Sobre as vindimas e o vinho no início do séc.XX

O vinho e as vindimas

O vinho é sugestivo: exalta não só a coragem mas a mentalidade, afinando a imaginação e a invenção.

Deste copo de vinho generoso
Dai-me que o tire o alento que desejo,
Para que o novo canto sonoroso,
Desfira na guitarra em doce arpejo;

É João Penha que em rimas exprime o estímulo que o vinho nos instila, assim como o seu condão de nos deixar entrever o belo prisma da existência, num copo do discreto sumo da uva:

Sorri-nos a vida nos cálices cheios
Dos roxos falernos das parras da Beira;

Não é a bebedeira que o poeta canta: é esse estado delicioso a que uma gota da bem trabalhada bebida nos transporta, colorindo a realidade de visões deliciosas, dando as mais lindas tintas às coisas que até então nos pareciam baças ou de linhas sombrias…

Mas, em lugar de sangue e fúria tanta,
Derramemos nesta alma o licor belo
Que do pâmpano brota e a vida encanta.

O poeta é ainda o mesmo, o mestre impecável das Rimas, e um dos versejadores mais originais da nossa terra…

Sugestão: Os dez mandamentos dos bêbados ou do vinho

Historicamente na pintura, as vindimas são na antiguidade uma festa báquica, a divinização grosseira da bebedice; uma acção de graças ingénua nos Primitivos, uma orgia hilariante e mitológica interpretada nos artistas da Renascença, uma representação realista e solene nos artistas do século XIX.

Na actualidade, constituem porém um tema para reflexões graves, desde que a Economia de algumas nações está dependente da maior ou menor exuberância com que se manifestam os vinhedos.

É uma preocupação constante para os viticultores e para os estadistas, mormente em nações como a nossa, cuja principal receita provém desses lindos cachos que se ostentam nos pâmpanos, mais ou menos sujeitos a moléstias de nomes latinos, mas de accão devastadora.

Onde se fala da Ferreirinha da Régua

Não dorme e viticultor pensando no modo de tratar a sua vinha para a pôr ao abrigo do mal, receando a inconstância do clima, outra contingência que pode num momento desvalorizar as mais prometedoras colheitas, fazendo todos os sacrifícios para dotar a viticultura com toda a farmacopeia especial aconselhada pela enologia.

Diz-se que a falecida Ferreirinha da Régua [D. Antónia Ferreira] levava tão longe os seus cuidados no tratamento das suas decantadas cepas que um dia proferira estas memoráveis palavras: “Se for preciso tratar as minhas vinhas a caldos de galinha, não me pouparei a despesas para o fazer!

Por isso a quinta do Vesúvio, hoje na posse do seu filho, o sr. António Bernardo Ferreira, replantada depois da invasão da filoxera, retomou o seu lugar proeminente nesse ramo de cultura.

É de facto a produção vinícola o nosso principal rendimento, estando ela calculada em média, em 5.500.000 hectolitros anuais.

Antigas regiões agrícolas

Essa produção distribui-se por (13 regiões agrícolas): Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes, Douro, Beira Litoral. Bairrada, Beira Alta, Dão, Beira baixa, Estremadura, Bacia e Litoral do Tejo, Alentejo, Algarve, Açores, Madeira.

Sugestão: Denominações de origem dos vinhos portugueses

Descrever as variedades de cepa em cada uma destas regiões, levar-nos-ia longe.

Os vinhos de pasto manifestam-se em variedades que todos mais ou menos conhecem.

Os vinhos finos ou superiores, Porto e Madeira, têm alta reputação no estrangeiro, consagrada por uns poucos de séculos de con- sumo, graças a processos inalteráveis de fabrico.

Se no norte são características as quintas do Vesúvio, das Carvalhas, do Roriz e outras, no sul destaca-se a imensa propriedade do sr. José Maria dos Santos – o Poceirão – vinhedo que não tem rival no mundo, com os seus 2.400 hectares de planície, por onde se estendem e medram, graças aos cuidados do seu opulento possuidor 6.000.000 de cepas.

A sua produção anual é de 20.000 pipas de vinho, o que representa, só à sua parte, a vigésima parte da colheita inteira de toda a região da bacia e litoral do Tejo.

O maior vinhedo do mundo – propriedade do sr. José Maria dos Santos

A par dessa propriedade de extensão única, figuram nobremente, também no sul, a Quinta do Calvel, de sr. António Agostinho de Silva Henriques, com a sua produção anual de 300 pipas, a Quinta do Charnixe, do sr. Joaquim Gomes de Sousa Belfort e outras.

Não constituiria este ramo de cultura um valor tão importante para o país se não fosse exportável.

Ora este comércio chegou a atingir números lisonjeiros, mormente nos anos de 1884 a 1899, cuja média anual foi calculada em 700 a 800:000 hectolitros.

Concorrência francesa e espanhola

Daí em diante, nota-se uma depressão, causada não só pelo replantio em França dos vinhedos que a filoxera devastara, como também pela concorrência dos vinhos espanhóis, os quais conseguiram entrar em muitos mercados e até no Brasil.

Esta circunstância e o facto de se ter alargado a cultura do vinho mais do que o consumo interno e externo produziram a crise que tanto preocupa actualmente o país e tantos cuidados acumula sobre o governo que já começou a dar satisfação, em parte, aos votos da Real Associação Central da Agricultura Portuguesa e dos diversos Sindicatos agrícolas do país, reduzindo os direitos do real d’água, estatuindo sobre a importação do álcool estrangeiro, fomentando a criação de adegas sociais.

Uma parte da opinião pronuncia-se no sentido de uma medida pombalina, a qual permita só a cultura da vinha d’encosta e portanto proibitiva de novas plantações ou replantações em planície, em terrenos apropriados à cultura cerealífera.

Daqui se vê como a questão dos vinhos é complexa, sendo difícil aos governos resolvê-la ainda com a devida ponderação dos elementos múltiplos ou factores que entram nesse difícil problema.

É um assunto grave precisamente porque interessa a todo o país, ameaçado na sua principal fonte de riqueza.

De norte ao sul há uma população imensa de grandes e pequenos viticultores, fora a população que vive subsidiariamente de trabalho dessa cultura.

O vinho, a que muitos pedem a alegria e o bem-estar que ele proporciona, é afinal de contas um motivo de tristeza para os que se preocupam com o futuro económico de Portugal…

As vindimas em Torres Vedras

Fonte: “Serões” – Revista mensal ilustrada – nº06 – 1901 (texto editado e adaptado) | Imagem de destaque: “As vindimas do Douro