O artesanato do Parque Natural do Alvão

O artesanato do Parque Natural do Alvão

Ao contrário do que se verifica nas sociedades modernas, cujas técnicas podem modificar o ritmo de vida, tornando-o independente das contingências do meio físico, nas sociedades simples, as técnicas rudimentares traduzem simultaneamente uma influência e uma adaptação ao meio, como é o caso destas comunidades rurais de montanha, onde existe um sistema de agricultura sedentária interligado com formas de vida pastoril.

Do meio era extraído quase tudo o que necessitavam para a subsistência, desde a casa ao vestuário, passando pelo alimento e utensílios, e assim foram surgindo das mãos de habilidosos, peças de vestuário e instrumentos gratuitos, inseridos no ciclo das trocas de favores.

Hoje verifica-se uma riqueza na concepção e na variedade dos objectos artesanais:

– chapéus em colmo,

croças e perneiras em junco,

– cestos feitos com lascas de madeira,

– socos,

– carros de bois,

– peças de mobiliário e alfaias agrícolas em madeira,

– objectos de ferro,

– peças em madeira para o tratamento e tecelagem do linho,

– meias de lã,

– capas feitas em lã escura (capuchas),

– colchas e toalhas em linho,

– mantas e passadeiras de farrapos

Lendas da Serra do Alvão

A Povoação de Agarez

As picaretas de ouro

Só os indivíduos de meia-idade e os idosos os sabem fazer, pois que os mais novos, suscitados pela cativante oferta dos objectos de mercado, não sentem justificação na aprendizagem.

Assim o objecto, outrora ditado pela necessidade imperiosa do agregado familiar e/ou da colectividade, é ainda executado lentamente e aformoseado ao sabor da mente e do jeito, quando solicitado.

Apenas a tecelagem das capuchas e das colchas e toalhas em linho, com desenhos ripados em algodão, satisfaz a procura de um ou outro emigrante com maior possibilidade de compra e assim está numa fase incipiente de viragem.

Sugestão de leitura: O fumeiro do Parque Natural do Alvão

A necessária mudança…

O artesanato terá de passar a nascer por uma outra causa – a de satisfação da procura externa – ou seja, a venda directa ao visitante e o abastecimento dos centros de artesanato.

A obtenção de lucros irá, como é óbvio, funcionar de complemento às tarefas agro-pastoris ou como recurso exclusivo para os jovens que se dedicarem a tempo inteiro.

Todo este processo de conversão de uma modalidade a outra passa por uma morosa fase de apoio e estímulo às manufacturas pontuais ainda existentes por simples gosto de habilidosos e entusiastas.

Passar da manufactura esporádica de um objecto para o fabrico repetitivo, sem o desvirtuar da concepção e forma, requer uma mudança de espírito dos mais entrados na idade e um convencer fundamentado da juventude, por natureza mais receptiva a mudanças.

Maria Luísa Carapucinha S. Moura

Fonte: Desdobrável do Parque Natural do Alvão (texto editado e adaptado)

O linho – E duma planta se faz um tecido único!

O linho

Sendo a indústria de tecidos de linho a mais próspera e a mais notável de toda a zona sul da província do Minho, e ocupando-se no serviço de inúmeras fabricas desse género industrial algumas dezenas de milhares de pessoas, nem por isso a antiquíssima cultura dos «linhos da terra» minhota – ainda fácil de propensão para mais este pitoresco cuidado agrícola – deixa de ser um uso seguido e, diremos, da exclusiva preferência doméstica dos camponeses.

O linho é semeado em Março

A semente do linho aldeão do povo do Minho lança-se às terras húmidas e baixas pelos meados do mê de Março.

Julho entra, depois. É já uma brasa, nas terras o sol canicular do verão.

Se os linhos tivessem de demorar-se sobre os seus efeitos ardentes, certamente que não resistiriam. Mas não.

Pelo S. Torquato, em geral, já o povo madruga e se encaminha para os campos embebedados de flor azul, a «arrincar», como ele diz, nas suas novas linhagens.

Levado aos molhos para as eiras, vemos agora que se vai «limpar» o linho – o que quer dizer que vai ser batido, sob os mangais, tanto ou quanto seja necessário para lhe tirar por completo a flor e semente que já secou.

Segue-se depois o «enterramento» em tanques ou poças ou rios, onde o linho mergulha e descansa oito dias, sob tábuas compridas ou pesadíssimas.

Voltando do rio, já lavado e escorreito de semente, vai ver o sol, de novo.

Mãos carinhosas o espalham pelos campos, que estão devoluto, e pelos montes cheios de mato arnal.

Demora ali um mês?

O tempo dessa etapa fabrico rústico é indeterminado.

É malhado na eira

Mas, passado em geral o prazo de um mês, o linho está limpo;

e o lavrador, figura social entregue grandemente às tradições, resfrega-o logo, como os antigos usavam, uma «malhada» violenta, de turba batendo desapiedadamente, para que enfim o engenho receba meio delido o linho piteiro que vaio engenhar.

Ali onde o «engenheiro» (sic) e o dono do linho introduzem constantemente molhos ásperos de linhagem, uma junta de bois puxa lenta e serenamente horas, horas consecutivas, naquela nora de grande roda em cabos;

e uma velhota ao lado, dessas que têm na alma o segredo destes rigorosos e carinhosos usos caseiros, vai ditando sentenças, gritando cuidado, acamando despojos.

E essa mesma velha se encarrega, depois, de escolher ou separar.

Um dia, enfim, desse linho de que homens e mulheres, até então, trataram, principia a mulher, exclusivamente e tratar.

Ela o toma do engenho e o leva, com certa familiaridade rude, ao alpendre do eido.

Em certa manhã, alegre e em canções pela estrada, a ranchada se aproxima.

Sobem a escada de pedra do alpendre.

 

Sugestão de leitura: Os trabalhos que o linho dá | Ciclo do linho

 

Depois, é espadado, assedado e escolhido

E ali, sentadas e cuspindo na palma da mão, as moças de lábios e lenços alegres desatam a «espadar», a «assedar», e, definitivamente, a «escolher», pois que do linho lançado em sementes por esse

«março marçagão
manhã de inverno
e tarde de verão
»

três qualidades de linhagem se obtém:

1º – o «linho», que é aplicado em camisas e toalhas;

2º – a «estopa», que serve para os lençóis;

3º – Os «tormentos», de que se fazem os panos de doença e mesmo as camisas dos criados da lavoura – os quais, ao envergá-los pela primeira vez, sentem a impressão de ter à roda do corpo uma «coroa de espinhos».

Fiado, dobado e tecido no tear manual

Mas depois de «espadar» e «assedar», e antes que se promova a obra de costureira a que agora nos vínhamos referindo, é preciso ver que este, como qualquer outro linho, precisa de ser «fiado», «dobado» e submetido a barrelas de cinza virgem, de onde depois sai linho facilmente adaptável, como urdidura, ao «órgão» do nosso belo e quási primitivo tear manual.

