Cortar o cobrão | Usos e costumes de Escalos de Baixo

Cobrão

O cobrão é o nome que o povo dá a uma doença de pele caracterizada pelo aparecimento de pequenas vesículas que surgem, segundo a crença, devido à circunstância das roupas interiores, quando se encontram a secar, terem estado em contacto com qualquer bicho peçonhento: cobra, osga, lagarto ou lagartixa, bichos esses que nelas deixaram, como se diz em Cebolais de Cima, o seu rastejo.

É o veneno contido nesse rasto que, em contacto com a pele, desencadeia a doença.

Para curar o doente repetia-se esta fórmula:

Rezado em cruz sete vezes:

Aqui te benzi, aqui te torne a benzer

Para que não cresças, nem inverdeças,

Nem juntes o rabo com a cabeça.

Depois a curandeira pega numa réstia de alhos e desenrola-se entre ela e o doente o diálogo seguinte:

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe a cabeça

Doente: – Corta tu ou não

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe o meio

Doente: – Corta tu ou não

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe o rabo

Doente: – Corta tu ou não

Por fim, queima-se a réstia de alhos e bota-se primeiro mel sobre a parte infectada e, em seguida, a cinza das réstias, para secar o mal.

Esta fórmula oferece a originalidade de apresentar estrutura em diálogo entre a rezadeira e a pessoa doente.

Nesse diálogo, dois pormenores existem que se devem ser revelados: a primeira frase “tu tens um cobrão?” e a repetição quase contínua e exaustiva de “corta-lhe”.

A primeira frase patenteia o costume de se invocar o nome da doença no início da fórmula libertadora; e incidência repetitiva que surge no diálogo em relação a “corta-lhe” reside no facto de ser esta palavra forte, isto é, a palavra através da qual a rezadeira liberta a pessoa do mal que a aflige, a palavra que corta um laço que liga a pessoa à doença.

O número de vezes necessário para eficácia das palavras é de sete.

O gesto enfeitiçante é o sinal da cruz: ao fazer-se a cruz sobre qualquer coisa atraem-se as forças mágicas dos quatro pontos cósmicos, ideia reforçada pelo facto de o sentido esquerda – direita, ao qual o sinal da cruz obedece, representar simbolicamente o passar da morte à vida.

A utilização do mel e das cinzas das réstias de alho, em conjunto com a fórmula libertadora, mostra nesta versão de Escalos de Baixo, uma dupla intenção: a de desligar a pessoa do mal, por um lado, e a de curar, por outro com o auxílio do mel e das cinzas das palhas de alho.

Fonte do texto: “Dança, Canto e Trajos no Concelho de Castelo Branco”, Adelino José Henrique Carrilho e Mónica Liliana Martins Henrique Carrilho

Ervas místicas | Superstições e crendices

Ervas místicas

Reputo elemento complementar para a seriação dos costumes nacionais enumerar as diversas «ervas místicas», umas constituindo verdadeiros amuletos, outras atributadas de virtude medicinal.

Se bem que, na cantiga referida por Eça de Queiroz

Todas as ervas são bentas
Em manhã de S. João

o certo é que se torna sobremodo arrojado catalogar todas aquelas que de facto o sejam, sob o ponto de vista popular.

Não pode, pois, revestir pretensões a exígua coletânea que damos agora e perante a qual seria justificada a desaprovação dos botânicos, ou ainda, a dos ervanários.

Um dia, Ramalho Ortigão, que soube, como poucos, servir a nossa terra, não teve mão em si que não firmasse um rosário de «sanjoaneiras», onde há quadras, como estas, típicas:

Nos campos d’ Aljubarrota
S. João botou chamados
Para ressurgirem os mortos
Da ala dos namorados.

À beira do mar sentado
S. João tocou trombeta
Para dar noivas aos noivos
Da antiga nau Catrineta.

No claustro d’Odivelas
S. João tocou tambor
Para acordar almas de freiras
Que morreram por amor.

Pois bem! Com não menor carinho pelos costumes humildes do rincão bem amado, eis o que, em jornadas por diferentes pontos, apreciei, quanto a «ervas místicas».

Possível é que a mesma planta surja com dois ou três nomes diferentes, outorgados pelas várias regiões onde lhes colhi a designação.

A destrinça, todavia, não cabe ao escritor que a si unicamente se reserva a tarefa de constatar o facto, pelo que a ele se prende de nobremente tradicional:

Eis, pois: Alecrim, alfádega, alfazema, almíscar, arruda, funcho, erva-doce, erva-cidreira, hortelã-pimenta, maçã camoeza, manjericão, manjerona, malva-rosa, murta, nêveda, limonete, rosmaninho, salva, segurelha, serpão, tomilho, trevo, vergamota.

E não nos despedimos, por enquanto, do inquérito, que prosseguirá a seu tempo.

Severo Portela

Fonte: “Terra Portuguesa”, nº27-28 – Out-Nov de 1918

Crenças Sobrenaturais Saloias | Superstições e Crendices

Crenças Sobrenaturais Saloias

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando descodificadas, não raro apresentam base mágica de natureza quase inevitavelmente evocatória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de cariz exclusivamente recreativo mas cuja narração é constantemente envolta num halo sobrenatural e que, igualmente, não raro se remata numa lição moral.

