O CIOFF não promove FOLCLORE | Do alto da guarita

“Saber tradicional do povo”!

Primeiro para se referir às tradições, costumes e superstições das classes populares, posteriormente para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes, já em 1878 o folclore era reconhecido internacionalmente como “saber tradicional do povo”.

E eram estas as diretrizes que todos os países deviam respeitar, se de folclore queriam tratar – o “saber tradicional do ” seu povo” – do que naturalmente resultariam as naturais diferenças, mas nada do que por aí aparece, e as nossas gentes entendem como “o folclore deles”

Diga-se, entretanto, que reconheço os bons espetáculos que, de uma maneira geral, esses grupos fazem. Mas “cada macaco no seu galho”, como hoje se diz, ou “os bois tratam-se pelos nomes”, como se dizia no tempo do meu avô.

E aconselho que leiam com olhos de ver os respetivos regulamentos.

Acontecendo ainda que o Folclore não é determinado por qualquer legislação ou por votos na Assembleia da República, mas pela leitura correcta dos caminhos da cultura.

Entretanto, e referente ao CIOFF, tenho na minha frente a “Definição de programas tradicionais no palco”, que começa por referir que o património cultural imaterial deve ser considerado como um processo “progressivo” do qual as principais características são actividades criativas baseadas na tradição.

Deste ponto em diante, para definir programas apresentados por conjuntos de expressão, é necessário especificar ao mesmo tempo conteúdos e estilo de expressão.

Ora bem, estarei a perceber mal – pelo menos é o que está escrito – ou os grupos de folclore como os entendemos não têm ali lugar?

Convenção da Salvaguarda do Património Cultural

Até porque, continuando, é-nos dito que “de acordo com a definição da Convenção da Salvaguarda do Intangível Património Cultural da UNESCO”, um programa será considerado como representando cultura se o seu conteúdo provém ou é inspirado pelo património cultural imaterial, nomeadamente se:

– transmitido de geração em geração;

– constantemente recriado por comunidades e grupos em resposta ao seu ambiente, sua interacção com a natureza e a sua história;

– identidade e continuidade;

– promove o respeito pela diversidade cultural e criatividade humana.

Ora, para servir a causa da cultura tradicional, os conjuntos escolhem um estilo e uma maneira de expressão.

Tipologia de programas segundo o CIOFF

Temos assim que, de acordo com a sua actividade principal, que é organização de “festivais de cultura tradicional”, o CIOFF deseja definir os estilos de expressão através da música, da música e dança como explicado abaixo:

1.- Um programa será considerado como “representando uma expressão autêntica”:

– se o conteúdo for regional,

– se os trajes são autênticos ou reconstituídos fielmente,

– ou se a música e a dança são apresentadas sem arranjo.

2.- Um produto será considerado como “representando expressando expressão elaborada”:

– se o conteúdo abrange várias regiões,

– se os elementos dos trajes são adaptado,

– ou, se a música é harmonizada e os elementos da dança modificados,

– ainda se a criação de novas danças usa elementos tradicionais e autênticos.

3.- Um programa será considerado como “representando uma expressão estilizada”:

– se o conteúdo se inspira na cultura tradicional do seu país,

– se as roupas forem recriadas para as necessidades do palco,

–  ou se a música e os elementos da dança forem adaptados e recriados para atender às necessidades de uma transposição cénica moderna,

– se a criação de novas danças e músicas usa elementos tradicionais para representar ideias criativas do coreógrafo e do músico.”;

Digam-me, como é que o folclore se pode enquadrar num “processo progressivo”, em “actividades criativas”, em “expressões elaboradas” ou “estilizadas”?

Diferenças

Digamos, entretanto, estar perante três géneros de património:

1.- O FOLCLORECultura Tradicional – que assenta no autêntico, no tradicional e no identitário;

2.- O PCI – regulado pela CONVENÇÃO da UNESCO de 2003 – o inverso: que assenta no constantemente alterado e na criatividade,

3.- O CIOFF, um Parceiro Oficial da UNESCO, acreditado pelo Comitê ICH da UNESCO – também aqui o imaterial está conforme a Convenção da UNESCO, a sua função principal é a organização de festivais, nos quais os grupos participantes podem ser “autêntico”, “elaborado” e “estilizado”.

Mas, atenção, tendo em vista a “tradição do contemporâneo”, pelo que ali o autêntico refere-se ao presente e não ao passado.

Conclusão: Apenas o Folclore é isso mesmo (Folclore) tem a ver com a nossa “identidade cultural.”

Nota final: Entenda-se este texto como a “minha opinião, “sendo bem-vindo o contraditório desde que devidamente fundamentado.

Lino Mendes

O Folclore e a Convenção da UNESCO de 2003

Convenção da UNESCO de 2003

É fundamental que a Convenção da UNESCO de 2003 seja devidamente explicada, que não o foi até hoje, por isso toda a confusão que para aí vai.

Quando da aprovação do Cante não houve qualquer preocupação pedagógica, pois o que interessava era fazer aprovar a candidatura. Quando do Congresso do Folclore Português, os folcloristas limitaram-se naturalmente a ouvir e, agora, se já refletiram, é tempo de chegar a conclusões fundamentando.

Para já, duas sínteses:

1.- Folclore – património que assenta no autêntico, no tradicional, no identitário;

2.- Convenção de 2003 – património que assenta nas constantes transformações, na criatividade.

Eis como a Dr.ª Clara Bertrand de Carvalho, responsável pela cultura da UNESCO nosso País, a define:

“Sendo um património fundado nos conhecimentos e práticas, não se caracteriza pela autenticidade mas sim pela constante transformação e recriação, não se funda no tempo e na história mas antes na prática recorrente e na transmissão interjecional, não visa preservar coisas mas salvaguardar saberes e conhecimentos. O olhar do sujeito desvia-se do objeto patrimonializável para se centrar no criador do património, que é chamado a ter um papel ativo em todo o processo.”

