Carrasqueira: o maior porto palafítico da Europa

Carrasqueira – porto palafítico

Na margem esquerda do estuário do rio Sado, situa-se uma pequena e graciosa povoação piscatória. Dá pelo nome de Carrasqueira e faz parte da freguesia da Comporta, no concelho de Alcácer do Sal.

A poente situa-se a extensa Península de Tróia, ladeada por magníficas praias banhadas pelo Oceano Atlântico e a nascente, o estuário com os seus sapais e Cetóbriga com os seus tanques da salga do garum que os romanos nos deixaram.

Em toda a Europa, o rio Sado é um dos poucos rios que corre de Norte para Sul. Mas esta região não possui apenas esta particularidade porquanto também o porto palafítico da Carrasqueira constitui um exemplar único, pelo que a sua preservação deveria ser melhor preservada.

Assente sobre estacas de madeira cravadas no lodo ou na água, consoante a maré, apresentam-se de forma irregular, formando um verdadeiro labirinto onde as embarcações de pesca fazem a acostagem.

Os cais começaram por ser construídos em meados do século XX e estendem-se por centenas de metros ao longo dos esteiros do estuário do Sado. Sobre o tabuado dos cais erguem-se ainda, aqui e acolá, pequenas arrecadações onde os pescadores guardam os seus apetrechos de pesca. Numa das margens, os alcatruzes da pesca ao polvo amontoam-se numa plataforma à beira da água.

Outrora, esta localidade acolhia trabalhadores rurais, pescadores e salineiros que procuravam melhores condições de sobrevivência.

Um aspecto do porto palafítico da Carrasqueira.

Cabanas feitas de colmo

A fim de evitar que os trabalhadores viessem a adquirir algum direito de posse, os proprietários da Herdade da Comporta a que pertenciam as terras não lhes autorizavam a construção de habitações com materiais duradouros.

Assim, passaram a erguer grandes cabanas feitas de colmo, muitas das quais subsistem e tornaram-se emblemáticas desta região. O piso era de barro ou terra batida e o telhado e paredes em colmo.

A imagem mostra duas cabanas de colmo típicas da Carrasqueira.

Em virtude do perigo que representavam por serem construídas em materiais altamente inflamáveis, passaram a construir conjuntos de duas cabanas, destinando-se uma delas a albergar duas famílias enquanto a outra servia para cozinha. Desse modo, preveniam a ocorrência de tragédias provocadas por eventuais incêndios que pudessem ocorrer.

A recolha do sal parece extinta. Porém, os pescadores continuam a fainar e a os estabelecimentos da localidade a servir os visitantes com as iguarias tradicionais de que se destacam o choco frito e o ensopado de enguias. A Carrasqueira oferece ainda magníficas imagens do estuário do Sado e constitui um elemento tradicional que merece ser realçado.

Um cais recentemente danificado

 

Alcatruzes para a apanha do polvo.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História, texto e fotos | Imagem de destaque (Um aspecto da estacaria)

Moinhos de Maré: um património a preservar

Moinhos de Maré

O moinho de maré de Corroios, no concelho do Seixal, foi mandado construir por D. Nuno Álvares Pereira em 1403, já lá vão mais de seis séculos de existência.

Situado junto à baía, encontra-se adaptado a ecomuseu, atraindo regularmente numerosos visitantes que desse modo entram em contacto com aspectos ligados à etnografia e à tecnologia associada ao aproveitamento da energia das marés.

Ao contrário do que sucede com as azenhas que utilizam a força motriz das correntes fluviais, os moinhos de maré baseiam-se nos ciclos das marés.

Estes moinhos dispõem de uma caldeira que se enche de água, a qual é fechada por uma adufa até à descida das águas. Estas passam então sob as arcadas do moinho onde se encontram os rodízios através dos quais vão mover as moendas. Existem moinhos de maré que chegam a ter uma dezena de moendas ou seja, pares de mós.

Calcula-se que remontem ao século XIII os primeiros moinhos de maré construídos em Portugal.

No Montijo, outrora designado por Aldeia Galega, o moinho de maré ali existente conserva ainda a cruz dos cavaleiros da Ordem de S. Tiago a encimar a porta de entrada.

A maioria dos que chegaram até aos nossos dias encontra-se em estado de abandono, sendo poucos os casos dos que foram recuperados para fins culturais.

