Os Santeiros da Maia – Arte popular religiosa do Norte

Os Santeiros da Maia

Imaginários e mestres de imagens foram os artistas que nos tempos medievais e nos da renascença esculpiram as figuras divinas e hagiológicas.

Na era de seiscentos, porém, divulga-se o qualificativo de santeiros e aquele outro desaparece.

A arte popular dos santeiros proliferou bastamente no século XVIII, desdobrada na escultural e na pictórica (envolvia esta as encarnações, os dourados e estofados das roupagens), e distinguia-se pelo amaneirado das modelações e pela excelência das pinturas.

As oficinas dos escultores-santeiros congregavam-se em lugares certos.

Foram centros da dita arte as cidades do Porto, de Lamego, Braga, Viana do Castelo, a terra da Maia e a Ilha de S. Miguel (Açores).

O de Gaia fruiu a sua época áurea nos fins do século XIX e princípios do actual, com José Afonseca Lapa e Fernandes
Caldas
.

As perseguições movidas à Igreja pela demagogia democrática, nos primeiros anos da República geraram o declínio desta arte popular.

Manteve-se, embora precariamente, o centro da Maia, de velha tradição, onde aos pais sucediam os filhos.

Ainda subsistem as oficinas dos Thedins [na imagem acima] e dos Maias, com longas décadas vitais. Os outros centros pereceram.

A imagem de Nossa Senhora de Fátima

Actualmente, porém, está próspera e avigorada a arte dos Santeiros da Maia, por efeito das encomendas de imagens que recebem da Europa, da África e das Américas.

Esta prosperidade resultou da peregrinação, ao longo dos caminhos do mundo, efectuada pela imagem de Nossa Senhora de Fátima.

As imagens dos santeiros da Maia são, fora as de série, dignas de apreço, quanto à escultura.

O que as inferioriza é a pintura, de má valia em tintas e em execução.

Claramente, feneceu a arte de estofar e encarnar as imagens.

Na obra escultórica destes artistas revela-se flagrantemente uma deploråvel industrialização, prescrita pelos maus factores desta época de crise moral e mental.

Sem dúvida, o industrialismo é um agente desagregador e corruptor da dignidade espiritual dos povos, dos valores característicos dos mesmos, da tradição.

À sua bruta influência e à das técnicas não escapa, nem a arte.

O progresso material é inimigo da civilização. (1)

Santeiros da Maia – movimento artístico

Santeiros da Maia, designação atribuída ao movimento artístico que decorreu em Terras da Maia, próximo da cidade do Porto, ao longo de mais de cem anos.

Este movimento, que terá tido início nos inícios do século XIX, atingiu o seu auge em meados do século XX.

Ao longo de todos estes anos, a Maia, terá sido talvez o maior centro de produção de Arte Sacra em madeira e pedra de ançã (calcário) de Portugal. (2)

Fontes

(1) (Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore, promovido e organizado pela Câmara Municipal de Braga | Braga – Viana do Castelo | 22 – 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado)

(2) Texto e imagem

A origem das alminhas populares | Religiosidade popular

A origem das alminhas populares

Os painéis populares das alminhas, com as figuras ingénuas dos condenados entre as chamas do Purgatório, com as imagens de Cristo, da Virgem, de S. Miguel ou de qualquer outro Santo a assistirem no alto, e com legendas piedosas rogando orações pela salvação dos que penam, constituem uma das notas mais típicas da etnografia religiosa portuguesa.

Vemo-las por todo o país, dentro de pequenos nichos, ora rebordando os caminhos, ora nas encruzilhadas, ora junto das pontas, etc.

Como entre os romanos se costumavam colocar nestes mesmos sítios uns altares em honra dos Lares Viales e dos Lares Compitales, é vulgar afirmar-se que as nossas alminhas provêm do referido culto pagão, adaptado ao Cristianismo.

No entanto, nada menos certo.

Os retábulos das almas só nos surgem com frequência depois do Concílio de Trento, quando a Igreja reafirmou e divulgou o dogma da existência do Purgatório, negado pelos Protestantes.

Nem na época mais primitiva do Cristianismo, nem na Idade Média, nem ainda na Renascença, encontramos oratórios de alminhas ao ar livre – o que prova que o seu aparecimento não é fruto duma continuidade, dum evoluir natural ou duma adaptação dos altares pagãos, mas sim uma criação própria, autónoma, relativamente moderna.

Além disso, mesmo na intenção religiosa os monumentos diferem.

É com a acção da Contra-Reforma e com a difusão das Confrarias das Almas, que se desenvolve o número de quadros sobre o Purgatório – tema que a arte da Idade Média, apesar da crença religiosa acerca do assunto, só veio a conhecer nos fins do século XV.

A reforma iconográfica post-tridentina fixa também o novo tema, de que encontramos já numerosos exemplos, pelos finais do século XVI e princípios do século XVII, na Itália, França, Espanha, etc.

Em Portugal, num Juízo Final da primeira metade do século XVI, que está no Museu de Arte Antiga de Lisboa, descobre-se já uma figuração do Purgatório, ainda hesitante.

Todavia, pelos fins do século XVI e começos da centúria imediata, divulgam-se também entre nós as composições segundo os cânones posteriores ao Concílio de Trento.

Podem ver-se painéis desse género na Igreja de Santo Antão, em Évora; na Igreja do Colégio do Carmo, em Coimbra; no convento de Refojos, junto de Ponte do Lima; na Igreja de Santa Clara, no Porto, etc.

Depois, pelos séculos XVII e XVIII multiplicam-se as Confrarias das Almas, e com elas uma multidão de quadros alusivos.

O culto das almas vingou tanto no nosso país que, a partir de certa altura, começam a aparecer ao ar livre retábulos populares representando o Purgatório, pintados segundo a iconografia que os artistas eruditos haviam espalhado.

Torna-se difícil hoje saber a época precisa em que nasceu o costume das alminhas das estradas e dos largos; do século XVIII, porém, já nos restam muitos exemplares, sobretudo de azulejo ou de pedra.

Os locais escolhidos para a sua colocação foram, quase sempre, os mesmos que já se usavam para o levantamento dos cruzeiros – estes talvez derivados dos Lares pagãos.

Felizmente, o belo e piedoso costume ainda se mantém.

Dr. Flávio Gonçalves (1)

As alminhas, história e significado

Dado que nos primórdios do cristianismo apenas se pensava no Céu e no Inferno, a ideia do Purgatório surgiu na sequência do Concílio de Trento, que o apresentou como dogma de fé, numa sensata resposta católica à Reforma levada a cabo pelos protestantes.

Assim, passava a haver um estado intermédio para as almas das que faleciam.

A resposta da Igreja foi bem interpretada pelo povo cristão que começou a multiplicar as formas e os caminhos para chegar junto das almas dos irmãos em sofrimento, no sentido de as aliviar, para tal, tudo valia, orações, missas, esmolas, sacrifícios, etc.

A voz dos responsáveis e os textos divulgados ampliaram-se com a expansão de gravuras de fácil entendimento e
de pinturas apelativas (uma imagem vale mais do que mil palavras) que tocavam fortemente a sensibilidade das pessoas

O Purgatório, para além do alto significado religioso, inspirou muita arte religiosa, pois as alminhas são marcas profundas da religiosidade popular.

