A apanha da azeitona | Actividades agrícolas

A apanha da azeitona

Nos dias de morna suavidade que ora vão correndo, é um verdadeiro encanto ir de longada até aos nossos campos, onde, pelo entardecer, o sol se difunde em ténues polvilhos de ouro, para se conhecer de visu a faina alegre e interessante da apanha da azeitona, prestes a atingir o seu termo.

Pelos extensos olivais que o outono envolve numa carícia invejável, ranchos de formosas camponesas recolhem com afã, ao som das nostálgicas canções do seu torrão natal, aquele belo produto da Natureza, que tempos depois vemos transformado em finíssimo azeite, nas montras dos nossos armazéns de víveres.

Homens e mulheres, vendo-se-lhes estampada no semblante a alegria própria das almas rústicas e boas, lá vão trabalhando de sol a sol com um desprendimento que encanta, até ao dia em que, terminados os trabalhos, o patrão lhes proporcione os folguedos da respetiva adiafa.

É uma faina curiosíssima a chamada safra da azeitona, que, como quase todos os labores agrícolas, tem para mim uma feição espiritual, um não sei quê de enternecedor, por não representar apenas um meio, mais ou menos trabalhoso, de encher os cofres ao lavrador.

De Arabela até hoje, por quantas transformações não tem passado a oliveira e o seu produto imediato: o azeite!

Neste estreito Portugal, foi sempre a região do sul a mais importante na produção oleica, bastando, certamente, para o atestar os belos e extensos olivais da quinta da Alorna, da condessa da Junqueira, os imensos pargais da Golegã e Chamusca, e, entre muitos outros que bordam o vale do Tejo, os da Labruja, do marquês de Castelo Melhor, os da Póvoa, etc.

Passando ao sul, é bem conhecido o grande olival do rico lavrador José Maria dos Santos, em Moura, o de Altas Moras e outros.

Na região de Vila Franca, propriamente dita, são notáveis os olivais do sr. Palha Blanco e a extensa linha de oliveiras que ornamenta os diques defensores das lezírias, e que são propriedade da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado.

Na charneca do lnfantado, além Sorraia, procura atualmente a mesma Companhia valorizar uma extensa gleba com a área de 2.000 hectares, plantando-a de escolhidas variedades de oliveira, que, depois de completa, comportará 200.000 pés.

Será este o maior olival do mundo, de que Portugal se poderá orgulhar, como já se orgulha de possuir a primeira vinha, a do Poceirão, que tem sido objeto de entusiásticas apreciações de nacionais e de estrangeiros.

Está, como já disse, prestes a concluir entre nós a safra da preciosa azeitona, da qual, precisamente um terço, tem sido enviada para a praça.

A restante é aqui transformada em finíssimo óleo que pena é não ser trabalhado em aperfeiçoados lagares e pelo moderníssimo sistema Acapulco.

Formas de reprodução da oliveira e castas

São variadas as formas que nesta região se empregam para a reprodução da oliveira, e que vão desde o condenado processo da tanchoeira até ao emprego da pequena estaca criada em vaso com escala pela sementeira, que se faz ainda por duas formas diversas: quebrando o caroço, ou empregando-o inteiro, sendo no último caso mais morosa a germinação.

Muito proprietários importam hoje, em grande quantidade, as plantas de Itália, preferindo a maior parte reproduzir por estaca ou enxertia, as nossas conhecidas castas Cordovil, Bical e Galega.

Sabendo-se que o nosso país, pelas suas ótimas condições climatéricas, se poderia transformar – desculpem o devaneio – num extensíssimo olival, não é de estranhar que em princípios de 1908 se calculasse a área de olivais, no continente, em 329.155 hectares.

O distrito que mais concorria para este número era o de Santarém, que tinha então 75.142 hectares destinados à cultura da oliveira, e, logo a seguir, os de Leiria e Castelo Branco, que possuíam olivais, respetivamente, numa área de 35.240 e 33.968 hectares.

Não possuo elementos que me possam indicar a área que representarão atualmente todos os olivais de Portugal.

É de crer, no entanto, que ela tenha aumentado consideravelmente nos últimos cinco anos, marchando ainda na vanguarda o distrito de Santarém, que muito deve ter aproveitado com as plantações da Companhia das Lezírias.

Daí, a prolongação do aforismo correr Seca e Meca e olivais de Santarém

Na região ribatejana vai-se pondo de parte o retrógrado sistema do varejo para se apanhar a azeitona, por destruir, geralmente, uma grande parte da colheita seguinte.

Muitos proprietários mandam agora ripar as suas árvores por grupos de raparigas que trepam às oliveiras para apanhar o precioso fruto nos próprios ramos onde se forma.

Sendo Portugal um país agrícola mas onde, na opinião de muitos entendidos, pouco se cuida dos interesses agrícolas, é para lamentar que a cultura da oliveira se não tenha desenvolvido mais, para não sofrermos carestias de azeite como a do ano passado, em que este género de primeira necessidade chegou a atingir um preço verdadeiramente fabuloso.