Inúmeros moinhos em diversas localidades

Porém, existiram outrora inúmeros desses moinhos em Almada, Barreiro, Seixal, Moita, Montijo, Alcochete e Alhos Vedros. Também em Alcácer do Sal, aquele município adaptou o moinho da Mourisca, no estuário do rio Sado, a espaço museológico.

Curiosamente, não abundam nesta região os moinhos de vento. Tal deve-se, naturalmente, às características paisagísticas da região, dominada por numerosos esteiros e pouco relevo orográfico, o que a torna uma zona abrigada e, por conseguinte, pouco ventosa.

No concelho do Seixal apenas se conhece um único exemplar situado na Azinheira, em frente ao Barreiro.

A actividade moageira ligada aos moinhos de maré no estuário do rio Tejo revelou-se de importância primordial na época dos Descobrimentos. Era ali produzida a farinha com que era fabricado o biscoito que constituía a principal base alimentar dos navegadores.

Basta salientar que, no complexo Real de Vale de Zebro, existiam outrora

– quase trinta fornos de cozer o biscoito,

– armazéns de trigo,

– cais de embarque

– e ainda um moinho de maré com oito moendas que pertencia à Casa Real.

Os moinhos de maré e os Descobrimentos

Com efeito, era nos esteiros do rio Tejo e do rio Coina que se verificava a maior azáfama com a construção das naus.

A sua localização, de fácil navegabilidade mas simultaneamente afastada dos olhares curiosos de estranhos, permitia manter algum segredo à volta das viagens que se projectavam e ainda das próprias técnicas e materiais empregues na construção naval.

Não foi certamente em vão que Cristóvão da Gama, irmão de Vasco da Gama, possuiu no Seixal os estaleiros da Quinta da Fidalga. Da mesma forma que no sítio da Azinheira se enterravam no lodo dos sapais as madeiras utilizadas na construção das naus.

Tempos houve, porém, em que existiram moinhos de maré nos estuários de quase todos os rios portugueses. É, aliás, bastante provável que ainda alguns casos recuperáveis.

Os moinhos como pólos museológicos

Contudo, apenas se conhece as “Azenhas de D. Prior”, na foz do rio Lima, que, não obstante a designação, também constitui um moinho de maré. De resto. A edilidade vianense decidiu recuperá-lo e constitui actualmente um pólo museológico e de animação cultural aberto ao público.

Naturalmente, nem todos poderão ser recuperados para fins didácticos.

Mas, os espaços de que geralmente dispõem, quer no interior como no exterior, associado à magnífica paisagem que deles se desfruta e ainda à possibilidade de aproveitarem as marés para o próprio consumo energético, poderiam possibilitar a sua utilização para fins turísticos, permitindo dessa forma a sua reabilitação e a valorização das regiões que ainda os possuem.

No caso do rio Lima, a utilização para fins culturais das “Azenhas de D. Prior” poderiam vir ainda a ser complementadas com a recuperação das marinhas de sal outrora ali existentes. E, num plano mais vasto e integrado de aproveitamento cultural e turístico do rio Lima,

– incluir a recuperação dos antigos cais e ancoradouros, de Viana do Castelo a Ponte de Lima,

– sem esquecer a adaptação a metro de superfície da linha férrea do Vale do Lima, cuja construção não chegou a ser concluída.

Na página seguinte pode ver diversas imagens relacionadas…

A chaminé na arquitectura tradicional portuguesa

A chaminé na arquitectura tradicional portuguesa

A chaminé constitui um dos elementos da arquitectura tradicional que, para além da sua funcionalidade, adquire consoante a região em que se insere características que respeitam às condições ambientais e ainda elementos decorativos de interesse etnográfico.

Antes de mais, a chaminé constitui uma conduta que serve para extracção de fumos resultantes de produtos em combustão.

As suas características no que concerne, nomeadamente, às suas dimensões, orientação tubular e aberturas têm principalmente a ver com a orientação dos ventos predominantes, os regimes de pluviosidade e as espécies de aves existentes na região.

Sucede que, a chaminé não constituiu desde sempre um elemento comum à casa tradicional em todas as regiões do país.

De Norte a Sul de Portugal

A chaminé não era outrora muito usual nas aldeias do Minho e sobretudo em Trás-os-Montes. Aqui, o fumo das lareiras escapava por entre a cobertura de colmo, as lajes de ardósia ou, mais recentemente, por entre as telhas, ao mesmo tempo que conservava o vigamento de madeira da casa.