Do reflexo de uma forma religiosa, emocional e sentimental, começaram a surgir pequenas representações das alminhas em sítios públicos com pinturas de pessoas adultas de mãos erguidas, suplicando aos vivos orações e esmolas para as almas dos defuntos em geral, para poderem completar a purificação e libertar-se das penas do Purgatório.

São Josemaria Escrivá dizia: “O Purgatório é uma misericórdia de Deus, para limpar os defeitos dos que desejam identificar-se com Ele” (Sulco, 889).

Ao seu Deus e aos seus santos, os homens levantaram mais imponentes e também os mais simples e humildes.

Fruto da religiosidade e da superstição (nalguns casos) popular, as alminhas aí estão, nos cruzamentos das aldeias, vilas ou cidades; são pintadas em zinco, madeira ou azulejo e representam as almas do purgatório.

Encontram-se em nichos próprios, engalanados com flores ou alumiados por velas, despertando a atenção daqueles que passam e há frases que fazem meditar e convidam à oração: “Ó vós que ides passando, lembrai-vos dos que estão penando“.

A superstição, o sentimentalismo religioso, a fé ou o conjunto de todos estes fatores, fizeram com que as alminhas aparecessem à beira das estradas, dos caminhos rurais e nos cruzamentos.

Em Portugal…

Em Portugal, na sequência do Concílio de Trento (1545-1563), começaram a criar-se estes monumentos que são marcas profundas da religiosidade popular.

Assim, no reinado de D. Filipe I de Portugal (1580), o pintor Álvares de Andrade, que trabalhava para a corte, destacou-se na pintura religiosa, particularmente pelos seus painéis, que representavam as almas dos defuntos a arder nas chamas do Purgatório.

Estas representações espalharam-se desde Lisboa, pelo resto do país e foi então que o povo começou a designá-las por “Alminhas”.

Toda a gente as conhece e em todas as freguesias encontramos testemunhos deste fervor religioso.

Também a tragédia da Ponte das Barcas, em 29 de Março de 1809, marcou indelevelmente a memória e a espiritualidade do Porto.

Por intenção dos que morreram no Douro surgiram as alminhas da Ponte “, culto de raiz popular; logo houve alguém que pintou um “tosco painel” evocativo das almas, depositando-o no Cais da Ribeira, perto da Ponte Dom Luís.

De imediato, mais alguém ali pôs lamparinas acesas e de seguida todos as quiseram manter assim, com a luz das velas e com dinheiro.

Ou seja, foi lá posta uma caixinha de ferro onde todos os que passavam, ainda chocados com o acontecido, deixavam uma esmola.

Apesar de ter passado muito tempo, o culto às alminhas da ponte não esmoreceu.

Estes dois acontecimentos, segundo a opinião de alguns especialistas no assunto, marcam o início ou, pelo menos, a difusão das alminhas, abrigadas em pequenos nichos.

Entre as manifestações mais importantes da religiosidade do homem, encontra-se o culto aos defuntos, que se expressa, desde sempre, numa variedade de usos e costumes relacionados com os mortos.

No entanto, Luís Pinheiro refere:

As alminhas surgem no século XVI, mas Leite de Vasconcelos dizia que são a continuação do uso romano e pagão de levantar nas encruzilhadas dos caminhos, entradas das pontes e junto das habitações, uma aediculla ou ara em honra dos Lares compitales e Lares viales.

A este propósito, Leite de Vasconcelos acrescenta:

O nosso povo alça uma cruz ou erige umas «alminhas». Os negociantes de Roma honravam particularmente Mercúrio com festas e santuários […]; hoje, sobretudo no Norte e na Beira as lojas de negócio ostentam um nicho com a imagem de Santo António, ladeada de jarrinhas com flores […). Aos genii das cidades romanas correspondem entre nós os oragos ou padroeiros cristãos.

Nestas crenças pré-cristās, segundo um sociólogo contemporâneo, encontra-se uma certa religiosidade popular: “nas aldeias e nas vilas ou cidades continuam a praticar-se ritos vindos do fundo dos tempos, inúmeras vezes condenados pelas instituições eclesiásticas ou mesmo pelos regulamentos municipais. Religião cristã, magia, feitiçaria formam um todo coerente no seio das camadas populares…” (2)

(1) In Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore, promovido e organizado pela Câmara Municipal de Braga | Braga – Viana do Castelo | 22 – 25 de Junho de 1956 (texto editado)

(2) In “O Douro, um olhar diferente”, António Augusto Ribeiro (texto editado e foto)

Orações populares que os nossos avós rezavam

Orações populares

Um povo sem religião, sem culto, sem Igreja, é um povo sem Pátria, sem tradições, que se expõe necessariamente à escravidão“, como judiciosamente escreveu Lecointre.

Ora o nosso povo sempre lutou pela sua Pátria, pelas suas tradições e pela sua liberdade: 1385 e 1640 são marcos históricos dessa luta heróica só possível pela sua grande fé que tornava a sua alma maior que o seu corpo.

A razão desta crença no sobrenatural é o seu permanente contacto com a natureza que, no dizer de Guerra Junqueiro “é um credo sempre crescente e uma oração a Deus“.

Orações da noite

«A noite é o reino das trevas, portadoras de fantasmas, e uma espécie de precursora da morte, cujo túmulo é o próprio leito.

Por isso, o medo da escuridão e da morte, agravado pelo receio de comparecer na presença do Supremo Juiz, faz com que o crente sinta necessidade de recorrer à oração, por vezes com sentido de angústia e de terror, que acaba por ser superado pelo efeito tranquilizante da fé.»

Seis orações populares para rezar à noite, ao deitar

Orações da manhã

«Se a noite, símbolo da morte, impele o crente à oração, como forma de esconjurar o medo, a madrugada, símbolo da ressurreição, convida-o, igualmente, a rezar, como meio de manifestar a alegria de quem se libertou das trevas para a luz.

Por isso, as orações têm um cunho mais alegre e optimista.

Mas há ainda uma outra razão importante para rezar: a madrugada é o início de um trabalho duro, onde o perigo espreita, contra o qual é preciso estar protegido por Aquele que tudo pode.»

Orações do dia

«O dia é, sobretudo, tempo de acção. Mas nem por isso a oração é esquecida.

O homem sente-se impotente para enfrentar sozinho dificuldades de toda a ordem que surgem a cada momento: “de home vivo, mau encontro; dos cães danados e por danar; de águas correntes; de fogos ardentes e da língua de más gentes…”.

Por estas razões, recorre, em todas as circunstâncias da vida, aos Entes Superiores – Deus, Nossa Senhora, e os Santos – para o protegerem.»

Orações de certas circunstâncias

Orações contra as trovoadas – Trás-os-Montes

Textos (editados) de Joaquim Alves Ferreira, Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – Devocionário (vol.III)

Orações contra as trovoadas – Trás-os-Montes e Alto Douro

Orações contra as trovoadas

Um dos flagelos da vida agrícola são as trovoadas de Maio e Junho, que podem destruir parcial ou totalmente os centeios, prejudicar os fenos e danificar os batatais. Nas horas de perigo de uma trovoada, recorre-se a Deus, a Santa Bárbara ou a São Jerónimo.