Dessas últimas lembro a lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, que já descrevi num livro meu editado pela Câmara de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993) e ainda num outro também meu editado pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996), além dessas outras narrativas orais sobre grutas mágicas e santões misteriosos, como essa da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) ligando ao Mosteiro de Odivelas, ou então da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada.

Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, assim pouco importando que realmente a improbabilidade subsista.

Não sendo eu, por natureza e brio profissional, um teórico ficando-me por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos miraculosos” que as lendas contam para tentar comprovar se, acaso, haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…

Lenda do Senhor da Ribeira

Respeitante à lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela está atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), estando desaparecida a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava.

Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a observar, mas hoje estando plantado por sobre o seu lugar um prédio.

Outra situação, aquela das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam vestígios manuelinos.

A Quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a Serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros.

Isso não pude comprovar, mesmo que tenha adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda…

Jazida paleolítica do Vale do Tejo

Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o de preservação desse espaço patrimonial).

Foi habitada por povos colectores e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolático, como seja, à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.

Para terminar, dou um terceiro exemplo na lenda atlante de Bucelas a qual acabou levando-me à anta celtibera do Zambujal, onde realmente confirmei que “não há fumo sem fogo”…

Lenda dos Ferreiros

Essa lenda bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):

Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.

Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.

Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.

Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.

Deixando de lado a interpretação ctónica remetendo para o deus Vulcano dessa lenda, passo de seguida às lendas de foro mágico, as quais têm diversas origens quase sempre misturadas inextrincavelmente: célticas, judaicas e arábicas.

O culto dos elementos da natureza

O factor celta para o culto dos elementos da Natureza; o judaico para a magia talismânica revestida do cunho agrícola; e o arábico para a espargiria ervanária, natural, revelando-se como base da medicina popular, campesina, através dos unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.

Mas esses ingredientes celtas, judaicos e árabes, de uma forma ou de outra, por norma entram todos juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a Vida e a Morte num contexto marginal ao crédito científico e à religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.

Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas «pessoas com virtudes», com dotes sobrenaturais capazes de falar com os «espíritos», fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo num mesmo efeito causas divinas e diabólicas.

Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993), conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.

Contudo, os saloios fazem distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.

Previsão do tempo baseada no comportamento de animais

Previsão do tempo baseada no comportamento de aranhas

As aranhas são muito sensíveis às mudanças atmosféricas e prevêem com enorme sagacidade as suas variações. Deste modo, a experiência parece ter confirmado que haverá…

bom tempo, quando as aranhas dos jardins aparecem em grande número, trabalhando em longos fios ou tecendo durante a noite uma nova teia; o mesmo será de prever se as aranhas das casas se envolvem nas suas teias, mostram a cabeça, estendem as pernas ou põem ovos, facto este que sucede até sete vezes nos anos de maior calor e estiagem;

bom tempo fixo, se as aranhas dos jardins tecem muito compridas e largas teias ou se as da casa continuam a estender as pernas; quanto mais as estendem para diante, tanto mais fixo é de prever o tempo bom;

tempo variável, se as aranhas dos jardins trabalham em pequena teia negligentemente;

vento passageiro, se as mesmas aranhas só estendem os raios da roda sem lhes pôr os fios circulares que devem cobrir o centro da teia;

vento durável, se as aranhas dos jardins sem se retirarem, não trabalham;

chuva passageira, se as aranhas dos jardins ficam em pequeno número e só a muito custo prendem o urdume das teias;

chuva contínua, se as aranhas dos jardins se escondem e se as das casas se revolvem na teia apenas deixando ver a sua parte posterior;

frio passageiro, se as aranhas das casas se agitam e lutam entre si para se apoderarem das teias já feitas e melhor situadas;

frio intenso, se as aranhas das casas trabalham apressadamente ou lançam novos fios e, principalmente, quando de noite fazem novos tecidos uns sobre os outros; é então que pressentem a proximidade de grandes frios que, de ordinário, chegam 8 a 10 dias depois;

Previsão do tempo baseada…

… no comportamento de animais quadrúpedes e outros

[Para além dos animais de estimação, também designados como domésticos ou de companhia, há muitos outros animais que necessitam de cuidados humanos para poderem cumprir com a respectiva “função”: produzir alimentos, ajudar nas actividades agrícolas, etc. Aqui deixamos as tarefas que deve ter em conta para manter os animais nas devidas condições higiénico-sanitárias, por exemplo.]

