Tomaz Ribas | Pessoas

Tomaz Ribas

Tomaz Emídio Leopoldo de Carvalho Cavalcanti de Albuquerque Schiappa Pectra Sousa Ribas

Escritor e etnógrafo (n. Alcáçovas, Viana do Alentejo – 20.6.1918 / m. Lisboa, Campolide – 21.03.1999).

No Conservatório Nacional concluiu o curso especial de Dança e Coreografia. Foi professor no Teatro Nacional de S. Carlos e no Instituto de Novas Profissões. Cultivou o jornalismo, fazendo crítica de Teatro e de Ballet. Praticou encenação coreográfica e teatral e participou em movimentos teatrais de vanguarda.

De 1977 a 1986 foi Delegado no Algarve da Secretaria de Estado da Cultura, tendo sido depois nomeado para a Comissão Instaladora da Escola Superior de Dança, do Instituto Politécnico de Lisboa.

Estreou-se nas letras com o volume de poemas Monotonia, 1942. Entre outras obras, publicou Montanha Russa, 1946, e O Cais das Colunas, 1959 (romance), O Primeiro Negócio, 1955, e Giovanna, 1965 (contos e novelas), Roberto e Melisandra, 1952 (teatro), O Que É o Ballet, 1958 (ensaio), e Ana Pavlova,1961 (biografia). (1)

Foi Chefe da Divisão de Etnografia e Folclore do INATEL, membro do Conselho Científico e Orientador de Seminários da Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa, membro da Secção Portuguesa do CIOFF – UNESCO, etc.

Foi Comendador da Ordem de Mérito e Doutor Honoris Causa pela Universidade da Dança (Paris).

Principal bibliografia publicada

Na área do Folclore e da Etnografia, particularmente da Dança, publicou:

Danças Populares Portuguesas

– Danças do Povo Português

– Introdução ao Estudo das Danças Populares de Cabo Verde

– Introdução ao Estudo das Danças da África Portuguesa

– O Teatro Popular de São Tomé e Príncipe

– O Tchiloli – Teatro Clássico Popular de São Tomé e Príncipe

– Aspectos da Etnografia e do Folclore da Nazaré

– Guia de Recolha de Danças Populares

– O Teatro Popular Tradicional Português

– Monografias da Dança Folclórica da Europa

Danças Populares Tradicionais Portuguesas

– Tentativa de uma Classificação das Danças Populares Portuguesas

– Bosquejo histórico das Danças Tradicionais Portuguesas.

(1) Fonte: “O Grande Livro dos Portugueses” – Círculo de Leitores

Augusto Gomes dos Santos | Pessoas

Augusto Gomes dos Santos

(Arcozelo, 23.07.1924 – Arcozelo, 9.07.2011) dedicou mais de 40 anos da sua vida à divulgação do folclore, da etnografia e das tradições populares portuguesas.

Fundou a Federação do Folclore Português em 1977. Foi Presidente da Direcção desde a sua fundação até 2004, e depois foi seu Presidente Honorário.

Dirigiu diversos Ranchos em Arcozelo, e organizou/coordenou, durante muitos anos, o Festival de Folclore Nacional do Algarve.

Prestou apoio técnico a diversos Grupos de Folclore das Comunidades Portuguesas existentes pelo mundo, particularmente

– no Brasil,

– no Canadá,

– nos EUA,

– em França,

– na África do Sul

– e em Macau,

países onde efectuou diversas e importantes acções de formação.

Se salientar a organização e realização de dois Congressos de Folclore na Madeira em pareceria em o Grupo de Folclore de Ponta do Sol: o 1º congresso em 1994 sobre o lema “O folclore numa sociedade em mudança”, e o 2º congresso em 2001, subordinado ao tema “Folclore – Preservar é Vencer”.

Integrado nas comemorações dos 500 anos da Ponta do Sol, em 2001, Augusto Gomes dos Santos foi o grande responsável pela ida de quase 500 pessoas, de Portugal Continental e da Região Autónoma dos Açores, para participarem na 1ª Exposição de Trajes ao Vivo realizada na Madeira – Funchal e Ponta do Sol.

Papel fundamental no movimento folclórico

Sem dúvida que o Comendador Augusto Gomes dos Santos teve um papel fundamental e extremamente meritório no apoio a diversos Grupos e Ranchos Folclóricos.

Com eles iniciou e desenvolveu um esforçado trabalho de formação, através da realização de Colóquios, Encontros e Jornadas de Folclore e Etnografia, com o objectivo de uma maior autenticidade etnográfica, e de orientação para a pesquisa, recolha e divulgação dos aspectos essenciais da Cultura Popular Portuguesa.

Colaborou na imprensa escrita, através da publicação de artigos nos jornais “O Comércio do Porto” e “Jornal de Notícias”, e participou em inúmeros programas de rádio e na TV.

Pela sua dedicação à causa do Folclore e da Etnografia do nosso país, o Comendador Augusto Gomes dos Santos, recebeu as seguintes condecorações:

Comenda de Mérito – atribuída pelo Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio.

Medalha de Mérito Cultural – atribuída pelo Ministro da Cultura, Dr. Manuel Maria Carrilho.