São variáveis as preces rimadas:

Oração da trovoada

Santa Bárbara donzilha,
Livrai-nos duma cintilha,
Jesus Cristo será cravado
No madeiro de uma cruz,
Glória ao Padre, amén, Jesus!
Cristo viva, Cristo reine,
Cristo nos salve:
Uma voz ouvi do Céu,
De sua real majestade.
Chagas abertas, corações feridos,
Deus Nosso Senhor se meta,
Entre nós e os perigos.
(Tourém)

Para livrar do raio

Santa Bárbara bendita
Que no Céu está escrita
Com cruzes e água benta,
P’ra apagar esta tormenta.

Outras variantes

Santa Bárbara,
São Jerónimo,
Verbo divino,
Cordeiro na Cruz,
Santo Custódio,
Salvai-nos, Jesus.

Fonte: João Gonçalves da Costa – Montalegre e Terras de Barroso (Braga, 1968)

*****

Orações nas Trovoadas

Nalgumas terras, quando toava, o chefe da casa punha a mesa a Nosso Senhor: estendia a toalha, colocava sobre ela pão, um copo com água, uma faca e um garfo, em cruz.

Noutras terras, punha-se um prato sobre a mesa e queimavam-se nele os ramos de oliveira e alecrim benzidos no Domingo de Ramos.

Noutras, ainda, espetavam-se os ramos bentos nas ombreiras das portas e janelas. Depois dizia-se:

Santa Bárbara donzilha,
Livrai-nos desta cintilha,
Jesus Cristo está cravado
No madeiro duma cruz.
Glória ao Padre. Amém, Jesus.
Cristo vive, Cristo vem,
Cristo nos salve. Amém.

***

Nosso Senhor é nosso Pai,
Nossa Senhora é nossa Mãe,
O Anjo S. Gabriel
E nosso amigo fiel,
O Padre Eterno nos conduz.
De raios e trovoadas
Salvai-nos, Senhor Jesus.
Chaga aberta, coração ferido,
Livrai-nos de todo o perigo.

***

Santa Bárbara bendita,
Que tens a palma na mão,
Pede a Nosso Senhor
Que não mande mais trovão.

***

Santa Bárbara bendita,
Que tens a palma na mão,
Pede a Nosso Senhor
Que não mande mais trovão.

***

Ouvi uma voz do céu
Da Divina Majestade.
Chaga aberta, coração ferido,
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
Se metam entre nós e o perigo.

***

Santa Bárbara, S. Jerónimo,
Verbo Divino pregado na cruz,
Santo Anjo Custódio,
Salvai-nos, em nome de Jesus.

***

Ouvi um grito no céu
E outro na claridade.
Valha-me a Virgem Maria
E a Santíssima Trindade.

***

Santa Bárbara e S. Jerónimo
No cajadinho pegaram,
Jesus Cristo encontraram
Ele lhes disse:
– Ide espalhar a trovoada,
Lá pròs lados do Marão,
Onde não há palha nem grão,
Nem meninos a chorar,
Nem galinhas a cantar,
Nem sinos a tocar,
Nem homens a trabalhar.

***

Santa Bárbara bendita,
Que nos céus estais escrita,
Com papel e água benta,
Livrai-nos desta tormenta.

***

Abraão, Abraão,
Vai ao céu abrandar este trovão.
Com papel e água benta
Livra-nos desta tormenta.

***

Altas vozes vão no céu.
Valha-nos a Divindade,
A sagrada cruz de Cristo,
E a Santíssima Trindade.
Chaga aberta, coração ferido!
O sangue derramado
De Nosso Senhor Jesus Cristo
Se meta entre nós e o perigo.

***

Ó meu Senhor Jesus Cristo,
Deus de infinito poder,
Só as vossas cinco chagas
É que nos podem valer.
Valei-nos, Deus humanado,
Pelas vossas cinco chagas:
Das mãos, dos pés e do lado.

***

Ouvi uma voz no céu!
Valha-nos a Divindade,
Valha-nos a cruz de Cristo
E a Santíssima Trindade.

***

Magnificat! A minha alma
Engrandece ao Senhor!
Meu espírito se alegra
No Divino Salvador,
Que nos livre do trovão
Que anda tão ameaçador.

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro” (III vol. – Devocionário), Joaquim Alves Ferreira | Imagem

Festa do Divino Espírito Santo – Açores

Festa do Divino Espírito Santo

O culto do Espírito Santo remonta ao tempo de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel.

Quase desaparecido do continente – com as excepções de Penedo (Sintra) e da Festa dos Tabuleiros (Tomar) -, mantém-se vivo nos Açores, em especial na Ilha Terceira (mas também com muita força ainda nas de São Miguel, Santa Maria, Pico e Flores).

A emigração açoriana levou-o a locais tão afastados como o Hawai ou o Brasil.

Anualmente, as festas do Espírito Santo decorrem um pouco por todo o arquipélago dos Açores, todas as semanas desde a Páscoa até ao Domingo de Pentecostes, em alguns casos, ou Domingo da Trindade, noutros casos.

No geral, durante as festividades semanais realizam-se as “alumiações” – um misto de veneração das insígnias do Divino e de convívio alegre – e canta-se o “pezinho” ao mordomo e às pessoas que realizam generosas ofertas ao Espírito Santo.

Nestes festejos podem ouvir-se cantares ao desafio semelhantes ao norte de Portugal.

É uma tradição colectiva e caritativa, de inspiração franciscana. O culto dignifica e autonomiza uma das Pessoas da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, associando-lhe a celebração da fertilidade da terra (talvez inspirada em ritos pré-cristãos) e a exaltação da fraternidade (concretizada na partilha do bodo).

Na Páscoa partilha-se o bodo com os mais necessitados. Esta é a essência das Festas do Divino Espírito Santo.

No Domingo da Trindade sorteiam-se entre os irmãos de cada confraria os mordomos do ano seguinte.

O escolhido deverá guardar em sua casa, em lugar de honra e destaque, as insígnias do Espírito Santo até ao ano seguinte. Na Pascoela [Domingo logo após o Domingo de Páscoa] começam os balhos e arma-se o trono do Espírito Santo.

A coroação do imperador e as insígnias

Na igreja da freguesia é coroado o imperador, geralmente uma criança, que deverá levar a coroa e o ceptro até casa doutro mordomo que as deverá guardar durante uma semana e assim sucessivamente, passando as insígnias de mordomo em mordomo até ao dia da festa, em Maio.

Estas passarão a estar expostas no império da confraria (pequeno edifício religioso, o mais das vezes parecendo uma capelinha em miniatura, uma das originalidades da arquitectura popular açoriana).

Durante a festa, a carne das reses oferecidas em cumprimento de promessas é confeccionada nos talhos (cozinhas construídas ao lado dos impérios). Depois, é servida com o pão, a massa sovada e o vinho de cheiro. O bodo é acompanhado por cantares e folias diversas. Nalgumas freguesias rurais, sobretudo da Terceira, realizam-se as touradas à corda.

As festas tendem actualmente a prolongar-se desde o Pentecostes até ao final do Verão, de forma a aproveitar a chegada dos emigrantes açorianos em férias.

As festas do Espírito Santo têm bastante significado nos Açores, embora de ilha para ilha existam algumas diferenças nos festejos.

Nas Terras do Priolo, as festas do Espírito Santo são comemoradas em todas as freguesias. Algumas que ainda cumprem com todas as festividades semanais, enquanto outras realizam só em algumas as semanas, por falta de disponibilidade de mordomos.