Desse linho tecido se talham, apespontam, bordam e marcam todas as camisas dos lavradores, nesta formosa região silvestre que é o Minho.

Tecendo o linho para atoalhados

(Clichés do sr. Manuel da Silva Leite)

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº398, 6 de Outubro de 1913 (texto editado e adaptado) | Imagem: “Uma bela espadelada dentro dum alpendre do eido

A bilha de barro de Estremoz | Artesanato de Portugal

A bilha de barro de Estremoz

O português sempre teve o seu fraco pela boa água.

Se é a terra do bom vinho, Portugal é também a terra da água fresca que se apregoa pelas ruas, que anda movediça nas cantigas populares como em roda de azenhas e está nessas bilhinhas, cantares e moringues de barro refrescando às noites nas pedras das varandas, pelos verões, entre vasinhos de cravos e manjericos.

E para o fabrico dos reservatórios onde se contém o remédio das nossas sedes desesperadas, não há como Estremoz, terra clássica da bilha de bom barro vermelho, toda de feitios e com pedrinhas engastadas.

É velha a sua fama tanto que já por cortes de França penas ilustres como as de Brantôme, as recordam por terem servido ao delfim filho de Francisco I, a quem as ofertara certa dama portuguesa, D. lnês Pacheco, ante as sedes constantes desse príncipe.

Os reis de Portugal, em vasos desse belo barro, bebiam, e a sua tradição espalhava-se pelos países para onde os ofertavam como presentes preciosos.

O barro de Estremoz chegou a ter foros de pasta milagrosa.

Ulisses Aldovrando disse-o um contraveneno.

Enfim, de todas estas pompas a bilha de Estremoz passou para as mãos menos heráldicas.

Com a sua arcaria de prata está sobre as pedras dos toucadores das lindas mulheres; o moringue vive no aconchego das casas, pousa na varanda nacional com os vasitos das flores e com os pés da menina que namora para a rua também portuguesmente.

Simples bilha, anda no quadril roliço da campónia da região fazendo fresca a água e dando à mulher como uma evocação daquelas donzelas de que a Bíblia anda cheia a caminharem no pó sagrado de Jerusalém em tardes de sol e de milagre.

Indispensável no Verão

Quando verão chega, antes da andaina de fato mais leve, dos chapéus de palha, das cassas, dos crepons, o grito nos lares é este:

O moringue! O moringue!

Logo a dona de casa e as meninas recomendam que o querem de Estremoz, de bom barro, onde a água chia como se fosse um retinido de ralos na terra sequiosa em noites de luar.

O moringue torna-se, então, um objeto de cuidados.

Todos vigiam para que não lhe falte a água, todos o tratam, todos o desejam inteiro como a um relicário e quando chega o inverno ele vai ainda ser arrumado com cuidado para reaparecer aos primeiros bafos da primavera, a ouvir os segredos dos namorados nas varandas lisboetas, aos pés duma linda rapariga e entre os vasitos de cravos e manjericos, como um fidalgo, feito de melhor barro, entre dois escudeiros garridos.

R.M.

Fonte: “Ilustração Portuguesa” – nº324, 6 de maio de 1912 (texto editado e adaptado) | Para ver mais imagens relacionadas com a bilha de barro de Estremoz, clique aqui.

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Moringue nome masculino

vasilha bojuda de barro cozido, própria para conservar a água fresca, geralmente dotada de pega e dois gargalos: um para a entrada e outro para a saída do líquido; bilha para água fresca potável; moringa, moringo.” Fonte

As Mantas de Terroso – Tecelagem caseira

Mantas de Terroso

A planície litoral é duma monotonia por vezes agreste, desconsoladora.

Para onde haja um relevo, uma vegetação, dirigem-se os olhares cismadores do habitante da beira-mar, em procura da variante do eterno tema – céu e ondas.

É por isso que os poveiros chamam desvanecidamente a sua Sintra à pequena aldeia de Terroso, que se aconchega a suave colina, a curtos quilómetros da praia.

É linda Terroso, com as suas casas alvejando por entre o arvoredo, o cuidadoso amanho das suas terras entregues à faina agrícola, a disposição dos lugarejos pelos escalões da vertente, a paz idílica que se desprende, fluída, subtil, do rumorejar dos pomares e do soluço das águas finas e cintilantes que borbulham e coleiam, a cada passo, fertilizando os campos e vicejando os canteiros.

Ao conjunto de sons indecisos, variados, embaladores, que constituem a sinfonia constante que aldeias endereçam à Natureza – cantos longínquos de aves, vozes arrastadas dos lavradores no trabalho, agitar da folhagem, águas nas levadas – junta-se o ruído seco e compassado dos teares, em que belas raparigas urdem as mantas tão conhecidas no Minho e agora, pela rapidez e facilidade de comunicações, em quase todo o país.

Indústria caseira

É uma indústria caseira a da fabricação de mantas, e que, durante algum tempo estacionária, se tem desenvolvido e aperfeiçoado, dando um derivativo proveitoso aos ócios das mulheres dali e arredores.

Os velhos de Terroso não sabem dizer quando se instalou ali esta tecelagem caseira e só se lembram de que seus bisavôs já usavam as mantas, peça de bragal, empregada como cobertor ou coberta de cama, ou para resguardar os sacos dos cereais, quando transportados em carros para qualquer parte.

Vê-se a manta a compor a cama do pobre, a guarnecer o aposento do remediado e, por moda, a servir de reposteiro ou alcatifa na casa dos ricos.

De que são feitas as mantas de Terroso?

E sabem de que se compõem as mantas de Terroso? De trapos.

Trapos de qualquer artigo, qualidade e cor, velho ou novo: de lã, de algodão, de chitas, de panos crus, ou restos da liga ou trança de chinelos.

Estes trapos vão a teares manuais, de construção simples, os que vulgarmente se empregam na tecelagem caseira. A manta sabe fortemente urdida, em espécie de entrançadado ou tenilha.

Sobre fundo branco ou claro há, a encarnado, amarelo, verde, azul e preto, ornatos muito singelos e pouco variados: losangos e faixas de listas no sentido da largura ou do comprimento, que são de ordinário 2m e pouco mais x 1m e alguns centímetros.

As mantas vulgares, embora de aspecto grosseiro, apresentam, por vezes, tonalidades ou combinações de cores, que as tornam características.

Fabricam-se também outras com trapo limpo e escolhido e lãs; e hoje o fabrico estende-se também a tapetes e cobertas de algodão branco, de diversos padrões.