Ora, e perante isto, é claro, que se trata de dois patrimónios ambos imateriais, mas que nada têm a ver um com o outro.

Entretanto, li algures que a Salvaguarda do PCI se pode considerar “da parte etnográfica ao empoderamento dos detentores do património cultural imaterial”, que, “traduzido” para português corrente e segundo o Ciberdúvidas, nos dá “da discrição dos usos e costumes populares até à valorização dessa herança rica dos usos culturais”.

Nem comento, mas agradeço que alguém me apresente o fundamento para tal afirmação.

Congresso do Folclore Português

Entretanto, numa das alíneas das Conclusões do Congresso do Folclore Português lê-se que existem exemplos ”de boas práticas” relativamente ao registo do PCI por parte de grupos de folclore português (com a necessária e valiosa colaboração autárquica). Estes registos encerram franco potencial para a constituição de produtos turísticos diferenciados e diferenciadores no mercado.

Antes de mais, está errada a sigla PCI (Património Cultural Imaterial) que, ao dizer apenas respeito ao que é regulado pela Convenção da UNESCO de 2003, nega que o Folclore/Cultura Tradicional seja também Imaterial. Trata-se aliás de uma retificação que me atrevo a sugerir à UNESCO.

Quanto à expressão “boas práticas” dizem-nos ser derivada do inglês best practice, a qual denomina técnicas identificadas como as melhores para realizar determinada tarefa. Pelo que também podemos dizer que existem exemplos de “boas práticas” do registo do folclore como cultura tradicional.

Agora o último período da alínea é que deve ser interpretado com muito cuidado.

Vejamos:

Estes registos encerram franco potencial “para a constituição” (leia-se transformação) em produtos turísticos diferenciados e diferenciadores no mercado“.

No fundo é o que Paulo Lima diz ao JL” As candidaturas servem acima de tudo para a criação de um destino turístico ou para aumentar as vendas. Como se vai ganhar dinheiro, associar a produtos, etc. Há sempre um intuito comercial ou capitalista, se quisermos “Resumindo e concluindo, não são estes os objectivos dos folcloristas.

Folclore e globalização

Aliás se andamos há anos a dizer ter que acabar com o folclore para turista ver….

Entretanto quero dizer que acho importante o que o regulamento da convenção nos diz quando refere que

«Esse património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do se meio, da sua interacção com a natureza e da sua história, incutindo-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo, desse modo, para a promoção do respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana» (Artigo 2º).

No entanto, há quantos anos esse sentimento de identidade foi absorvido pela globalização?

E permitam-me terminar com mais uma clarificação. Segundo a Dr.ª Clara Bertrand de Carvalho, só compreende a Convenção de 2003 quem conhecer os objectivos da UNESCO e os meios que tem para os alcançar.

A UNESCO

Ora a UNESCO foi fundada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de contribuir para a paz e segurança no mundo, através da educação, da ciência, da cultura e das comunicações, e da cooperação entre os países.

Logo, enquanto o Folclore é um projecto cultural, a Convenção de 2003 é um importante projecto para a paz, e só assim se compreende que tenha abdicado do termo folclore nos seus textos— que, aliás já considerara sinónimo de cultura tradicional— porque alguns países o consideravam sinónimo de nacionalismo. Ora, no nosso País, sempre foi, é e será, sinónimo de Identidades.

A propósito pergunte-se aos amigos do Cante, se aceitam que o mesmo deixou de ser tradicional e identitário. E depois vejam as condicionantes para se ser Património Cultural Imaterial da Humanidade.

E terminando, lendo a Drª Clara Cabral, enquanto o Folclore é a “tradição do passado“ a Convenção de 2003 regula a “tradição do contemporâneo”.

Lino Mendes

Folclore e Etnografia | Do alto da guarita

Folclore e Etnografia

Desde sempre existe quem considere “etnografia” como sinónimo de “trajos usados no folclore”, e a Federação considera-a como a “disciplina que descreve os povos/comunidades no que concerne aos seus usos, costumes, índole e cultura”.

Mas se há situações em que se respeitam diferentes conceitos, em meu entender estes não o são.

Sendo o folclore “a expressão das vivências das gentes de antigamente, no tempo em que a sua vida ainda não era tão influenciada pelos usos costumes de outros povos”, a “etnografia” é única e precisamente “o estudo do folclore”, como aliás o citam diversos dicionários.

Recordo-me que, procurando saber a visão que outros colegas destas andanças tinham de assuntos que considerava pouco clarificados, coloquei a seguinte questão:

Se estiver um “grupo” a actuar, onde está o folclore e onde está a etnografia?

E a resposta que me convenceu (Aurélio Lopes) foi: depende do Grupo.

O produto (aquilo que apresenta ou representa) pode, em termos otimizados, ser tudo folclore. Ou ser só uma parte. Ou até, não ser nada.

Etnografia não é um produto

Quanto à Etnografia, não “vemos” nada, em nenhuma circunstância.

Isto porque a Etnografia não é um produto, não é um conjunto de padrões ou de elementos culturais, mas simplesmente uma técnica ou um conjunto de técnicas de que fazem parte as entrevistas que se fazem aos informantes, a observação direta e outras que aqui não referimos para não confundir mais.

Não é um produto! Não é aquilo que se representa, melhor ou pior. É a metodologia de pesquisa de um de que o grupo se serviu para obter os dados que está a apresentar na dita autuação.