Se do ponto de vista religioso a grande festa dos Açores é o Senhor Santo Cristo (no quinto Domingo após a Páscoa), são estas múltiplas festas do Espírito Santo que conferem à região personalidade etnográfica.

 

Fonte: GUIA Expresso “O melhor de Portugal” – 12 – Festas, Feiras, Romarias, Rituais (editado e adaptado com outra fonte)| Imagem de destaque

 

A Amenta das Almas em Loriga (Vídeos)

Amenta das almas

Na etnografia de Loriga a existência da “Amenta das Almas” é uma tradição muito antiga, perdendo-se mesmo na noite dos tempos, e que se vem mantendo de geração em geração.

Esta prática religiosa tem lugar na noite de Sábado para Domingo, durante a Quaresma depois da 02h00 da manhã. Antes dessa hora os “Penitentes” começam por se reunir no Adro da Igreja. Pouco depois e, enquanto alguns sobem para a torre da Igreja, outros espalham-se pela vila em pontos altos que lhes possibilite ver a torre, para travarem um “duelo” de cantos, onde evocam e louvam a paixão e morte de Jesus a salvação da Almas. No silêncio da noite os cânticos ecoam pela Vila, acordando os crentes que começam a rezar.

Por meio de badaladas no sino da torre da Igreja anuncia-se a cerimónia.

Vídeos

“Amenta das Almas” – Loriga (Serra da Estrela) – 16.03.2008

 

“Amenta das Almas” – Loriga (Serra da Estrela) – 10.04.2008

 

“Amenta das Almas” – Loriga (Serra da Estrela) – 26.03.2007

 

Bendita e louvada seja,
A paixão do Redentor,
Para nos livrar das culpas
Morreu em nosso favor

Acorda, pecador, acorda,
Do sono em que está “dormente”,
Lembra-te das benditas almas,
Que estão no fogo ardente.

Estas quadras cantadas com música elegíaca, arrastada, dolorosa, ecoam pelas ruas, despertando os que já dormem, para orem pelas almas dos seus mortos queridos, cobrindo a vila de saudades.

– Vozes dos “Penitentes”: – Rezemos com devoção um Padre-nosso e Ave-maria.

– Respondem da torre da Igreja: – Seja pelo Divino amor de Deus, segue-se uma badalada.

Cântico:

Repetidas são as dores,
De contínuo estão gemendo,
Assim são as almas juntas,
No Purgatório ardendo.

-Vozes dos “Penitentes” pela vila: – Rezemos mais um Padre-nosso e outra Ave-maria.

-Respondem os “Penitentes” da torre da Igreja: – Seja pelo Divino amor de Deus.

Clamorosa é a recitação do Padre-nosso e da Ave-maria e pungente é a resposta.

-Vozes dos “Penitentes” pela vila: – Dai-lhes o Senhor, o eterno descanso em paz.

-Respondem os “Penitentes” da torre da Igreja: – Entre o esplendor e luz perpétua, fazei que descansem em paz. Ler+

Fonte dos textos

A Semana Santa e a Páscoa em Loriga – Seia

Semana Santa e Páscoa em Loriga

Durante a Semana Santa, nas proximidades dos fornos públicos da Vila de Loriga, pairava sempre no ar o cheirinho aos bolos: broinhas; biscoitos; pão-de-ló, bolo negro e outros, que eram as doçarias tradicionais feitas exclusivamente para essa altura.

Nos dias que antecediam o Domingo de Ramos, era ver quem mais procurava os melhores e maiores ramos. Toda a gente queria ter o seu ramo para benzer nesse Domingo.”

Via Sacra dos Homens (Domingo de Ramos)       

Via Sacra dos homens

O Domingo de Ramos em Loriga é um dia importante onde a tradição continua a manter-se bem viva, tal como nos tempos passados.

Pela manhã, concentram-se as pessoas com os ramos junto à Capela de Nossa Senhora do Carmo. Daqui sai a Procissão com destino à Igreja para serem benzidos, seguindo-se depois a Santa Missa.

(Antigamente esta procissão realizava-se da Capela do Santo António, existente no Largo com o mesmo nome).

À noite tem lugar a Via-Sacra dos homens e jovens, onde é transportada uma grande cruz de madeira. Percorre as principais ruas da Vila, recordando o caminho doloroso percorrido por Cristo a caminho do Calvário.

Esta manifestação de fé e de muita devoção, é na verdade de enorme sentimento, de pesar, de silêncio e de muito sentido respeito. Cerimónia esta a que nenhum homem quer de maneira alguma faltar.

A Via-Sacra termina na Igreja Paroquial com uma cerimónia do encerramento a ser cantada por todos, com versos alusivos ao martírio de Jesus.

Quinta-Feira Santa – O “Encontro”

Em Loriga de outras eras, as cerimónias religiosas da Semana Santa, eram algo de impressionante e de muita fé. No entanto, Quinta-Feira Santa era muito especial. Havia até quem dissesse, ser um dos dias mais movimentados da semana.

Na procissão de Quinta-Feira à noite, realizava-se o “Encontro” uma tradição que era levada a efeito na rua, numa grande manifestação de devoção para com Jesus. Com os tempos foi acabando, hoje apenas faz parte de recordações de muitos nós.

Pela manhã de Quinta-Feira Santa era celebrada a última missa, ficando a Igreja de luto pesado, com todas as imagens e altares tapados de roxo ou de preto.

A noite aproximava-se e com ela toda a população a preparar-se para a realização da tradicional procissão do Senhor dos Passos ou do “Encontro“, como popularmente muitos também assim a chamavam.

Toda a gente se incorporava nesta procissão. A Irmandade das Almas, cujos irmãos ostentavam opas pretas e capuz na cabeça, confirmava o aspecto fúnebre e de penitência.

As janelas das casas eram iluminadas com velas ou lâmpadas eléctricas. Na própria procissão os fiéis levavam também velas, que contribuíam para austeridade do cortejo.

Incorporavam-se também jovens vestidos de branco, denominados de “penitentes“, cuja alvura contrastava com o negrume dos demais fiéis.

O trajecto da procissão

O cortejo saía da Igreja conduzindo a imagem do “Senhor da Cruz às Costas” que também se denominava de Santo Cristo ou Senhor dos Passos, onde no lugar conhecido por “Praça” aguardava a chegada dos andores com Nossa Senhora e São João, que chegavam um pouco mais tarde. Entretanto, o pregador já se encontrava numa varanda de uma das casas, de onde iria efectuar o sermão.

Épocas ainda mais remotas, dão-nos conta que o tradicional “Encontro” era efectuado no Largo do Poleirinho, recordando-se como curiosidade, o facto de os andores com a imagem de Nossa Senhora e de São João saírem de uma casa ali na vizinhança, para onde tinham sido levado umas horas antes.

Qualquer dos locais que fosse, certo é, que nessa hora as ruas adjacentes, varandas e janelas, ficavam repletas de fiéis para assistirem ao sermão que era iniciado logo após a chegada dos andores de Nossa Senhora e São João.

Era o momento solene do “Encontro” com o pregador a dizer “Mãe: eis aí o teu Filho. Filho: eis aí a tua Mãe.” dando assim início à pregação enaltecendo a figura do Mártir, a caminho do Calvário, sermão que era ouvido pela população com toda atenção e respeito, e no silêncio da noite era possível ouvir-se em quase por toda a povoação.