Se um hectare comporta geralmente 100 pés de oliveira, e se cada uma destas árvores pode produzir, em média, 10 quilogramas de azeitona, calcule-se a riqueza que Portugal podia ter anualmente na produção dos seus olivais!…

Quando fruirá o nosso país a parcela de felicidade a que tem direito, pela doçura do seu clima, pela fertilidade da sua terra?

Vila Franca, novembro de 1912.

F. dos Reis Sousa

Ramo da paz, ramo da abundância

 

À volta da apanha da azeitona

 

O rabisco

 

As varejadoras depois do trabalho

 

A azeitona caída

 

Escolhendo a azeitona para a praça

 

Uma oliveira carregada: sobre os ramos a mulher colhendo os frutos

 

O negociante sr. José Salgado, pedindo notícias do seu rancho

 

Outra varejadora

In “Ilustração Portuguesa”, nº 354 – 1912 | (Clichés do dr. J. Coutinho, de Vila Franca de Xira)

Ervas místicas | Superstições e crendices

Ervas místicas

Reputo elemento complementar para a seriação dos costumes nacionais enumerar as diversas «ervas místicas», umas constituindo verdadeiros amuletos, outras atributadas de virtude medicinal.

Se bem que, na cantiga referida por Eça de Queiroz

Todas as ervas são bentas
Em manhã de S. João

o certo é que se torna sobremodo arrojado catalogar todas aquelas que de facto o sejam, sob o ponto de vista popular.

Não pode, pois, revestir pretensões a exígua coletânea que damos agora e perante a qual seria justificada a desaprovação dos botânicos, ou ainda, a dos ervanários.

Um dia, Ramalho Ortigão, que soube, como poucos, servir a nossa terra, não teve mão em si que não firmasse um rosário de «sanjoaneiras», onde há quadras, como estas, típicas:

Nos campos d’ Aljubarrota
S. João botou chamados
Para ressurgirem os mortos
Da ala dos namorados.

À beira do mar sentado
S. João tocou trombeta
Para dar noivas aos noivos
Da antiga nau Catrineta.

No claustro d’Odivelas
S. João tocou tambor
Para acordar almas de freiras
Que morreram por amor.

Pois bem! Com não menor carinho pelos costumes humildes do rincão bem amado, eis o que, em jornadas por diferentes pontos, apreciei, quanto a «ervas místicas».

Possível é que a mesma planta surja com dois ou três nomes diferentes, outorgados pelas várias regiões onde lhes colhi a designação.

A destrinça, todavia, não cabe ao escritor que a si unicamente se reserva a tarefa de constatar o facto, pelo que a ele se prende de nobremente tradicional:

Eis, pois: Alecrim, alfádega, alfazema, almíscar, arruda, funcho, erva-doce, erva-cidreira, hortelã-pimenta, maçã camoeza, manjericão, manjerona, malva-rosa, murta, nêveda, limonete, rosmaninho, salva, segurelha, serpão, tomilho, trevo, vergamota.

E não nos despedimos, por enquanto, do inquérito, que prosseguirá a seu tempo.

Severo Portela

Fonte: “Terra Portuguesa”, nº27-28 – Out-Nov de 1918

Lisboa pelo Natal (1908) | Usos costumes e tradições

Lisboa pelo Natal

“«Ande o frio por onde andar, pelo Natal há-de chegar» assim se costuma dizer desde que há frio e desde que há Natal.

É o inverno, e ele cá está nesta Lisboa temperada, que não lhe vale a sua exposição ao sul, para que o lisboeta deixe de tiritar com frio, como qualquer siberita, ainda que o termómetro marque tantos graus acima de zero como na Sibéria os marca abaixo.

É o inverno, e tudo muda em Lisboa.

A população recolheu toda à cidade, chegaram os últimos banhistas, acabaram-se as vilegiaturas, regressa-se das viajatas pelo estrangeiro, as ruas têm mais movimento, de dia, à noite, a todas as horas.

Abriram-se os teatros, e rodam os trens e automóveis para S. Carlos, para D. Maria, para o D. Amélia para a Trindade e Ginásio, para o Coliseu, para toda a parte onde haja espetáculo, que o lisboeta não sabe que fazer à noite, se não houver divertimento. Feliz lisboeta!

É o inverno, e logo pelas ruas se ouve apregoar as castanhas, quentes e boas a escaldar, o marmelo assado no forno, as azeitonas novas, a broinha de milho com erva-doce e o casal de perus, o mais característico, porque nos diz que está o Natal à porta, sem ser preciso consultar a folhinha.

É o inverno, em cheio, com os dias de 8 horas e as noites uns anos; dias sem sol, noites sem luar, e os poetas tristes, tão tristes como os perus soltando os seus melancólicos grus grus ocarinos; tristes estes pela sorte que os espera na mesa dos ricos, tristes aqueles porque os não têm à sua mesa.

