Lenda do Galgo Preto | Ponte de Lima – Minho

Se alguma vez passares ao anoitecer na ponte que dá o nome á encantadora villa do Lima, talvez enxergues uma sombra dando reviravoltas no areal, aproximando-se do rio, parecendo beber com sofreguidão, quedar-se a olhar atonita para a corrente das águas, e depois caminhar vagarosa e cabisbaixa para os lados de Vianna, até desaparecer de todo.

Correndo atrás d’ella, correra tambem, e, quando suppozeres que está perto, has de vel-a dar um salto, e sumir-se nos ares.

A configuração do duende não ta saberei dizer; o povo teima desde longo tempo em chamar-lhe o Galgo preto do areal. Há quem no tenha visto sair detrás da igreja dos Terceiros; donde vem, para onde vai, ninguém o pôde ainda explicar.

É uma alma penada. Não tenhas dúvida, leitor; pois outra coisa pôde ser uma aparição de tantos anos, em fadário assim constante e aborrecido?!

A Lenda do Galgo Preto

«Quando EI-Rei D. Manuel foi a Ponte do Lima levou na comitiva um galante moço, a que muito se affeiçoára, por nome D. Ruy de Mendonça.

Dividiram-se os cavalleiros do sequito, luzido e numeroso, pelas casas dos fidalgos; e coube a D. Leonel de Lima albergar o escudeiro valido.

Era D. Leonel de honrada estirpe e ainda aparentado, segundo diziam, com a família dos viscondes de Villa Nova da Cerveira;

mas pobre, e malavindo com os parentes, pois casára à sua vontade (conforme o dizer dos linhagistas) com a filha de um cavalleiro, cujo nome não andava nos livros de EI-Rei, filha que houvera de uns amores em Arzilla com uma sectaria de Mafoma.

Assim como nas igrejas não é permitido que se venerem duas imagens da mesma devoção, não quiz também a natureza que o typo ideal da mulher tivesse naquela casa duas representações iguaes;

e talvez por isso Magdalena – que assim se chamára a christã filha da moira – finára-se tranquilamente no dia em que sua filha Beatriz de Lima completára dezasseis anos, e podia já substituil-a no labutar quotidiano e creação de dois irmãos de curta idade.

Beatriz era uma jóia

Era uma joia esta Beatriz, mas qu ninguém apetecia.

Não só lhe faltavam ocasiões de aparecer, mas, naquelas poucas em que a viam, era o seu trajar tão simples, contrastando por tal forma com a magnificiencia do trajar de suas parentas, que os mancebos dos arredores preferiam, a perscrutar-lhe os encantos, dedicar-se ás frequentadoras triumphantes dos saraus, ou espinotear os seus ginetes em frente ás geloseias das grandes herdeiras.

Além d’isso, a sua beleza tinha antes a suavidade do luar que o brilho do sol; não havia os resplendores que atordoam nos seus olhos límpidos e claros, nem no seu porte modesto os meneios que seduzem.

Era uma santa, diziam; e talvez fosse. Contudo, se alguém mais perspicaz attendesse ao seu olhar de certas occasiões, e reparasse como por vezes a sua mão nervosa se contrahia, adivinhava logo que naquella natureza alguma liga houvera que não provinha do ceo.

Era talvez o sangue da avó moira a referver-lhe nas velas, da avó, que, segundo cochichavam as mulheres de alguns velhos homens-de-armas, fôra grande mestra em bruxedos e feitiçarias.

D. Ruy de Mendonça preso de amores a Beatriz

Ficar D. Ruy de Mendonça para logo preso de amores a Beatriz admirou de certo muito ás netas dos infanções e ricos-homens, que requintavam em galas e louçanias para agradar ao moço cortezão, e chasqueavam soberbas da neta da africana; mas não era justo o reparo.

A grandezas de luxuosa fidalguia, a primores de elegancia e opulência estava o escudeiro habituado; nesse gencro não podia encontrar na villa coisa que o espantasse.

E parecer-lhe-ia talvez que se não casavam bem arrebiques com a simplicidade amena da paisagem. A serra, o valle e a campina exigem, por certo, na mulher que tiver de lhes dar vida e colorido, alguma diferença das mentiras que a humanidade mais civilizada inventa para esconder em ouropeis a corrupção que vai minando os grandes centros.

Aí, netas dos infanções e ricos-homens! Beatriz, se não era melhor que vós, era ao menos mais artista…

 

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