Memórias de outros tempos…

Uma vez o “pregador” atrapalhou-se, fez um trocadilho das palavras no início do sermão, que provocou muitos risos, mas que foram também imediatamente abafados pela austeridade do momento. No entanto, ainda hoje muitos recordam esse episódio, usado até como piada popular em Loriga.

 

A Amenta das Almas na Quaresma, em Loriga – Seia

A Amenta das almas em Loriga

Na etnografia de Loriga a existência da “Amenta das Almas” é uma tradição muito antiga, perdendo-se mesmo na noite dos tempos, e que se vem mantendo de geração em geração.

Esta prática religiosa tem lugar na noite de Sábado para Domingo, durante a Quaresma depois da 02h00 da manhã.

Antes dessa hora os “Penitentes” começam por se reunir no Adro da Igreja. Pouco depois e, enquanto alguns sobem para a torre da Igreja, outros espalham-se pela vila em pontos altos que lhes possibilite ver a torre, para travarem um “duelo” de cantos, onde evocam e louvam a paixão e morte de Jesus a salvação da Almas.

No silêncio da noite os cânticos ecoam pela Vila, acordando os crentes que começam a rezar.

Por meio de badaladas no sino da torre da Igreja anuncia-se a cerimónia.

Bendita e louvada seja,
A paixão do Redentor,
Para nos livrar das culpas
Morreu em nosso favor

Acorda, pecador, acorda,
Do sono em que está “dormente”,
Lembra-te das benditas almas,
Que estão no fogo ardente.

Estas quadras cantadas com música elegíaca, arrastada, dolorosa, ecoam pelas ruas, despertando os que já dormem, para orem pelas almas dos seus mortos queridos, cobrindo a vila de saudades.

– Vozes dos “Penitentes”: – Rezemos com devoção um Padre-nosso e Ave-maria.

– Respondem da torre da Igreja: – Seja pelo Divino amor de Deus, segue-se uma badalada.

Cântico

Cântico:

Repetidas são as dores,
De contínuo estão gemendo,
Assim são as almas juntas,
No Purgatório ardendo.

-Vozes dos “Penitentes” pela vila: – Rezemos mais um Padre-nosso e outra Ave-maria.

-Respondem os “Penitentes” da torre da Igreja: – Seja pelo Divino amor de Deus.

Clamorosa é a recitação do Padre-nosso e da Ave-maria e pungente é a resposta.

-Vozes dos “Penitentes” pela vila: – Dai-lhes o Senhor, o eterno descanso em paz.

-Respondem os “Penitentes” da torre da Igreja: – Entre o esplendor e luz perpétua, fazei que descansem em paz.

Vem a seguir a exortação aos crentes que dormem na inconsciência do momento da vida para que não esqueçam os que penam os seus pecados, lembrando-os do efémero que é a vida deste mundo.

Exortação aos crentes

Olha cristão que és terra
Olha que há-des morrer
Há-des dar contas a Deus
Do teu bom e mau viver

Uma alma só que tens
Se a perdes que será?
Se cais no mesmo abismo
Nunca mais a Deus verás

Não caias em tentação
Como calma na geada
Que andam a tentar
Os três inimigos da alma

Confessa os teus pecados,
Emenda a tua vida,
Que a morte te anda buscando,
De noite e mais de dia.

-Vozes dos “Penitentes” pela vila: – Rezemos-lhe com devoção uma Salvé-Rainha.

-Respondem da torre da Igreja: – Seja por seus infinitos louvores.

Quando a manhã começa, os “Penitentes” juntam-se novamente no adro da Igreja para todos juntos fazerem arruada, rezando ainda pelas almas dos seus mortos regressando finalmente ao seus lares, certos do haver cumprido este seu dever sagrado.

Observações

São muitas as pessoas que a Loriga se deslocam, para ouvir a Amenta das Almas, atraídas pela sua fama. Também a esta Vila se deslocou um dia, Michel Giacometti, grande pesquisador por todo o país, das tradições, dos cantares, dos usos e costumes, aos quais dedicou a sua vida em Portugal.

Esta secular tradição em Loriga, da Amenta das Almas, pode assim ficar registada na grandiosa obra desse histórico pesquisador de tradições portuguesas.

***

Nota complementar: “Ementa” ou “Amenta” as Almas?

Ao longo dos tempos, tanto oralmente como na escrita tem tido as duas interpretações, uns considerando “Ementa” outras considerando “Amenta“. O certo, é que tanto uma como outra estão correctas, assim e tendo em conta aquele valor dos meus tempos de criança, neste artigo aqui descrito, irei manter “Ementa” por ser assim que ouvia as pessoas mais antigas, assim a expressarem-se.

Estudo da Tradição Secular da “Ementa das Almas” em Loriga
(Síntese da Memória Final da Licenciatura em Ensino – Educação Musical)

Joaquim Pinto Gonçalves

Quando começou?…

Estes Cânticos que fazem parte da “Ementa das Almas” (Encomendação das Almas, na sua designação mais corrente) existem em Loriga, pelo menos desde o Séc. VIII, de acordo com os testemunhos de alguns dos mais velhos participantes neste ritual.

Entoados nos primeiros tempos por vozes, juntou-se-lhes o instrumental, a partir do momento em que surgiu na vila uma banda de música – 1906. A “Ementa das Almas” é, no fundo, uma versão popular da “Liturgia dos Mortos” da Igreja Católica. O certo é que, embora com dificuldade, em Loriga, esta tradição vai-se mantendo.

Todos os anos, nas madrugadas de Sábado para Domingo, durante a Quaresma, o silêncio da noite é quebrado pelo ecoar dos Cânticos da “Amenta das Almas“, graças à boa vontade de uns tantos (não muitos) Loriguenses, que teimam em manter viva esta tradição.

Durante cerca de 2 horas, entre as quatro e as seis, desenrola-se este diálogo cantado, por vários homens que subindo aos pontos mais altos da vila, despertam o povo que dorme, para a recordação dos que já morreram. Aqui e ali, o diálogo é interrompido por uma badalada do sino da torre da Igreja, onde se encontra um dos participantes neste ritual, seguido de um período de silêncio – o necessário para que se reze um Pai-nosso… uma Ave-maria….

Apresentamos aqui a melodia que suporta este ritual. Para além desta melodia, salientamos na tradição de Loriga “Os Martírios”, cantados Sexta-feira Santa.
As partituras apresentadas não podem ser vistas como uma reprodução fidedigna do que se canta em Loriga. Até porque, tratando-se de exemplos de canto não medido, como diz Lopes Graça (cit. p.21) e com um texto tão diverso ao nível da métrica, é muito difícil reproduzir-se em escrita musical.

A “arruada”

No final deste diálogo, o grupo junta-se no adro da Igreja e inicia-se uma outra fase deste Rito, a “arruada“.

Esta é uma espécie de “Via Sacra” realizada pelo grupo de homens que canta a “ementa” e mais alguns que se lhes juntam, posteriormente, para aumentar o número de vozes e assim, melhor se fazerem ouvir pelos que não acordaram.

Na “arruada”, cantam-se os “Passos” dando conta das várias etapas do caminho de Cristo até ao Calvário. Trata-se, como já dissemos de uma espécie de “Via Sacra”, cantada pelo grupo, no final da “Ementa”.