Cruz de Malta – atribuída pela Federação das Colectividades de Cultura e Recreio de Vila Nova de Gaia.

Medalha de Mérito (Classe Prata) – atribuída pela Câmara Municipal de Lousada.

Medalha de Mérito Municipal (Classe Ouro) – atribuída pela Câmara Municipal de Baião.

Síntese biográfica elaborada a partir de elementos recolhidos na internet

Danças etnográficas durienses | Textos e opiniões

Danças etnográficas durienses

A dança etnográfica é vida. E vida sem gesto é maneta e perneta.

A Etnografia, em termos de dança, é traje, música, ritmo e gesto. Vou referir um pouco o gesto.

Não vou falar das danças orientais de mãos postas ao peito, cabeça inclinada em concentração e gestos espiritualizados a cheirar ao Nirvana.

Também não vou falar do ritmo dos povos africanos a inclinar o corpo e a atenção para a terra criadora.

Não vou falar das pinturas e das máscaras usadas em certo folclore, também africano, a querer lembrar divindades e os espíritos dos antepassados.

Também não vou rir, em condolência, com as danças fúnebres da Africa do Sul de cor negra que temos “televisto”, com o arcebispo Tutu a dançar reverendissimamente e paramentado como mandam as rubricas. Ninguém se deve rir de coisas sérias e aquilo para eles é grande ritual.

A dança quando etnograficamente verdadeira é um palco de vida.

Gostaria de referir as belíssimas danças durienses com o bater dos pés a lembrar a “pousa” e a subida aos socalcos e com o gesto largo e balanceado do homem das redes e do rio.

Em tempos e em Godim, terra onde se tem trabalhado muito e bem, o presidente da Federação do Folclore Português pediu-me colaboração para uma Revista da especialidade que se ia criar.

Não sei se a ideia da Revista abortou, morrendo antes de nascer, mas ficou-me a sensação de não poder colaborar por falta de tempo e por uma certa preguiça que sempre tive em escrever. Aliás para se ser bom etnógrafo é preciso ser primeiro bom etnólogo. Só deve ensinar quem aprendeu ou estudou. Dou a vez a quem de direito.

O que é bom e o que cheira mal!

Ao falar da dança etnográfica alto-duriense devo dizer que ela não escapa à destruição que por aí campeia como praga ou epidemia.

Grupos que se atribuem de Ranchos Folclóricos e nós não vemos de onde é o folclore. O traje, a música, o ritmo e o gesto não dizem de onde são ou até dizem que não são.

Certos responsáveis chegam ao cúmulo de arranjarem letras e músicas de sua lavra. São inimigos piores que a discoteca, e também não vou rir, pois ninguém se deve rir de coisas sérias.

Dentro de alguns anos, os etnólogos vão ter tremendas dificuldades em separar o que é bom do que cheira mal…

Haja muito folclore, mas do verdadeiro! Que possamos ver no traje, na música, no ritmo e no gesto a história do nosso povo! Que possamos ver as nossas raízes, afinal

….

«les trés belles danses de Douro avec le frapper des pieds qui nous rapellent la “pousa” et la montée aux terrasse, et avec le geste large et balançé des filets et du fleuve».

«the beautiful Douro folk dances where the stamping of dancer’s feet remind es of the “pousa” and the climbing into the terraces, while their gestures suggest the swinging of nets and the river».

Fonte: Subsídios Históricos e Etnográficos do Alto Douro, Pe Luís Morais Coutinho | Imagem: Os vindimadores dançam durante a entrega do ramo ao patrão – tradição que marca o final da vindima.

Sobre “Etnografia da Beira” de Jaime Lopes Dias

Carta-prefácio a Etnografia da Beira

Ex.mo Sr. Dr. Lopes Dias

Quis V. Ex honrar-me pedindo-me um artigo que servisse de prefácio à sua Etnografia da Beira. Na impossibilidade de, por falta de tempo, o escrever, envio-lhe esta simples carta.

Para que seria preciso um prefácio meu a uma obra que por si mesma se impõe ao bom acolhimento do público?

De facto, há nela óptimo conteúdo, apresentado com singeleza e naturalidade, que tornam agradável a leitura ainda aos não especialistas.

Quem, sendo Beirão, e conhecendo as lendas, as usanças e as superstições que V. Ex.ª enumera, não se recreará de repassar pela memória, assim elegantemente agrupadas, tradições com que foi embalado? E a quem, não o sendo, ou dedicando-se longe à Etnografia, não agradará ver aqui reunidos tantos elementos de estudo?

Coisas comuns a outras regiões

Muita cousa que V. Ex publica é naturalmente comum a outras regiões, por exemplo, a lenda do «monte do trigo», que se localiza também ao pé de Santarém, as «janeiras», a «serração da Velha», o «Natal», grande parte das superstições da secção que intitulou «Vária» – o que tudo se encontra «passim». Porém nas repetições há de ordinário variantes aproveitáveis.

A «maldição de Ródão», p. 17-21, é por exemplo, variante da «lenda de Gaia», tal como vem nos «Nobiliários», p. 180-181, século XIV.