E pelas ruas os bandos de pernaltas lá vão saltitando pela lama, transidos de frio, gru-gru, apanhando o seu carolo com a cana do vendilhão, que apregoa aos quatro ventos é casale de piruns.

Outros vão mais comodamente para o suplício ao colo de moços.

Vão de presente dar as boas festas às pessoas de representação, como ia o peru de Nicolau Tolentino com estes choramingados versos:

Airoso, gordo peru
É hoje o meu presente
Traz inda as penas molhadas
Com o pranto da minha gente.

A quantos sucederá o mesmo: não o comem para o mandarem de presente, como melhor empenho para aplanar dificuldades de qualquer pretensão, se o potentado não for como aquele exigente juiz do Bairro Alto, que não se contentava com presentes de cá cá rá cá.

O peru, por este tempo sem grande influência na nossa sociedade, não só pela boa canja que lhes fornece, mas pelas provas de gratidão que lhes permite.

O peru paga com a vida os favores concedidos a outrem; conquista a benevolência de muitos, e até os pais tiranos se comovem se o pretendente à mão da herdeira lhes mandar um casal de perus.

Na véspera do Natal a canja fumegante convida a fazer a meia-noite, tradicional uso no seio das famílias, pretexto para uma ceia obrigada a peru e a boroas com seu copinho de aguardente de erva-doce.

Alguns não chegando aos perus, contentam-se com a boroa e a aguardente, mas faz-se a meia-noite, depois da Missa do Galo, em que toca a primitiva e alegre gaita-de-foles, a tocariam os pastores no presépio de Belém saudando o nascimento do Redentor.

Por altas horas, na noite de Natal, ouvem-se repicar os sinos ecoando pela calada os seus toques, a um tempo alegres e melancólicos, anunciando o nascimento de Jesus, que vem encher de consolações o coração dos crentes.

Enchem-se nas cidades as igrejas, nas aldeias os ermitérios. Nestes há mais poesia; naqueles há mais divertimento.

Lisboa, se não conserva intata a crença de seus maiores, desenvolve a paixão dos gozos, de modo que se não vai à Missa do Galo com aquela fé que animava nossos avós, vai, pelo menos, procurar uma distração diferente das que ordinariamente a divertem e só encontra uma vez por ano.

Distração e namoros porque hoje como dantes, a Missa do Galo é um grande refúgio para namorados, única tradição que tem resistido a todos os tempos.

Que chova ou vente eles lá vão:

«Na esteira de esquiva dama
«Que de pedrinha em pedrinha salta.

embrulhada em seus abafos, e eles de golas de sobretudos levantadas, de mãos nas algibeiras, luzindo-lhe o lume do charuto, como farol no mar da vida, por entre a escuridão da noite.

São os maiores devotos da Missa do Galo.

(…)”

Caetano Alberto

Vendedores de perus aguardando os fregueses

 

Os casais de perús no Largo de S. Domingos

 

«Quentes e boas»

 

«Azeitonas novas»

 

Broinhas de milho com erva-doce

in “Ocidente”, nº1080 – 1908 (texto editado e adaptado)

A Feira de São Marcos (Évora Monte) em 1919

A Feira de São Marcos

“A dois quilómetros de Évora-Monte, fica a capelinha de São Marcos que é uma das mais devotas e pitorescas do Alentejo.

Évora-Monte, como se sabe, é a antiga vila que se ergue sobre um escarpado monte, perto da estrada de Extremoz a Évora, com suas muralhas e castelo da época dionisiana, tendo suas origens árabes.

A São Marcos afluem todos os anos, a 25 de abril, os de Évora-Monte e de outras vilas para festejarem, num misto religioso e pagão, o santo evangelista.

Em volta da capela armam-se barracas, os festeiros satisfazem a fé religiosa e ao mesmo tempo as exigências de estômago e ninguém ignora como os alentejanos gostam de boa e suculenta cozinha.

As merendas à sombra das carvalheiras improvisam-se, juntam-se famílias, organizam-se bailaricos, enchem-se os ares com descantes característicos, reúnem-se as mais lindas caras dos arredores, acotovelam-se os camponeses com a gente ajanotada das vilas e a alegria reina durante um dia inteiro naquele sítio encantador digno de ser visitado pelos nossos artistas e reproduzido nas telas.

Alberto Sousa, o pintor insigne do Alentejo, talvez já tenha fixado os interessantes aspectos do arraial de S. Marcos; se o não fez, decerto o fará, juntando à sua admirável galeria de quadros que são a história e a vida de uma das mais curiosas e ricas províncias de Portugal novos trechos de pintura para o que lhe abundarão os temas cheios de movimento e de cor.

A nossa terra é um país de arraiais, procissões e romarias. Pensar em pôr-lhes termo seria rematada loucura. O povo precisa, precisou sempre, dessas distrações, desses desafogos, d’essas válvulas.

Desde tempos imemoriais que assim foi.