De homens para mulheres e crianças

Primitivamente indústria de homens, passou a ser emprego de mulheres e crianças; e do seu primitivo centro irradiou para freguesias próximas, como sejam as de Amorim, Beiriz e Laúndos do concelho de Póvoa de Varzim, de Rio Mau, do de Vila do Conde e outros, isto pelos casamentos das tecedeiras com homens das mesmas freguesias.

Às crianças é reservada a separação do trapo, dobagem do algodão, etc., e às mulheres o corte do trapo, urdidura e tecelagem.

Às mulheres chamam manteiras. Propriamente no fabrico de mantas empregam-se em Terroso, entre adultos e crianças, 300 pessoas, havendo 70 teares em funcionamento.

A produção anual é de 25.000 mantas, que são remetidas para os mercados de Vila Nova de Famalicão e de Vila do Conde (onde são vendidas nas feiras); para o Porto, Aveiro, Coimbra, Figueira, todo o Alentejo (onde também são vendidas nas feiras) e Algarve, saindo para esta última província pelo porto de Vila do Conde, nas embarcações do transporte de sal.

Tipos de mantas e custos

Comercialmente, as mantas são classificadas em três tipos: velhas, chitas e novas.

As primeiras, compostas de trapos ordinárias, são de tons escuros e custam actualmente $40 a $5o cada uma; e eram de $28 a $32.

As segundas, fabricadas com panos crus, chitas ou liga, com ou sem franja (fróque), regulam por $80, 1$20 e 1$50 cada uma, conforme a qualidade e matéria empregada; e eram de $50 a $80.

As últimas, feitas de trapo escolhido e limpo, quase sempre branco, com franjas e ornamentadas a várias e garridas cores, sendo conhecidas vulgarmente por colchas, custam 1$50, 2$00 e 2$50 cada uma; e eram de 1$20 a 1$50.

A venda é feita às dúzias e a mercadoria tem a maior saída pela estação de Amorim na linha Porto – Póvoa – Famalicão, que lhe passa no extremo poente.

Terroso

Terroso é uma povoação em que a indústria caseira da tecelagem se generalizou muito.

Além de 70 teares para mantas, tem mais 20 para o fabrico de pano de linho, comum à maior parte das aldeias do país, sobretudo nas regiões montanhosas ou sub-montanhosas, como esta.

Se bem que o maquinismo seja, o que comumente se observa, primitivo, feito pelos modelos luso-romanos, a indústria tem sofrido aperfeiçoamento: primeiro, as mantas grosseiras, ásperas, escuras, verdadeiros buréis;

há poucos anos, as colchas de cores claras ou vivas, os tapetes, etc. Aquelas, compostas de trapos sem preparos, ordinários, vis; estas, com o emprego de algodão russo, retalhos limpos, e com cuidada ornamentação.

Sobre essas dezenas de teares, singelos, despidos dessas insculturas típicas abundantes no sul e que constituem o relato indelével duma vida de humildes operárias, curvam-se, no dia-a-dia, centenas de mulheres, que procuram suprir, com penosa faina, a deficiência do salário dos pais, maridos ou irmãos – carpinteiros, pedreiros ou jornaleiros.

E quantas vidas de sofrimento não vão contando, no seu estalejar continuo, seco, enervante, aqueles teares de Terroso!

Fevereiro de 1917

Manuel Silva

Fonte: “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” (ano 2 – nº 17 a 20 – Junho a Setembro de 1917) (texto editado e adaptado) | Imagem

Rendeiras de Niza – Artesanato do Alto Alentejo

Rendeiras de Niza

Nos confins do Alto Alentejo, encontra-se, localizada em Niza, uma antiga e curiosa indústria – a das rendas.

É interessante ver as rendeiras, sentadas em tripeças, junto das portas, vestidas com os trajos característicos – saias escuras com barras claras, roupinhas de pano, lenço traçado sobre o peito, e mantilha curta na cabeça ou o clássico chapéu nizense;

adornadas com gargantilhas e fios de ouro, onde predominam os antigos hábitos de Cristo, de ouro esmaltado.

Umas, com o rebólo sobre os joelhos, vão fazendo as rendas de colchete, qual delas a mais complicada, ou desfiando no alvo pano de linho os entremeios tão caprichosos, produtos de extrema paciência;

outras fazem rendas de agulha, que servem as mais das vezes para colchas, que levam anos a compor e que passam gerações guardadas nos arcazes, servindo somente em dias festivos de bodas ou batizados.

A indústria das rendas de Niza, – até há pouco restringida quase ao uso local, – tem ultimamente exportado muitos e belos exemplares, notando-se por isso um certo desenvolvimento no labor das rendeiras, que oxalá não abandonem os modelos e desenhos que ainda seguem e que imprimem às suas rendas um carácter acentuadamente regional.

Na figura I estão representadas duas rendeiras trabalhando, à porta da casa, nas rendas de rebólo, o mesmo sucedendo na figura 3, onde essas rendeiras são acompanhadas por outra mulher, que desfia um entremeio. Na figura 2, das três mulheres, tipicamente vestidas, a do meio trabalha em renda de agulha.

Fig.1 – Rendeiras trabalhando

 

Fig 2 – Mulheres de Niza

 

Fig. 3 – À porta da casa

(Clichés do autor)

Luís Keil

Fonte: “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” (ano 2 – nº 17 a 20 – Junho a Setembro de 1917) (texto editado e adaptado)

A colher de torga | Artesanato da Beira Alta

A colher de torga

A colher é uma peça indispensável na vida do povo português.

Garfo, não, que, no dizer de alguns entendidos, só chegou a Portugal aí por meados do século XVIII. E então para a gente mais modesta, o garfo só foi opção muito posteriormente.

Feito de ferro pelos mesmos artesãos que forjavam as diversas alfaias agrícolas, o garfo foi um luxo nos meios rurais da primeira metade do século XX.

Quanto à colher, a sua história é muito mais longa.

Feita dos mais diversos materiais desde a prata ao ferro ao alumínio e outros metais, no seu fabrico foi também utilizada a madeira, segundo as variedades mais comuns e apropriadas de cada região.

Para peça deste mês trazemos uma colher muito rara hoje: a colher de torga.

A torga, planta que se trabalha à mão

A torga é uma planta existente nas regiões mais pobres das serranias do norte e centro do país.

Trabalhada à mão por pastores e outros artesãos em tempos de descanso, esta planta cresce lentamente, levando anos e anos para que possa atingir tamanho bastante para o efeito.

Além disso, esta madeira, com caraterísticas ótimas para a modelação e durabilidade, tem o inconveniente de rachar com facilidade depois de trabalhada, o que não a aconselha para o fabrico de colheres.

O nosso povo, porém, sábio como sempre foi, encontrou a solução: se a torga, antes de trabalhada for bem cozida na panela da cozinha durante algumas horas, ganha qualidades que lhe garantem a capacidade de nunca rachar depois de transformada em colher, ainda que bastante fina, como é o caso da que hoje estamos a divulgar.