Tanto quanto sei, ou me pareça, creio não estarem ainda arquivadas, ou estarem pouco divulgadas, notícias como as das danças, de que fala a pag. 85-96, e as de «deitar os moios ou o bom ano». Acho muito curioso o que diz do casamento, a pag. 101-103, de «chorar o Entrudo», a pag. 123, das «caqueiradas», a pag. 125, das «alviçaras», a pag. 129.

Os versos de pag. 93 têm a forma de «leixa-pren», como nos desafios. Acerca dos gambozinos pode ver uma curta nola de Sequeira Ferraz na «Revista Lusitana» III, 371. O oferecimento de «telhas roubadas» a santos, pag. 97, pertence a extensa série de superstições muito espalhadas por toda a parte: a elas já aludi algures, e outros paralelos poderia aqui juntar.

À data da instituição das Festas do Espírito Santo dediquei uma nota no «Mês de sonho», pag. 76. Acerca desta festa coligi há anos, também na Beira-Baixa, longa notícia e versos (Vide-Monte), que conservo inéditos. O doar o rei ao pastor, pag. 32, todas as terras que avistasse, tem outro paralelo em Portugal: e talvez se relacione com costumes de direito antigo.

A doença a que o povo dá o nome de «cobro», palavra que julgo sinónima de «cobrão», pag. 155, é a que os médicos chamam «zona».

Sugestões de enquadramento

Talvez as maldições de 143-145, que V. Exª inclue na secção das Superstições, coubessem melhor na das Lendas. Os cantos de pag. 138-139 devem pertencer a um antigo auto do Natal. Parece-me que na canção de pag. 91,

Senhora dos altos Céus,
Minha rosa encarnada,
Lá «ao baixo Alemtejo»
Chega a vossa nomeada,

onde «baixo» será com «B», a lição primitiva seria: «Lá baixo ao Alentejo», porque a expressão geográfica «Baixo-Alentejo» é bastante recente. (Na «Circumscripção dos districtos», 1868. pag. 126, lê-se «Alemtejo-Baixo»).

Receba V. Ex. os meus parabéns pelo trabalho com que concorreu para o progresso da nossa Etnografia; o meu desejo é que não só V. Ex. dê à estampa quanto antes o volume ou volumes que tem em mente ainda publicar, senão que não esmoreça na investigação, como a tantos outros tem acontecido.

Precisamos, cada vez mais, de estudiosos, como V. Ex.”, que saibam trabalhar com amor e consciência.

Campolide (Lisboa), 24-X-1926.

J. Leite de Vasconcellos

Introdução

À memória da minha mãe

Desde as mais remotas idades que o homem procura conhecer o que o cerca.

Deste sentimento de curiosidade nasceu o conhecimento simplista; do conhecimento simplista o conhecimento reflectido, a indagação das causas produtoras dos fenómenos em sua forma e finalidade.

Surgiram assim as ciências; primeiro as matemáticas, a história, a arqueologia, etc.; mais tarde a sociologia e a etnologia, seguindo-se desde logo, a Etnografia, para o estudo dos povos e das famílias, nos seus costumes, aptidões, génios e crenças.

E por isso, dada a sua importância, dado o seu indiscutível valor histórico, sentimental e prático, ela atingiu, em curto prazo, lugar de relevo.

É que, pela Etnografia, deviam descobrir-se indústrias e artes ignoradas, processos rotineiros de labor industrial, artístico e agrícola a que as estâncias oficiais têm podido pôr termo enviando às diversas regiões técnicos especializados a ensinarem processos novos de maior utilidade e rendimento

Pela Etnografia têm-se desencantado, em lugarejos ignorados e inacessíveis, velhas curandices ligadas a tantos outros processos anacrónicos de curar doenças, a que muitas vezes não falta o uso nocivo de mezinhas.

Em consequência dos estudos etnográficos têm podido, o legislador, o político e o sociólogo, aproveitar as virtudes que eles revelam, combater defeitos e, enfim, dirigir ou educar e não contrariar tendências naturais de reconhecida utilidade.

Na Etnografia, estudo dos costumes, encontra o juiz precioso elemento de colaboração para a aplicação das penas, e, quantas vezes, por disposição da própria lei, aplica o costume como se lei fosse!

 

Sugestão de leitura: Vale da matança – Rio Ponsúl (Lenda)

 

A Etnografia e os educadores

Na Etnografia encontram os educadores maravilhosos elementos para a educação das crianças, porque Ela lhes vai descobrindo e fornecendo velhos contos, velhos jogos, velhas lendas, quantas vezes repassadas de sentimento patriótico e de sãos princípios morais!

Mas, a civilização progride e ameaça tudo transformar. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas. Diz, e muito bem, com a sua indiscutível autoridade de mestre, o sábio dr. Leite de Vasconcellos: «quem, vivendo hoje, nasceu nos meados do século XIX, lidou com patacos, cruzados e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona – nada disso existe já hoje!».

Dez, vinte, cinquenta anos bastam para fazer esquecer ou transformar, adulterando-os, costumes velhos, usanças antigas.