De norte ao sul do país, às festividades a santos e santas, à Virgem sob as mais diversas invocações, aos doutores, aos mártires, aos confessores, aos apóstolos e evangelistas, a todas as potestades do céu, servem de pretexto ou para melhor dizer são um motivo, um importante factor, do tráfico comercial e industrial e um dos meios mais correntes e mais fecundos para o contacto das populações e para o estreitamento das relações que os prendem…”

Na feira de S. Marcos (Évora-Monte) – Merendando

 

A capela de S. Marcos, em volta da qual se realiza a tradicional feira e romaria de S. Marcos

 

Na feira e romaria de S. Marcos

 

Na feira e romaria de S. Marcos

 

Os nossos dois colaboradores à lareira

In “Ilustração Portuguesa”, nº691 – 1919 (texto editado e adaptado) | (Clichés dos distintos colaboradores artísticos da Ilustração Portuguesa, srs. Maia Mendes Lopes e Braz Simões de Sousa)

Nota sobre as adivinhas populares portuguesas

Adivinhas populares portuguesas

No estudo das adivinhas populares portuguesas oferecem-se dois factos sobremodo interessantes:

– um é que elas têm fórmulas inicias (e às vezes finais) diversos segundo as localidades;

– outro é que o assunto sai principalmente das coisas domésticas e da lavoura.

Estes factos referem-se portanto à forma e à essências das adivinhas.

Fórmulas iniciais

Da observação de mais de trezentas adivinhas que tenho recolhido, posso concluir que a fórmula inicial = que é, que é = predomina no Minho e Trás-os-Montes.

Também se encontra na Beira Baixa e no limite (Pesqueira) desta província com a Beira Alta. Às vezes aquela fórmula é substituída só por = que é a coisa, etc.

A fórmula = qual é a coisa, qual é ela = domina (se não é única) nos arredores de Lamego e Viseu (Lamego, Mondim, S. Martinho de Mouros, Cinfães, S. Pedro do Sul, Mortágua, Vouzela, etc.).

Possuo adivinhas onde apenas se lê = qual é a coisa (Porto, Feira, Amarante) e possuo outras que começam = qual é ele, qual é ela = (Guimarães, etc.).

Em Paços de Ferreira aparece esta fórmula inicial = adivinhas uma adivinha?=

Fórmulas finais

As fórmulas finais variam igualmente.

Algumas dizem adivinhai, bacharéis (Minho); não adivinhas este ano, nem para o ano que vier, só se t’o eu disser (Porto, etc.).

Adivinha, tolo (Trás-os-Montes), à maneira dos contos populares cujo termo é: adeus ó Vitória, acabou-se a história, etc. (Minho).

Com relação ao segundo facto, o assunto muitas vezes é tirado de outras partes, mas dá-se de quando em quando a coincidência de se ir buscar à lavoura, por ex., o objecto da comparação.

Assim uma adivinha de Tabuaço, na qual se representa o ar, as estrelas, o vento e o sol, diz:

Qual é a coisa,
Qual é ela,
Lameiro redondo,
Pastorinhas ao longo,
Cão raivoso,
Pastor formoso?

Quando se estuda o nosso país, nota-se que de província para província há uma variedade nos terrenos, na flora, na linguagem, nos trajos, nos costumes; por isso não admira que as fórmulas das adivinhas ofereçam diferenças locais.

Como os nossos enigmas se encontram ao mesmo tempo na Galiza, Catalunha, Baixa Bretanha e outros povos, somos levados a concluir que eles não têm origem portuguesa.

Por isso, das ideias ai expressas, alguns ensinamentos se devem tirar a respeito dos povos que os transmitiram, – povos civilizados, essencialmente conhecedores da agricultura.

Eis um exemplo da importância das tradições populares, e eu os ofereço àqueles que, com uma teima inepta, não se cansam de atirar zombarias às crenças do povo.

J. Leite de Vasconcelos

in “O Pantheon”, nº13 – 1881 (texto editado e adaptado)

Paisagem de Monsanto e das suas almas

Monsanto – Beira Baixa

“E é Monsanto que surge na sua rigidez de estátua:

«Num plaino ligeiramente montanhoso, a aldeia aninha-se no flanco de um pico, estalagmite monstruosa que, em dias de céu baixo, atravessa as nuvens.

As suas casas de telhas vermelhuscas trepam em caracol ao longo do castelo. Muitas delas, simples trogloditas, parecem enterrar-se na parede, em sinal de mau humor.

É que Monsanto não sabe sorrir!

Monsanto tem a pele coriácea e tem mau génio; sabe-o bem, e não faz segredo disso.

As suas muralhas, mil vezes cercadas, jamais cederam.

Pesada herança de glória, julgareis, que deve dar à gente de Monsanto não pequena arrogância!

Desenganai-vos. Apesar do ambiente rugoso, lê-se nos olhos dos seus habitantes docilidade e, desde que se não sintam observados, certa indiferença melancólica.»

Depois, esta visão dos homens, do elemento humano integrado na paisagem:

«Em Monsanto abundam os camponeses que, num abrir e fechar de olhos, transformam a sua placidez em energia.