À medida que caminhamos mais para sul, a chaminé vai adquirindo uma maior imponência, sobretudo no Alentejo, muito provavelmente em virtude do regime de ventos. E passa a constituir também um elemento decorativo, adquirindo no Algarve o seu maior esplendor e variedade.

Encontramos, porém, nalgumas localidades do centro do país extraordinárias semelhanças com a chaminé algarvia, muito provavelmente a atestar a sua influência árabe. Tal como sucede nas aldeias do concelho de Ferreira do Zêzere situadas já na serra de Alvaiázere cujo topónimo – de Al Baiaz que significa O Falcão – apenas vem reforçar tal convicção.

No Torrão, concelho de Alcácer do Sal, a chaminé apresenta uma dimensão que parece esmagar as pequenas casas.

O mesmo sucede em Vila Real, no concelho de Olivença.

No Algarve, ganham em graciosidade, com as suas formas imaginativas e os seus rendilhados, tornando-as um elemento emblemático de toda a região.

Chaminé tipicamente alentejana em Vila Real, outrora denominada por Aldeia da Ribeira, no município de Olivença.

Elementos decorativos nas chaminés

É usual a chaminés ostentarem a data da construção da casa e outros aspectos decorativos, como a lua e o signo de Salomão, raízes de uma religião primitiva e pagã que persiste num sincretismo associado à religiosidade cristã.

Finalmente, a chaminé possui ainda outra funcionalidade: a complementar o cata-vento, o fumo que dela se extrai indica a direcção do vento e constitui uma informação de interesse meteorológica para o agricultor cuja actividade depende sobretudo dos elementos da natureza e dos seus estados de humor.

Na próxima página pode ver fotos de chaminés em diversas localidades de Portugal.

A arquitectura e a engenharia na criação da casa tradicional

A arquitectura e a engenharia na criação da casa tradicional

A concepção de casa tradicional do ponto de vista arquitectónico assenta na reunião das linhas estéticas do edifício. Estas variam consoante a região e os hábitos culturais onde se insere.

De igual modo, a engenharia que é empregue na concretização do projecto arquitectónico corresponde às exigências naturais e culturais que presidem à sua construção, nomeadamente as características dos materiais e as suas necessidades de utilização.

E, falamos de projecto arquitectónico uma vez que, por mais elementar que seja o seu planeamento, sempre que alguém se propõe a edificar algo, tem sempre presente uma ideia, ainda que rudimentar, daquilo que vai construir – o projecto!

Tal como sucede com o vestuário, também a casa tem como função primordial o refúgio, a protecção e o bem-estar do indivíduo, afastado dos perigos que o rodeiam no exterior e onde possa encontrar algum conforto.

Assim sendo, o Homem ergue a sua habitação tendo em linha de conta

– os materiais disponíveis,

– as características da paisagem,

– as ameaças que enfrenta

– e as suas próprias necessidades.

Diversidade de tipos de habitação

Não admira, pois, consoante o meio onde se encontra, os homens tenham concebido uma grande diversidade de tipos de habitação, desde os iglos das zonas polares às casas em palafitas, incrustadas no rochedo das falésias ou sobre ilhas artificiais.

As condições climáticas determinam o estilo arquitectónico, mais soalheiras no litoral e abrigada nas zonas húmidas e frias, com terraços do tipo árabe no Algarve ou com o telhado em agulha para não reter a neve como sucede na Dinamarca.

Em função da orientação predominante dos ventos, a forma e altura das chaminés. Ou ainda, para desfrutar da paisagem, as varandas alpendradas no piso superior mais a norte ou as casas térreas, indiferentes à monotonia dos campos mais a sul.

A casa era originariamente construída com os materiais existentes no local pois os meios de comunicação e transporte não permitiam ainda que fosse de outra forma. Assim sendo, encontramos a lousa nos telhados das aldeias transmontanas e o colmo nos antigos casebres do Minho, as casas de xisto na serra da Lousã ou as palafitas nas aldeias avieiras.

A sua concretização exigia o emprego de natural engenho na colocação dos materiais, na concepção das estruturas, o conhecimento da resistência e durabilidade dos materiais e da forma de aproveitamento para o fim em vista.

Consoante as necessidades que determinam a dimensão e ordenamento dos espaços, a sua volumetria e funcionalidade, assim se teria de conceber pilares e traves que permitissem a sua construção.