Bois…
… que em tempo de chuva se juntem nos pastos e se apertem uns de encontro aos outros, assinalam temporal próximo;

Cordeiros…
… que se mostrem mais ávidos enquanto pastam, indicam chuva; quando, durante a chuva ou fazendo vento, se agrupam e põem uns aos outros a cabeça sobre os lombos ficando quase imóveis, prenunciam tempestade violenta;

Gatos…
… que esfregados no Verão e às escuras, fiquem com a extremidade dos pêlos luminosa, assinalam bom tempo; o mesmo facto verificado no Inverno, é precursor de tempo frio e seco;

Morcegos…
… que apareçam à tarde, indiciam bom tempo; quando são em grande número e esvoaçam mais tempo do que o usual, é sinal quase certo de que o dia seguinte será quente e sereno; quando em tempo quente não aparecem nos locais do costume, sinal de chuva próxima; e quando se refugiam nos seus buracos e gritam, indicam tempestade;

Peixes…
… Quando alguns peixes, como por exemplo as carpas, vêm frequentemente saltar à superfície da água, lançando-se para apanhar os insectos que voem baixo, é sinal de tempo tempestuoso;

Rãs…
… que coaxem mais que de ordinário, prenunciam chuva; quando se retiram para o mais fundo da água, anunciam bom tempo, e quando saem da água e se espalham pelos campos, indicam chuva próxima;

Sapos…
… que em noites de Verão saiam em grande número de seus buracos, prenunciam chuva;

Toupeiras…
… que remexam a terra mais do que é costume, são também sinal de chuva;

… no comportamento de insectos e vermes

Abelhas…
… que pouco se afastam das colmeias ou cortiços, ou que a eles voltam em chusma indicam chuva; quando, raivosas, atacam quem delas se aproxima, sinal de tempestade;

[A abelha é o único insecto que foi domesticado pelo ser humano. Um apiário é um conjunto de colmeias, nas quais se faz criação de abelhas. Aqui são fornecidas informações básicas sobre as actividades que deve desenvolver, ao longo do ano, no seu apiário particular.]

Moscardos…
… que se pregam às pernas dos cavalos, bois ou vacas, e os mordem com anormal violência, assinalam chuva;

Moscas…
… que, em grande número, entram pelas casas procurando morder e mostrando-se mais importunas do que habitualmente, são indício de tempestade;

Mosquitos…
… que se juntam antes do Sol posto, ou formam colunas que se movam em rodopio, assinalam bom tempo;

Vermes da terra…
… que, em bom tempo, sobem à superfície do solo, quase sempre indicam chuva próxima;

… baseada no comportamento das aves

Andorinhas…
… rasando a terra ou as águas para apanhar mosquitos e outros insectos que usualmente aparecem antes das chuvas, são indício de que estas não estarão longe;

Corvos…
… que se elevam nos ares e crocitam em tom grosso e prolongado, são sinal de bom tempo; quando pousam frequentemente nas árvores e crocitam secamente, indicam chuva;

Galinhas…
… que se espojam, pressentem chuva;

Galos...
… que cantam mais tarde que o habitual, prenunciam mudança de tempo; e se prolongam o canto pela noite, anunciam chuva;

Gralhas…
… que andam em grupo são prenúncio de bom tempo; quando vão e vêm solitariamente, indicam chuva;

Mochos…
… que piam durante o mau tempo, anunciam mudança;

Pardais…
… que cantam com mais força e durante mais tempo do que o usual, estão prevendo chuva;

Patos…
… que, por bom tempo, voam por aqui e por ali, grasnando e atirando-se por vezes à água, prenunciam chuva e tempestade;

Perús…
… que se agrupam e encostam uns aos outros, anunciam chuva;

Pombos…
… que se recolhem mais tarde que o habitual, indicam quase sempre chuva para os dias próximos;

Fonte: Almanaque – 1984 / Direcção Geral da Educação de Adultos

 

Superstições relacionadas com o vestuário

Superstições com vestuário

Superstição (do latim superstitio, “profecia, medo excessivo dos deuses”) ou crendice é a crença em situações com relações de causalidade que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. Ela geralmente está associada à suposição de que alguma força sobrenatural, que pode inclusive ser de origem religiosa, agiu para promover a suposta causalidade.

Superstições são, por definição, não fundamentadas em verificação de qualquer espécie. Elas podem estar baseadas em tradições populares, normalmente relacionadas com o pensamento mágico. Por regra,  quem é supersticioso acredita que certas ações (voluntárias ou não) tais como rezas, curas, conjuros, feitiços, maldições ou outros rituais, podem influenciar de maneira transcendental a sua vida. (Fonte, texto adaptado)

A seguir, vamos transcrever algumas superstições relacionadas com o vestuário, apresentadas pelo Dr. José Leite de Vasconcelos, na sua obra “Etnografia Portuguesa“:

Listagem de superstições com o vestuário

A nudez favorece a irradiação da força mágica, que reside no homem, e ao mesmo tempo fá-lo mais sensível a forças exteriores (Handw., IV, 514).

No concelho de Vila Velha de Ródão, freguesia do Fratel, e também em Oliveira do Hospital, Travanca de Lagos, Andorinha, dizem que os cães não ladram aos homens nus e que os ladrões se aproveitam disso.

Na Beira Alta, quando as mulheres cosem botões em roupas que as pessoas tenham vestidas, dizem: «Não coso vivo nem coso morto, coso o vestido porque está roto.»

Quando se cose e a linha embaraça, em Lisboa, para se desembaraçar vai-se cantarolando continuamente: «Desembaraça-te, linha, que eu te darei uma caixinha.» E no Algarve dizem:

Senhor Sant’Ana,
Por aqui passou,
Tudo quanto viu,
Tudo desempeçou.

