvez a peça da indumentária masculina mais conhecida. Não é, no entanto, exclusivo destes homens.

Os campinos das lezírias ribatejanas também o usam, assim como os pescadores de várias zonas costeiras do país. Mas é, sem dúvida, com os homens saloios que este objecto mais se identifica.

É quase sempre negro, mas também se usou vermelho e verde, semelhante ao dos já citados campinos e por vezes com borlas coloridas, consoante o estado civil daquele que o usa. Mas foi o barrete totalmente negro que mais se difundiu e, cremos, que nenhum saloio retinto o tenha, alguma vez, deixado de usar.

Mas não era esta a única protecção para a cabeça que os saloios usavam. O chapéu de abas largas era também muito usado e, por vezes, a cartola surgiu igualmente (chamado chapéu “zabumba”). Nos nossos dias o comum boné substituiu, em larga escala, todos os outros.

Nas mulheres o lenço foi rei e senhor. Houve tempos, até meados do século XIX, em que, em conjunto com o lenço, a mulher saloia cobria a cabeça com uma carapuça, conhecida exactamente como carapuça saloia. Curiosa a quadra que J. Leite de Vasconcellos recolheu no Cancioneiro Popular Português:

«Sou Saloia, trago botas,
e também trago meu mantéu,
Também tiro a carapuça
a quem me tira o chapéu».

Mas enquanto esta carapuça caía em desuso o lenço foi-se mantendo, sendo ainda hpoje muito usado pelas saloias mais idosas.

O Tronco

Consoante a sua função, a estação do ano e, sobretudo, a ocasião, assim o saloio a e saloia vestiam a blusa, a camisa, o colete, o casaco, a casaquinha, o mantéu ou a jaqueta.

Da roupa interior, sempre utilizada, falaremos mais adiante, mas por cima da sua camisola e no que diz respeito ao tronco, o saloio vestia, invariavelmente, uma camisa.

Assim, este homem usava a sua camisola interior, de cor branca e muitas vezes, em situação de trabalho, de outras cores, nomeadamente cores escuras. Por cima desta usava a camisa que era, normalmente, “enfiada” pela cabeça.

Estas eram aquelas camisas que tinham apenas uma pequena enfiada de botões na parte superior, no chamado espelho. Havia também outras que tinham duas frentes de botões até ao fundo. Outra característica residia no facto de terem ou colarinho, ou a chamada “gola à padre”.

Estas camisas eram, na sua grande maioria de cor branca, mas também as havia de outras cores, sempre sóbrias.

Colete e jaqueta

Por sobre a camisa vestia, invariavelmente, o colete preto, cinzento ou castanho, quase sempre. Este colete, em situação de trabalho, e por vezes mesmo nas festas, usava-se desabotoado.

Quando trabalhava era esta a cobertura do tronco, quando assim não ac0ntecia vestia ainda a jaqueta de cores escuras com maiores ou menores adornos (tais como os alamares) consoante o maior ou menor poder económico do seu proprietário.

À volta da cintura, o saloio usava, frequentemente, a faixa ou cinta de cor preta (mais raramente vermelha), por vezes com um bordado nos dois extremos e franjas nas pontas.

Nos dias invernosos usavam a samarra ou o capote, que vários autores consideraram como “irmão gémeo do capote alentejano”.

A saloia era mais alegre e graciosa nas vestes que cobriam o seu tronco. Assim, e de maneira geral, usava uma blusa cintada, com aba, franzida ou com um machinho, blusas estas que tinham padrões floridos e, não raras vezes, eram de cores alegres e vivas.

Por sobre estas usavam as vasquinhas, curtos gibões, ou casaquinhos de chita, ajustados ao busto. Usavam também um xaile pelas costas, sobretudo em casa, predominantemente as mais velhas.

Como roupa interior, a saloia usava igualmente o corpete, servindo para “segurar o seio”; algumas preferiam o espartilho. Era alva esta roupa interior.

Também a saloia usava capote, ou capa, para se proteger do frio e dos dias chuvosos.

As pernas

O saloio usava, obviamente, calças. Calças que, de forma geral, tinham bolsos direitos, apertavam à frente com botões e atrás ajustavam com uma fivela; eram de talhe direito e folgadas ou, mais comummente, justas à perna alargando em baixo de forma a tapar a parte superior da bota.