Tem-se dito e repetido que é preciso e urgente recolher e guardar com cuidado e com carinho o que ainda nos resta, para que nem tudo se perca.

O presente volume de «Etnografia da Beira» não é mais que a minha quota parte de trabalho e de investigação referente ao distrito de Castelo Branco.

Possível é que às páginas que vão seguir-se outras se sucedam.

Oxalá os meus conterrâneos queiram continuar a dispensar-me o seu auxílio e o seu incitamento.

Jaime Lopes Dias

Fonte: Etnografia da Beira, de Jaime Lopes Dias (textos editados e adaptados)

Folclore e Etnografia | Do alto da guarita

Folclore e Etnografia

Desde sempre existe quem considere “etnografia” como sinónimo de “trajos usados no folclore”, e a Federação considera-a como a “disciplina que descreve os povos/comunidades no que concerne aos seus usos, costumes, índole e cultura”.

Mas se há situações em que se respeitam diferentes conceitos, em meu entender estes não o são.

Sendo o folclore “a expressão das vivências das gentes de antigamente, no tempo em que a sua vida ainda não era tão influenciada pelos usos costumes de outros povos”, a “etnografia” é única e precisamente “o estudo do folclore”, como aliás o citam diversos dicionários.

Recordo-me que, procurando saber a visão que outros colegas destas andanças tinham de assuntos que considerava pouco clarificados, coloquei a seguinte questão:

Se estiver um “grupo” a actuar, onde está o folclore e onde está a etnografia?

E a resposta que me convenceu (Aurélio Lopes) foi: depende do Grupo.

O produto (aquilo que apresenta ou representa) pode, em termos otimizados, ser tudo folclore. Ou ser só uma parte. Ou até, não ser nada.

Etnografia não é um produto

Quanto à Etnografia, não “vemos” nada, em nenhuma circunstância.

Isto porque a Etnografia não é um produto, não é um conjunto de padrões ou de elementos culturais, mas simplesmente uma técnica ou um conjunto de técnicas de que fazem parte as entrevistas que se fazem aos informantes, a observação direta e outras que aqui não referimos para não confundir mais.

Não é um produto! Não é aquilo que se representa, melhor ou pior. É a metodologia de pesquisa de um de que o grupo se serviu para obter os dados que está a apresentar na dita autuação.

E porque considero que “tradição” nem sempre significa “tradicional”, acrescentava: e a “tradição”, onde está? E também aqui a resposta é igual à do “folclore”: pode ser tudo, ou só uma parte, ou até não ser nada.

Porque a vertente tradicional é uma das componentes daquilo a que chamamos Folclore“.

Dito de outra forma, a cultura popular que consideramos folclore tem de ser tradição, tem de ser tradicional. Pois só a tradição permite a usualidade e só a usualidade permite a aculturação/folclorização dos padrões culturais.

Temos assim que o tradicional é sempre popular, mas o popular nem sempre é tradicional.

Lino Mendes | Imagem do RFVR

A Etnografia e as Artes Gráficas – Opinião

Etnografia e Artes Gráficas

Não existe praticamente festa ou romaria, feira tradicional ou festival folclórico que não tenha o seu próprio cartaz a anunciar o evento e a divulgar o respectivo programa.

Desde os mais simples aos melhores elaborados do ponto de vista gráfico, todos revelam uma preocupação de natureza publicitária. Todos pretendem dar a conhecer a iniciativa e garantir o seu êxito em termos de participação do público.

Alguns, porém, acrescentam também a inclusão de uma elevada quantidade de anúncios como forma de garantir os patrocínios que vão suportar as despesas da realização da festa.

Para além do cartaz propriamente dito, existem organizações que produzem outros suportes publicitários em papel, como folhetos e pequenos opúsculos contendo o programa dos festejos.

Toda esta divulgação deve ser ponderada do ponto estético como financeiro a fim de que possam corresponder da melhor forma aos objectivos pretendidos.

Antes de mais, deve atender-se a que o cartaz, destinado a ser afixado em locais públicos, para além de constituir um meio de publicidade visual, possui um valor estético e artístico, adquirindo por essa via também interesse histórico.

Ele traduz formas de representação que têm a ver com as formas artísticas de cada época. Tal como a visão do artista acerca do objecto publicitário e da própria comunicação ao exprimir ideias e sensações através da representação gráfica.

Como exemplo, inúmeros cartazes produzidos em meados do século XX alusivos ao turismo ou a determinadas festas e romarias que contavam com um especial patrocínio do Estado Novo, revelam uma notória preferência pelas formas geométricas que caracterizaram o modernismo.

Nos casos em que o excesso de publicidade e a falta de bom gosto prejudicam a concepção gráfica da publicidade, é o próprio evento que sai desfavorecido ao ser transmitida uma imagem de uma iniciativa que em nada o valoriza.

Ao fazer, fazer bem!

Em tais situações, para além de prejudicial, a divulgação que é feita apenas se traduz em encargos financeiros que a organização tem de suportar e que nem sempre são compensados com os patrocínios.

Por outro lado, a sua afixação indiscriminada apenas resulta em poluição visual a contribuir para a degradação da localidade onde tal forma de divulgação ocorre.