Vestir a roupa virada é mau agouro (Abade José Tavares, Carviçais, Moncorvo, Abril de 1904), mas em Lisboa, vestir uma peça de roupa do avesso é sinal de que se vai receber uma prenda nesse dia (Cf.: Handy.: «Kleid tausch»).

Para quem tem dores de cabeça

Há na Capela da Senhora do Castelo (Carviçais, Moncorvo, informação do Abade José Tavares, 1904) uma santa com um chapéu na cabeça. Quem sofre de dores de dentes e põe sobre a cabeça o chapéu do santo fica curado.

Em Lisboa, crê-se que, se uma rapariga põe o chapéu de um homem, não se casa.

Durante algumas dezenas de anos foi costume, pelo menos em Lisboa, as mulheres nunca entrarem num templo, de cabeça descoberta: se não tinham chapéu e mantilha, colocavam um lenço de assoar.

Em Carviçais, Moncorvo (Abade José Tavares, 1904), crê-se que quem morre mascarado vai para o Inferno. Também ali se crê que é de muito mau agouro dormir com os sapatos no sobrado, voltados com as palmilhas para cima, ou com os sapatos à cabeceira, ou com o chapéu aos pés (ou com a candeia no chão). Também é aziago, algures, colocar os sapatos em disposição inversa.

Paremiologia:

«Quem tem capa sempre escapa».

«Capote no Verão, ou é rato ou é ladrão».

Fonte: Etnografia Portuguesa – vol.VI, J. Leite de Vasconcelos

Várias superstições que dizem respeito às crianças

Superstições

Superstição (do latim superstitio, “profecia, medo excessivo dos deuses”) ou crendice é a crença em situações com relações de causalidade que não se podem mostrar de forma racional ou empírica.

Ela geralmente está associada à suposição de que alguma força sobrenatural, que pode inclusive ser de origem religiosa, agiu para promover a suposta causalidade.

Superstições são, por definição, não fundamentadas em verificação de qualquer espécie. Elas podem estar baseadas em tradições populares, normalmente relacionadas com o pensamento mágico.

Por regra,  quem é supersticioso acredita que certas ações (voluntárias ou não) tais como rezas, curas, conjuros, feitiços, maldições ou outros rituais, podem influenciar de maneira transcendental a sua vida. (Fonte, texto adaptado)

A seguir, vamos transcrever algumas superstições, apresentadas pelo Dr. José Leite de Vasconcelos, na sua obra “Etnografia Portuguesa“, e que dizem respeito às crianças:

Superstições acerca das crianças

Se a criança nasce ao sábado ou a o domingo, não entrará com ela causa ruim; se à sexta-feira, as bruxas não querem nada com ela; se em dia de Ano Bom ou Natal, será feliz; se em ano bissexto, não será atacada de bexigas. Dá azar nascer em 3 ou 13.

Acredita-se em horóscopos, como se vê, por exemplo, neste texto do séc XVIII:

Ó meu pai, vossa mercê

Já leu Lunário Perpétuo?

Já li, mas isso a que vem?

Ele diz que, em se sabendo

O planeta que domina

Em o dia de nascimento,

Se adivinha toda a sina

Que há-de ter o tal sujeito.

Tiram-se oráculos em datas célebres da vida infantil, como nascimento, desmama. Estendem-se, por exemplo, diante da criança certos objectos: dinheiro, cartas de jogar, etc.; aquele a que ela deitar a mão é prognóstico para a vida toda.

É também costume tirarem as crianças as sortes nas rifas (Beira Alta).

No concelho de Moncorvo vão as crianças com imagens de santos e formando procissão pelas ruas e campos, cantando estridulamente:

Água e mais água

Cais sobre nós;

Grandes e pequenos

Todos pão comemos.

Caia no centeio,

Que inda no ’stá cheio;

Caia na cevada

Que inda no ’stá grada;

Caia no trigo

Que inda no ’stá florido.

Minho, Estremadura e não só…

Os pais e parentes dos meninos dão-lhes as mãos a beijar para que cresçam (Melgaço) [Minho]. Quando se medem aos 3 anos o mais que, depois, cresçam é o dobro (Ponte da Barca, Galveias).

Quando se corta o cabelo, a primeira vez, a uma criança, vão-se colocar uns fios no rebento de uma silva, sobretudo na noite de S. João, para que o cabelo cresça (Tarouca). Em S. Paio de Jolda enterram o cabelo em terra preta, para que fique preto. A rapaz que rapa a panela das papas não lhe nasce a barba (Maia).

Dizem que as crianças que brincam com o lume mijam à noite na cama (Óbidos e Lisboa) [Estremadura].

Leva-se uma criança a um moinho, a primeira vez, toma-se-lhe a mão direita e mete-se-lhe no adilhão da mó (o buraco onde cai o grão) e diz-se três vezes assim:

Consoante este moinho anda em vão,
Quando vires com os olhos, faças com a mão.
Só o alheio não!
Pela graça de Deus e da Virgem Maria.
Rezam-se três padres-nossos e três ave-marias (Melgaço).