E porque considero que “tradição” nem sempre significa “tradicional”, acrescentava: e a “tradição”, onde está? E também aqui a resposta é igual à do “folclore”: pode ser tudo, ou só uma parte, ou até não ser nada.

Porque a vertente tradicional é uma das componentes daquilo a que chamamos Folclore“.

Dito de outra forma, a cultura popular que consideramos folclore tem de ser tradição, tem de ser tradicional. Pois só a tradição permite a usualidade e só a usualidade permite a aculturação/folclorização dos padrões culturais.

Temos assim que o tradicional é sempre popular, mas o popular nem sempre é tradicional.

Lino Mendes | Imagem do RFVR

Do alto da guarita | Textos e opiniões

O que é/deve ser, então um “grupo de folclore”?

Digamos que um “museu vivo” dos tempos de antigamente, quando as comunidades eram a expressão do tradicional. E para o efeito tudo o que se necessita se vai buscar ao folclore.

Sem que haja uma data certa para todas as regiões, penso eu que o folclore deixou de evoluir como tal entre finais do século XIX, início do século XX, indo até mais ou menos aos anos 20/30 – conforme a chegada do progresso.

Escolhido então o período que se pretende abranger, as primeiras questões que se nos colocam é saber como vestiam, o que cantavam, o que bailavam e como o faziam – o que depois vai estar interligado com muitas outras questões.

Mas atenção que o “Folclore” não é apenas o trajo, o “cantar” e o “bailar”, mas todas as vivências do povo nesse tempo.

Trajos

Há que saber o que vestiam, tanto o homem como a mulher, de semana e ao domingo, festas e romarias, casamentos, no trabalho, nas diversas circunstâncias. O que tem a ver como o modelo da peça e o respectivo tecido.

Cantigas

A letra e a melodia, que hoje é possível gravar e passar a “pauta” para que se mantenha sem alterações.

Modas/Peças

Ver qual a coreografia que se usava.

Nota final

Tem que haver rigor. Claro que as recolhas não nos dão o “puro” ou o “genuíno” como alguns afirmam. Mas no “mais representativo possível”, não pode haver qualquer alteração, só porque fica mais bonito, só porque o ensaiador assim entende.

Como compreenderão, não podemos aqui entrar no pormenor.

Quanto aos trajos que vão ou estão a usar, há quem escolha, por exemplo, só o domingueiro. Claro que respeito a ideia, porque quem manda no grupo é o próprio grupo, mas eu considero que deve haver a maior variedade possível de trajos, pois só assim ali estará a imagem do povo.

Como nota final, quero referir que apenas tenho apontado caminhos porque cada terra com seu uso cada roca com seu fuso e a nossa “identidade” afirma-se principalmente pelas diferenças.

Lino Mendes | Imagem

Folclore e Cultura Tradicional | Textos e opiniões

Folclore | Cultura tradicional

Já em 1878 o Folclore era reconhecido internacionalmente como “saber tradicional, história não contada de um povo

Primeiro, para se referir às tradições, costumes e superstições das classes populares. Posteriormente, para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes.

E porque a definição unitária se tornava muito difícil para os ensaiadores dos grupos de folclore, em 2002, e numa organização do Jornal Folclore, reuniram-se, em Santarém, a maioria dos especialistas e estudiosos, do que resultou uma síntese que eu considero de excelência para a realidade portuguesa, e que passo a transcrever:

Folclore é a expressão da vivência das gentes de antigamente quando a sua maneira natural de ser e de estar não era ainda tão marcada por influências que lhes chegavam de fora.

Em que tais influências eram recebidas, adotadas e aculturadas. Tradicionalizadas, se quisermos.

Antes de um tempo em que as mesmas se tornaram tão intensas e numerosas que elas próprias passaram a aculturar as vivências locais comunitárias. A alterá-las e fazê-las desaparecer. Como acontece hoje, influência que não se fez sentir em todo o lado ao mesmo tempo, dependendo isso da temporalidade e ritmo de mudança das diversas sociedades; naturalmente diferenciado.

Mas como sabemos então o que é Folclore?

Há quatro situações que quando em conjunto o determinam: ser popular, ser normalmente de autor desconhecido, ser tradicional e ser comunitário.

1) ser popular: ser usado pelo povo. A que o povo, pela dita usança, aculturativa ou não, adaptou, e conferiu características marcantes próprias.

2) ser normalmente de autor desconhecido: claro que tudo teve um autor, mas grande parte da criação popular é feita de sucessivas transformações: algumas tão ligeiras que nem se apercebem. Algumas involuntárias apenas dependendo das características do utilizador.

Dando o exemplo de uma “moda”, alguém a fez, mas tocador após tocador, cantor após cantor, com as alterações que involuntariamente foram sendo introduzidas, acabou por a ir alterando até algumas vezes se transformar numa música muito diferente: que podemos até não considerar o mesmo padrão.

Contudo, muitas músicas são de origem urbana que o povo vai adotando e adaptando. Nestas, como aliás nalgumas de criação local, pode-se às vezes identificar o autor. São, contudo, casos raros.

Mais características

3) ser tradicional: ter passado de geração em geração, chegando-nos por via oral ou por imitação, fazendo-se como se via fazer ou ouvia; devendo ainda entender-se como tradicional os comportamentos, os usos, as vivências, os valores que qualquer grupo social, relevante culturalmente, utilizou durante o tempo suficiente para impor a marca local, independentemente da sua origem e natureza.

4) ser comunitário: pertencer a uma comunidade cultural significativa e não apenas a uma família ou pessoa. Ser usada pela totalidade da mesma ou por um grupo social de dimensão significativa.