Eram, usualmente, em cotim, às riscas verticais ou lisas, e também em fazenda ou outros tecidos grossos. No trajar mais “cuidado” usavam calças feitas de “pele de diabo” – bombazina.

A saloia usava, obviamente, saias. A saia era sempre comprida, embora nunca fosse aarrastar pelo chão. Em situações de trabalho usava-a um pouco mais curta, de forma a não atrapalhar os movimentos do seu trabalho.

Para além das saias, a saloia usou durante muito tempo a sobresaia que, muito provavelmente, foi mais tarde substituída pelo avental (também chamado anágua). Este objecto não tinha apenas a função utilitária de evitar sujar a saia, mas era igualmente um adorno utilizado não só nos dias de trabalho mas também em situações festivas, onde era costume estrear um avental novo.

Os pés

Nos pés os saloios usavam quase sempre botas de couro. No trabalho, na festa, na igreja. Só os mais endinheirados usavam, por vezes, o sapato, embora mesmo estes optassem, frequentemente, pela bota ou botim, talvez uma pouco de melhor qualidade e por conseguinte mais caro.

Eram, normalmente, de couro branco, curtido com o passar do tempo e do uso. Eram também ferrados, com o fim de durarem mais tempo e os saltos tanto podiam ser de prateleira com um pequeno tacão.

Tanto estas como as de tacão raso tinham sempre as “tacholas”. Podiam ser de cano inteiriço, até meio da perna, mas o mais natural era serem mais baixas, sobretudo as que eram utilizadas no trabalho do campo.

A saloia também usava bota, normalmente de cano curto e com um pequeno salto.

Em dias de festa deixava, por vezes, as botas e calçava sapatos rasos de cordovão de cabedal branco. Também havia aquelas que cobriam os pés com umas grossas botifarras de couro atanado, de cano alto e fechadas verticalmente por meio de uma carreira de botões.

Roupa interior

De alguma roupa interior já aqui falámos. Mas devemos agora dizer que esta era quase sempre de cor branca. A excepção mais notada era, como já vimos, a camisola que o homem usava por debaixo da camisa, que era, muitas vezes, de cor escura. Os homens, por debaixo da roupa “exterior” usavam umas cuecas ou mais comummente ceroulas e meias geralmente de lá grossa.

Nas mulheres, a roupa interior era mais complexa. Usavam no busto os corpetes ou os espartilhos, usavam também cuecas (anteriormente usavam os culotes) e saiotes – ou anáguas. As meias era, por vezes, de renda e muito trabalhadas, sendo apertadas um pouco acima do joelho por meio de uma liga ou atilho.

Acessórios

Os saloios e as saloias nunca foram de muitos enfeites, sobretudo aqueles considerados como mais ou menos supérfluos. E aqui, quando falamos de acessórios, referimo-nos a objectos de utilidade, cumprindo, por conseguinte, uma função específica no trajar destas gentes, ou complementando essa forma de trajar.

É assim que no homem é indispensável o uso do varapau ou cajado. Todo o saloio que se preza o usa, servindo-se dele como elemento decorativo, mas, igualmente, como apoio e “arma” de auto defesa em caso de rixas (muito comuns nas feiras ou romarias), ou então quando era vítima de alguma eventual tentativa de assalto.

Também alguns homens usavam, embora só em alturas festivas, um relógio de bolso, com a respectiva corrente pendente de um bolso para o outro do colete.

A saloia nunca foi mulher que fizesse muito uso da ostentação. Esta mulher do campo raramente usava pulseiras ou fios de ouro, a não ser em ocasiões muito raras e muito festivas. Os seus ornamentos eram um vestido mais novo e mais colorido que o usado nos dias normais.

As bolsas

No entanto, podemos falar de acessórios, também eles de muita utilidade prática, como eram as bolsas onde guardavam alguns haveres pessoais mais essenciais ao seu dia-a-dia, como um lenço de assoar ou algum, pouco, dinheiro.

Esta bolsa era feita em pano e tinha forma quadrada ou arredondada, Por vezes, usava uma outra bolsa, pendente à cintura por meio de atilhos e colocada por dentro da abertura da saia.

Outro acessório muito usado pelas saloias eram os brincos, que lhes eram colocados ainda em criança pelas suas mães.