Basta um rufar de tambor, uma estrofe de velho romance, e ei-los capazes de cantar e dançar horas a fio, sem que uma gota de suor lhes corra pela face.

As danças portuguesas não têm, bem sei, aquela fúria das de Espanha, que esvazia os pulmões e quebra as vértebras; mas, quanto ao ritmo, excedem largamente em velocidade as nossas danças rústicas.

Uma vez terminadas, a melancolia reaparece. Nem mais um sinal de alegria! A seriedade reencontra nas rugas dos rostos o seu trilho habitual.

No dia seguinte, esta gente empunhará, como na véspera, a rabicha do arado

Danças e cantares

A apoteose monsantina não é contada, mas pintada, vigorosamente, por Villeboeuf:

«Aparte pequenos pormenores, as festas de Monsanto oferecem os mesmos hábitos, as mesmas cerimónias que as do Paúl; impregnadas, no entanto, de mais solenidade, acabam, ao fim do dia, por uma alegoria excepcionalmente grandiosa.

É preciso ter visto o início do espectáculo, de longe, na planície, para se avaliar bem como Monsanto, bloco insólito, rodeado de caminhos pedregosos, se assemelha a uma torre de Babel que uma multidão imensa, vinda dos quatro pontos cardiais, tomasse de assalto.

É num ritmo veloz, em passadas de caçador alpino, por caminhos de cabra e atalhos, que se faz a escalada; e dir-se-ia, ao contemplar o enorme cabeço, um torrão de açúcar subitamente coberto de formigas trepando em espirais para o cimo …

Já a vanguarda dos assaltantes ocupa o alto da cidadela, velha fortaleza de numerosas cercas, amontoado de pedra e de granito a que o tempo quebrou os dentes, e ainda a retaguarda se encontra nas primeiras muralhas. É com ela que inicio a subida.

Valendo-se das mãos e dos joelhos, de talude em talude, um bando de garotos fura, alegremente, por entre as pernas dos orfeonistas esbofados, de trombone às costas e tambor rufando aflitivamente.

Subimos. Uma capela romana corta-nos o caminho.

Mais uma volta, e continuamos a subir. Atinge-se a primeira muralha; e quando, chegados à terceira, nos debruçamos daquele ninho de águias que é a fortaleza, surge-nos um majestoso panorama.

Sob um vento fustigante, o horizonte estende-se até perder de vista, como vaga desdobrando-se para o infinito. Dir-se-ia estarmos na barquinha de um balão cativo.»

Após a noite densa, quási de medo, fora a vibração triunfal do meio-dia.

Dali, dessa barquinha de que fala Villeboeuf, olhávamos, em êxtase, a paisagem circundante, que apanha já terras de Espanha.

Sentíamos todos que o castelo permanecerá inexpugnável, enquanto o seu guarda, o monsantino, souber defender, como bandeira festiva, o seu amor à terra e às vozes ancestrais – sem deixar, evidentemente, de abrir os braços ao progresso civilizador.”

Adolfo Simões Muller

Um curioso espécime de trajos popular: «Capucha» – Monsanto – A Aldeia Mais Portuguesa – Beira Baixa
Galo de Prata- Prémio atribuído a Monsanto, eleita a Aldeia mais Portuguesa de Portugal
A torre onde foi colocado o Galo de Prata que o S.P.N. conferiu a Monsanto
Mulheres de Monsanto tocando adufes (Apontamentos de Paulo Ferreira)
Interior de casa monsantina (Apontamentos de Paulo Ferreira)
Casa dos priores
Tipos de Monsanto
O castelo domina a imponente paisagem
Festa popular em Monsanto (Página de álbum de Paulo Ferreira)

in “Panorama”, nº02 – Julho de 1941 (texto editado)

A fiandeira do Minho | Usos, costumes e tradições

A fiandeira do Minho

“Fiar, para muita gente, é matar o seu tempo.

Mas esta lida da roca, para a lavradeira minhota, constitui uma prenda de mãos, que em criança se aprende e de algum modo contribui para o «amanho da sua vida».

Meninas prendadas, a quem tudo apetece por curiosidade, e a quem, geralmente, mingua para o trabalho rude certa habilidade instintiva (que outra não é a habilidade da camponesa), porque as velhas dos contos de fadas usavam do rolo da estopa, do fuso corredor, e possuíam certo escaninho de massarocas, constitui o fio mais uma prenda da sua graça.

Porém, ver fiar nas pequenas ou grandes cidades, quer por prenda quer por precisão, para encontrar a ingénua maneira original da gente aldeã, é procurar um pinto em oiro entre as areias duma praia infinita.

Em verdade, só a camponesa sabe fiar; tem graça, fiando.

Só a camponesa, e a Fiandeira do pintor Malhoa, que, independentemente, é uma obra de arte.