Exemplo: um fato muito bonito mas que só uma pessoa usava, pois lhe tinha oferecido por um familiar de outra região e nunca se vulgarizou localmente, não é folclore.

Cultura Tradicional – base do desenvolvimento | Opinião

Cultura Tradicional – base do desenvolvimento

Só depois de se saber o que “é uma coisa”, se pode saber “o que essa mesma coisa não é “. Isto é, quem sabe “de facto” o que é folclore, não vai chamar folclore ao que não o é.

O Folclore é o património que passa de geração em geração e nós fazemos como ouvimos e vemos fazer. E vai evoluindo naturalmente, “fixando-se” não mais evoluindo, antes que comece a ser influenciado por outros valores diferentes da sua maneira de ser e de estar.

Quanto à UNESCO, defende a continuidade do património sem fixação, que deste modo não é identitário nem tradicional. Caso da Convenção da UNESCO de 2003, que ao contrário do folclore (autêntico, tradicional, identitário), assenta sobre o constantemente transformado e a criatividade.

Perante estes factos que não têm contestação, como é que os criadores do CIOFF chamam de folclore e tradicionais aos grupos que regulamentam a exemplo da UNESCO?

Basta ver um desses grupos, para se constatar que ali nada tem a ver com o povo.

Não está em causa, diga-se, a qualidade que possam ter…

Vários conceitos de folclore?

Há quem diga que cada país tem o seu conceito de “folclore”. Se assim é, está errado…

Já em 1878 o Folclore era reconhecido internacionalmente como “saber tradicional do povo”, primeiro para se referir às tradições; costumes e superstições das classes populares, posteriormente para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes.

Digamos, sem receio, que o conceito anteriormente indicado – saber tradicional do povo – é universal. Sendo o conceito tradicional do “seu povo” que cada país deve expressar.

Claro que será diferente!

Em 2002 foi elaborado em Santarém um conceito que eu considero de excelência, e a diferença que naturalmente há entre países, quanto a processos não pode diferir muito do nosso.

Só quem não sabe nadinha de folclore é que não verifica que esses grupos não têm nada a ver com o POVO.E um grupo de folclore deve ser, sempre, a expressão colectiva desse mesmo povo.

Apenas Folclore

O senhor Inspetor Lopes Pires foi das pessoas com quem mais aprendi nos meus inícios da actividade do folclore. E há três “princípios”, inatacáveis, que todos deviam ter como guia:

1) Em Folclore é proibido inventar;

2) Não há “folclore bom” e “folclore mau”; ou é ou não é “folclore”;

3) Não se pode comparar aquilo que não tem comparação.

A maneira como a Federação está a avaliar/classificar os grupos é algo de absurdo que é impensável fundamentar. Sendo que se  forem avaliados maus bailadores, tal não é motivo para não se considerar folclore.

Parece que seria importante dar a conhecer, fora dos circuitos da Federação, a “Carta de Princípios do Folclore Português”, que para mim é uma série de equívocos. No entanto, embora eu esteja convicto daquilo que afirmo, aceito que não sou dono da verdade absoluta, e quem sabe se nalguns aspectos não estarei enganado.

É preciso partilhar, é preciso puxarmos todos para o mesmo lado, mas o que acontece é cada um está no seu canto e tem a sua verdade. Que venha o contraditório, mas devidamente fundamentado

Nota:  Oportunamente desenvolverei os dois últimos temas. Entretanto enviarei três artigos – Folclore/Cultura/Tradicional, Convenção de 2003, os quais, aliás, já enviei ao Gabinete da Senhora Ministra da Cultura.

Lino Mendes

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Folclore inspirou a “música de intervenção”

A “música de intervenção”

Há quarenta anos (*), ao golpe militar que derrubou o Estado Novo sucedeu um movimento revolucionário que foi acompanhado e estimulado por um novo género musical – a música de intervenção.

Era assim designada por pretender, através da mensagem que continha, intervir politicamente na transformação da sociedade portuguesa.

Assumida como canção de protesto, a música de intervenção teve o seu começo entre nós sobretudo no meio académico de Coimbra. Era interpretada por baladeiros ligados ao chamado fado coimbrão como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Com o tempo, os seus autores foram-lhe introduzindo novas formas e sonoridades, sendo notórias as influências da música irlandesa e alguns ritmos africanos.

A música tradicional

A partir da década de setenta, a nossa música tradicional teve particular influência na composição de novos temas. Quer do ponto de vista musical como ainda na interpretação de temas bem conhecidos do cancioneiro popular das mais variadas regiões do país.

São exemplo as interpretações feitas por José Afonso de cantares da Beira Baixa ao som do adufe. Também os ritmos alegres de Fausto e ainda as músicas melodiosas de Vitorino inspiradas no cancioneiro alentejano.

A música popular

Com diferentes arranjos e interpretações, também outros autores e intérpretes da chamada música de intervenção recorreram à música popular. Tal sucedeu com Francisco Fanhais, José Barata-Moura, Carlos Alberto Moniz, José Jorge Letria e Janita Salomé entre outros.

A partir dos finais da década de setenta, com o declínio do período revolucionário e a consolidação da democracia representativa, também a música de intervenção deixa de ser ouvida, canalizando-se o gosto musical do público para géneros mais comerciais, a maioria dos quais importados do estrangeiro.

Numa altura em que se assinalam os quarenta anos do 25 de abril (*), eis que José Jorge Letria e Carlos Alberto Moniz procuram fazer ressurgir o canto de intervenção com o lançamento do disco “Resistir de novo”.

Entretanto, alguns músicos continuaram a dedicar-se a estudo da nossa música tradicional, incluindo a componente instrumental, como se tem verificado com Júlio Pereira relativamente ao cavaquinho.