Sobretudo no Minho, a casa tradicional do lavrador possuía os estábulos do gado – ali designados por cortes – no piso térreo, constituindo simultaneamente um sistema de aquecimento centralizado de toda a habitação.

O concelho de Ourém situa-se numa zona de transição entre o Ribatejo, a Estremadura e a Beira Litoral, recebendo naturalmente de todas elas as suas influências.

Os materiais de construção

Do ponto de vista geográfico, a área a sul daquele concelho encontra-se situada no maciço calcário estremenho identificado pela serra d’Aire. Aqui, as habitações tradicionais são feitas de pedra, das quais, as casas que foram dos videntes de Fátima e ainda o Museu de Aljustrel constituem exemplares dignos de registo.

Porém, na área a norte do mesmo concelho, predominam os arenitos. Por esta razão as casas eram feitas de taipa ou com tijolo de adobe, por vezes caiadas com a cal proveniente das imediações, mormente do concelho de Alvaiázere.

A arquitectura popular no Minho (Soajo)

Arquitectura popular no Minho

Absorvido pela terra que o alimentava, a si e à sua família, o minhoto pedia à casa só um abrigo, sem luxo nem conforto. Mas o desenvolvimento da lavoura e uma vida de maior desafogo vieram exigir mais daquela que passou a ser também a sua habitação.

A casa típica, de granito e de carvalho, associa e funde numa só, a modos de presépio, a habitação humana e o curral do gado.

As casas são de planta rectangular e geralmente de dois pisos baixos:

– o andar sobradado, para habitação,

– e o térreo, para as cortes de gado e lojas.

Nos baixos recolhe-se uma parte da alfaia e localiza-se a adega, às vezes o celeiro e até as cortes.

Uma escada de pedra, guardada ou não e de um só lanço, sobe geralmente ou longo da fachada e varanda. Esta é coberta com alpendre, por onde se entra no sobrado.

A cobertura típica, geralmente de duas águas pouco inclinadas,

– é de telha caleira

– ou, nos casos mais rústicos, de colmo e giesta,

como sucede em certas aldeias do curso superior do Lima português. No século XVIII ainda se conservava o antigo costume de cada honrada ser coberta de colmo e não de telha

À volta da casa minhota não podem faltar a eira, as medas ou moreias, o poço, as cortes e os inseparáveis espigueiros. Da Galiza veio o gosto pelos espigueiros de granito como os de Soajo (Arcos de Valdevez) ou de Lindoso (Ponte da Barca).

A típica casa minhota

A típica casa minhota, em que os baixos arrecadam e armazenam e no andar existem os aposentos de viver, surge contudo sob diversos estilos que a fortuna ou a localização quase sempre explicam.

No Lindoso, é frequente uma casa exterior dar acesso a uma varanda de granito corrida ao longo da fachada e cuja cobertura, muito baixa, apoia em singelos pilares. No térreo, a varanda faz de coberto de arrumos.

Em Cabração, Moreira de Lima e Estorãos (Ponte de Lima) eram comuns as varandas de madeira, assentando sobre pilastras.

Na Serra de Arga e na Labruja (Ponte de Lima) já as varandas, para proteger do frio, são baixas e vedadas, estreitos os respiros e os postigos.

Em Ermida e Germil (Ponte da Barca), na serra Amarela, as janelas são diminutas, escassas e muito chegadas ao beiral para fazer face às inclemências do clima.

 

Fonte: “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” (texto editado e adaptado)

Os Espigueiros são construções de arte popular

Espigueiros ou canastros

Os Espigueiros são construções de arte popular que evocam a cultura do milho

Um pouco por toda a região do noroeste peninsular, surge frequentemente na paisagem rural um tipo de construção bastante característica que, pela graciosidade que possui, tornou-se num elemento emblemático daquela região – o espigueiro!

Também designado por canastro ou caniceiro em função dos materiais empregues na sua construção, o espigueiro constitui um celeiro onde o lavrador guarda as espigas.

De posse particular ou comunitária, a dimensão do espigueiro reflecte a grandeza da produção que normalmente é efectuada. De modo idêntico, a sua ornamentação depende da fantasia do construtor e dos recursos do proprietário.

Os espigueiros encontram-se, em regra, implantados em zonas onde o terreno é mais elevado de forma a permitir a secagem do milho.