O que a camponesa do Minho sabia fazer

Essa, sim. Essa sabe apertar a linhagem no cingidoiro de carneira bezerra, sabe ajustar na cinta a cana amarela da sua roca, e aporfia no redopio do fuso, beijando, adoçando nos lábios puídos dos beijos, à sua dúzia de netos, a melhoria do seu linhal. (…)

Tudo se apaga, porém: as gerações passam, os usos mudam continuamente; e o que em tempos foi mister de gente idosa, é hoje tarefa de rapariga.

Boa camponesa, afadigada no seu trabalho e no asseio da vida urbana, chama-se-lhe, por uso, mulher de casa.

Sabe cavar nas terras de renda, segar no lameiro, sachar no milheiral, e ajuda a toda a espécie de trabalho agrícola.

Dentro de casa sabe dos arranjos da cozinha, com um paladar inexcedível; se tiver sido criada de abade, tanto melhor; e além d’isso tem as suas prendas de costureira, de fiandeira, de engomadeira, da feitoria das rendas e meotes, (…)

Tudo tem suas penas de cultura: as ideias, as criaturas, os troncos, – tudo o que vive.

As fases do trabalho do linho: começa por ser semeado…

E esta odisseia do linho tem seus tormentos.

De chapelão viseiro, aos punhados de semente, lança o lavrador o gérmen da sua colheita humilde.

E recolhe, pelos inícios do verão, aquele chãozinho de ervas secas, que mais tarde há-de vestir e estimar.

Foi tempo, foi. Outrora a colheita do linho era singular de fartura, porque se tornava útil.

Hoje, não. Chegaram os panos do fabrico a vapor, menos consistentes, sem dúvida, mas, mais económicos para utilizar.

E aí temos nós a entrarem para o arranjo da casa portuguesa do norte (a casa mais conservadora) panos crus, panos domésticos, panos família, que os vapores ingleses e espanhóis descarregam nos portos de Leixões e Lisboa. (…)

Como dizia, o linho colhe-se nos inícios do verão, já amarelo, num trabalho agrícola a que chamam arrinca.

Aqui a primeira etapa deste ervívero afilado, que dá canseiras interessantes.

Depois, a alvagem: o linho amolhado e preso, que é posto no fundo desses rios verdes, de margens em vinha ou pinheiral, comprimido por grandes rebos.

Dura alguns dias a limpeza do terão. A cantiga o confirma:

Há oito dias que espero,
e choro desde o primeiro;
tens-me presa, meu amor,
como ao linho num ribeiro…

E logo, limpa da terra, a farrapada do linho, rala e húmida, é estendida sobre os campos rasos da colheita, a enxaguar à grande vida do sol.

Quando se colhe um linhal, por minguado que ele seja, grande número de gente aflui à casa do lavrador.

Cardar, espadelar, assedar… até costurar!

Ele é preciso cardá-lo, espadelá-lo, crivá-lo, assedá-lo; até que, em pasta, se veste a roca, e os dedos se aporfiam em correr.

Depois da seca começa o grande afazer das espadeladas, tantas vezes à luz mortiça das candeias de ferro.

E como nas noites de pisa do lagar, tangem-se cordas de arame pelas casas da vizinhança, junto à espadela da namorada. (…)

Depois, é fiá-lo, corá-lo, lançá-lo à teia-

E uma vez riqueza da arca, a costureira faz o resto: as camisas do uso, das saias de baixo, (multiplicadas no dia de romagem), e os lençóis com renda de agulha – Deus sabe se para o leito dos noivos, se para cobrir o rosto branco dos morto…

Contei-lhes tudo isso para explicar, levemente, essa odisseia curiosa do linho.

 

Encontros com a camponesa do Minho

No entanto, pelas estradas do Minho, no tejadilho da mala posta regional, espécie de torre de babel (como escreveu um grande artista), ou nos lugares cheios de comodidade das carruagens de luxo, dum modo qualquer, será fácil surpreender, apascentando o gado ou sentada entre os panelos de cravos da sua escada rústica, esta fiandeira do norte, modelo das mulheres afadigadas, posta na vida para o trabalho contínuo, e sempre senhora do melhor riso e da melhor graça.

Onde quer que a encontrem, fresca, limpa, virtuosa, quer no desenho da saia trabalhada, quer no alisado dos cabelos sedosos, quer, ainda, na novidade do seu mister, onde encontrar-lhe esse modo de ser tão enleado e tão natural, pelo qual ela é, no quadro da sua paisagem, um elemento de óptima e engraçada decoração.

E isto porque se há terra rica em Portugal, mas onde cada canto seja duma família, é o Minho – produtora fábrica de gente económica, trabalhadora, paciente, para a qual a vida, do nascer ao pôr-do-sol, é causa de tarefas contínuas e de suores contínuos.

Foi por este motivo que principiei afirmando que o fiado, como todo o trabalho da camponesa do Minho, por mais pitoresco, por mais divertido, era sempre um género de contribuição para o arranjo urbano.”

Alfredo Guimarães

in “Serões”, nº46 – 1909 (texto editado e adaptado)

A ornamentação dos jugos e cangas dos bois

A ornamentação dos jugos e cangas dos bois

É conhecido o costume existente no Douro e no Minho, e que tem mais de uma vez chamado a atenção dos forasteiros, de ornamentar os jugos e cangas dos bois.