Através de letras e melodias que fazem parte do nosso património cultural, procuraram os compositores e intérpretes de música de intervenção transmitir uma mensagem política dirigida ao povo.

Isto na convicção de que a mesma fosse por ele recebida uma vez que com a música e os temas populares se identificava à partida. Desse modo, a par de outras sonoridades, o nosso folclore serviu de inspiração a muitos temas da música de intervenção.

(*) texto escrito em 2014

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

 

Folclore e Migrações Internas | Textos e opiniões

Folclore e Migrações Internas

As migrações das gentes do interior para os centros urbanos (migrações internas) constitui um fenómeno das sociedades modernas.

É consequência directa da industrialização dos meios de produção, tendo as mesmas início no nosso país a partir de meados do século passado, mais precisamente no período denominado por “fontismo“.

Desde então, o êxodo a partir dos campos para as cidades não mais cessou, com verdadeiras legiões de camponeses a engrossar incessantemente as classes trabalhadoras da cidade.

E à medida que estas cresceram e foram progressivamente sendo ocupadas pelo sector terciário do comércio e serviços, também apareceram os “dormitórios” suburbanos que fizeram crescer desmesuradamente as respectivas periferias.

Este fenómeno teve como consequência directa o desenraizamento cultural de parte da população e ainda uma relativa perda de contacto com a natureza.

Este é um aspecto considerado fundamental para o bem-estar psicológico e emocional da pessoa humana.

Paradoxalmente, numa primeira fase a cidade representava qualidade de vida para os seus habitantes, sobretudo se tivermos em consideração o atraso económico, social e cultural em que então viviam as populações dos meios rurais.

Menos agricultura não é mais desenvolvimento

Entretanto, os economistas passaram a encarar a diminuição da população na agricultura como um claro sinal de desenvolvimento.

Isto, uma vez que, confundindo causa e efeito, as estatísticas indicam que é nos países economicamente mais desenvolvidos que se regista uma menor taxa de ocupação de mão-de-obra no sector primário ou seja,

– na agricultura,

– na pesca

– e nas indústrias extractivas,

ao contrário do que sucede nos países sub-desenvolvidos.

Esta ideia errónea é precisamente a que tem sido seguida nomeadamente na definição da chamada “reforma da política agrícola comum” da União Europeia.

Esta, assumida com tal ligeireza, mais não tem conseguido do que despovoar os meios rurais em detrimento de um progresso equilibrado e sustentado que tenha em consideração o bem-estar do ser humano, pois só nessa perspectiva faz algum sentido o desenvolvimento económico.

De nada valem as visitas esporádicas e ocasionais sem consequências práticas dos chefes de estado e de governo a localidades isoladas no interior.

Por exemplo, como a efectuada pelo Presidente da República à aldeia do Soajo, onde foi inaugurar um elevador de palha!!!

Migrações para a região de Lisboa

De norte a sul, a região de Lisboa tem ao longo dos anos recebido gentes oriundas das mais diversas regiões do nosso país. Os minhotos vieram trabalhar na hotelaria e na construção civil, trazendo consigo a concertina que os alegra em momentos de são convívio.

Mas há ainda os beirões e os transmontanos, os algarvios e os açorianos. Existem também os alentejanos que formam uma imensa colónia e não perdem ocasião para cantarem as suas modinhas.

E, em Vila Franca de Xira, com os pés dentro de água e as suas casas construídas em palafita, a colónia de avieiros imortalizada pelo escritor Alves Redol, gente que tem a sua origem e os seus costumes ligados a Vieira de Leiria.

De acordo com os pareceres habitualmente emitidos pelos “técnicos” do folclore, os grupos devem sediar-se na respectiva região que procuram representar:

– os minhotos no Minho,

– os alentejanos no Alentejo ,

não devendo serem reconhecidos os que tal princípio não observarem.

Manter as tradições regionais

Seguindo esse raciocínio, que reflecte uma visão estática da sociedade, os avieiros deveriam dançar o fandango e trajar de campino apenas porque passaram a viver no Ribatejo.

De igual modo, os minhotos que vivem na periferia de Lisboa deveriam trocar o vira e a chula pelos costumes saloios.

E os alentejanos que foram viver para o Algarve teriam de esquecer o seu cante bem característico e dolente para passar a dançar o corridinho algarvio. Enfim, coisas que só lembram aos “técnicos”!

Ora, sucede precisamente que as gentes que migraram das zonas rurais para as cidades agruparam-se na maior parte dos casos em associações de carácter regionalista. Sempre com o objectivo de manterem os seus laços de convívio e preservarem as respectivas tradições.

A maior parte dessas entidades encontra-se sediada em Lisboa e no Porto, existindo porém noutras localidades do país.

Com maior ou menor êxito, algumas delas constituíram os seus grupos folclóricos, contribuindo desse modo para que as suas gentes não esqueçam a sua verdadeira identidade.

Naturalmente, revelando numerosas deficiências a que necessariamente não é alheio o desinteresse a que são votados por parte daqueles que dizem representar o folclore português.

Sucede que, os referidos grupos não são reconhecidos precisamente porque não se encontram sediados nas respectivas regiões de origem – ou não interpretam o folclore da região onde se encontram sediados!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem de destaque

Folclore e Política – As Políticas do Folclore

 

No Centenário da Implantação da República*

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, existiu um “grupo de danças” que então apresentava coreografias assaz curiosas, alegadamente baseadas no folclore minhoto. Entre outras bizarrias, dançavam uma chula na qual, os dançarinos, empunhavam foices e martelos, estilizados, construídos em madeira e, à medida que volteavam, faziam sobrepô-los numa clara alusão ao símbolo mundialmente adoptado por todas as organizações comunistas e a própria URSS, desde os tempos da chamada “social-democracia revolucionária”.