Fonte (texto editado e adaptado)

Foi desta planta (torga) que o nosso escritor Miguel Torga foi buscar o sobrenome do respetivo pseudónimo.

A propósito, sabe como se chamavam as refeições no tempo dos nossos avós, em diversas regiões de Portugal? Fique a conhecer aqui.

Barro negro de Bisalhães – Vila Real | Artesanato

Barro negro de Bisalhães

Bisalhães, aldeia vizinha de Vila Real, foi um dos mais importantes centros oleiros do norte do país. Os alguidares, potes e panelas que ali se faziam eram levados pelas mulheres, à cabeça, em grandes cestos e vendidos distrito fora. Ainda hoje os mais velhos contam como era duro calcorrear caminhos sinuosos, Marão acima, distâncias enormes percorridas pelos oleiros descalços, com os panelos às costas.

É a cozedura na soenga, forno escavado no chão, que dá a cor negra ao barro. Depois de estar em brasa, a loiça é abafada com musgo e terra, adquirindo o seu aspecto final. É o homem que trabalha na roda de oleiro. Usa pedras do rio para fazer o polimento das peças, o brunido. É também com pedras que as mulheres voltam a polir e a decorar.

No quadro da economia rural de tempos não muito distantes era costume trocar as peças por géneros alimentícios, servindo aquelas de medida. Por exemplo, um alguidar trocado por duas vezes a sua capacidade em batatas.

As mudanças inevitáveis

O plástico substituiu o barro no uso quotidiano. Agora já não se faz o café da manhã na chocolateira, nem se guarda o mel no pote com um bordo levantado que se enchia de água para desviar as formigas. A talha vinagreira já é dispensável e não se levam para o trabalho cantis, morigas ou bilhas com água ou vinho.

A via rápida (IP4) afastou os carros da sinuosa estrada do Marão (EN15) onde os oleiros mostravam e vendiam o seu trabalho em barracas. Havia, até há pouco [décadas de 70/80 do séc.XX], 40 oleiros em Bisalhães. [Agora restam dois ou três] … à entrada de Vila Real onde mostram as bilhas do segredo e as da rosca.

A Feira dos Pucarinhos, realizada em Vila Real por altura do São Pedro (29 de Junho), continua a ser o local de encontro dos [pouquíssimos] fabricantes de louça negra e, embora sem as dimensões doutros tempos, continua a merecer visita.

Olaria de outras terras

Na Beira também tem fama a loiça preta, com a reputação de dar bom gosto à água e à comida por ser muito porosa e enegrecida pelo fumo, retendo substâncias orgânicas que o fogo carbonizou. Mantêm-se em funcionamento pequenas olarias em Olho Marinho, que fabricam sobretudo a caçoila para a chanfana, prato tradicional da região.

Molelos (Tondela) foi das comunidades com mais oleiros no centro do país. Mantendo os acabamentos tradicionais (o brunir das peças com seixos, dando-lhes brilho acetinado)… os mais jovens inovaram as formas e a decoração das peças.

Fonte: GUIA Expresso “O melhor de Portugal” – 13 – Tradições, Arte Popular, Artesanato

Sobre os trabalhos do Oleiro de Bisalhães

Na próxima página fica a conhecer as várias fases do trabalho do oleiro com o barro negro de Bisalhães.

 

Artesanato: Tecelagem – Olaria – Cestaria – Rendas

Artesanato de Trás-os-Montes e Alto Douro

Tudo aquilo que o Homem acrescenta à natureza é Cultura, ou seja, toda a obra do Homem é cultural, podendo-se mesmo dizer que onde existe a mão do Homem existe forçosamente cultura.

Contudo, os homens não acrescentam coisas à Natureza da mesma maneira; cada grupo tem a sua forma peculiar de o fazer.” Ler+

Tecelagem – artesanato

O Bragal” – tecido de puro linho, nasce de um ciclo trabalhoso, a que ainda é possível assistir em alguns pontos do distrito de Vila Real.

Entre Abril e Maio, a semente – a linhaça – é lançada à terra, cuja preparação para a receber exige inúmeros cuidados – vessada. São necessárias as regas certas e muito saber, não vá o tempo pregar alguma.

A escolha do dia do arranque, entre Julho e Agosto, é ditada pelo estado de amadurecimento da cápsula, “bagalha”. A partir daqui começa o processo árduo de preparação.

Apesar do esforço que exigiam, outrora, eram realizadas com um forte espírito comunitário, alegre e colorido, constituindo assim, na sua essência, uma espécie de tarefas-festas, onde, de uma forma simples, se trocavam os favores entre familiares e amigos – arrinca e espadada.

O bater ritmado da espadada no cortiço era acompanhado pelo som das concertinas, canções divertidas e gargalhadas, num misto de galhofa e trabalho.

O processo:
– Arranque, “arrinca ou arriga”;
– Empoçar;
– Desempoçar e estender;
– Maçar antes do espadar;
– Assear antes do fiar;

Mulher a fiar, em Valpaços (Ilustração Portuguesa, 30 de Outubro de 1911)

– O fazer e cozer na barrela das meadas;
– O lavar das meadas e o estendê-las a corar;
– O converter das meadas em novelos;
– O encher das canelas;
– Urdir a teia;
– Finalmente, o tecer;

É no tear, verdadeiro “casulo” que começam a surgir os lindíssimos trabalhos, com desenhos ripados em algodão, tecidos com “suor”, “alma” e “paixão”, num esvoaçar ritualizado de fios e mãos.

Trás-os-Montes tem fiel representação desta arte em Montalegre, Boticas, Cerva, Limões, Agarez e Ermelo [também em Couto – Adoufe]. De forma homogénea, todos os trabalhos reflectem um preciosismo inigualável, diferindo apenas, num pormenor ou noutro, do desenho ou forma.

Aqui faça-se um merecido destaque para os famosos “manteses” de Limões e Cerva, minuciosos bordados em relevo, realizados com a ajuda de uma agulha, tipo renda, no próprio tear.

Olaria – artesanato

Olaria diz-se da arte de oleiro que é relativa a “panelas”, de barro.

Para o povo transmontano, a Olaria passa, não só, pela componente decorativa, como também se afirma como utilitária, exprimindo-se em formas simples e funcionais.

Faça-se especial destaque para a “louça preta de Bisalhães”, pertencente ao concelho de Vila Real, datando as primeiras peças de 1722.

O processo de fabrico continua a ser manual: os pelões de barro são transformados em pó, com um pico de madeira; o pó é peneirado, para lhe serem retiradas as impurezas e, seguidamente, misturado com água, até se atingir a ligação perfeita. Depois começa o lento rodopiar da roda de madeira, impulsionada pelo pé [ou pela mão] do artesão.