Em regra, a produção gráfica é feita por meios litográficos ou seja, através de offset.

Este meio de impressão possui custos fixos com

– fotocomposição,

– revelação de películas,

– montagem

– e transporte para a chapa e os respectivos materiais

pelo que os seus custos apenas diminuem na medida em que as tiragens são mais elevadas.

A isto acresce o facto da generalidade do material publicitário ser feito a cores. Implica a selecção de cores – ciao, amarelo, magenta e preto – e a sua impressão em quadricomia, o que aumenta consideravelmente os seus custos globais.

Não considerando eventuais casos de inclusão das designadas “cores directas” ou “suplementares” que mais não fazem do que onerar os seus custos.

Por conseguinte, este meio de produção gráfica apenas é vantajoso para grandes tiragens, o que em muitos casos representa um desperdício e um gasto desnecessário.

Como alternativa, a impressão digital possui maior interesse para a produção de tiragens reduzidas. Tal convém a pequenas localidades onde a impressão de uma ou duas centenas de cartazes se revela suficiente.

Neste caso, os custos são constantes e, não existindo custos fixos a priori, apenas entram em desvantagem em relação à impressão em offset a partir dos trezentos exemplares aproximadamente.

Trata-se, como é evidente, de um processo de produção que mais convém a organizações que não necessitam de recorrer à utilização de grandes quantidades de publicidade em suporte de papel, tanto mais que é cada vez mais recorrente a utilização da Internet para o efeito.

 

A Etnografia no Postal Ilustrado – Opinião

A Etnografia no postal ilustrado

Desde os tempos mais remotos, o Homem procurou sempre conhecer diferentes terras e culturas, partir à descoberta de outras civilizações e povos com outros usos e costumes. Tendência que foi sempre acentuada com o desenvolvimento da actividade mercantil, nomeadamente as grandes rotas comerciais e o estabelecimento das feiras medievais.

Contudo, o turismo, encarado enquanto mercadoria, só veio a surgir com o aparecimento da sociedade moderna determinado pelo processo de industrialização dos meios de produção e a criação de novos bens de consumo.

O turismo, incluindo as actividades sociais com ele relacionadas, constituiu assim mais um produto que visou a princípio satisfazer os prazeres de uma sociedade burguesa que pretendia ao mesmo tempo a sua afirmação social.

Mais do que reunir conhecimentos, o turista burguês procurava afirmar o seu cosmopolitismo e evidenciava-se como um coleccionador de bizarrias. Entre estas figuravam costumes típicos que se apresentavam estranhos ao senso comum do habitante da cidade que ignorava a existência humana para além do que lhe era dado a observar através das lunetas, nas noites de ópera no Teatro S. Carlos.

É neste contexto que os trajes típicos das diferentes regiões do país surgem como uma curiosidade que é copiada pelas famílias burguesas como disfarces carnavalescos e se multiplicam postais e outras ilustrações retratando tão bizarros costumes para gáudio de pessoas consideradas civilizadas.

O aparecimento do postal ilustrado

O aparecimento do postal ilustrado encontra-se associado ao turismo moderno que teve o seu advento sobretudo a partir dos começos do século XX.

A Revolução Industrial operada no século XIX permitiu uma evolução notável das vias de comunicação, nomeadamente nos meios de transporte ferroviário e fluvial.

Com elas veio também a instalação de grandes hotéis, casinos e outras formas de entretimento para os viajantes. Muitos deles estrategicamente situados no centro das capitais ou junto às estações de comboio.

A partir de então, os países e os continentes tornaram-se mais próximos, encurtando substancialmente o tempo demorado em viagens. Entretanto, surgiu o automóvel e, com ele, a possibilidade de deslocar-se mais facilmente e conhecer novas paisagens.

Beneficiando do progresso então verificado, que veio introduzir novos hábitos na sociedade, as pessoas começaram a viajar. Partiam à descoberta de novas terras e novas gentes, procurando por esse meio também enriquecer os seus conhecimentos em contacto com novas realidades.

À semelhança do que antes se verificava com as estadias nas termas, viajar passou também a constituir uma forma de afirmação do estatuto social das classes mais abastadas.

O desenvolvimento das artes gráficas

Mas a industrialização não se reflectiu apenas no desenvolvimento dos transportes e vias de comunicação. Também as artes gráficas registaram um progresso notável com o desenvolvimento da zincogravura e, mais tarde, o aparecimento da impressão em offset.

Este avanço dos processos de impressão possibilitou um incremento e uma melhoria na qualidade da imprensa. Melhoria que se reflectiu

– na produção de uma maior quantidade de jornais,

– no aparecimento das revistas ilustradas e publicações para viajantes

– assim, como não podia deixar de suceder, na invenção do postal ilustrado.

Ao visitar um determinado local, o viajante tem a possibilidade de enviar à família ou aos amigos uma recordação do local por onde passou, realçando os aspectos locais que mais lhe apraz visitar e, simultaneamente, fazer-se notar na sociedade. Em consequência, o postal ilustrado tornou-se um excelente meio de promoção turística.