Pretendiam, dessa forma, transmitir a sua ideologia assente na “aliança entre operários e camponeses”, idealizada por Karl Marx e Friedrich Engels no seu “Manifesto Comunista” como forma de atingir uma sociedade socialista.

Tal como sucedia em relação às coreografias, também os trajes eram estilizados a partir de uma versão dos trajes domingueiros minhotos, já de si adulterados. As saias das moças não iam além de duas barras de cor vermelha e amarela, sobrepostas num pano escuro.

Tratava-se, como se pode adivinhar, de um “grupo de danças” que, em complemento com outras iniciativas do género, se inseria numa estratégia de propaganda que era então desenvolvida por um pequeno partido de inspiração maoísta. Esses tempos ainda são recordados por algumas pessoas que os viveram, incluindo alguns dos seus componentes e o próprio ensaiador que ainda se mantêm nestas lides.

Para além de algumas tentativas esporádicas de utilização do folclore para fins políticos, esta limita-se na maior parte das vezes à sua participação em manifestações de carácter político e sindical, com especial preferência para os grupos de zé-pereiras devido ao troar dos seus bombos.

A razão do desinteresse que a actual classe política manifesta em relação ao folclore prende-se directamente com a utilização que lhe foi dada ao tempo do Estado Novo, associando-a aos chamados “três efes” que, supostamente, constituíam a sua trilogia – Fado, Folclore e Fátima – e como tal consideradas “formas de alienação do povo”.

Apesar de, ironicamente, algumas dessas “formas de alienação” terem adquirido maior relevo nos tempos actuais, como sucede com o futebol, cujos jogos passaram a realizar-se indiscriminadamente em qualquer dia da semana, e a sua discussão a dominar quase todos os momentos da vida das pessoas.

E, reveladora do desprezo a que o folclore do povo português é votado pelo actual regime político, é notória a sua omissão dos grandes eventos culturais e da programação televisiva na estação oficial, bem assim a forma pejorativa com que frequentemente o termo folclore é utilizada.

Um rancho de Castelo Branco actuou no “Primeiro Concurso Nacional de Folclore” que se realizou em 1958, em Lisboa. Arquivo Fotográfico da CML

O folclore ou melhor, a sua representação através de grupos folclóricos propositadamente constituídos para esse fim, remonta aos finais do século XIX quando um “grupo de lavradeiras de Ponte de Lima” se deslocou ao Porto, a convite dos bombeiros portuenses, conforme nos dá conta o jornal humorístico “O Sorvete”, na sua edição nº. 123, de 4 de Setembro de 1892. Doze anos depois, foi constituído o Rancho das Lavradeiras de Carreço, em Viana do Castelo.

O seu aparecimento não foi certamente alheio ao espírito cívico que então se manifestava através da criação de inúmeras associações com as mais diversas finalidades e jornais locais, a maior parte das vezes inspirada na propaganda republicana quando não mesmo obra sua, levada a cabo através das lojas maçónicas então constituídas.

De resto, apesar do claro predomínio dos sectores monárquicos e católicos na maior parte do país, caracterizado ainda por uma sociedade marcadamente rural, os republicanos dispunham a sua base de apoio numa burguesia fixada nos meios urbanos, inclusive nas pequenas cidades da província. A até aí entendia a Maçonaria a sua organização, como sucedeu com o Grande Oriente Passos Manuel, mais conhecido por “Maçonaria do Norte”, que integrou nomeadamente a Loja “Fraternidade” de Viana do Castelo e o Triângulo nº. 28, de Ponte de Lima.

A foto, publicada na Ilustração Portugueza, de 1 de Março de 1926, mostra “meninos da primeira sociedade” mascarados com trajes minhotos.

Com o advento da I República, passaram as exibições do folclore a ser aproveitadas no contexto das “paradas agrícolas” de onde se derivaram os chamados “cortejos etnográficos”, exposições industriais e ainda nos congressos regionalistas que à época se realizaram já então com o propósito de debaterem a criação de regiões administrativas – províncias – em substituição da circunscrição distrital herdada da monarquia constitucional e que ainda vigora.

Em relação aos trajes tradicionais, passou o seu uso a ser incentivado junto dos meios burgueses da capital como máscara de Carnaval, havendo uma especial preferência pelos trajes minhotos com que se vestiam as crianças.

Com esse propósito, promoviam-se concursos e bailes de mascarados nas colectividades de cultura e recreio, incluindo nas casas regionais que entretanto foram aparecendo, inicialmente frequentadas por uma espécie de elite que, apesar de migrada, ainda dispunha de tempos livres e meios para poder consumir, o que não sucedia com os seus conterrâneos sujeitos a uma vida miserável de escravidão.

O xé-xé foi uma figura típica do Carnaval alfacinha até aos finais do século XIX. Na imagem, seguida por vários foliões entre os quais se distingue um galego e uma ovarina. Arquivo Fotográfico da CML

A vulgarização do uso do traje regional como máscara carnavalesca teve sobretudo a ver com a necessidade de suprimir o incómodo xe-xé, zombando de tudo e de todos, figura brutal que em tudo desagradava aos políticos e à burguesia citadina que não lhe poupavam o seu atrevimento jocoso e a crítica mordaz.

Porém, havia de ser o Estado Novo, designação pela qual se tornou conhecida a II República, aquele que maior atenção prestou às coisas do folclore. Contudo, não constituiu seu propósito identificá-lo e preservá-lo da mesma forma como actualmente o entendemos, apesar de ter existido uma forte tendência com vista à sua musealização.