Já vimos como na cabeça a saloia usava, quase sempre, o seu lenço, mas para segurar o cabelo, por exemplo em carrapito, esta mulher também usava um pente de grande dimensões, feito em tartaruga, que com os seus grandes dentes permitia prender o cabelo, impedindo que este se soltasse. A mulher saloia raramente andava com o seu cabelo (invariavelmente comprido) solto sobre os ombros.

Texto – “O Trajo Saloio” – Brochura editada pela Câmara Municipal de Loures / Departamento Sócio-cultural – Texto e selecção de fotos de Francisco Sousa – Novembro de 1995 (texto editado e adaptado) | imagem de destaque: “Saloias” por Silva Porto

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O Traje Masculino do Alto Minho | Textos e opiniões

Traje masculino no Alto Minho

Desde os primórdios da humanidade, a função primordial do vestuário consistiu em agasalhar.

Porém, para além do conforto que proporcionava, o Homem sentiu ainda a necessidade de se cobrir e criar a sua intimidade, à semelhança de Adão e Eva ao tomarem a consciência da sua própria nudez.

Entretanto, à medida que a sociedade foi evoluindo e o ser humano tornando-se sedentário, adaptou a sua maneira de vestir às diferentes exigências do trabalho e do clima.

Para além disso, passou a também a utilizá-lo como meio de comunicação, através dele exprimindo diferentes estados da alma, mormente alegria ou tristeza, festa ou luto, paz ou revolta. E, quando era chamado a combater, engalanava-se com as suas melhores vestes para, de forma cerimonial, se entregar à morte ou a glória.

Natureza utilitária

A natureza utilitária do vestuário antecede a sua função decorativa que, aliás, não a substitui. Modernamente, o casaco constitui uma peça de vestuário concebida geralmente em tecido mais pesado e grosso com o objectivo de proteger contra o frio.

Originalmente, esta peça aparecia sempre associada ao colete e às calças, constituindo um terno. Aliás, pela forma que o caracteriza, o uso do colete não parece fazer sentido sem o casaco.

Mas, para além da sua utilização como meio de agasalho, representa em virtude do seu aspecto, da sua funcionalidade e do seu relativo custo um elemento cerimonial e identificador de estatuto social. Aliás, à semelhança do que sucede com a capa de honras utilizada em Miranda do Douro.

 

Nesta imagem que apresenta um traje do Baixo Minho, o casaco exibe ferragens e o colete botões de metal. O rapaz apresenta o chapéu braguês.

Fatos apresentados por Grupos de Folclore

Pelas mais variadas razões, o fato masculino no traje do Alto Minho, exibido por alguns grupos folclóricos, tem com alguma frequência sido apresentado com um corte arredondado e botões de grandes dimensões que lhe retiram a sua funcionalidade enquanto peça de vestuário para se transformar num adereço de fantasia.

Os próprios botões, geralmente em plástico e de cor branca, estendem-se em grande número ao longo das mangas ou mesmo em seu redor, conferindo a quem o veste um aspecto algo apalhaçado.

Concebido a partir de resíduos do petróleo, o plástico tal como o conhecemos constitui um produto inventado no século XX. Difundiu-se sobretudo após a segunda guerra mundial.

A partir de então deu origem a novos conceitos de moda identificados com a denominada “linha POP” ou PopLine. Daqui deriva o termo popelina.

Apenas a baquelite foi inventada em 1909 e esta mais usada no fabrico de equipamentos eléctricos.

Por conseguinte, o emprego do material plástico em peças de vestuário que são apresentadas como reproduções das que eram usadas nos finais do século XIX não parece fazer o menor sentido.

Materiais diversos

Os materiais utilizados no fabrico dos botões eram em geral de metal, podendo estes variar consoante a função do vestuário e o estatuto social de quem o usava.

Assim, de acordo com a peça de vestuário em causa ou seja, tratando-se do colete ou do casaco, em traje domingueiro ou de trabalho, podiam apresentar-se sob a forma de botões ou de ferragens, de metal mais ou menos nobre, ou ainda de osso feito das pontas dos chifres das cabras.

Os coletes apresentavam aberturas de casas para os botões enquanto os casacos utilizam frequentemente presilhas.