Nas imediações, encontra-se a eira que aproveita as características de um solo mais plano e lajeado. É aí que se malha o centeio onde se desfolha o milho, dando lugar às alegres descamisadas que constituíam um pretexto para a escolha do namorico.

A origem dos espigueiros

A origem deste género de construções encontra-se principalmente ligada à introdução da cultura do milho na Península Ibérica de onde irradiou para o resto do mundo.

Outrora designado por “trigo índio”, o milho deverá ter-se originado do México de onde, há cerca de quinhentos anos, foi trazido nas naus de Cristóvão Colombo. Desde tempos imemoriais, o milho constituiu a base da dieta alimentar dos maias, incas e aztecas que o incluíam nos seus ritos ancestrais e o celebraram nas suas manifestações artísticas.

A sua implantação, entre nós, registou-se sobretudo na região do Minho e da Galiza, facto a que certamente não foram alheias as condições favoráveis à sua produção e onde prevalece a cultura de regadio. Com o decorrer do tempo, o cultivo do milho passou a estender-se a outras regiões, nomeadamente no centro do país onde predomina a cultura de sequeiro.

Formas, dimensões e função

Em relação ao espigueiro, estes apresentam-se das mais variadas formas e dimensões de acordo com

– as quantidades de grão a armazenar,

– as regiões onde se encontram

– e os materiais disponíveis para a sua construção.

Em localidades onde a pedra escasseia, os espigueiros são geralmente construídos em madeira. Porém, atendendo à sua predominante distribuição espacial, a maior parte encontra-se construída em pedra e madeira.

A sua fisionomia é variada, existindo sob formas rectangulares, quadradas e redondas. Contudo, ele apresentou-se inicialmente sob uma forma mais rudimentar, na maioria das vezes feito apenas de caniços com cobertura de colmo, tal como aliás sucedia com as habitações mais humildes.

E, as técnicas empregues na sua construção evoluíram à medida que se foi constatando a melhor forma de secar o cereal mantendo-o simultaneamente fora do alcance de elementos indesejáveis.

Constituindo a secagem a sua principal função, o espigueiro é construído de molde a proteger as espigas da humidade. Mas, também, salvaguardando-as da intromissão dos pássaros, insectos e roedores, assegurando ao mesmo tempo o necessário arejamento do seu interior.

E, este cuidado é tão importante quanto adverso poderá ser o inverno que se aguarda pouco tempo após a colheita do milho e as suas descamisadas.

Materiais de construção e estrutura

Tomando como modelo de referência os existentes no Minho, o espigueiro é geralmente construído em madeira e pedra, quase sempre em granito extraído na região.

Encontra-se frequentemente assente em pilares que o elevam do solo, sobre os quais assentam os dinteles que são os esteios que suportam toda a estrutura e onde se encaixam as aduelas. Estas apresentam-se de forma intervalada para permitir, através das fissuras propositadamente deixadas abertas, efectuar-se o arejamento do seu interior.

Para prevenir o acesso das formigas, uma pequena fossa com água rodeia as sapatas onde assentam os pilares do espigueiro. De igual modo, os “torna-ratos” protegem-no dos roedores. Regra geral, são cobertos de telha, existindo porém alguns que se apresentam com cobertura de colmo ou em pedra, sendo mais frequentes nestes casos em lousa e piçarra.

Para além dos elementos arquitectónicos que caracterizam o espigueiro, este é frequentemente encimado por algum elemento de adorno, na maioria das vezes apenas uma cruz. Pretende-se, assim, abençoar o milho que se irá transformar, tal como o padeiro que, antes de levar o pão ao forno, procede de forma solene a acompanhar a ladainha.

Espigueiros comunitários

Persistem em diversas localidades hábitos ancestrais que levam à utilização comum dos espigueiros de acordo com costumes e leis comunitárias. Encontram-se neste caso

– a eira que se aninha junto às muralhas do castelo do Lindoso, em Ponte da Barca,

– e no Soajo, em Arcos de Valdevez,

onde o seu uso se estende ainda a práticas iniciáticas que contemplam o alojamento dos noivos que aí vão dormir juntos antes da celebração do casamento.

Os espigueiros são mais do que meros celeiros onde se guardam as espigas das quais se produzirá o pão que vai à mesa do agricultor, amassado com o suor do seu próprio rosto e benzido com a sua Fé.