O que vai realmente determinar a cor e a peculiaridade desta louça, está no forno e nos métodos de cozedura. No forno são introduzidas as peças, colocadas sobre uma grelha e cobertas com ramas de pinheiro verde a arder.

Para impedir a libertação de fumos, o forno é abafado com uma camada de terra, musgo e caruma – pormenor que faz a diferença, sem ela a louça ficaria vermelha.

Uma vez cozidas, as peças são alisadas com um seixo e decoradas ao gosto e paciência das mulheres. Aparece com apresentação mais simplista, a chamada louça churra, de carácter utilitário, cujas características permite restabelecer os sabores tradicionais da cozinha portuguesa e transmontana.

Os seus materiais naturais, não utilizando nem o vidrado, nem a pintura, impedem qualquer tipo de interferência no paladar dos alimentos.

Outro ponto do distrito, com alguma tradição de barro negro é Vila de Nantes [Chaves], com a particularidade da louça ser fundamentalmente churra, perfeitamente adequada às necessidades do quotidiano.

Vilar de Nantes adoptou todo o processo de Bisalhães e realiza peças típicas de barro negro com os mesmos métodos e mestria.

Cestaria

O cesteiro e o cesto são figuras habituais em qualquer contexto rural. Em tempos em que os materiais naturais predominavam face aos materiais sintéticos, a arrecadação e o transporte de géneros e artigos realizavam-se utilizando a cestaria.

Trás-os-Montes e Alto Douro apresenta-se-nos como uma província de ruralidade acentuada, onde as lides campestres fazem parte essencial da especificidade do seu povo. E é assim que este povo desenvolve uma veia artística, fundamentada na necessidade premente de dar resposta às exigências do meio e das suas relações de troca.

O processo é simples: depois da escolha do material, em geral castanheiro bravo, procede-se ao corte, põe-se de molho, para o tornar mais maleável e fácil de moldar, e surge o entrelaçar que, juntamente com o engenho do criador, faz nascer o artefacto.

Com alguma tipicidade surge o “cesto vindimo”, característico da Região do Douro, sinónimo, por excelência, da lide do vinho. Num esforço hercúleo, o homem carrega-o às costas, transportando cerca de 50 quilos de uvas, e a natureza compensa-o com um néctar suave e divino, inigualável em qualquer outra parte do mundo.

Faça-se também especial destaque para o “cesto da merenda”, um legado que não se perdeu no tempo. Ainda hoje, eles comportam as refeições, habitualmente consumidas pelos trabalhadores rurais, levadas ritualmente a meio da manhã e ao almoço.

Rendas e Bordados

A realização da prática artesanal dos bordados e das rendas ascende a tempos bastante recuados. Ela nasce do jeito e da paciência da figura feminina, e, crê-se, nas classes nobres, onde o tempo urgia ser preenchido, o tempo em que a mulher esperava pelo seu senhor. “O Homem, senhor da guerra; a Mulher, senhora do Lar”.

O mundo feminino girava então em torno do lar, depois dos afazeres domésticos e mesmo das lides campestres, o tempo que excedia era dedicado aos lavores, acentuando-se o sentido da estética.

E lindíssimos trabalhos foram surgindo da minúcia e da dedicação da mulher que decora a casa e o vestuário com destreza e arte.

Um pouco por todo o distrito [de Vila Real], existem herdeiras desta ocupação secular, e existirão, na medida em que os trabalhos são reflexos vivos de uma identidade, que teima em perpetuar-se.

As mãos e os dedos, delicados ou rudes, balançam por entre linhas e fios, num rodopiar ritmado, concebendo trabalhos de sublime gosto e perícia.

Faça-se relevo para as rendas de Barqueiros, em especial para os característicos “panos de gancho”. Estes panos são feitos com, além da habitual agulha de renda, ganchos de cabelo, utilizados para segurar o tradicional puxo das mulheres.

Fonte do texto: Guia “Artes e Ofícios Tradicionais do distrito de Vila Real” – 1999 – NERVIR | Imagens recolhidas em diversos espaços

Latoaria – Tanoaria – Tamancaria – Croças

Latoaria – Tanoaria – Tamancaria – Croças

Tudo aquilo que o Homem acrescenta à natureza é Cultura, ou seja, toda a obra do Homem é cultural, podendo-se mesmo dizer que onde existe a mão do Homem existe forçosamente cultura. Contudo, os homens não acrescentam coisas à Natureza da mesma maneira; cada grupo tem a sua forma peculiar de o fazer.” Ler+

Latoaria

Em tempos idos, os recipientes, utilizados para uso doméstico, decorativo e mesmo para os trabalhos do campo, tinham como base materiais como a lata, a chapa, o estanho, o cobre, entre outros.

Os objectos, fundamentalmente receptáculos para líquidos, nasciam do labor de artistas que manuseavam e contorciam os materiais, transformando-os em peças com capacidade para suportar grandes quantidades, em peças mais delicadas que decoravam o lar, em utensílios de cozinha e outro uso doméstico e em aformoseadas candeias que iluminavam bucolicamente o ambiente familiar.

O que anteriormente era tido como utilitário, passa agora a um carácter quase puramente decorativo, afirmando-se como salvaguarda de actividades ancestrais.

Púcaros, canecos, cântaros, regadores – heranças e artefactos vivos, carregados de vivências e histórias, vivas.

Tanoaria

Arte e Utilidade – reunidas numa só palavra, Tanoaria.

País vinhateiro, Portugal tem como característico o processo da concepção do vinho.

Passando por tarefas múltiplas, desde a colheita à vindima, a saga culmina no armazenamento que exige técnica e engenho, contribuindo para a reconhecida qualidade da famosa seiva.

O tanoeiro torna-se, assim, figura representativa de toda uma região que se alimenta, indiscutivelmente, da azáfama vinícola.

Cuidadosamente escolhida a madeira, de carvalho, ela é cortada, demolhada e trabalhada a jeito e a preceito com a forma desejada, as tábuas encurvadas, ou aduelas, formam o corpo, os aros de ferro são-lhe colocados, nascendo o receptáculo cilíndrico e bojudo, berço perfeito de uma criação perfeita – as pipas ou vasilhames semelhantes.

De diferentes tamanhos e portes, pipos, barris, pipas e tonéis, conservam de forma natural o vinho, mantendo as suas características inalteráveis, ou mesmo acentuando-as na sua mais completa perfeição, como o exemplo mais vivo do Vinho do Porto, cuidadosamente gerado na Região Demarcada do Douro.

Com carácter utilitário, as vasilhas adueladas assumem também uma função decorativa.

Aliando a rusticidade e a arte de forma harmoniosa, elas surgem com as mais variadas adaptações, mantendo com sentido, a existência e persistência desta actividade.