Quando as crianças já sabem pegar em tesouras, dá-se-lhes um bocadinho da envide (cordão umbilical que se tem guardado) para a irem cortar debaixo de uma laranjeira, a fim de serem felizes (Lagoa).

Fonte: Etnografia Portuguesa – vol.VI, J. Leite de Vasconcelos

Sinais dados pelo Sol | Superstições e Crendices 

Sinais dados pelos Sol

Os fenómenos celestes sempre intrigaram os homens. Desde o começo da história da humanidade, via-se neles a manifestação de poderes que estavam acima da sua compreensão. O Sol era um deus e os eclipses do Sol manifestavam a sua vontade. Desde os tempos mais remotos, o estudo do firmamento esteve ligado a práticas religiosas.

Mas, pouco a pouco, o homem aprendeu a conhecer a ordem geral dos fenómenos celestes. Primeiro, o camponês compreendeu a relação que havia entre o curso das estações e a sucessão dos fenómenos celestes. A seguir, o explorador e o marinheiro descobriram que podiam orientar-se pela localização das estrelas.

Destas verificações empíricas nasceu a ciência da astronomia. O homem pôde determinar melhor os ritmos dos seus trabalhos agrícolas (por exemplo, fixar a data mais propícia para as sementeiras) e medir a passagem do tempo (calendário).” (Fonte: Alfa Estudante – Enciclopédia Juvenil – vol.2)

A propósito, apresentamos aqui um breve “tratado de astronomia rústica e pastoril”:

Signaes de tempestade pelo Sol

» Quando, antes de sahir o Sol, se chegarem a elle muitas nuvens, denota tormenta.

» Quando, ao nascer, o Sol se mostra amarello e grande, estando o dia claro, significa haver no mesmo dia tempestades de trovões e relampagos.

» Quando o Sol sahir verde ou azul, denota tempestade chuvosa.

» Quando o Sol apparecer muito concavo, denota tempestade com agua.

» Quando o Sol tiver muitos circulos e varios, denota tempestade, aguas e ventos.

» Quando o Sol se põe e é muito accêso, com algumas manchas negras ou verdes, denota tempestades por aguas e ventos.

» Se ao pôr do Sol chover, poderá succeder tormenta de ventos no dia seguinte.

Signaes de serenidade pelo Sol

» Quando o Sol nascer claro e temperado, sem nuvem alguma ao redor, denota n’aquelle dia fazer sereno e claro com sequidão.

» Se, ao nascer, o Sol tiver algum circulo e se este se fôr desfazendo, igualmente denota serenidade e claro n’aquelle dia.

» Quando o Sol se pozer claro, sem nuvens, denota serenidade essa noite e ao outro dia.

» Quando o Sol se pozer com o disco ou nuvens avermelhadas, denota serenidade e bom tempo ao outro dia.

in “Lunario e prognostico perpetuo: para todos os reinos e provincias”, s.d. (grafia antiga)

Poderá, também, gostar de ler um texto sobre “Previsões do tempo relacionadas com os astros e não só!“.

 

Previsão do tempo relacionada com os astros e não só!

Desde o começo da história da humanidade que os fenómenos celestes sempre intrigaram os homens. Começou por ver neles a manifestação de poderes que estavam acima da sua compreensão.

Por exemplo, para quase todas as civilizações, o Sol era um deus e os eclipses do Sol manifestavam a sua vontade, quase sempre como prenúncio de estava próximo um ou mais castigos divinos.

Mas, aos poucos, fruto de um espírito naturalmente observador, o homem aprendeu a conhecer a ordem geral dos fenómenos celestes.

Primeiro, o camponês compreendeu a relação que havia entre o curso das estações e a sucessão dos fenómenos celestes, e, assim, pôde determinar melhor os ritmos dos seus trabalhos agrícolas (por exemplo, fixar a data mais propícia para as sementeiras) e medir a passagem do tempo (calendário). (Fonte: Alfa Estudante – Enciclopédia Juvenil – vol.2, adaptado)

Previsão do tempo relacionada com o Sol

» Quando, em tempo quente, se vê o Sol nascente cobrir-se de espessas nuvens, pode esperar-se tempestade para a tarde;

» Quando, ao pôr do Sol, as nuvens se formam a Oeste e se tingem de um belo vermelho púrpura, é sinal de vento e tempo seco;

» Quando, em tempo chuvoso ou enevoado e dominando vento Oeste, o Sol se põe numa região clara da atmosfera, é prenúncio de bom tempo;

» Soprando ventos de Oeste, é costume dizer que não se pode confiar no nascer do Sol por mais sereno que seja; pelo contrário, com ventos de Leste, nascer do Sol sereno anuncia bom tempo;

Previsões  relacionadas com a Lua

» Os anéis ou círculos que se formam em volta da Lua indicam próxima descida de névoa, caída de chuva ou neve;

» Se, alargando-se, esses círculos de tornam vagamente avermelhados, anunciam ventos; se, do vermelho passam a amarelo, são indício de provável tempestade;