Eles constituem verdadeiras obras de arte popular que reúnem uma elevada carga simbólica, quais sacrários onde o povo guarda o alimento para o ano inteiro e, como tal, sinalizado com a cruz que o protege e resguarda de toda a maldição.

Como tal, devem ser preservados como um dos mais ricos elementos do nosso património cultural de interesse etnográfico.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

A imagem mostra os rudimentares Caniceiros, no Soajo, em 1911.
Foto: Ilustração Portuguesa

 

Espigueiro existente na Cabração, Ponte de Lima.
Foto: Carlos Gomes

A Casa Saloia | Arquitectura e construções populares

A casa saloia

Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas nuances e comparando-as às descrições de crónicas e fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a paisagem do Termo.

Casas chãs aglomeradas formando curtas ruas calcetadas, ou de terra batida que era o mais usual;

casario isolado em meio de hortas e quintedos onde, destacado ou discreto, o solar apalaçado dum nobre ou o convento exíguo de alguma freiria de vocação ermitã abrilhantavam ainda mais o já de si soberbo quadro rural lourenho, cujo tipicismo peculiar ou singular é hoje lembrado pelos mais idosos com nostalgia e saudade.

A região saloia

Tal quadro rural de Loures não será muito diferente do da Sintra Saloia de há não muitos anos atrás, como descreve Vitor Serrão (in Sintra (os aglomerados saloios). Editorial Presença, 1.ª edição, Lisboa, 1989):

«A chamada Região dos Saloios – a região que integra os limites cistaganos do Município Olisiponense, ou seja, o território da península de Lisboa, cingido a norte pelos actuais concelhos de torres Vedras e de Alenquer – tem no concelho de Sintra uma das suas zonas mais interessantes sob o ponto de vista de genuíno património edificado.

São vários os núcleos que subsistem, com maior ou menor grau de integridade, característicos da arquitectura dos «saloios», isto é, autóctones moçárabes, herdeiros da cultura hispano-romana florescente nos agrido Município Olisiponense:

são eles, entre outros, o casal de A-dos-Rolhados (freguesia de Algueirão), a aldeia de Broas – nos limites confluentes do concelho com o de Mafra –, o casal de Bolelas e, apesar das contaminações abusivas provocadas pelo urbanismo desordenado e sem critério, as aldeias de S. João das Lampas, Barreira, Cabrela, Azóia, Penedo, Ulgueira, e outras.

«A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos, adega, estábulos e curral, com as suas típicas coberturas de quatro águas, um peculiar sistema de aberturas, etc., reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem saloio, que continua como os seus antepassados a ser o çahroi da época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.»

O saloio é descendente do moçárabe

Sendo o saloio descendente do moçárabe, será da cultura arábica que herda muitos dos seus usos e costumes, inclusive a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele que é o seu tecto habitual.

Sobre isto, diz Maria Micaela Soares (in A Mudança na Cultura Saloia. Artigo inserto em Loures, Tradição e Mudança, vol. I, pág. 170. Loures, 1986):

«Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País, ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na Estremadura.»

Tal singularidade tem base ou raiz sagrada que, para ser compreendida devidamente, ter-se-á de recorrer à intenção do sentido da arquitectura árabe, distendendo-se do Algarve à Estremadura, passando os Alentejos [vd. Casas Portuguesas (Alguns apontamentos sobre o arquitecturar das Casas Simples), por Raul Lino. Lisboa, 1933].

Apesar deste ou aquele excesso destoante, a casa saloia, tal como a árabe, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto sobre uma planta quadrada, tendo a primeira no seu centro a casa de fora, ou da entrada, por onde se acedia às restantes divisões.

A segunda fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou uma fonte, ou ambas as coisas: tratava-se do universo fechado em quatro dimensões (centro, comprimento, largura, altura).

O jardim central, proibido a estranhos à casa, era uma evocação do “Jardim Proibido” do Éden, aberto exclusivamente à influência celeste (in Dicionário de Símbolos, por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Paris, 1906).

As construções de planta quadrada

Para Abu Ya´qûb, o quaternário era o número perfeito: o da inteligência e o do nome divino, ALLH.

Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no Mundo Islâmico (cf. Arquitectura Alentejana: o Quadrado, por Jaime Manuel Sousa. In O Estudo da História, Boletim dos Sócios da Associação dos Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988).

Na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um local sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho (in Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. Revista História, n.º 96, Outubro de 1986).

Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: «O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do Céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige».