Tamancaria

Os socos e os tamancos eram habitualmente usados como calçado, pelos mais desfavorecidos, ou por aqueles que trabalhavam directamente com a terra.

Com a base de madeira e o revestimento em pele, o pé delicado ou grosseiro acomodava-se e movia-se, ou com graça, ou com segurança e robustez.

O sentido do desconforto aparece posteriormente com o surgir de mudanças estruturais e sócio-económicas.

No caso feminino, mesmo as classes mais abastadas usavam a soquinha achinelada, bem configurada, conferindo delicadeza ao jeito de andar.

E mesmo o traje domingueiro era acompanhado por aquelas tamanquinhas mais perfeitas e envernizadas.

A manufactura, inteiramente realizada pelo tamanqueiro, desde o corte da madeira até ao coser e pregar da pele, reflecte a mestria do artista, verdadeiramente devoto de uma arte com tradição. Apesar de poucos, os seus continuadores teimam em perpetuá-la.

O trabalho agrícola ainda reclama o seu uso e a acessibilidade a lugares, outrora fechados e isolados, traz consigo o visitante e o turista que não prescindem de um exemplar, ou mesmo de uma miniatura dos objectos indicativos de um povo e dos seus costumes.

Pintura em Cerâmica

De significado bastante abrangente, a cerâmica diz respeito ao fabrico de objectos, desde tijolos, telhas e outros objectos de barro cozido, bem como porcelanas, faianças e louça de grés.

Mas num sentido mais restrito, aliamos a actividade à “arte de fazer vasos de barro”, passando também pela própria pintura, especialmente aquela respeitante à louça mais fina.

Surgem-nos então variadas peças, desde os ditos vasos, até pratos, travessas e outras figuras decorativas, de cariz tradicional, ou mesmo aliando o inovador e o criativo a esse tradicional.

A pintura dos artefactos é algo que se patenteia, muito especialmente na região do Douro, tratando-se na maioria dos casos de ilustrações alusivas aos costumes e actividades característicos.

Faça-se especial destaque para as representações da lide da Vindima, em tonalidades azuladas, com pinceladas de traço simples e de expressão fiel de um povo simples.

Pode-se mesmo dizer que, reflexo do engenho pessoal e de uma marca colectiva, os trabalhos de criação cerâmica e a respectiva pintura, têm algum incremento e garantia de continuidade nas terras durienses e transmontanas, perspectivadas num futuro desenvolvimento turístico.

Croças

Croças, capas feitas de colmo ou junco, usadas por camponeses e pastores, para resguardo da chuva e do frio.

A parte nordeste do distrito de Vila Real assume uma tipicidade de clima bastante acentuada, as temperaturas atingem valores, ora muito altos, ora muito baixos.

Diz a boca do povo – “três meses de Inferno, nove meses de Inverno”. Muito especialmente os meses de Inverno, exigem aos autóctones uma forte capacidade de resistência e adaptação ao meio.

Assim, é desse mesmo meio que retiram, de forma natural, o que a terra produz e transformam-no em vestuário. Estamos a falar do junco, planta espontânea que, uma vez apanhada, malhada, molhada e seca, entrelaçada e moldada à forma e tamanho desejado, faz nascer a capa típica do nordeste transmontano.

A croça assume-se como verdadeiro abrigo de quem tem de enfrentar as intempéries e o trabalho do dia a dia, de um povo corajoso, de uma terra rude e única.

O engenho de um povo é tão acentuado que adopta também as chamadas polainas, resguardo da perna e da parte superior do calçado, manufacturadas segundo o mesmo processo das croças.

Fonte do texto: Guia “Artes e Ofícios Tradicionais do distrito de Vila Real” – 1999 – NERVIR

Artesanato no distrito de Vila Real: as marcas de um povo!

Artesanato no distrito de Vila Real: as marcas de um povo

Tudo aquilo que o Homem acrescenta à natureza é Cultura, ou seja, toda a obra do Homem é cultural. Pode mesmo dizer-se que onde existe a mão do Homem existe, forçosamente, cultura. Contudo, os homens não acrescentam coisas à Natureza da mesma maneira; cada grupo tem a sua forma peculiar de o fazer.

A variedade das condutas humanas é pautada, essencialmente, por padrões ou modelos, tendo como sustentáculo o sócio-cultural. Estes padrões assumem toda uma dimensão comunicacional, onde cada homem se identifica, conhece-se e reconhece-se.

Nas suas formas de expressão, ele adapta e transforma o meio circundante às suas necessidades e condicionalismos, desenvolvendo, assim, as suas potencialidades e a sua própria individualidade.

Do meio era extraído quase tudo o que necessitavam para a subsistência; desde a casa ao vestuário, passando pelo alimento e utensílios, e assim foram surgindo das mãos de habilidosos, peças de vestuário e instrumentos gratuitos, inseridos no ciclo das trocas de favores.

O Homem é o único ser na Terra com capacidade de criar, adoptar, adaptar e modificar objectos, ideias, crenças ou costumes. Ele não constitui uma componente da cultura, é criador de cultura, consoante as circunstâncias que o envolvem.

O natural alia-se ao cultural, procurando o próprio equilíbrio comunitário e social. (…)

Tecelagem


O Bragal” – tecido de puro linho, nasce de um ciclo trabalhoso, a que ainda é possível assistir em alguns pontos do distrito de Vila Real.

Entre Abril e Maio, a semente – a linhaça – é lançada à terra, cuja preparação para a receber exige inúmeros cuidados – vessada.

São necessárias as regas certas e muito saber, não vá o tempo pregar alguma. Ler +

Olaria


Olaria diz-se da arte de oleiro que é relativa a “panelas”, de barro.

Para o povo transmontano, a Olaria passa, não só, pela componente decorativa, como também se afirma como utilitária, exprimindo-se em formas simples e funcionais.

Faça-se especial destaque para a “louça preta de Bisalhães”, pertencente ao concelho de Vila Real, datando as primeiras peças de 1722. Ler+

Cestaria


O cesteiro e o cesto são figuras habituais em qualquer contexto rural.

Em tempos em que os materiais naturais predominavam face aos materiais sintéticos, a arrecadação e o transporte de géneros e artigos realizavam-se utilizando a cestaria. Ler+

Rendas e Bordados


A realização da prática artesanal dos bordados e das rendas ascende a tempos bastante recuados.

Ela nasce do jeito e da paciência da figura feminina, e, crê-se, nas classes nobres, onde o tempo urgia ser preenchido, o tempo em que a mulher esperava pelo seu senhor.

O Homem, senhor da guerra; a Mulher, senhora do Lar”. Ler+

Latoaria


Os objectos, fundamentalmente receptáculos para líquidos, nasciam do labor de artistas que manuseavam e contorciam os materiais, transformando-os em peças com capacidade para suportar grandes quantidades, em peças mais delicadas que decoravam o lar, em utensílios de cozinha e outro uso doméstico e em aformoseadas candeias que iluminavam bucolicamente o ambiente familiar. Ler+

Tanoaria


País vinhateiro, Portugal tem como característico o processo da concepção do vinho.

