O Calhau do Encanto | Lendas de Portugal

O Calhau do Encanto

A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade.

Lá bem no alto da serra, junto da povoação de Arnal, ergue-se um descomunal fragão, chamado Penedo Negro e também A Capela, por ter um recorte em forma de portão de igreja, forrado de musgo verde e macio.

Os pastores e os viandantes olhavam-no com curiosidade e receio e passavam lá com o credo na boca, pois havia quem dissesse que, à meia-noite, lá dentro, se ouvia um cantar muito triste e arrastado de mulher que, no entanto, ninguém conseguia ver.

Mas, certa madrugada, ainda com estrelas no céu, passou por lá um aldeão, recoveiro de ofício, que ia à Bila fazer compras, como de costume. E justamente quando ladeava o esfíngico penedo, ouviu um ruído surdo semelhante ao ranger de gonzos de pesado portão.

Apareceu um Senhora

Com os cabelos eriçados, olhou para o sítio donde viera o ruído estranho e deu com os olhos numa Senhora muito linda, de sorriso triste mas encantador, como nunca tinha visto, que lhe disse com voz meiga:

– Não tenhas medo e presta bem atenção ao que vou dizer-te. Eu sou uma moura encantada e tenho tanto oiro que não há balanças que o possam pesar. Pois todo este oiro será teu e eu própria irei para tua casa e casarei contigo, se conseguires desencantar-me. Para que isso aconteça, traz-me da Bila uma bola de quatro cantos. Mas toma bem sentido: não a “encertes” por nada deste mundo; se não, dobras-me o encanto.

Dito isto, desapareceu no interior do Penedo Negro e a porta voltou a fechar-se como se abriu.

O bom recoveiro, muito surpreendido com aquela inesperada aparição, retomou a jornada, serra abaixo, sempre a repetir as palavras da linda Senhora que não lhe saía do pensamento.

Mal entrou nas portas da Bila, tratou de mercar a bola de quatro cantos, não fosse o pão acabar cedo, pois era dia de feira. Só depois iniciou as outras voltas. Apreçou, aqui e ali, a mercadoria e fez as compras para si e para os vizinhos. Enfiou o alforge no grosso varapau de marmeleiro apoiado sobre o ombro e pôs-se a caminho de casa, já com o sol a baixar para trás da serra.

De regresso a casa

E, como não tinha comido nada, pois comer na estalagem é um roubo, e a jornada era longa e penosa, sentiu uma vontade irresistível de comer. Mas comer o quê, se só levava a bola de quatro cantos e a Senhora lhe recomendara tanto que a levasse bem inteirinha? E depois ia perder toda aquela riqueza que a Senhora prometera dar-lhe?

Pôs de parte aquela ideia maluca e continuou a caminhar.

Mas um pouco acima de Agarez, avistou uma fonte gorgolejante que o convidava a matar a sede e a descansar. E, como à fome e à sede ninguém resiste, resolveu parar, pensando lá com os seus botões:

É certo que prometi à Senhora levar a bola inteira e eu não sou homem de faltar à palavra. Mas, como diz o outro, a fome não tem lei. Vou comer só um canto e levo-lhe os outros três. A Senhora pareceu-me tão boazinha… há-de compreender e perdoar.

E, se bem o pensou, melhor o fez. Sentou-se à beira da fonte, pós o alforge no chão, comeu o canto da bola e bebeu uma tarraçada de água fresca. Depois, já reconfortado, retomou a subida da encosta.

O Penedo Negro

Ao chegar junto do Penedo Negro, bateu com a ponta do varapau. A porta abriu-se rapidamente e a Senhora reapareceu, mas agora com o semblante carregado, e disse-lhe com ar severo:

          Em cavalo de três pernas,
          Contigo não posso ir.
          Fecha-te, porta de pedra,
          Para nunca mais te abrir.

E desapareceu, enquanto o Diabo esfrega um olho, atrás da porta de pedra, para sempre.

O pobre do homem, com os três cantos da bola na mão e o alforje das compras ao ombro, partiu, desalentado, para a sua aldeia, onde passou o resto da existência, a lamentar a tentação de comer da bola de quatro cantos, e a calcorrear os caminhos da serra para ganhar a vida.

E a Senhora linda lá continua encantada, com os seus tesouros fabulosos, no Penedo Negro, a que os povos da serra, por essa razão, também chamam Calhau do Encanto.

Fonte: Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes) – texto editado

Romaria de S. Bartolomeu do Mar – Esposende

Romaria de São Bartolomeu do Mar

Todos os anos, no dia 24 de Agosto, realiza-se a Romaria de São Bartolomeu do Mar, padroeiro da freguesia com o mesmo nome, pertencente ao concelho de Esposende (Minho), durante a qual as crianças são levadas a mergulhar, pelo menos três vezes, na água fria do mar. Para que fiquem livres de muitos males.

Manda a tradição, que remonta ao século XVI (1566), que no dia 24 de Agosto, as crianças e respectivos pais transportem uma galinha ou frango (pinto ou “pito”, como por lá se diz) preto(a) durante três voltas à Igreja, que passem outras tantas vezes debaixo do andor e que, depois, vão à praia “furar” ondas em número ímpar: três, cinco, sete ou nove, o chamado “banho santo”.

Durante a romaria, a praia local enche-se de gente de gente, apesar do frio e da temperatura gelada da água. O chamado banho-santo é um dos pontos altos da romaria da terra.

Para esconjurar medos das crianças, a gaguez, a epilepsia ou a gota

Assim se esconjuram os medos das crianças e se curam maleitas como a gaguez, a epilepsia ou a gota. No entanto, e segundo dizem, “têm que ir ao banho antes de completar os sete anos de idade para que a tradição seja cumprida”.

Esta superstição é antiga, pois remonta ao século XIX. Teve origem numa lenda, segundo a qual todos os anos, precisamente no dia 24 de Agosto, o diabo anda à solta, só voltando ao mar quando anoitece. É esse o motivo para levar as crianças ao mar, durante o dia, para que aproveitem as águas ‘puras’, e assim se curarem de muitos males.

A Missa mais solene é celebrada às 11h00. De tarde, faz-se o chamado agradecimento ao Santo, através de uma procissão tida como «uma das mais imponentes» do Norte de Portugal. Apesar de o percurso ser curto, “menos de dois quilómetros da igreja à praia e regresso”, demora sempre duas a três horas. Nela se incorporam centenas de figurantes, que reconstituem episódios bíblicos, e andores de grande porte.

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Foto de Armindo Costa de 1972 retirada daqui

 

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Fique a conhecer, também, a Romaria de São Bartolomeu de Ponte de Barca – edição 2018.

 

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