O postal ilustrado nunca pretendeu constituir-se como um registo histórico de um acontecimento ou sequer da imagem num determinado espaço temporal.

De resto, os seus editores nunca adquiriram o hábito de inserirem a data de edição. Isto porque, destinando-se a serem vendidos, os mesmos por vezes permaneciam nos expositores por largos períodos de tempo até se esgotarem as edições.

Porém, com o decorrer do tempo, as imagens que o postal reproduz vieram de certa forma a tornar-se um documento histórico. Pois acabaram por registar uma realidade que existia ao momento em que as imagens foram captadas para serem reproduzidas no postal.

O postal ilustrado não é fiável como documento histórico

Não obstante o registo constante do postal ilustrado poder documentar um determinado momento histórico, ele não é inteiramente fiável. Dado que mesmo registo é propositadamente alterado pelo editor segundo critérios estritamente comerciais.

Épocas houve que as cores quentes eram acentuadas e introduzidos elementos não constantes como nuvens e flores para preencher os espaços vazios e conferir um colorido mais atraente. Isto, da mesma forma que actualmente se procede a autênticas operações de limpeza com o recurso a programas informáticos de tratamento de imagem.

Não dispondo o postal ilustrado de data de edição, apenas é possível calculá-la aproximadamente através da imagem que reproduz ou ainda das técnicas utilizadas e dos grafismos empregues. Tal sucede com a utilização da fotografia, a impressão a preto, as diferenças de formatos e tonalidade das cores, a serrilha e outros elementos estéticos aplicados na sua produção.

Todos esses aspectos encontram-se directamente relacionados com a evolução dos meios de produção gráfica e ainda dos gostos gráficos e modas utilizadas em cada época.

Apesar das mudanças ocorridas, os motivos etnográficos nunca deixaram de constituir motivo de figuração no postal ilustrado.

O viajante é sempre atraído pelo colorido do traje tradicional ou pela informação de natureza etnográfica que nele está contido.

Não raras as vezes, o elemento etnográfico é mais representativo do que qualquer outro em relação a uma determinada região ou país. Dá-se como exemplo, nomeadamente, o traje à vianesa.

É indiscutível que este e o galo de Barcelos são mundialmente mais conhecidos do que muitos monumentos do nosso país!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Os ex-libris e sua importância para a Etnografia

Os ex-libris e sua importância para a Etnografia

Decorreu, em tempos, no Museu de Marinha, em Lisboa, uma interessante exposição acerca de “Ex-Líbris do Mar”. (…)

Organizado pelo Grupo de Amigos do Museu de Marinha, o certame apresentou uma valiosa colecção agrupada por diferentes núcleos temáticos como os Descobrimentos e o Império, monumentos, embarcações, náutica, faróis.

Pelas razões óbvias, despertou-nos particular interesse o tema relacionado com as gentes do mar e outros que incluem motivos etnográficos.

Os ex-líbris constituem marcas de posse que os bibliófilos utilizam para assinalar os seus livros, geralmente formados por pequenas vinhetas coladas no verso da capa ou nas folhas de guarda. Trata-se de uma expressão de origem latina que designa a divisa ou o sinal que utilizam.

símbolo pessoal, estampado ou impresso,…”

No dizer do publicista Fausto Moreira Rato, trata-se do “símbolo pessoal, estampado ou impresso, geralmente em papel – de desenho heráldico, alegórico, simbólico, ornamental ou falante, onde figura também o nome e, facultativamente, a divisa do bibliófilo – que se cola no verso da capa de cada livro possuído para garantir a pertença da obra e favorecê-la com este derradeiro requinte de arte”.

Entre nós, tal prática remonta ao século XVI, pertencendo a Wolfgang Holzschuher, alemão que viveu em Portugal e foi nobilitado por D. Manuel I, o mais antigo ex-líbris até ao momento conhecido em Portugal.

Produzidos através das mais variadas técnicas, desde a xilogravura e a zincogravura à serigrafia e à moderna fotocópia, alguns exemplares são verdadeiras obras de arte às quais a que, não raras as vezes, estão associados consagrados artistas.

A evolução dos ex-líbris

Por conseguinte, também a sua evolução reflecte o progresso das novas tecnologias, tornando o seu uso cada vez mais acessível e generalizado a todos quantos prezam o livro não apenas como repositório do conhecimento mas também como obra de arte.

E obra de arte concebida desde a sua composição e paginação à qualidade de impressão e ao acabamento, incluindo neste a qualidade da sua encadernação, por vezes exibindo nervuras e dourados de primoroso requinte.

Para além do interesse e da intensa procura que os ex-líbris suscitam no mercado do coleccionismo, eles representam ainda um importante documento de carácter iconográfico que contribui nomeadamente para identificar a origem da propriedade dos livros, a natureza das bibliotecas e a sua associação com a vida e os valores que os norteiam ou ao meio a que se encontram ligados.

Motivos locais e etnográficos

Por essa razão, encontramos os mais variados motivos locais e etnográficos reproduzidos nalguns ex-líbris como sucede com os que identificam pescadores e ovarinas, embarcações tradicionais e representações estilizadas da filigrana minhota com versos de António Feijó.