É principalmente no Porto e seus arredores que o facto se torna vulgar, desaparecendo mesmo de todo nos pontos das duas províncias que ficam situadas a maior distância da costa marítima.

E, conquanto a vida rural mantenha no resto do país a mesma feição predominante, o certo é que nas outras províncias nada se encontra também que se pareça com tal costume, que possui, deste modo, uma limitada confinação geográfica, e constitui, portanto, um singular e interessante problema da etnografia portuguesa.

As ornamentações usadas no Porto e circunvizinhanças representam, na sua maior parte, desenhos grosseiros que correspondem muitas vezes apenas a um simples intuito decorativo, mas que em outras, e estas mais repetidas, reproduzem símbolos vivos e extintos, cuja significação, por ventura está já perdida, mas que nem por isso deixam de sobreviver formalmente.

Pertencem a esta categoria simbólica, por exemplo, certas figuras geométricas, as rodas formadas de meias-luas, o polígono estrelado que servia de divisa aos pitagóricos, e que é designado geralmente com a designação de «signo-saimão», e as cruzes, cujo significado cristão está naturalmente evidenciado.

Em algumas cangas e jugos encontram-se também astros figurados, o que assume indiscutível importância pela relação sabida do boi com os cultos sabeístas;

corações, de fácil interpretação, como o que as mulheres trazem ao pescoço, de ouro;

e animais indeterminados devido à ingenuidade primitiva dos traços, mas que nas vizinhanças do mar nunca deixam, naturalmente, de ser peixes.

As cangas mais modernas, que apenas obedecem na sua ornamentação a um intuito estético, perdido o sentido inicial da decoração primitiva, mostram já trabalhos mais delicados de finos rendilhados em que raramente entra qualquer elemento simbólico.

Os autores respetivos pediram os motivos decorativos à sua imaginação, sem se preocuparam evidentemente com a tradição.

As estampas que hoje publicamos reproduzem alguns desses jugos e cangas ornamentados, fotografados no Porto, e assim terá o leitor ensejo de avaliar a beleza de algumas dessas obras dos artistas portuenses, e de verificar a evolução que assinalamos, comparando as nossas ilustrações com os antigos tipos.

 

(Clichés de Benoliel)

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº83 – 1907

A apanha da azeitona no Alentejo (1913)

A apanha da azeitona

No Alentejo, no celeiro de Portugal, procede-se atualmente à colheita de azeitona.

Os airosos ranchos de rapazes e raparigas que trajam saia-calção, com o infalível chapéu de feltro, ornado de flores naturais, em que predomina a simplicidade, sem faltar o bocadinho de preciso amor-próprio, e sem desprezo de todo o partido para a agradável estética de suas toilelles, atravessam, apressados, essas extensas estradas, orladas de frondosas oliveiras seculares para irem espalhar-se nos vastíssimos olivais que, por encostas suaves e planícies, se estendem ininterruptamente por milhares e milhares de hectómetros.

Ao findar o dia, voltam a casa bailando e a cantar alegremente ao compasso de enfeitada pandeireta, pela mais bela graciosamente tangida.

E o carreiro, à noite e sempre, com suas garbosas parelhas, conduz ao lagar a colheita do dia, para aí, onde a indústria moderna, em muitos, colocou já aperfeiçoados aparelhos, substituindo a vara pela pressão hidráulica, a candeia e o bispo pela iluminação elétrica, utilizando a força a vapor com que se fazem as interessantes operações em que dezenas de homens se empregam.

A árvore da paz, depois do varejo que se faz durante dias, fica aguardando que voltem as primaveras para se cobrir de flor e novamente dar esse fruto verdejante que pouco a pouco vai enegrecendo à medida que amadurece.

Da azeitona se faz o azeite

O fruto que se colheu entra nos lagares, alguns pelo sistema primitivo, como no tempo de Noé, lia-se há dias numa legenda de estampa curiosa, outras em prensas que são verdadeiras maravilhas e nas quais não se perde nada da azeitona.

Vai uma grande labuta no lagar.

Os lagareiros atentos à obra recebem os grandes cestos onde a azeitona vem enquanto a prensa vai espremendo a fruta de onde sairá o óleo abençoado que o homem, desde tempos imemoriais, aproveita.

O azeite foi a sua primeira luz artificial de duração posta nas estranhas lâmpadas encontradas ainda hoje nas cavernas, e foi o seu bálsamo, antes de ser o seu alimento e daí os grandes serviços que se deve à oliveira, árvore da paz que tanto floresce em Portugal, mas ainda assim sem dar a abundância larga de azeite necessário para e nosso consumo e exportação.

Oliveiras de norte a sul de Portugal

Por todo o país ela se cultiva, é tratada com esmeros, não se deixando ao abandono.