A utilização de madrepérolas surgia geralmente no vestuário feminino das pessoas mais abastada

Haverá ainda espaço disponível para acrescentar mais botões decorativos ao casaco?

Do Carnaval para o palco do Folclore

Pela sua exuberância e colorido, o traje à vianesa e demais trajes minhotos em geral, foram desde sempre os preferidos de crianças e adultos nas suas brincadeiras de Carnaval como se de um fato carnavalesco se tratasse.

Não admira, pois, que de igual forma o mesmo se tenha prestado à fantasia e imaginação de quem o utiliza. E com o decorrer do tempo, lhe tenham sido introduzidas alterações com o propósito de o tornar ainda mais vistoso.

Acabaram por levar para o palco do folclore uma imagem de traje que não corresponde inteiramente à sua realidade mas que, pela repetição constante do erro, acabou de certa forma por adquirir foros de autenticidade que não possui.

Para além do colete não ter a utilidade devido ao seu corte arredondado e ao tamanho exagerado dos botões, estes apenas cumprem uma função decorativa. A registar também a ausência de casaco, os sapatos de pala, camisa de corte recente e chapéu incaracterístico.
A fantasia vai ao ponto de apresentar botões em redor das mangas do casaco.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História (texto editado)

A emoção e o prazer de criar, sentir e entender os objectos

Cultura Material: A emoção e o prazer de criar, sentir e entender os objectos

«Estamos rodeados por objectos, e estamos rodeados pela história»
Steven Lubar e W. David Kingery

Resumo

Este artigo reflecte essencialmente, acerca da relação entre as emoções e a produção material de todos os dias, seja essa produção, artesanal ou artística.

Fazendo ligações entre a actividade mental, criativa e executória do Ser Humano, tenta-se perceber até que ponto esses objectos, artefactos ou utensílios podem ser instrumentos sensoriais e emocionais, assim como instrumentos de preservação, diferenciação e afirmação sócio-cultural.

Para além deste aspecto é igualmente feita uma abordagem à capacidade que os objectos têm para vencer as barreiras do espaço e do tempo. Duma maneira ou de outra, o tempo e o espaço confundem-se e interligam-se.

Abstract

This article is mainly a reflection about the relationship between the emotions and the material production, artistic or workmanship. Making links between mental, creative and building human activity, we try to understand how objects, artifacts or utensils can be instruments of preservation, differentiation and socio cultural affirmation.

In spite of this, I explain the capacity of the objects to go beyond their time and physical space frontiers. In a way or another, the objects, the time and the space, mix up and interconnect among themselves.

Resumen

Este artículo reflecte principalmente sobre la relación entre las emociones y la producción material, sea ella artesanal o artística.

Haciendo conexiones entre la actividad mental, creativa y ejecutoría del Hombre, se va a tentar entender como los objetos, artefactos o utensilios pueden ser instrumentos sensoriales y emocionales, así como también instrumentos de preservación, diferenciación y afirmación socio-cultural.

Para allá disto, es hecha también una abordaje a la capacidad que los objetos tienen para vencer las barreras del tiempo y del espacio. De una manera o de otra el tiempo y el espacio se confunden y se interconectan.

Palavras chave

Cultura material; objectos/actividade sensorial; objectos/actividade emocional; objectos/construção e preservação de identidades

Muitas questões se colocam quanto à importância dos objectos na vida de todos nós. Funcionarão estes como uma espécie de reservatório das nossas memórias individuais ou colectivas?

Que relação emocional temos com os objectos que nos pertencem?

Existem de facto momentos de emoção quando o artesão constrói determinada peça?

Funcionarão os objectos como mediadores das relações humanas?

Até que ponto são os objectos manifestações das nossas identidades?

Poderiam ser às centenas as questões a levantar acerca do papel que os objectos sempre tiveram na caminhada evolutiva da Humanidade. Tal como dizem os autores acima referenciados, rodeados de objectos encontramo-nos, inevitavelmente, rodeados de História e também de muitas histórias.

Os artefactos são pois capazes de vencer as barreiras temporais e espaciais. Vencem o tempo e a idade, porque perduram para além da sua época. Vencem espaços e distâncias, porque «viajam» para além das suas fronteiras originárias.

Desde tempos imemoriais, que o Homem tem uma ligação profunda com os utensílios, e os objectos que cria e recria para satisfazer as suas necessidades. Qualquer objecto – por mais rude ou singelo que seja -, é fruto de criação intelectual e do trabalho criativo do ser humano.