A criação de um ex-líbris e a sua disponibilização pode constituir um meio através do qual, as bibliotecas ligadas aos municípios, às associações e museus etnográficos, podem divulgar os seus valores sintetizados na representação iconográfica que é feita por seu intermédio.

O incentivo ao seu uso e estudo pode ainda contribuir para a valorização da arte e do próprio livro, também como elemento de estudo.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Na próxima página pode ver diversas gravuras extraídas do catálogo da Exposição “Ex-Líbris do Mar

 

António Aragão | Pessoas ligadas à Etnografia

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia

Poeta, romancista, pintor, historiador e escultor – nasceu na ilha da Madeira, em S. Vicente, a 22 de Setembro de 1921. Faleceu no Funchal a 11 de Agosto de 2008.

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Biblioteconomia e Arquivismo pela Universidade de Coimbra.

Estudou Etnografia e Museologia em Paris, sob a orientação do Director do Conselho Internacional de Museus da UNESCO.

Cursou no Instituto Central de Restauro de Roma, onde se especializou em restauro de obras de Arte e estagiou no laboratório de restauro do Vaticano. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Roma.

Inconformado, por vezes excêntrico

Homem de criatividade rica, irrequieto, polémico, inconformado, por vezes excêntrico até, deixou a sua marca pessoal indelével por onde passou.

Era difícil não dar por ele quando metia mãos à obra, quer fosse na investigação da história e da etnografia, quer quando esculpia, pintava ou escrevia.

A proporção do acervo que legou a Portugal, e em particular à Madeira, é muito mais rico, em quantidade e qualidade, do que o reconhecimento e merecimento que devia ter recebido da região e do país.

Desse ponto de vista, ainda está por fazer-se a verdadeira homenagem a António Aragão, apesar de, ainda em vida e num gesto essencial, ter recebido da Câmara Municipal do Funchal uma rua da cidade com o seu nome, onde fica o Arquivo Regional da Madeira, do qual foi Director.

Na área da etnografia efectuou recolhas ao nível da música tradicional da Madeira e do Porto Santo, em 1973, em co-autoria com o professor e músico Artur Andrade, com divulgação em 2 discos L.P.,em 1984.

Como investigador da História da Madeira, publicou:

– Os Pelourinhos da Madeira. Funchal, 1959;

– O Museu da Quinta das Cruzes. Funchal, 1970;

– Para a História do Funchal – Pequenos passos da sua memória. Fx. 1979;

– A Madeira vista por estrangeiros, 1455-1700. Funchal. 1981;

– As armas da cidade do Funchal no curso da sua história. Funchal. 1984;

– Para a história do Funchal – 2ª Edição revista e aumentada. Funchal. 1987;

– O espírito do lugar. A cidade do Funchal. Lisboa. 1992.

Texto adaptado da Wikipédia | Imagem de destaque

Margot Dias | Pessoas ligadas à Etnografia

Margot Dias

De seu nome de solteira, Margot Schmidt, e nacionalidade alemã, nasceu a 4 de Junho em 1908 em Nuremberga, onde seu pai era Braumeister numa fábrica de cerveja. Morreu em Oeiras, aos 93 anos.

Foi em 1940, no início da guerra, que Margot Schmidt, uma pianista com uma carreira promissora à sua frente – obteve o diploma do Curso Superior de Música da Academia Nacional de Música em Munique-, conheceu António Jorge Dias, que na altura assegurava o leitorado de cultura portuguesa na universidade dessa cidade alemã.

Casaram-se no ano seguinte, tiveram o primeiro de três filhos e decidiram viver em Portugal. Margot Dias trocou a Alemanha por Portugal e o piano pela investigação científica.

O seu trabalho foi pioneiro na área da etnomusicologia, do estudo da cultura material e do parentesco.

Uma notável equipa de trabalho

Com Jorge Dias e o grupo por ele formado, que incluía Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, constituíram uma equipa de trabalho. Num escasso período de tempo, esta equipa revolucionou os estudos etnológicos e antropológicos em Portugal.

Ainda no início da década de quarenta, Margot Dias ocupou-se do cancioneiro que integra a obra de Jorge Dias sobre Vilarinho das Furnas. Esta obra veio a constituir a tese de doutoramento em Etnologia do marido, apresentada em 1944 na Universidade de Munique.

Vilarinho das Furnas era uma aldeia da serra do Gerês, no Minho, que seria mais tarde sepultada pelas águas do rio Homem.

A partir daí, foi a companheira infatigável de vida e de trabalho deste antropólogo, enveredando por uma carreira ao seu lado, na área da investigação etnológica e etnomusicológica.

Diversos estudos

Em 1947, Jorge Dias integra o Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, então sediado no Porto.

Entre 1957 e 1962, o casal Dias, juntamente com Manuel Viegas Guerreiro, integra a Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português. Realiza trabalho de terreno em Moçambique, do qual resultaria a publicação dos quatro volumes de Os Macondes de Moçambique.

Margot Dias ocupou-se dos estudos relativos ao parentesco e à cestaria, completando um trabalho pioneiro em Portugal no tocante a estas matérias.