Não sendo propriamente uma árvore regional, há, todavia, terras onde ela existe em maior número e onde a qualidade do azeite é mais celebrada como em Castelo Branco, alguns pontos de Santarém – dos olivais da tradição, de Moura e Elvas, a terra das azeitonas mais saborosas de todo o Portugal.

É esta a época em se vai varejando a azeitona; alguma já entra no lagar onde se vai fabricando o azeite, uma das riquezas maiores do nosso país, assim como da vizinha Espanha, sendo a península que rivaliza com a Itália, a região dos belos olivais que o latino sempre amou enternecidamente.

E por esses campos fora, ao som das melopeias no Alentejo das alegres canções no norte, se vai fazendo a colheita da azeitona.

A apanha da azeitona: o transporte do fruto
Os varejadores
Tipos de apanhadeira
Apanhando a azeitona caída
À hora do descanso
Lagareiros
O abastado proprietário, sr. Nazaré Lopes, depois da visita ao seu lagar
A caminho de casa depois do trabalho
As apanhadeiras
Um rancho de varejadores

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº 403 – 1903 (texto editado e adaptado) | Clichés do distinto amador sr. A. Abrantes, de Elvas

Constituição dos lares de Goa (Índia Portuguesa)

Constituição dos lares de Goa

A família goesa é exemplar, porque o cumprimento dos deveres familiares e o cuidado na escolha dos cônjuges e na educação dos filhos constituem as principais preocupações do pacífico povo de Goa.

Entre os católicos da Índia Portuguesa, a doutrina cristã é aplicada à moral familiar com um acerto e um rigor quase desconhecidos dos outros católicos.

São as seguintes as bases em que assenta a família goesa:

1.ª) – As raparigas são muito recatadas, tornam-se competentes nos serviços caseiros desde novinhas, saem pouco e raramente trabalham fora de casa; por isso, têm mais facilidade de se conservarem puras até ao casamento e fidelíssimas até à morte.

2.ª) – Os rapazes nos anos da puberdade e durante os estudos não pensam no casamento nem namoram, mas procuram primeiro lançar-se na vida.

3.ª) – A harmonização de vida dos futuros esposos é feita durante o noivado, que só começa depois de as famílias de ambos tirarem rigorosas informações reciprocas.

4.ª) – Não se realizam em regra matrimónios entre novos e velhos, nem entre solteiros e viúvos. As uniões conjugais precoces vão desaparecendo.

5.ª) – Não há casamentos só pelo registo civil, nem se usam divórcios ou ligações amorosas ilícitas.

6.ª) – As desinteligências nos casais são resolvidas pela intervenção de pessoas de bem. Quando a harmonia não é possível, os esposos separam-se, indo cada qual viver castamente em casa dos seus pais.

7.ª) – Os pais goeses gostam muito de ter filhos, cujo número só é considerado demasiado no caso de serem meninas e eles pobres para darem tantos dotes.

8.ª) – Os pais vivem para tornar os filhos honestos, bons e felizes, e os filhos ajudam os pais, sempre que é necessário.

É cheio de encanto e pitoresco o cerimonial que se observa nos casamentos goeses.

Pelo Prof. Pe Graciano Morais, do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos.

Fonte: “Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore” – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa): Território de Goa (Google Maps)

Alguns velhos costumes populares de Alpedrinha

Costumes populares de Alpedrinha

“Do livro em preparação, sobre cantares e costumes de Alpedrinha, com notas biográficas e históricas do Cardeal D. Jorge da Costa, também conhecido popularmente por Cardeal de Alpedrinha, alta figura do século XV e que basta influência exerceu em toda a Península, respigamos alguns elementos dos seus velhos costumes para em comunicação, cooperarmos modestamente no Congresso a realizar.

Neste singelo e pobre contributo, descrevemos alguns costumes que classificamos de – sociais, religiosos e de motivos diversos.

Dos primeiros falamos no que se passava com as castanhas e as azeitonas e seus detalhes correlativos, mostrando o valor social e cristão que eles tinham, num manifesto cooperativismo hoje bem de invejar.

Dos religiosos, damos notas das rogações ou ladainhas, num verdadeiro espírito de fé na maneira de as celebrar, implorando de Deus as benesses necessárias para boas colheitas nos campos; dos cantares adequados a certas épocas do ano e dum modo especial ao tempo quaresmal e outros.

E dos diversos, não esquecemos as alvíssaras na noite da Ressurreição do Senhor e as fórmulas para isso usadas.

As fogueiras de rosmaninho, as sete fontes e as regas das hortas, na noite e manhã de S. João e de tudo isto certas quadras populares de harmonia com todos os detalhes que lhes eram atinentes.

Finalmente, apelamos para o Congresso para se dignar emitir o seu voto, de modo a criarem-se Comissões que possam salvar todo este património do espírito popular e rural, de molde a conseguirem do Estado elementos de acção, bem eficientemente proveitosos e dentro duma verdadeira e elevada função ética.”

Pelo Dr. Álvaro de Gamboa

Fonte: “Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore” – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa):”São João” (Ilustração Portuguesa”, nº86 – 1905)