Passando por tarefas múltiplas, desde a colheita à vindima, a saga culmina no armazenamento que exige técnica e engenho, contribuindo para a reconhecida qualidade da famosa seiva.

O tanoeiro torna-se, assim, figura representativa de toda uma região que se alimenta, indiscutivelmente, da azáfama vinícola. Ler+

Tamancaria


Os socos e os tamancos eram habitualmente usados como calçado, pelos mais desfavorecidos, ou por aqueles que trabalhavam directamente com a terra.

Com a base de madeira e o revestimento em pele, o pé delicado ou grosseiro acomodava-se e movia-se, ou com graça, ou com segurança e robustez.

O sentido do desconforto aparece posteriormente com o surgir de mudanças estruturais e sócio-económicas. Ler+

Pintura em Cerâmica


De significado bastante abrangente, a cerâmica diz respeito ao fabrico de objectos, desde tijolos, telhas e outros objectos de barro cozido, bem como porcelanas, faianças e louça de grés.

Mas num sentido mais restrito, aliamos a actividade à “arte de fazer vasos de barro”, passando também pela própria pintura, especialmente aquela respeitante à louça mais fina. Ler+

Croças


Croças, capas feitas de colmo ou junco, usadas por camponeses e pastores, para resguardo da chuva e do frio.

A parte nordeste do distrito de Vila Real assume uma tipicidade de clima bastante acentuada, as temperaturas atingem valores, ora muito altos, ora muito baixos.

Diz a boca do povo – “três meses de Inferno, nove meses de Inverno”.

Muito especialmente os meses de Inverno, exigem aos autóctones uma forte capacidade de resistência e adaptação ao meio. Ler+

Fonte do texto: Guia “Artes e Ofícios Tradicionais do distrito de Vila Real” – 1999 – NERVIR (texto adaptado)

A emoção e o prazer de criar, sentir e entender os objectos

Cultura Material: A emoção e o prazer de criar, sentir e entender os objectos

«Estamos rodeados por objectos, e estamos rodeados pela história»
Steven Lubar e W. David Kingery

Resumo

Este artigo reflecte essencialmente, acerca da relação entre as emoções e a produção material de todos os dias, seja essa produção, artesanal ou artística.

Fazendo ligações entre a actividade mental, criativa e executória do Ser Humano, tenta-se perceber até que ponto esses objectos, artefactos ou utensílios podem ser instrumentos sensoriais e emocionais, assim como instrumentos de preservação, diferenciação e afirmação sócio-cultural.

Para além deste aspecto é igualmente feita uma abordagem à capacidade que os objectos têm para vencer as barreiras do espaço e do tempo. Duma maneira ou de outra, o tempo e o espaço confundem-se e interligam-se.

Abstract

This article is mainly a reflection about the relationship between the emotions and the material production, artistic or workmanship. Making links between mental, creative and building human activity, we try to understand how objects, artifacts or utensils can be instruments of preservation, differentiation and socio cultural affirmation.

In spite of this, I explain the capacity of the objects to go beyond their time and physical space frontiers. In a way or another, the objects, the time and the space, mix up and interconnect among themselves.

Resumen

Este artículo reflecte principalmente sobre la relación entre las emociones y la producción material, sea ella artesanal o artística.

Haciendo conexiones entre la actividad mental, creativa y ejecutoría del Hombre, se va a tentar entender como los objetos, artefactos o utensilios pueden ser instrumentos sensoriales y emocionales, así como también instrumentos de preservación, diferenciación y afirmación socio-cultural.

Para allá disto, es hecha también una abordaje a la capacidad que los objetos tienen para vencer las barreras del tiempo y del espacio. De una manera o de otra el tiempo y el espacio se confunden y se interconectan.

Palavras chave

Cultura material; objectos/actividade sensorial; objectos/actividade emocional; objectos/construção e preservação de identidades

Muitas questões se colocam quanto à importância dos objectos na vida de todos nós. Funcionarão estes como uma espécie de reservatório das nossas memórias individuais ou colectivas?

Que relação emocional temos com os objectos que nos pertencem?

Existem de facto momentos de emoção quando o artesão constrói determinada peça?

Funcionarão os objectos como mediadores das relações humanas?

Até que ponto são os objectos manifestações das nossas identidades?

Poderiam ser às centenas as questões a levantar acerca do papel que os objectos sempre tiveram na caminhada evolutiva da Humanidade. Tal como dizem os autores acima referenciados, rodeados de objectos encontramo-nos, inevitavelmente, rodeados de História e também de muitas histórias.

Os artefactos são pois capazes de vencer as barreiras temporais e espaciais. Vencem o tempo e a idade, porque perduram para além da sua época. Vencem espaços e distâncias, porque «viajam» para além das suas fronteiras originárias.

Desde tempos imemoriais, que o Homem tem uma ligação profunda com os utensílios, e os objectos que cria e recria para satisfazer as suas necessidades. Qualquer objecto – por mais rude ou singelo que seja -, é fruto de criação intelectual e do trabalho criativo do ser humano.

 

Sugestão de leitura: Dossier sobre o Barro Preto de Bisalhães – Vila Real

 

Os objectos têm funcionado ao longo dos anos e em muitas sociedades como elementos de diferenciação social e/ou de sociabilização dos indivíduos. Há uma carga simbólica agregada a cada um desses objectos.

Os «artefactos podem ter um papel utilitário, mas têm também uma função ideológica relacionada com a organização social da sociedade, e podem possuir ainda uma função ideológica relacionada com a ideologia da própria sociedade.» (Lubar e Kingery,1993: XVI)

Do sagrado e do profano fazem igualmente parte os objectos.

A importância destes no quotidiano de todos nós assume tão grandes dimensões que, há autores a defender que a destruição de um objecto pode simultaneamente ser a destruição de uma memória cultural.

Anna Ostrowska diz ser óbvio o poder ou a força dos objectos na mobilização da memória cultural. Por isso existem correlações estreitas entre os objectos e a mudança ou afirmação do Eu.

Se por um lado determinado objecto nos proporciona sensações agradáveis e de continuidade ou permanência de algo que nos é muito querido, por outro lado, a destruição do objecto com essa forte carga simbólica, pode também funcionar como meio de mudança de parte da nossa identidade.

Comecemos então, por clarificar, qual a função da Cultura Material? Que mais valia trazem estes estudos à Humanidade?

Jules David Prown define que o estudo da cultura material tem o propósito de «(…) entender a cultura, de descobrir as crenças – os valores, as ideias, as atitudes e as pretensões – de uma determinada comunidade ou sociedade num certo tempo.» (Prown,1993:1).