» Quando a Lua está constantemente coberta de muitas e espessas nuvens, é sinal quase certo de que a chuva não tarda;

» Quando nuvens leves e brancas passam lentamente e em grande número junto à Lua, pode esperar-se bom tempo;

Previsão do tempo relacionada com as estrelas

» Quando, à roda das estrelas, aparecem círculos esbranquiçados, é sinal muito provável de chuva próxima;

» Pode predizer-se tempo variável quando as estrelas aparecem mais próximas umas das outras e mais cintilantes do que de ordinário;

“ Quando, em tempo seco, as estrelas se apresentam mortiças sem que haja, entretanto, nuvens aparentes que as ocultem, é quase sempre sinal de chuva;

» Quando, em pleno Verão, perdem inteiramente a cintilância, sinal de temporal próximo;

Previsões  relacionadas com as nuvens

» Nuvens em grande número amontoadas em camadas espessas, em tempo claro, ou que, estando coberto, se desloquem rapidamente – são prenúncio de chuva;

» Muitas nuvens isoladas mas negras e carregadas, correndo apressadamente nas regiões altas em tempo ainda que sereno, prenunciam chuva;

» Quando, em tempo sereno, as nuvens se agrupam em flocos, é sinal de bom tempo;

» Nuvens muito numerosas são, geralmente, precursoras de vento Sul;

» Quando as nuvens altas se deslocam em sentido contrário ao do vento que sopra sobre a terra, pode esperar-se mudança na direcção do vento;

» Nuvens encarniçadas, no Verão, são prenúncio de vento; no Inverno, de frio ou neve;

Previsão do tempo relacionadas com a nebulosidade

» Névoas pela manhã indicam, geralmente, bom tempo com descida de temperatura; se aparecem ao meio dia são, habitualmente, sinal de chuva;

» Névoa que aparece em bom tempo e sobe numa espécie de nuvem, quase sempre anuncia bom tempo; pelo contrário, névoa que vem em tempo chuvoso prenuncia, de ordinário, termo do mau tempo;

» Névoas que se elevam e param sobre as correntes de água, quase sempre são seguidas de mau tempo; as que se elevam sem parar são, pelo contrário, indício de bem tempo;

Fonte: Almanaque – 1984 / Direcção Geral da Educação de Adultos

Poderá, ainda, gostar de ler um texto sobre “Sinais dados pelo Sol“.

 

Superstições relacionadas com a água

Sobre superstições

Superstição (do latim superstitio, “profecia, medo excessivo dos deuses”) ou crendice é a crença em situações com relações de causalidade que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. Ela geralmente está associada à suposição de que alguma força sobrenatural, que pode inclusive ser de origem religiosa, agiu para promover a suposta causalidade.

Superstições são, por definição, não fundamentadas em verificação de qualquer espécie. Elas podem estar baseadas em tradições populares, normalmente relacionadas com o pensamento mágico.

Por regra,  quem é supersticioso acredita que certas ações (voluntárias ou não) tais como rezas, curas, conjuros, feitiços, maldições ou outros rituais, podem influenciar de maneira transcendental a sua vida. (Fonte, texto adaptado)

A seguir, vamos transcrever algumas superstições e crendices relacionadas com a água, apresentadas pelo Dr. José Leite de Vasconcelos, na sua obra “Etnografia Portuguesa“, e que dizem respeito à água:

Superstições acerca da água

– A água benta tem grande virtude. Quando as mãos suam é bom mantê-las em água benta (Samodães).

– Dizem em Óbidos, Mangualde, Paços de Ferreira e Lisboa que, quando duas pessoas lavam as mãos juntas, em breve bulham. Nos Açores (S.Miguel), para evitar a briga, cospem na água.

– As águas de baptizar as crianças que não estejam baptizadas deitam-se em sítio onde não passe ninguém por cima e em que não dê o sol (Óbidos e Mangualde).

– Não é bom beber água de noite, porque ela está a dormir, e se não puder deixar de beber-se bata-se para a acordar e não fazer mal (Óbidos e Mangualde). Também em Carviçais, Moncorvo, se diz que a água dorme de noite, e em Baião, quando alguém tem sede de noite e quer beber água, é necessário deitar uma pinga fora e diz-se: «Acorda, água, que eu também já acordei!» «Vamos pelo que diziam os antigos»! O mesmo se faz na Beira Baixa, como se vê um trecho de Nuno de Montemor:

«- Para se beber, é preciso acordá-la primeiro.

– E como se acorda?

O velho serrano aproximou-se da cantarinha batendo três vezes no cântaro com os dedos nodosos.

– É assim…- ensinou.

E sacudindo a água verteu-a no copo confiadamente.

– Agora pode bebê-la à vontade…»

– Em Óbidos (Peral) afirma-se que a água é corredia. Bebendo-a de bruços, à noite, a gente levanta-se com o Inimigo (Carviçais, Moncorvo).

– Bebe sangue quem num charco bebe por cima; se for por baixo, bebe matéria (Elvas; informação de António Tomás Pires).

– Não dão maleitas a quem bebe água por uma brecha (mina) nova de água (Cinfães).