Procurou antes, como aliás era próprio da época a outras latitudes, aproveitá-lo para os seus propósitos propagandísticos, quer na divulgação das potencialidades turísticas que o país oferecia, no contexto de uma indústria então nascente, como ainda na educação do povo nos valores pátrios e comunhão com a sua própria identidade.

A partir de meados do século passado, os “ranchos folclóricos” multiplicaram sobretudo através da organização das “casas do povo”. Para tal, o Estado Novo utilizou os serviços do Ministério da Educação Nacional, o Secretariado da Propaganda Nacional, a Mocidade Portuguesa, a Junta Central das Casas do Povo, a influência dos governadores civis e ainda a acção da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Organizou feitas e concursos.

E, através de intelectuais de renome identificados com o regime, apurou as músicas, alterou e inventou coreografias, modificou os adornos dos trajes e introduziu uma vertente mais técnica e artística à sua representação. Em resumo, por mais bem intencionada que tivesse sido a sua intervenção neste domínio, os responsáveis pelo Estado Novo acabaram por produzir estragos irreparáveis ao folclore.

Aspecto de um festival de folclore, em 1962, no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa. Repare-se atentamente na exibição das moças. Arquivo Fotográfico da CML

Por falta de pesquisa e método de análise, a maior parte das pessoas passou a dar como genuíno aquilo que não é mais do que uma versão estereotipada produzida pelo Estado Novo. E assumem-no com tal convicção que passou a constar dos seus próprios critérios de avaliação. E, no entanto, são visíveis em quase todas as coreografias e não só, as marcas deixadas pela intervenção que foi feita, quando não se trata mesmo de puras invenções.

O mesmo se verifica com o traje, os instrumentos que são utilizados, as músicas e letras que compõem o reportório e os moldes em que decorre a própria apresentação. De resto, é notória a insistência em mencionar os prémios alcançados, os concursos em que participaram, as organizações em que se filiam e os países que percorreram em digressão em vez que descreverem aquilo que realmente interessa ao público e que consiste naquilo que vão representar.

Paradoxalmente, o preconceito com que actualmente o folclore do povo português é encarado, mesmo em relação ao folclore de outros países, não impediu o actual regime político de ter recuperado a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), alterando a sua designação para Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), apesar de à partida ter sido constituída à semelhança da sua congénere italiana Opera Nazionale Dopolavoro.

E, justiça seja feita, aquela organização continua a manter um departamento para o Folclore, para além de numerosas iniciativas do maior interesse na valorização cultural e na ocupação dos tempos livres dos trabalhadores e da população em geral. E, isso é tanto mais importante quando porventura nunca foi tão necessário manter a alegria no trabalho!

* Artigo escrito e publicado, inicialmente, em 2010, por ocasião da celebração do centenário da implantação da República em Portugal.

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Bibliografia: GOMES, Carlos. A Maçonaria em Ponte de Lima. O Anunciador das Feiras Novas. Ano XXIV. Série II. 2007. Ponte de Lima

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

O Folclore nas Descobertas | Textos e opiniões

 

Quando há quinhentos anos ou, para ser mais preciso, um século antes, os portugueses iniciaram a sua epopeia marítima, estavam ainda longe de pensar que os povos com quem iriam contactar viriam um dia a exprimir no seu folclore indígena inúmeras manifestações do nosso folclore.

Tal foi o que sucedeu a título de exemplo na Malásia e em África, na Índia, no Brasil e nas ilhas que actualmente integram a Indonésia.

É que, durante tão prolongadas viagens e permanência em todas essas paragens pelo mundo fora, os nossos marinheiros que seguiram nas caravelas não tinham nos momentos de ócio outra forma de divertimento para além da que efectivamente conheciam ou seja, cantar e dançar como sabiam e era costume nas suas terras de origem.

Também os jogos que praticavam, as festas que realizavam e que lhes deixava saudades, esse sentimento bem português que também os fazia em noites de luar soltar gemidos pungentes das guitarras que consigo levavam, entoando versos que mais não eram do que lamentos à sorte do destino e ao fado da sua vida.

Capitaneada por cavaleiros feitos navegadores, a tripulação que seguia em tais expedições era, geralmente, constituída por gente simples do povo arrancada aos trabalhos da lavoura ou à faina da pesca, ou então recrutada à força entre a vadiagem que grassava nas ruas de Lisboa.

Consigo levavam a fé cristã, cujos ensinamentos receberam desde o berço, e um modo de ser temperado que hoje ainda nos caracteriza e a que naturalmente não é alheio o nosso clima ameno.

O mar os tornou ousados e corajosos, duros e ainda mais tementes a Deus, agrestes e dóceis. Onde chegaram transmitiram a sua fé e as suas crenças, deram a conhecer os seus hábitos e as suas tradições, amaram e travaram batalhas, negociaram e invariavelmente deixaram um pedaço de si mesmos, da sua alma e do seu humanismo.

Entre aquilo que levaram na bagagem – e também trouxeram – salientamos o seu folclore, o seu modo de pensar, as suas lendas e provérbios, a sua alimentação, a sua religiosidade. E, sempre que entraram em contacto com os povos nativos, transmitiram-lhes o que sabiam e aprenderam tudo o que lhes mostraram e lhes aguçava a curiosidade, misturando culturas como miscigenaram raças.

E eis que da combinação da alimentação ocidental que não dispensa a carne de porco com as especiarias indianas inventaram o sarapatel goês, um paladar que diz bem da forma peculiar da colonização portuguesa. E surgiu ainda o crioulo e a cachopa, as mornas e o lundum, o patoá e a mulata que representa a beleza e alegria do Carnaval brasileiro.