 

Sugestão de leitura: Dossier sobre o Barro Preto de Bisalhães – Vila Real

 

Os objectos têm funcionado ao longo dos anos e em muitas sociedades como elementos de diferenciação social e/ou de sociabilização dos indivíduos. Há uma carga simbólica agregada a cada um desses objectos.

Os «artefactos podem ter um papel utilitário, mas têm também uma função ideológica relacionada com a organização social da sociedade, e podem possuir ainda uma função ideológica relacionada com a ideologia da própria sociedade.» (Lubar e Kingery,1993: XVI)

Do sagrado e do profano fazem igualmente parte os objectos.

A importância destes no quotidiano de todos nós assume tão grandes dimensões que, há autores a defender que a destruição de um objecto pode simultaneamente ser a destruição de uma memória cultural.

Anna Ostrowska diz ser óbvio o poder ou a força dos objectos na mobilização da memória cultural. Por isso existem correlações estreitas entre os objectos e a mudança ou afirmação do Eu.

Se por um lado determinado objecto nos proporciona sensações agradáveis e de continuidade ou permanência de algo que nos é muito querido, por outro lado, a destruição do objecto com essa forte carga simbólica, pode também funcionar como meio de mudança de parte da nossa identidade.

Comecemos então, por clarificar, qual a função da Cultura Material? Que mais valia trazem estes estudos à Humanidade?

Jules David Prown define que o estudo da cultura material tem o propósito de «(…) entender a cultura, de descobrir as crenças – os valores, as ideias, as atitudes e as pretensões – de uma determinada comunidade ou sociedade num certo tempo.» (Prown,1993:1).

A Cultura está sempre e primeiramente ligada à actividade mental do Homem.

Cultura é sem dúvida tudo aquilo que recebemos, herdamos e recriamos na nossa sociedade e para a nossa sociedade. Cultura Material é pois, tudo «(…) aquilo que o homem cria ou concebe e que utiliza na sua vida quotidiana, de modo a extraír do meio envolvente tudo o que necessita.» (Nogueira, 2000:192).

Descobrir os objectos é entender a sociedade que o recriou [1], é uma experiência muito rica e gratificante. O objecto, não é apenas cor, textura, matéria-prima, forma e função. O objecto, é tudo isto, e mais historia, contexto cultural, emoção, experiência sensorial e comunicação corporal.

Mas, a Cultura Material pode ainda ser encarada sob outra perspectiva:

Só os objectos transcendem a fronteira do tempo e do espaço. Uma materialidade que é caracterizada pela permanência, mas não pela imobilidade. Aos objectos é conhecida a sua faceta “viajante”. Eles circulam no seio das sociedades humanas e por isso, um mesmo objecto pode adquirir diversos significados em mais de um contexto ou lugar.

Por isso, aos objectos é reconhecida a sua imortalidade. Marcel Maget afirma que «os traços materiais são os testemunhos que (…) mais duráveis são dentro de uma cultura. Das muitas civilizações passadas é tudo o que nos resta.». (1962:15)

São aqui reforçadas as características da resistência, durabilidade e permanência do objecto face às outras criações humanas, assim como é igualmente frisada a sua intemporalidade.

David Prown, tal como Maget, escreveu que os «artefactos constituem a única classe de eventos históricos que ocorreram no passado mas que sobreviveram até ao presente. Eles podem ser reexperenciados; eles são autênticos, e são material histórico primário para ser estudado em primeira mão. Os artefactos são evidências históricas.» (Prown,1993:3)

Contudo, o facto de os objectos possuírem esta característica da intemporalidade, esses artefactos pertencem a um determinado tempo e definem uma determinada época.

Através do seu estudo, podemos mesmo traçar a história de certa comunidade, como podemos ir mais longe e, traçar até o perfil da actividade profissional que concebeu esse objecto e do artesão que lhe deu corpo.

Elementos como a cor, materiais usados, texturas, formas e motivos decorativos, são tipificadores de um determinado momento no tempo.

Henry Glassie afirma que «(…) tal como uma história, um artefacto é um texto, uma maneira de exibibir formas e um veículo de transmissão de significados.» (Glassie:1999,46). Os objectos são neste sentido, contadores de histórias, veículos de transmissão cultural e emocional.