– Quem urina num rego de água urina a fortuna.

– Se a água está fria quando se bebe, diz-se que não adivinha outra, i. é, não choverá (Elvas; informação de António Tomás Pires).

Epostracismo, leconomancia e hidromancia

Epostracismo: em Mangualde os rapazes costumam capar a água com pedras.

– Fecundidade

À porta de Dona Aldonça
Corre um cano de água clara,
A mulher que dela bebe
Logo se sente pejada…

Leconomancia e hidromancia: em Mangualde e Óbidos levam água às pessoas que se supõem mordidas por um cão ou qualquer animal raivoso, porque vêem na água o animal que mordeu.

– Em Guimarães, quando as mulheres que têm o diabo no corpo vão á mulher benta, a Braga, para lho expulsar, deitam sal no rio ao passarem por ele (ouvido em 1884).– Em Óbidos, quando vão buscar água à fonte, costumam escorrer bem o cântaro antes de saírem, porque, se levam no fundo algum resto, a fonte seca.

Na Nazaré fazem o mesmo na fonte, para que a fonteira não venha a casar com um bêbedo. As raparigas de …, quando iam à Fonte Velha, costumavam deitar uma gota de água na cavidade de uma pedra que estava ali perto. E no Alandroal, quando trazem o cântaro da fonte com água, atam-lhe uma junca ao gargalo para que a água se conserve fresca.

– Na Estremadura entornar água significa lágrimas, tristezas; por isso em Lisboa deitam-lhe vinho, porque entornar vinho é sinal de alegria.

Fonte: Etnografia Portuguesa – vol.VI, J. Leite de Vasconcelos

Rezas e benzeduras | Superstições e crendices

Rezas e benzeduras

No âmbito das superstições e crendices, as rezas e benzeduras são utilizados principalmente para curar doenças e afastar os males. Para muitos, elas são mais eficazes que os remédios da “medicina científica” (por contraponto com a “medicina popular”).

Existem benzeduras para quase tudo: cobreiro, sapão, quebranto, espinhela caída, dor de cabeça, etc., tal como há rezas com os mais diversos objectivos: para conseguir casamento, para dormir, para ser feliz, para abrandar os mais exaltados, etc.

Tradicionalmente, existe todo um universo de crenças, que permanentemente ameaçam as pessoas. Uma das mais temidas é a do “mau-olhado” que leva a toda uma série de sintomas e malefícios.

A “doença” típica provocada pelo mesmo é o “quebranto“, onde o atingido tem perda da vivacidade, olhos lacrimejantes, sonolência entre outros. A cura só se dá através de muita benzedura.

Segundo a crença popular, não se deve brincar com a própria sombra, pois pode “trazer doença“, nem contar estrelas, pois faz nascer verrugas também conhecidas por “cravos”.

Deve-se evitar ter em casa búzios e caramujos ou barcos em miniatura, pois os mesmos “chamam” males. Borboletas pretas, mariposas, morcegos e cobras são animais peçonhentos que representam mau agouro, pois foram criados pelo diabo.

Se matar gatos traz sete anos de atraso na vida, já uma rapariga que pisa em cima do seu rabo não casa.

Estes são apenas alguns exemplos das infindáveis superstições e crenças que faziam e ainda fazem parte do quotidiano de muitas comunidades, particularmente as rurais, por vezes ditando normas e condutas sociais.

Diversas superstições e crendices…

… relacionadas com a água

Não é bom beber água de noite, porque ela está a dormir, e se não puder deixar de beber-se bata-se para a acordar e não fazer mal (Óbidos e Mangualde). Também em Carviçais, Moncorvo, se diz que a água dorme de noite, e em Baião, quando alguém tem sede de noite e quer beber água, é necessário deitar uma pinga fora e diz-se: «Acorda, água, que eu também já acordei!» «Vamos pelo que diziam os antigos»! Ler+

… relativas às crianças

Se a criança nasce ao sábado ou a o domingo, não entrará com ela causa ruim; se à sexta-feira, as bruxas não querem nada com ela; se em dia de Ano Bom ou Natal, será feliz; se em ano bissexto, não será atacada de bexigas. Dá azar nascer em 3 ou 13. Ler+

… relacionadas com a comida e o comer

Quem come um fruto pela primeira vez num ano benze-se com ele, dizendo: «deixa-me fazer novo. Em nome de Padre, Filho e Espírito Santo» (Alportel, Algarve). Nas mesmas circunstâncias, na Beira, diz-se: «Ano melhorano, Deus me deixe chegar ao ano.» Ouvi que, em Coimbra, quando se come uma coisa pela primeira vez, se formulam três desejos. Ler+

… com o vestuário

Em Carviçais, Moncorvo (Abade José Tavares, 1904), crê-se que quem morre mascarado vai para o Inferno. Também ali se crê que é de muito mau agouro dormir com os sapatos no sobrado, voltados com as palmilhas para cima, ou com os sapatos à cabeceira, ou com o chapéu aos pés (ou com a candeia no chão). Também é aziago, algures, colocar os sapatos em disposição inversa.  Ler+