Sexta-feira Santa, durante a arruada canta-se a “Mãe Dolorosa”, cântico que lembra as dores que Maria sentiu pela Paixão e Morte do Seu Filho.

Esta tradição mantém-se, independentemente das condições climatéricas. O período quaresmal, normalmente em Fevereiro e Março, é tempo de grandes nevões na região da Serra da Estrela. Mas, nem mesmo os nevões impedem que se cumpra a tradição. Embora Loriga tenha um razoável numero de população jovem, esta não se mostra muito interessada por estas tradições. Assim é muito natural que venha a perder-se a curto prazo.

Como situar a Tradição?

Desde muito cedo, ainda na infância, este ritual marcou-nos de uma forma que, na altura não conseguíamos explicar.

Com o decorrer dos anos, envolvemo-nos com aqueles que, madrugadas dentro cumpriam religiosamente, todos os anos, esta tradição.

Assim, cedo nos apercebemos de que as melodias da “Ementa das Almas” fugiam um pouco à sonoridade que estávamos habituados a ouvir. Pensávamos: – Isto deve estar desafinado!…

Mais tarde, com o evoluir dos nossos conhecimentos musicais, começámos, finalmente, a perceber que não se tratava de desafinação, mas de uma técnica de composição diferente. É aqui que surge a ideia de deslindar a origem desta tradição. Não de uma forma superficial, mas de algo mais profundo, indo mesmo às origens mais remotas.

Para tal, havia que investigar, não só em Loriga, mas noutras terras onde rituais deste género têm lugar. Assim, a simples curiosidade dá lugar a uma pesquisa sistemática de cariz mais científico.

Como ao longo dos anos fomos recolhendo informação sobre este e outros assuntos que se referem às tradições da região serrana, tradições culturais de uma forma geral, mas com especial incidência nas musicais, não é de estranhar que tenhamos optado por tratar este tema logo que surgiu uma oportunidade de fazer uma investigação na área da Etnomusicologia.

Assim, formulámos o seguinte problema nesta investigação:

– Será a “Ementa das Almas” de Loriga uma tradição secular? E quando se terá iniciado?

Para responder a esta pergunta e solucionar o problema que colocámos, há que atender a um sem número de situações que se prendem com a delimitação desta problemática.

Numa primeira análise, verificamos que o âmbito desta investigação atravessa vários domínios das Ciências Sociais.

Uma perspectiva histórica e outra antropológica

Desde logo devemos contextualizar este problema numa perspectiva histórica. Há que curar de saber se Loriga ou outro aglomerado populacional poderiam suportar uma tradição deste tipo ao longo de um determinado período histórico. Isto é, para situarmos a origem deste ritual num dado momento histórico, há que saber se existiam os sujeitos e se os mesmos poderiam ser localizados no espaço ou território a que hoje chamamos Loriga.

Por outro lado, cruzámo-nos com a perspectiva antropológica. De que forma ritualizava o homem o culto dos mortos? Quando e em que condições o começou a fazer? Porquê ritualizar este culto? Que crenças lhe estão subjacentes? Qual o papel da religião nesta ritualização? Como evoluiu a crença na vida para além da morte?

A estas e outras perguntas do mesmo tipo tentámos responder ao longo da nossa investigação. Até porque sem estas respostas não conseguiríamos contextualizar, do ponto de vista antropológico, o problema que formulámos.

Perspectiva etnomusical

Por fim surge-nos a perspectiva musical ou para sermos mais correctos a perspectiva etnomusical. E aqui tratámos de procurar pontos de contacto, semelhanças ou diferenças entre técnicas de composição actuais e outras mais ancestrais.

Procurámos fazer a análise de partituras deste e de outros rituais semelhantes e situar as mesmas no tempo e no espaço.

Tínhamos consciência de que seria algo difícil provar com toda a certeza que a tradição da “Ementa das Almas” de Loriga tem origem secular, provavelmente no tempo da Romanização da Península Ibérica.

No entanto, através da investigação e de comparações com melodias e tradições divulgadas por outras fontes, procurámos atingir esse nosso objectivo.

Várias hipóteses

Para atingi-lo, colocámos em cima da mesa várias hipóteses:

Sendo o nosso objectivo situar esta tradição o mais longe possível no tempo, a primeira das hipóteses que colocámos situa-se no período anterior à formação da nacionalidade, na Lusitânia, pois as fontes que consultámos dão-nos conta da existência de uma comunidade no local.

É uma hipótese remota mas nem por isso totalmente descabida, uma vez que, existem vestígios de rituais fúnebres, que remontam a esse período.

Outra das hipóteses, quiçá, a mais credível, situa-se na época da reforma do canto litúrgico – Séc IX.

Dizemos que será a mais credível atendendo à forma de construção de algumas das melodias que, em nosso entender, mantém uma certa semelhança com a construção monofónica e execução responsorial típica do “cantochão”.

Uma terceira hipótese é aquela que situa o início desta tradição nos Séc XVII ou XVIII.

No entanto, esta, à partida, está provada pelos testemunhos recolhidos em Loriga. O “Ti Zé Garcia” homem para 70 e tantos anos, já falecido, que foi a alma deste ritual há duas décadas, dava-nos conta de que foi iniciado nesta tradição pelo seu pai, que por sua vez havia sido iniciado pelo pai dele. Todos os outros participantes neste ritual afirmavam ter sido iniciados pelos pais e estes pelos avós.

No séc. IX

Aprofundámos, no entanto, a hipótese que considerámos mais credível, atendendo às características musicais dos cânticos utilizados ou seja, o Séc. IX.

Dos dois cânticos que apresentamos, em ambos os casos a construção afigura-se-nos como modal. Isto é, sendo tonal a música que estamos habituados a ouvir (a música tonal só aparece nos Séc. XVII /XVIII), esta soa-nos aos ouvidos como algo estranho, como se não fizesse parte (como não faz) do nosso quotidiano.

É que a música que estamos habituados a ouvir é construída a partir de escalas – tonalidades – porque assentam numa nota que é a tónica. Eis a razão porque se chama tonal.

Música na Idade Média

Na Idade Média, a musica era modal, porque a sua construção assentava em modos. Esses modos eram grupos de sons sobre os quais eram construídas as melodias da época.

Existiam 4 modos chamados Autênticos ou Gregos e 4 modos derivados destes, chamados Plagais ou Eclesiásticos.

A construção melódica dos cânticos que analisámos é tipicamente modal, logo, com origem na época da reforma do cântico litúrgico (Séc. IX). Os Martírios estão construídos no modo Autêntico de Mi, também conhecido por Frígio. A Melodia da “Ementa das Almas” está construída no modo autêntico de Ré, também conhecido por Dórico.

A sua forma responsorial é típica do Cantochão, nome que era dado ao canto Gregoriano dessa época. Os Melismas (uma só sílaba é entoada ou prolongada pela melodia) também típicos desta época estão presentes em ambos os cânticos com alguma abundância.

Pelas razões apontadas e outras de cariz mais científico, que aqui nos abstemos de abordar, poderemos, efectivamente afirmar que esta é uma tradição que remonta aos primórdios do Cristianismo na Península Ibérica.

“Ementar” ou “Amentar” as Almas?

Outra das pistas que seguimos leva-nos à origem do nome deste ritual.