A Cultura está sempre e primeiramente ligada à actividade mental do Homem.

Cultura é sem dúvida tudo aquilo que recebemos, herdamos e recriamos na nossa sociedade e para a nossa sociedade. Cultura Material é pois, tudo «(…) aquilo que o homem cria ou concebe e que utiliza na sua vida quotidiana, de modo a extraír do meio envolvente tudo o que necessita.» (Nogueira, 2000:192).

Descobrir os objectos é entender a sociedade que o recriou [1], é uma experiência muito rica e gratificante. O objecto, não é apenas cor, textura, matéria-prima, forma e função. O objecto, é tudo isto, e mais historia, contexto cultural, emoção, experiência sensorial e comunicação corporal.

Mas, a Cultura Material pode ainda ser encarada sob outra perspectiva:

Só os objectos transcendem a fronteira do tempo e do espaço. Uma materialidade que é caracterizada pela permanência, mas não pela imobilidade. Aos objectos é conhecida a sua faceta “viajante”. Eles circulam no seio das sociedades humanas e por isso, um mesmo objecto pode adquirir diversos significados em mais de um contexto ou lugar.

Por isso, aos objectos é reconhecida a sua imortalidade. Marcel Maget afirma que «os traços materiais são os testemunhos que (…) mais duráveis são dentro de uma cultura. Das muitas civilizações passadas é tudo o que nos resta.». (1962:15)

São aqui reforçadas as características da resistência, durabilidade e permanência do objecto face às outras criações humanas, assim como é igualmente frisada a sua intemporalidade.

David Prown, tal como Maget, escreveu que os «artefactos constituem a única classe de eventos históricos que ocorreram no passado mas que sobreviveram até ao presente. Eles podem ser reexperenciados; eles são autênticos, e são material histórico primário para ser estudado em primeira mão. Os artefactos são evidências históricas.» (Prown,1993:3)

Contudo, o facto de os objectos possuírem esta característica da intemporalidade, esses artefactos pertencem a um determinado tempo e definem uma determinada época.

Através do seu estudo, podemos mesmo traçar a história de certa comunidade, como podemos ir mais longe e, traçar até o perfil da actividade profissional que concebeu esse objecto e do artesão que lhe deu corpo.

Elementos como a cor, materiais usados, texturas, formas e motivos decorativos, são tipificadores de um determinado momento no tempo.

Henry Glassie afirma que «(…) tal como uma história, um artefacto é um texto, uma maneira de exibibir formas e um veículo de transmissão de significados.» (Glassie:1999,46). Os objectos são neste sentido, contadores de histórias, veículos de transmissão cultural e emocional.

Podemos então observar o material das nossas sociedades ao nível das emoções?

É claro que sim. Mas vejamos o excerto que a seguir se segue para perceber melhor esta realidade: «As mãos moviam-se no barro e eram lestas e seguras. (…) Lentamente, o barro adquiria formas. (…)

– Porquê estes bichos?

– Sonho muitas vezes assim. Depois faço os sonhos no barro.» (Bastos,1988:103)

Ao pensar, conceber ou restaurar objectos, o artesão lida em primeiro lugar e em todo o processo construtivo com as emoções. Em muitas situações, o artesão primeiro que tudo, sonha com uma determinada peça.

E assim que desperta coloca no papel, madeira, barro, metal ou outra matéria-prima qualquer, a emoção ainda presente e viva desse sonho. Em todo este processo, o artesão lida com algo que não é exterior.

Trata-se de uma experiência solitária e de interioridade, que só é visível, entendida e apreciada, quando é exteriorizada no objecto artístico produzido.

E reafirmo artístico, porque mesmo que o propósito principal seja a funcionalidade, há sempre um lado estético, decorativo e por conseguinte artístico nessa peça. Por isso, é que o resultado final das peças é por vezes tão belo.

O objecto «joga» com as emoções de quem cria e com as emoções de quem compra. Quando adquirimos um objecto, para além da característica funcional que o mesmo possa ter, está implícito simultaneamente o nosso desejo de adquirir algo que seja também belo, agradável aos nossos olhos.

Há assim uma continuidade emocional que se inicia na interioridade do artesão [2], passa pela sua oficina e prolonga-se até ao espaço vivencial do comprador.

 

Sugestão de leitura: Os trabalhos que o linho dá

 

O aspecto emocional pode ainda ser encarado sobre a perspectiva da «entrega» de quem cria. Porque o acto criativo é também momento de entrega, de luta e muitas vezes de dor e desapontamento.

Glassie diz que as coisas são consideradas trabalhos artísticos quando o acto criativo é de empenhamento, devoção, ou seja, quando as pessoas se transferem completamente para os seus trabalhos. (1999:41).

Citando novamente David Prown, é curioso como este autor interpreta o lado emocional dos artefactos. Ele afirma que «tomando uma interpretação cultural através dos artefactos, nós comprometemo-nos com a outra cultura, em primeira instância, não através das nossas mentes (…), mas através dos nossos sentidos.

Figurativamente falando, nós colocamo-nos dentro dos corpos dos indivíduos que criaram ou usaram esses objectos; nós olhamos com os seus olhos e tocamos com as suas mãos.» (1993:17).

O mais excitante aqui, é pensar que, mais importante do que o contacto temporal através das mentes, é o contacto sensorial através dos tempos. As experiências sensoriais são muitos fortes.

O nosso Mundo está carregado de sensações e nós nele vivemos e sobrevivemos através da percepção sensorial. Tocar, olhar, cheirar e/ou ouvir, são gestos inconscientes que executamos quando tocamos algum objecto.

A visão, o tacto, a audição, o olfacto e o paladar, para além de serem captadores de sensações físicas, são simultaneamente vias de transmissão cultural.

Os actos sensoriais atrás referenciados carregam consigo inúmeras dimensões culturais consoante as sociedades analisadas. No caso das sociedades ocidentais é notória a excessiva valorização que se dá ao sentido visual.

A antropóloga Constance Classen, especialista em antropologia sensorial, afirma que a visão começou a distanciar-se dos demais actos sensoriais, a partir do século XVIII, devido ao florescimento da Ciência.

A autora acrescenta ainda que as teorias Darwinianas e Freudianas do século XIX, encaravam a visão como o sentido da civilização, do desenvolvimento e do progresso. Isto explica, que a visão se tenha distanciado dos outros actos sensoriais.

É curioso também pensar que, às sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente estavam associados mais fortemente o olfacto, o tacto e o paladar.

Por isso, é que «a história dos sentidos no Ocidente não deve ser considerada um padrão segundo o qual se deva mensurar o desenvolvimento sensorial de outras culturas. Cada sociedade tem a sua própria trajectória de progressão e mudança sensorial.» (Classen; Howes; Synnott,1994:3,4)

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