… com os animais

Ligadas aos animais, correm muitas superstições, das quais bastantes se incluíram noutros lugares. Agora ficam aqui reunidas umas, mais características, tanto de carácter geral como de aplicação a um ou outro animal. Crê-se (por exemplo, em Mangualde e Lisboa) que é bom ter animais em casa, pois certas doenças, e até a morte, vão para eles, em vez de atacarem as pessoas. Ler+

As «crendices» das ervas

“Como sempre todas as plantas se mostraram importantes para a humanidade, outrora consideradas filhas divinas da Mãe-Terra. Daí a sua também popularização através de envolvimentos mais ocultos pelos seus «atributos mágicos» em crendices populares, ensalmos, esconjuros, fórmulas de atalhar ou mézinhas criadas pelas chamadas «mulheres de virtude», «talhadeiras» ou «benzedeiras», pelos feiticeiros ou por tantos de nós em rituais que ainda hoje perduram nas nossas aldeias.” Ler+

Crendices de há mais de 100 anos – Da natureza e efeitos dos signos

Onde se descreve o que se dizia e alguns acreditavam, há mais de 100 anos, sobre a natureza e efeitos dos diversos signos do Zodíaco nos respetivos nativos! Saber mais

 

Superstições e crendices relacionadas com os animais

Superstições e crendices acerca dos animais

Ligadas aos animais, correm muitas superstições, das quais bastantes se incluíram noutros lugares. Agora ficam aqui reunidas umas, mais características, tanto de carácter geral como de aplicação a um ou outro animal.

Crê-se (por exemplo, em Mangualde e Lisboa) que é bom ter animais em casa, pois certas doenças, e até a morte, vão para eles, em vez de atacarem as pessoas.

Na Idade Média a imaginação viveu imenso de crenças com base na vida dos animais, a que se atribuía influência, por vezes decisiva, na vida humana.

Na literatura portuguesa da época encontram-se referências a obras com aqueles temas, em que se procurava na história natural o que parecesse mais útil à instrução religiosa, pelo seu interesse alegórico:

– os bestiários e os volucrários,

– manuais de história natural,

– escritos com intuitos moralizantes.

Quando nasce um animalzinho, em Pragança, baptizam-no, isto é, dão-lhe um nome e uns dias depois: Cabana (de galhos tortos), Riscada, Preta, Sara (de cor branca junto da boca!).

A cada cordeirinho ou cabrito põem-lhe uma cornicha ao pescoço, por causa do quebranto. E também quando um animal tem diarreia atam-lhe ao rabo uma fita encarnada.

O efeito maravilhoso do chifre é vulgarmente acreditado: um colocado na lareira repele os feitiços que queiram fazer ao dono da casa ou à sua família – Crê-se em Santa Eulália de Fermentões, concelho de Guimarães.

Superstições e crenças religiosas

Frequentemente as superstições confundem-se com as crenças religiosas. Aceita-se (Évora, etc.) que o hálito das vacas é santo, porque Jesus nasceu junto de uma.

Quem promete cereais para uma festa manda-os pendentes de um jugo levado por dois bois. Os bois jungidos vão na frente da procissão, às vezes em grande número – por exemplo, quinze (Felgueiras, concelho de Moncorvo).

Santo Antão é protector do gado cabrum, lanígero e vacum. Quando há uma epidemia no gado, o dono deste promete uma rês ao santo para a epidemia passar. Na véspera da festa vai com o gado dar voltas à igreja, que tem as portas abertas: a primeira rês que se escapa para a igreja é a que fica pertencendo ao santo (Parede, concelho de Alfândega da Fé).

Em Tolosa, S. Marcos é advogado do gado vacum; Santo Amaro protege especialmente as ovelhas e cabras, e a ele prometem um borrego, se o gado se criar bem. Santo António é advogado de todo o gado.

Patrono dos pastores

O patrono dos nossos pastores é S. João, que é representado com um cordeiro. Os pastores da serra da Estrela, nesse dia, vão lavar o gado ao rio.

No Jarmelo, os pastores fazem cruzes, com anil ou almagre, na lã, para não dar o mal às ovelhas e para não entrarem as bruxas com ele.

Quando nasce um borrego ou um cabrito, se é esperto dizem: «Tão castiço que é! Benza-o Deus!» ou «Santo António o guarde!». Se é fraco, dizem apenas: «Tão rélezinho que é!» (Não dizem «Benza-o Deus!»). No tempo das festas, os pastores levam o gado em volta da ermida, e às vezes nas procissões.

Em Seia há uma reza a S. Romão para espantar os lobos, mas S. Romão é advogado contra os cães danados. Também responsam os lobos, no Barroso, para não irem atacar o gado, quando ele fica no monte.

Parece que é o responso de Santo António, mas a pessoa que me informou só se lembrava das seguintes palavras: «… se o bicho tivesse a boca aberta, que não a pudesse fechar; se a tivesse fechada, não a pudesse abrir…»

Fonte: Etnografia Portuguesa – vol.VI, J. Leite de Vasconcelos  (texto editado) | Imagem de destaque: Jean Baptiste Thomas. Bendición de los animales en San Antonio Abad. Roma, 1823.

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