Em Loriga, desde crianças, habituámo-nos a ouvir falar da “Ementa das Almas“. Todos aqueles que cumpriam este ritual a ele se referiam desta forma. No entanto, a partir de uma certa altura, começou a constar em Loriga que o termo correcto seria “Amenta” e não “Ementa“.

O curioso desta questão é que uns e outros podem estar certos porque ambos os termos existem e com significados similares.

Segundo Sousa Viterbo (*), “amentar“, quer dizer: “Quando os pastores da Igreja rezam pelos defuntos“.

No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora a palavra “amentar” surge com o significado de “Encomendar as Almas“. No entanto, não quisemos ficar por aqui e fomos procurar a origem das palavras e chegámos a interessantes conclusões.

Segundo o Dicionário Etimológico a palavra “amentar“, do Latim amentare, surge pela primeira vez na língua Portuguesa no séc. XVIII e com o significado de “prender com correias, atar”.

A mesma fonte refere a palavra “amentar“, como tendo origem em mente (lat. Mens mentis) com o significado de intelecto, alma espírito, do Latim Amens amentis com o sentido de que perdeu a mente.

Origem etimológica do termo “ementar”

Mas o mais curioso desta nossa procura é que do ponto de vista da origem etimológica do termo, fomos encontrar o termo “ementar”, também relacionado com mente, como tendo surgido na Língua Portuguesa pela primeira vez no séc. XIII com o significado de recordar.

Perante estes factos poderemos afirmar que termo “Ementar” é o que vem de encontro à nossa tese de situar o início deste ritual na Idade Média. Por outro lado, os participantes que há duas décadas atrás diziam que estavam a “Ementar as Almas”, estavam, do ponto de vista do português, cobertos de razão.

Afinal o que é este ritual senão o recordar as almas do purgatório?

Assim, no caso de Loriga, é mais correcto dizer a “Ementa das Almas” e não “Amenta das Almas“.

(*) In, “Elucidário”, Sousa Viterbo. Cit. p. Armando Leça, Música Popular Portuguesa, p. 10.

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Nota: Magnifico trabalho de pesquisa e de estudo sobre a Ementa da Almas de Loriga, levado a efeito por este bem conhecido loriguense Joaquim Pinto Gonçalves, que desta forma veio enriquecer uma das mais importantes tradições de Loriga. Fonte

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Festas em honra de S. Sebastião – 20 de Janeiro  

Festas em honra de São Sebastião no concelho de Boticas

Em diversas localidades do concelho de Boticas, celebra-se, no dia 20 de Janeiro de cada ano, uma festa em honra de São Sebastião, venerado desde o século VII como santo protetor contra a peste.

Dadas as origens e particularidades destas festas, aqui deixamos as informações mais importantes:

Alturas do Barroso

Em Alturas do Barroso realiza-se anualmente, no dia 20 de Janeiro, a festa em honra de São Sebastião.

Reza a lenda que esta festa se começou a fazer por causa de uma peste que há muitos anos atrás matou muito gado. Prometeram então, os habitantes da aldeia, festejar anualmente o S. Sebastião, advogado contra a fome e a peste. Esta festa é organizada por mordomos (4 ou 5 vizinhos) num sistema de rotatividade pelas casas da aldeia.

Antigamente, era hábito darem pão e vinho para as pessoas comerem. Há cerca de duas décadas, começaram também a oferecer feijoada ao final da tarde e desde então para cá a sua dimensão e a sua fama tem vindo a crescer. Ler+

Cerdedo

A festa em honra de S. Sebastião, a 20 de Janeiro, em Cerdedo, é muito antiga, como o certifica o Abade em 1758, e caracteriza-se pela sua dimensão intimista.

Mantém as características genuínas de uma manifestação religiosa comunitária onde praticamente só os moradores da freguesia e alguns dos seus “filhos” emigrados que por essa altura vêm à terra venerar o Santo e cumprir com os seus votos, se juntam pelas oito da manhã na igreja em torno do pároco para celebrar a missa da festa.

Após esta, parte em cortejo processional em direcção à casa do Juiz. Este, com o Santo no regaço, segue atrás da cruz, acompanhado por todos. Ler+

Vila Grande (Dornelas)

Todos os anos, no dia 20 de Janeiro, realiza-se aquela que é umas das mais importantes festas de cariz comunitário: a Mezinha de S. Sebastião ou a Festa das Papas, como era inicialmente conhecida.

As origens desta festa perdem-se nos tempos. Diz a memória popular que aquando das invasões francesas, o povo de Vila Grande avistou os soldados a passar numa estrada, a estrada velha, perto das aldeias do Couto de Dornelas e sabendo que por onde passavam, saqueavam tudo, imploraram a protecção divina.

Pegaram na imagem de S. Sebastião, saíram com ele à rua, levaram-no até à torre da igreja e prometeram ao Santo que todos os anos realizariam uma festa em sua honra se as tropas não descessem até às aldeias. Eis que o milagre se deu, as tropas seguiram e o povo, agradecido, cumpriu a promessa. Ler+

Viveiro (S. Salvador de Viveiro)

A celebração ao São Sebastião em Viveiro não tem uma data fixa pois a sua realização depende da disponibilidade do pároco. Esta festa conta com a presença das pessoas da aldeia a quem é distribuído pão e vinho.

É cada uma das casas da aldeia que, num sistema de rotatividade, anualmente organiza a compra e distribuição do pão e do vinho, ou seja, é o mordomo que compra o pão e o vinho com que enche o pipo da festa, um pipo que anda à roda pelos mordomos.

Nesse dia celebram uma missa e sermão em honra de São Sebastião. Finda a Missa juntam-se no largo e procedem à distribuição do pão e do vinho entre os fiéis.

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Romeiros de S. Miguel – Açores | Tradições na Quaresma

A Tradição Romeira

A tradição romeira remonta aos tempos medievais, quando era comum os fiéis visitarem os lugares sacros da Cristandade como acto de contrição pelos seus pecados e agradecimento pelas graças recebidas do Alto.

Dois dos mais conhecidos e frequentados santuários da Europa Ocidental eram

– Cantuária na Inglaterra, peregrinação consagrada nos Contos de Cantuária de Geoffrey Chaucer,

– e Santiago de Compostela na Galícia.

Nessa época, todos os caminhos acabavam em Santiago, repositório das tão afamadas e milagrosas relíquias do Apóstolo Tiago.

A Romaria Quaresmal Micaelense pelo Mundo

A Romaria micaelense iniciou-se como consequência dos violentos sismos e erupções vulcânicas que abalaram Vila Franca do Campo em 1522 e 1563 respectivamente.

Numa era em que os cataclismos naturais eram tidos como punição divina pelos pecados do Homem, os sacerdotes locais, tais como o Frei Afonso de Toledo, instigaram o povo à prática da devoção e procissões marianas. Os micaelenses passaram, assim, a peregrinar pelas capelas, igrejas e ermidas da ilha rogando a protecção da Virgem e intervenção divina para a resolução de seus males e aflições.

A tradição romeira encontra-se bem viva nos corações e vidas dos habitantes actuais de S. Miguel, não havendo, todavia, conhecimento ou registo da sua existência nas restantes ilhas do arquipélago açoriano.