Sendo a casa a imagem do homem, de seu morador e dono, vimos na Idade Média a combinação das proporções, a unidade de medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, e geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico fosse comum o uso de um sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum), no traçado de plantas de catedrais.

O Homem – microcosmo

Esta concepção foi traduzida na célebre imagem de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito num círculo e num quadrado.

A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, formando portanto uma cruz (o quaternário), e corresponde à medida do lado do quadrado.

Considerado o centro do Universo, segundo Pico de Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da natureza), através do Homem, cuja individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, de sua casa, se concretiza a quadratura do círculo, problema geométrico designativo da ascese mística, corrente entre os neo-platónicos, permissor da elevação do homem racional à esfera divina.

Por princípio a casa saloia é térrea, chã, encrostando-se no chão como que arrancando a este a seiva telúrica dos veios da Terra, e ao mesmo tempo como que se ocultando das influências funestas da Lua: o saloio é um homem do dia, não da noite. Madruga com os animais e as plantas, não é noctívago e dorme encostado ao seio da Grande Mãe Atégina, a Deusa da Terra, das semeaduras e colheitas, enfim, da Agricultura.

Geralmente o saloio fazia a sua própria casa

Geralmente o saloio, mesmo o abonado, não comprava casa para sua moradia: fazia-a ele mesmo, e por isso as aldeias progrediam aumentando permanentemente os seus fogos (in O Saloio de A a Z, por Maria Isabel Ribeiro. Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra).

A casa saloia quase nunca se limitava a dois compartimentos. Geralmente tinha três divisões: cozinha, casa de fora e alcova. Outras, quatro; e outras, seis divisões, segundo João Paulo Freire (in O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948).

Raramente havia casas de banho. E a azoteia árabe ou mourisca foi sistematicamente substituída pelo terraço alpendrado, característico do casal saloio.

O saloio defendia-se sempre, na sua habitação, das nortadas. Para o lado do norte, a casa geralmente não tinha janelas. Na arribana as teias de aranha eram mantidas, porque “fazia mal tirá-las”, e para aconchego do gado.

Dava-lhes uma quentura especial que beneficiava o ambiente. O água-vai do saloio, era o indispensável condimento para que o mato se transformasse em estrume, que era uma das grandes riquezas do pequeno lavrador saloio.

Ele não perdia pitada do água-vai, e o mato que o recebia, apodrecia e ganhava aquela fortaleza que o tornava o melhor e o mais barato dos adubos.

A casa caiada de branco

A casa era geralmente caiada de branco e a telha tradicional era a mourisca, em telhado mourisco de duas águas. As mais evoluídas apresentavam quatro e desenvolviam-se em dois pisos.

A principal distinção que pode fazer-se é entre a morada cujos habitantes eram de lida ou à jorna. No primeiro caso, existiam anexos – palhêros ou abogoarias – para acomodação do gado e alfaias; no segundo, somente as divisões destinadas a habitação.

Os saloios mais folgados, com maior pé de meia, tinham casas maiores, com o rés do chão lajeado e uma escada exterior para o sobrado, onde estavam os quartos para toda a família.

A porta tinha um alpendre formado de três lajes e lambris pintados de azul ou vermelho. Assim a casa passava a ter dois pisos corridos: o térreo – as lojas – como arrecadação de aprestos de lavoura, abogoaria, etc., e o andar nobre como local de habitação (cf. Benfica Através dos Tempos, por Padre Álvaro Proença. Lisboa, 1964).

Mas há outro motivo de grande beleza nos solares saloios: o portão do pátio. O frontão que o encima geralmente revela apurado sentido estético, com o seu fino recorte, ladeado por volutas de cal e areia, terminando por elegante pináculo.

Tais ornamentos são milagres de alvenaria. Não é raro que enquadrem painel de azulejos com Nossa Senhora ou São Marçal, este para livrar a casa de ladrões e incêndios, ou ainda Santo António, santo brejeiro e meio pagão na crença popular.

As casas e solares saloios, testemunhos da vivência humana e sagrada do “homem do campo”, ainda hoje e mesmo que rareando, são património a preservar e divulgar, nisto, no que nos toca como concelhio, pelos devidos órgãos dos Municípios de Loures e Odivelas, a bem da Cultura Patrimonial deste belíssimo pedaço do Termo dos Saloios.

Dr. Vitor Manuel Adrião, Professor e Investigador | vitoradriao@portugalis.com

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