Em São Tomé e Príncipe encontramos uma réplica extraordinariamente semelhante ao Auto da Turquia que em Ponte de Lima [Minho] tem lugar, levado a terreiro pelo povo da freguesia de São João da Ribeira e representando uma batalha travada entre turcos e cristãos.

Em Goa ainda se dança o corridinho, embora com um ritmo ligeiramente alterado e, tanto na Malásia como no Havai, ainda são evidentes as influências do nosso folclore. No Brasil dança-se o “bumba meu boi“, as “quadrilhas” e celebram-se as “juninas” e as “reisadas“, e na Indonésia algumas formas de cantar que são claro testemunho da herança portuguesa em Java, Solor e Flores, nomeadamente.

E, até na “costa dos piratas”, como outrora era designado os actuais Emirados Árabes Unidos, são muito disputadas umas lutas em tudo semelhantes às tradicionais chegas de bois no Barroso.

Importa, pois, encararmos o folclore como uma realidade dinâmica que influência e é influenciado pela comunicação entre os povos, o contacto das suas experiências e realidades, a partilha de conhecimentos e saberes.

E, tendo em vista o percurso histórico dos portugueses e a sua proverbial tolerância, o nosso folclore registou naturalmente maior nível de interpenetração noutras culturas dos povos com quem contactámos ao longo da história do que o folclore de qualquer outro povo europeu.

É a nossa condição de povo predestinado a erguer uma nova civilização baseada no respeito mútuo e no direito à diferença que há-de aproximar os povos.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem de destaque

 

O Folclore e o Meio Ambiente | Textos e opiniões

 

Desde sempre, o meio ambiente exerceu sobre a humanidade a mais decisiva influência, determinando as condições da sua fixação e moldando o seu carácter, factores que se reflectem nas suas formas de vida e na sua cultura, incluindo no seu próprio folclore.

Foi a possibilidade de cultivar solos mais férteis que levou a Homem a desenvolver as práticas agrícolas e, progressivamente, abandonar o nomadismo.

De igual modo, a procura de locais mais amenos onde a sobrevivência não é tão dificultada fê-lo descer às planícies e concentrar-se junto ao litoral e nas margens dos grandes rios, utilizando estes como vias de comunicação.

A natureza da paisagem reflecte-se no estado de alma dos indivíduos, transmitindo-lhes sentimentos de grandeza, alegria ou melancolia consoante a respectiva fisionomia.

De igual forma, também o estado do tempo influi no comportamento humano, condicionando não somente a sua actividade como as suas próprias reacções psíquicas pois, não é sem júbilo que vemos chegar os dias radiantes da Primavera e o desabrochar da natureza ou, ao invés, sem alguma angústia que observamos o aproximar dos dias soturnos do Inverno.

E, se o camponês passa a vida a observar atentamente o céu procurando adivinhar as variações do tempo, é o pescador que mais intensamente vive na dependência dos elementos meteorológicos – ainda que ambos vivam à mercê das condições meteorológicas, é sobretudo das condições do tempo que depende a segurança e a própria vida do homem do mar!

Sobre as chaminés das casas, nos campanários das igrejas e no capelo dos moinhos, os cata-ventos indicam-nos a direcção dos ventos e, o conhecimento adquirido por meio da observação constante dos fenómenos naturais, é oralmente transmitida de forma poética ao longo de sucessivas gerações.

E, por mais evoluída do ponto de vista técnico que a moderna meteorologia se apresente, com recursos a avançados processos de observação e registo por satélite, ela jamais dispensa o recurso à sabedoria popular e aos mais rudimentares instrumentos para medir a intensidade e a direcção do vento, ainda que lhe tenham adicionado componentes electrónicos para quantificar as medições efectuadas.

É a paisagem alegre e ridente do Minho, com o sol iluminando as viçosas e verdejantes veigas onde pastam os bois pachorrentos, a principal responsável pelo carácter jovial do minhoto, o qual transmite o seu modo de ser bastante peculiar através da exuberância das suas romarias, do colorido dos trajes, da música e da forma animada como cantam e ainda da graciosidade do seu artesanato.

E, à medida que nos afastamos do litoral, vai a paisagem adquirindo novas tonalidades de cor ao mesmo tempo que o traje e o carácter adquirem uma maior sobriedade.

E, do Minho sigamos para as agrestes serranias de Trás-os-Montes e da Beira Alta ou desçamos às melancólicas searas de trigo do Baixo Alentejo ou à vastidão da lezíria ribatejana e encontramos, uma vez mais, a comunhão perfeita entre o Homem e o meio que o rodeia.

Não admira, pois, que a paisagem, as plantas, os animais e o estado do tempo estejam sempre presentes no folclore uma vez que integram o meio que nos rodeia e constituem elementos essenciais à sobrevivência do Homem, sendo por esse facto fontes de inspiração no acto de louvar a Criador por meio dos talentos que Ele nos legou.

Procurar degradar ou mesmo destruir o nosso meio natural, para além do que tal representa em perda de qualidade de vida, equivale a fazer secar a fonte onde os poetas vão beber a sua sabedoria, o mesmo é dizer os temas do folclore que o povo cria.

Sem pretender contrariar a imparável marcha dos tempos, a preservação de formas de vida saudáveis que pressupõem o contacto com a natureza e a manutenção de costumes antigos não é incompatível com o progresso e a modernidade.

Antes pelo contrário, a evolução tecnológica e das relações sociais prenunciam já um futuro caracterizado pelo regresso às origens e às coisas simples da vida, sem o mesmo implicar necessariamente a renúncia aos bens e ao conforto produzidos pela sociedade moderna.

E, assim sendo, poderá o folclore vir a ser retirado das vitrinas do museu para onde foi remetido e tornar-se novamente um produto dinâmico da imaginação e criatividade do próprio povo!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

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