Podemos então observar o material das nossas sociedades ao nível das emoções?

É claro que sim. Mas vejamos o excerto que a seguir se segue para perceber melhor esta realidade: «As mãos moviam-se no barro e eram lestas e seguras. (…) Lentamente, o barro adquiria formas. (…)

– Porquê estes bichos?

– Sonho muitas vezes assim. Depois faço os sonhos no barro.» (Bastos,1988:103)

Ao pensar, conceber ou restaurar objectos, o artesão lida em primeiro lugar e em todo o processo construtivo com as emoções. Em muitas situações, o artesão primeiro que tudo, sonha com uma determinada peça.

E assim que desperta coloca no papel, madeira, barro, metal ou outra matéria-prima qualquer, a emoção ainda presente e viva desse sonho. Em todo este processo, o artesão lida com algo que não é exterior.

Trata-se de uma experiência solitária e de interioridade, que só é visível, entendida e apreciada, quando é exteriorizada no objecto artístico produzido.

E reafirmo artístico, porque mesmo que o propósito principal seja a funcionalidade, há sempre um lado estético, decorativo e por conseguinte artístico nessa peça. Por isso, é que o resultado final das peças é por vezes tão belo.

O objecto «joga» com as emoções de quem cria e com as emoções de quem compra. Quando adquirimos um objecto, para além da característica funcional que o mesmo possa ter, está implícito simultaneamente o nosso desejo de adquirir algo que seja também belo, agradável aos nossos olhos.

Há assim uma continuidade emocional que se inicia na interioridade do artesão [2], passa pela sua oficina e prolonga-se até ao espaço vivencial do comprador.

 

Sugestão de leitura: Os trabalhos que o linho dá

 

O aspecto emocional pode ainda ser encarado sobre a perspectiva da «entrega» de quem cria. Porque o acto criativo é também momento de entrega, de luta e muitas vezes de dor e desapontamento.

Glassie diz que as coisas são consideradas trabalhos artísticos quando o acto criativo é de empenhamento, devoção, ou seja, quando as pessoas se transferem completamente para os seus trabalhos. (1999:41).

Citando novamente David Prown, é curioso como este autor interpreta o lado emocional dos artefactos. Ele afirma que «tomando uma interpretação cultural através dos artefactos, nós comprometemo-nos com a outra cultura, em primeira instância, não através das nossas mentes (…), mas através dos nossos sentidos.

Figurativamente falando, nós colocamo-nos dentro dos corpos dos indivíduos que criaram ou usaram esses objectos; nós olhamos com os seus olhos e tocamos com as suas mãos.» (1993:17).

O mais excitante aqui, é pensar que, mais importante do que o contacto temporal através das mentes, é o contacto sensorial através dos tempos. As experiências sensoriais são muitos fortes.

O nosso Mundo está carregado de sensações e nós nele vivemos e sobrevivemos através da percepção sensorial. Tocar, olhar, cheirar e/ou ouvir, são gestos inconscientes que executamos quando tocamos algum objecto.

A visão, o tacto, a audição, o olfacto e o paladar, para além de serem captadores de sensações físicas, são simultaneamente vias de transmissão cultural.

Os actos sensoriais atrás referenciados carregam consigo inúmeras dimensões culturais consoante as sociedades analisadas. No caso das sociedades ocidentais é notória a excessiva valorização que se dá ao sentido visual.

A antropóloga Constance Classen, especialista em antropologia sensorial, afirma que a visão começou a distanciar-se dos demais actos sensoriais, a partir do século XVIII, devido ao florescimento da Ciência.

A autora acrescenta ainda que as teorias Darwinianas e Freudianas do século XIX, encaravam a visão como o sentido da civilização, do desenvolvimento e do progresso. Isto explica, que a visão se tenha distanciado dos outros actos sensoriais.

É curioso também pensar que, às sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente estavam associados mais fortemente o olfacto, o tacto e o paladar.

Por isso, é que «a história dos sentidos no Ocidente não deve ser considerada um padrão segundo o qual se deva mensurar o desenvolvimento sensorial de outras culturas. Cada sociedade tem a sua própria trajectória de progressão e mudança sensorial.» (Classen; Howes; Synnott,1994:3,4)

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