Em 1962, Jorge Dias criou o Centro de Estudos de Antropologia Cultural, actual Centro de Antropologia Cultural e Social do Instituto de Investigação Científica Tropical. Extinta a Missão das Minorias Étnicas, aquele Centro passou a herdeiro dos materiais nela recolhidos, sendo um dos objectivos deste centro a organização de um museu de etnologia.

A partir daqui, o casal Dias e os seus companheiros conseguem, graças a uma grande unidade e espírito de equipa, disciplina rigorosa e amor ao trabalho, proceder a uma exaustiva investigação de terreno em Portugal. Desta investigação resultaram mais de uma dezena de obras publicadas.

Também procederam a recolhas que constituíram o acervo do Museu de Etnologia do Ultramar. A estas juntaram-se os objectos oriundos da missão e os que viriam a ser recolhidos noutros contextos etnográficos por Vítor Bandeira e demais colaboradores.

Imagem de destaque | Texto elaborado com recolhas feitas na internet

 

Etnografia: como estudar o passado na atualidade?

Etnografia Portuguesa

A partir de meados do século XIX, a mecanização da produção e o progresso dos meios de transporte e das comunicações produziram uma profunda alteração dos hábitos e das mentalidades.

As atividades artesanais entraram em declínio, as populações dos meios rurais deslocaram-se para as cidades e certos costumes foram caindo em desuso face às modas burguesas quase sempre importadas do estrangeiro.

O trabalhador rural trocou a enxada pela picareta e a liberdade do campo pela clausura fedorenta da fábrica. O ruído ensurdecedor das máquinas sufocou os alegres cantares com que marcava o ritmo da lavoura.

O linho deixou de ser semeado e os teares caseiros perderam o uso. As moças deixaram de bordar e até as concertinas passaram a tocar rapsódias mais dolentes a fazer lembrar as notas tristes do fado.

Em Braga, terra de velhos santeiros, surgiu uma fábrica de chapelaria que passou a cobrir a cabeça dos homens no Minho.

Para um canto da lareira ficava o velho barrete de malha, a partir de então considerado indigno de ser apresentado à sociedade.

E, com a indústria, veio o restante vestuário, a alimentação, os instrumentos musicais e, por fim, a memória dos tempos outrora vividos.

Os novos tempos trouxeram consigo novos gostos: a saia curta, o penteado de franja, o verniz e as unhas postiças, a maquilhagem e toda a sorte de bijutaria de adorno para as mulheres.

Os sapatos de verniz e o chapéu “à toureiro” para os homens, com faixa à cinta a pender quase até aos tornozelos.

Surgiu o plástico e a borracha vulcanizada. A viola braguesa cedeu o lugar à guitarra clássica.

E a sua influência foi de tal ordem que nem o folclore escapou, frequentemente apresentado como tendo feito parte de um universo que o antecedeu.

Ao mesmo tempo surgiu a música gravada e, com ela, os altifalantes que com o seu ruído estridente puseram fim à pacatez das aldeias.

Vendo acabar as antigas formas de vida de um mundo que desaparecia sob os alicerces de uma nova sociedade industrializada, eis que surgiram os estudiosos que procuraram inventariar tão precioso património.

Diversas recolhas…

Recolheram as lendas e os contos tradicionais, as receitas de cozinha e as curas das maleitas, os provérbios e as superstições, os trajes e instrumentos musicais, utensílios domésticos e ferramentas de trabalho.

E, para que o próprio povo não se esquecesse da sua própria identidade, criaram grupos de folcklore, recorrendo paradoxalmente a um estrangeirismo para designar aquilo que, afinal de contas, era genuinamente português.

Em meados do século passado, o gravador de fita magnética e o filme “super 8 mm” possibilitaram o registo do som e das imagens, dando assim um enorme impulso à recolha etnográfica.

O seu aparecimento verificou-se a tempo de obter o testemunho da última geração que vivera uma época cuja memória se pretendia preservar.

A partir de então, o estudo teria de passar a ser feito com base em fotografias antigas, documentos escritos, peças de interesse museológico e, sobretudo, no levantamento entretanto efetuado pelos investigadores no domínio da etnografia, antropologia e etnomusicologia.

Recolha junto do povo

A recolha etnográfica não é feita nas lojas de artigos de turismo, quais lojas de pronto-a-vestir “ranchos folclóricos” com trajes de lavradeira de todas as cores e feitios, quais deles os mais bizarros.

De igual forma, o método de plagiar outros grupos folclóricos, por mais antigos e conceituados que sejam, não constitui um trabalho sério, porquanto acabam por copiar os erros de que enfermam muitos daqueles que foram criados sob a influência dos folcloristas do Estado Novo.

Sem outra forma de investigação para além do acesso ao material recolhido, o trabalho do investigador requer atualmente o estudo comparado das fontes documentais e das peças museológicas, exigindo-se a compreensão da evolução histórica dos usos e costumes, tanto no que se refere às suas manifestações exteriores como ainda em relação às ideias que marcam cada época.

Sem esforço não haverá trabalho sério e honesto!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História (texto editado)

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