Com a difusão do cultura açoriana pelo mundo através da emigração, o povo micaelense levou, entre os seus vários costumes e tradições, a romaria quaresmal, hoje ainda ponto referencial da sua fé. Mas também outros, nomeadamente as Festas do Divino Espírito Santo, que está bem presente nos vários grupos romeiros existentes nas comunidades de imigrantes do continente norte americano, os quais regressam anualmente à ilha para manifestar a sua fé junto das seus lugares sacros, invocando a Virgem Santíssima por todo o percurso.

O Traje Romeiro e a sua Simbologia

O Romeiro ostenta o bordão, xaile, lenço e saco ao ombro. Leva ainda dois terços, um ao pescoço e outro na mão para a oração durante o decurso de toda a romaria.

O bordão serve para apoiar e facilitar o caminhar do peregrino pelas veredas e atalhos acidentados da ilha, o xaile e lenço por sua vez, para protegê-lo do frio e da intempérie.

Embora o traje tenha originado das necessidades puramente físicas do romeiro em peregrinação, este transformou-se com o decorrer do tempo em simbolismos místico-religiosos:

– o bordão relembra o ceptro entregue a Cristo pelos romanos no seu julgamento ante Pilatos,

– o xaile, a Sua Túnica,

– o lenço, a coroa de espinhos do Seu suplício

– e o saco, a Cruz a caminho do Calvário.

Rituais e Itinerário

A Romaria decorre ao longo de oito dias, findando o itinerário no ponto de partida. Os participantes são, por norma, leigos que contam com a colaboração do clero durante toda a sua realização. O seu propósito é visitar “as casas de Nossa Senhora“. O itinerário é pré-estabelecido e a sua efectivação está a cargo do Mestre do grupo.

Actualmente, a pernoita e a esmola de outrora foram substituídas por uma organização mais em sintonia com os nossos tempos. Providencia-se com a devida antecedência a colaboração das paróquias ao longo de todo o percurso previsto para a romaria. Os paroquianos acolhem os romeiros em suas casas, facultando-lhes a refeição da noite e água quente com sal para os pés fatigados e lacerados pela caminhada. O romeiro transporta ao ombro o saco de alimentos para as demais refeições da jornada.

Ao lavar os pés do peregrino, alguns anfitriões relembram o gesto de humildade e caridade de Jesus junto dos seus apóstolos.

A Avé Maria é o cântico predominante de toda a romaria, sendo o Pai-nosso ofertado em silêncio enquanto a Glória é rezada somente nas paragens efectuadas durante a jornada.

O Grupo faz-se acompanhar à retaguarda de um Procurador de Almas cuja missão é recolher e quantificar os pedidos de oração das gentes que possam porventura encontrar pelo caminho. O requisitante deverá, por sua vez, recolher-se e rezar igual número de Avé Marias quanto os romeiros que encontrou.

O Lembrador das Almas recorda os falecidos que jazem nos cemitérios do percurso, instigando os romeiros à oração por suas almas.

Como em quase toda a tradição religiosa popular, o sacro também aqui entrosa-se com o profano nas engraçadas histórias e piadas contadas à volta da refeição, as quais espelham toda a alegria e bonomia do convívio fraternal entre romeiros.

A Romaria Micaelense no Mundo Actual

Não obstante a sua história secular, a Romaria Quaresmal Micaelense é bem actual. Ela proporciona ao fiel o retiro espiritual onde poderá redescobrir os valores cristãos e aproximar-se do seu Criador num aprendizado vivo e real da fé e consciencialização da verdadeira dimensão do Homem no Universo.

Somos pequeninos no meio disto tudo … Deus quer revelar a Sua grandeza na nossa pequenez … Que Deus se espelhe nessa pequenez.” (Excerto da entrevista concedida à Adiaspora.com pelo Sr. Padre António Teixeira Pereira)

No mundo actual, assolado por tanta discórdia e tribulação, a paz resultante desta reaproximação ao Cristo e sua Excelsa Mãe, a Virgem Maria, pelos ensinamentos de caridade e humildade bem patentes em todo o percurso romeiro, virá reforçar a presença destas virtudes na vida e prática quotidiana dos seus participantes, reflectindo-se numa família mais coesa e uma intervenção social mais tolerante, fraternal, activa e significativa. Fonte (texto editado)

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Religiosidade, crenças e superstições no Alto Minho

Religiosidade, crenças e superstições no Alto Minho

Romarias e ermidas

As ermidas, situadas no cimo de elevações sobranceiras aos povoados, atraem geralmente as romarias mais arcaicas.

Segundo crença, que remonta à Idade Média, essas ermidas situadas no alto dos montes protegiam as populações, os seus gados e culturas. Eram fundamentais para a realização das procissões propiciatórias de ladainhas e de clamores que o cristianismo medieval e moderno tão bem acolheu. As que se situam no limite de freguesias passaram a ser frequentadas por populações vizinhas.

Na Ribeira Lima existem antigas e afamadas romarias como as de

– S. Silvestre de Cardielos (Viana do Castelo),

– S. Bartolomeu de Ponte da Barca,

– S. Bento de Ermelo (Arcos de Valdevez),

– S. Bento do Cando da Gavieira (Arcos de Valdevez)

– e de Nossa Senhora da Peneda (Arcos de Valdevez).

Também existem grandes romarias de invocações modernas, caso da

Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo,

– da Nossa Senhora da Boa Morte da Correlhã (Ponte de Lima)

– ou do Senhor da Saúde em Sá (Ponte de Lima).

Clamores

Os clamores eram procissões em que os participantes rezavam a cantavam o mais alto possível, em que se “berravam as preces”. Isso para que a petição ecoasse o mais longe e alto possível e, desse modo, chegasse aos céus. Nestes clamores, iam à frente os tamborileiros, espingardeiros e, por vezes, homens com foices e gadanhas, pois o barulho fazia parte dos ritos mágicos essenciais ao afugentar de males.

Enterros de devoção

Os enterros de devoção, um costume muito usual no Norte de Portugal e no Sul da Galiza, praticavam-se no santuário da Peneda (Arcos de Valdevez), assim como noutros santuários da Ribeira Lima.

Tratava-se de uma promessa em que uma pessoa, geralmente curada de doença, tinha de participar na procissão dentro de um caixão, fazendo-se transportar em funeral, como se estivesse morta.

Culto ao Espírito Santo

O culto do Espírito Santo encheu a região de santuários e de capelas, mas foi sendo esquecido.

Houve importantes confrarias do Espírito Santo em Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.

A devoção ao Espírito Santo esteve em voga, nos finais da Idade Média, quando se espalhou por Portugal continental e passou aos Açores.

Outras modalidades de religiosidade popular

A religiosidade popular apresenta outras velhas modalidades.

Por exemplo, a crença de que, em certas noites, a freguesia era percorrida pela procissão de defuntos. A tradição apoiava-se em inúmeras histórias, como a de Beiral (Ponte de Lima), mas em muitos outros locais eram conhecidas idênticas narrativas.

A crença em bruxas e no diabo também estava bem arreigada nas mentes populares.

Do diabo todos tinham medo. Este aparecia, de noite, nos caminhos, nos terreiros e mesmo nos recantos mais escuros das casas.

De lobisomens, pieiras de lobos e feiticeiras nem é bom falar! Até se conhecem locais assiduamente frequentados e peripécias com alguns daqueles que os tiveram de enfrentar.

Fonte: “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” | Imagem de destaque

 

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